28.11.05

Angola, vista por uma bailarina do Bonga.

A minha amiga X, que vi apenas duas vezes na vida sentada ao mesmo balcão de um bar que se há-de chamar para sempre Clube da Esquina, é uma negra alta, indolente e cínica como Diógenes, que bebe Johnny Walker em proporções monumentais e fala livremente com quem se sentar ao seu lado, da guerra em África e do pai, que foi uma lenda do MPLA. Eu não sou o Lobo Antunes, mas ouvi-a com prazer.

A X é bailarina do Bonga, costuma dançar em Luanda e por lá fica em casa da mãe, num bairro chique dos subúrbios, com TV satélite e descapotável à porta. Sobre a corrupção endémica, contou-me uma história que é quase uma parábola: certo dia, enquanto lá estava, roubaram uma jante ao automóvel da mãe. Então foram ambas ao representante da marca, onde as atendeu uma jovem prestável, que não podia ajudá-las: uma peça, em Angola, tem de ser encomendada, chega em seis meses e fica presa na alfândega se não se encherem os bolsos a uma pequena potestade. Mas a jovem, cheia de recursos, não se deu por vencida e fez-lhes uma proposta admirável:

- Eu tenho aqui as moradas de todos os "Mercedes" que há em Luanda, por isso é fácil. As senhoras ficam com a lista, e mandam roubar uma jante!

A minha amiga não me chegou a dizer se recuperaram a peça do carro. E eu, também não perguntei.