21.11.05

Dona Pombinha e as Lésbicas - uma novela sobre a Roménia do Século XXI. Primeira parte.

A pátriazinha ditosa alvoroçou-se porque duas adolescentes deram um beijo numa caverna das berças para os lados de Gaia. A caverna tem um nome: chama-se Escola António Sérgio. Já as pequenas, infelizmente, continuam incógnitas. Sabe-se apenas que comemoravam uma boa nota e ficaram com uma má recordação. O mal de haver poucos homens a ensinar no Secundário comprova-se por este exemplo: se fosse um professor a encontrar as duas raparigas em tão notória lambuzadela, não as interrompia com todo aquele aparato. Pelo contrário, dava tempo ao tempo, avaliava o talento osculador da sua preferida e, enquanto a cena durasse, se calhar até afastava dali algum fedelho mais sobressaltado. Afinal, são essas alegrias que fazem um homem pensar duas vezes antes de aderir à próxima greve.

Mas não. Em vez disso, as raparigas foram achadas nesse dia funesto por uma "auxiliar de educação", que prestimosamente as conduziu ao "Conselho Executivo", onde a Vice-Presidente as informou aos gritos que eram "lésbicas" (um grave insulto, em Vila Nova de Gaia). Depois, o director da turma comunicou à mãe de uma dessas perdidas que a sua criança amorável "tinha um caso com uma mulher". Não sabemos se a traumatizada senhora riscou a filha da herança de cinco alqueires de trigo, duas vacas, uma vara de porcos e meio arrátel de grão de bico. Mas sabemos que o caso chegou a Lisboa pela imprensa popular e pela TVI, que não são bem a mesma coisa. Na imprensa popular, desfalecem miseráveis estagiários. Na TVI pontifica Miguel Sousa Tavares, o terror dos pusilânimes. O caldinho estava entornado.

(Continua amanhã).