31.12.05

A declaração de amor, por Fragonard.

30.12.05

The Butterfly.

I
Should I say that you're dead?
You touched so brief a fragment
of time. There's much that's sad in
the joke God played.
I scarcely comprehend
the words "you've lived"; the date of
your birth and when you faded
in my cupped hands
are one, and not two dates.
Thus calculated,
your term is, simply stated,
less than a day.

III
Should I say that, somehow,
you lack all being?
What, then, are my hands feeling,
that's so like you?
Such colors can't be drawn
from nonexistence.
Tell me, at whose insistence
were yours laid on?
Since I'm a mumbling heap
of words, not pigments
how could your hues be figments
of my conceit?

VII
Why were these lovely shapes
and colors given
for your one day of life in
this land of lakes?
-- a land whose dappled mir-
rors have one merit:
reflecting space, they store it.
Such brief existente tore
away your chance
to be captured, delivered,
whithin cupped hands to quiver --
the hunter's eye entrance.

X
Living too brief an hour
for fear or trembling,
you spin, motelike, ascending
above this bed of flowers,
beyond the prison space
where past and future
combine to break, or batter,
our lives, and thus
when your path leads you far
to open meadows,
your pulsing wings bring shadows
and shapes to air.

XIII
Should i bid you farewell
as to a day that's over?
Men's memories may wither,
grow thin, and fall
like hair. The trouble is,
behind their backs are:
not double beds for lovers,
hard sleep, the past,
or days in shrinking files
backstretched -- but, rather,
huge clouds, circling together,
of butterflies.

Joseph Brodsky, A Part of Speech.

29.12.05

O julgamento de Páris, por Hendrick van Balen.

Por falar em traição (II).

Enquanto estava em Roma passei várias tardes na Galeria Borghese, o mais belo de todos os museus. Aí apreciei, em particular a sala onde se encontra o nú de Pauline Bonaparte, esculpido por Canova. Pauline, que era irmã de Napoleão, escandalizou meia Europa com o seu espírito picante e licensioso. Na mão esquerda ela segura uma maçã, em alusão ao Julgamento de Páris, que ofereceu a Afrodite o mesmo fruto, provocando a ira de Hera e de Atena, o que viria a dar origem à guerra de Tróia. Mais interessante ainda é o fresco que De Angelis pintou no tecto deste local. Trata-se também do "Julgamento de Páris", onde uma outra maçã e uma outra Afrodite comunicam novos sentidos à escultura e maravilham o observador. Eu orgulho-me de ter levado ainda mais longe essa simbiose entre obras de arte, graças à fruta de mármore de Maurizio Grossi e ao convívio de uma jovem amiga que me acompanhou.

O Julgamento de Páris, por Claude Le Lorraine.

28.12.05

Por falar em traição (I).

Há cerca de dois anos passei alguns dias em Roma, onde visitei a loja de objectos de mármore de Maurizio Grossi, na Via Margutta. Os seus figos, alperces e dióspiros pintados à mão, só se distinguem pelo peso dos que enfeitavam as árvores de fruto dos meus avós. Exibo dois ou três junto à cozinha, para enganar os comensais, e nunca me arrependi do preço absurdo que me custaram. No entanto, o fruto que prefiro não me pertence, como veremos. Sim, refiro-me à maçã.

Duas primas, por Watteau.

O apelo da traição.

Acontece aos leitores de Graham Greene, Proust e Laclos, terem um interesse quase filosófico pela traição. E poucos actos são tão ricos em sentimentos contraditórios, como o de trair alguém.

Para Greene, como para a maioria de nós, a traição colocava-se na fronteira entre a obediência a um dever moral e o apelo da liberdade. Mas, como em muitos dos seus livros a História é afectada pela acção dos personagens, quem trai, trai também um país, um partido, um ideal, e não apenas um homem ou uma mulher. Há sempre em Greene estas duas traições: a do parceiro e a do passado. Ambas enriquecem a trama de significações morais, e remetem para a traição primordial, de Eva, que também foi histórica e individual.

Para Proust, trair é um acto largamente imaginário que demonstra a impossibilidade de possuirmos alguém. O amante quer cerrar o objecto do desejo num túmulo hermético de que os dois não sairão. Mas Albertine, ou Odete, ou o jovem amigo de Charlus, têm uma vida própria que se quer escapulir. O ciúme nasce do incapacidade que o amado tem de se apagar, de fazer um sacrifício impossível por quem o deseja. Proust recorda-nos que a solidão é inevitável, e pergunta, como Goethe e Thomas Mann: será que nós vivemos quando os outros também vivem?

Laclos, como é típico dos autores do Século XVIII, dá-nos a perspectiva mais contemporânea da traição. Trata-se de um acto de prazer, uma manifestação sthendaliana de desprendimento, própria dos espíritos jovens que afectam rejeitar a morte e a ternura. Não passa pela cabeça a nenhum dos personagens que as suas traições sejam más. Pelo contrário, trair é um meio de prolongar a alegria, e de ter acesso a uma celebração privada, ou a um segredo incomum.

A traição de Judas, por Giotto.

27.12.05

As mulheres vistas pelos homens que ouvem as mulheres.

No Mar Salgado:
"Não me canso de ouvir as outras mulheres (...) Há sempre um caramelo que tem qualquer coisa que falta ao legítimo, normalmente centímetros ( a corneação é um padrão como outro qualquer). O caramelo exibe ainda, pletórico, outra divisa tépida: a ambição. A outra, mesmo nestes dias de laços brandos, move-se com dificuldade. Com insalubre certeza são todas postas de parte. (...) É nessa altura que desejam que tudo se passasse como nos filmes, com eles atrás delas. E é precisamente nessa altura que eles se escondem atrás delas."

Ou seja, ter um terapeuta do sexo oposto é sempre um convite à traição.

Os homens vistos pelas mulheres.

No Glória Fácil:
"nunca tinha reparado nessa história de as mulheres alegadamente não darem importância à beleza dos homens.
se não dessem importância a isso, davam importância a quê? (...) o sentido de humor, ou a inteligência, ou outra coisa qualquer desse género -- estão sempre depois do primeiro olhar"

Cavaco adorado por Valentim, Isaltino e Avelino.

Evangelhos de Boliqueime: o nascimento do Salvador.

1 E ACONTECEU naqueles dias que saiu um decreto da parte de Salazar, para que todo o mundo pagasse os seus impostos. 2 E todos iam cada um à sua própria cidade. 3. E subiu também Cavaco, do seu posto de gasolina, à cidade de Boliqueime. 4 E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que Maria havia de dar à luz. 5 E deu à luz a seu filho primogénito, e envolveu-o numa bandeira. 6 Ora, havia naquela mesma comarca alguns autarcas, e presidentes de clubes de futebol, e eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. 7 E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo a nação: 8 Pois, na cidade de Boliqueime vos nasceu hoje o Salvador, que é Aníbal, o Senhor Professor. 9 E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto numa bandeira de Portugal. 10 E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão de liberais, louvando a Deus, e dizendo: 11 Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, liberdade para com os homens.

Pergunta estúpida.


Em quem votarão Pinto da Costa e Valentim Loureiro nas eleições presidenciais?

Pergunta incómoda.


Em quem votará Fatima Felgueiras nas eleições presidenciais?

26.12.05

O anjo anuncia a Maria o nascimento de Aníbal Cavaco Silva.

Os Evangelhos de Boliqueime: a Anunciação.

1. Existiu, no tempo de Salazar, rei de Portugal, um gasolineiro chamado Cavaco, e cuja mulher era das filhas de Boliqueime; e o seu nome era Maria. 2. E eram ambos justos perante o Poder, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Estado. 3. E aconteceu que, exercendo ele o seu ofício, coube-lhe em sorte sair à rua para encher um depósito. 4. E toda a multidão do povo estava fora, à hora do fresco. 5. E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do gasóleo. 6. E Cavaco, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele, mas o anjo lhe disse: Cavaco, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Maria, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Aníbal. 7. E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento, porque será grande diante do País, e não beberá vinho, nem bebida forte, mas louvará o nome destas Terras desde o ventre de sua mãe. 8. E converterá muitos dos filhos de Portugal ao progresso e ao futuro, e irá adiante dele para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos. 9. Eu sou Santana, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.

10. E, foi o anjo Santana a casa de Maria. 11. E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. 12. E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta. 13. Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Portugal. 15. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Aníbal. 16. Este será grande, e será chamado Salvador; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Salazar; 17. E reinará eternamente na casa de Belém, e o seu reino não terá fim. 18. E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? 19. E, respondendo o anjo, disse-lhe: Porque para Deus nada é impossível. 20. Disse então Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. 21. E o anjo ausentou-se dela.

25.12.05

A pedra no sapatinho da Cultura.

O empresário Joe Berardo tem quatro mil obras de arte que pretende doar ao nosso país. Como a colecção inclui peças de Bacon, Balthus, Richter, Wharol, Basquiat, Delaunay, Yves Klein, Mapplethorpe, Oldenburg, Picasso, Bazelitz e Pollock (não quero ser exaustivo), Berardo teve a presunção de requerer que a exibissem num local importante de Lisboa. Eu confesso que achei isto naturalíssimo e saudável: quem faz uma doacção, pode sempre fazê-la de modo condicional. Cabe ao seu depositário aceitar essas condições ou não; e José Sócrates, representante eleito do Estado Português, aceitou-as.

Estes senhores, naturalmente, discordam: eles gostariam que "10 milhões de bolsinhos tivessem dado o seu acordo ao negócio, cada um de per si e não por interposto José Sócrates, que decidiu abusivamente em seu nome sem que para tal fosse mandatado".

Dada a qualidade destes argumentos, as minhas sólidas convicções estremeceram. E agora julgo que o Primeiro-Ministro esteve mal em vergar-se à obstinação do coleccionador. Porque, bem vistas as coisas, para que serve guardar quatro mil obras da melhor arte contemporânea no Portugal do Presidente Cavaco e do Blasfémias? Mais vale entregá-las a um povo que as saiba apreciar.

Mais uma análise sóbria do estilo de Mário Soares.

Vasco Pulido Valente, ontem, no Público:

«Insinuam agora por aí que o dr. Soares foi "agressivo" e "malcriado" com o dr. Cavaco. Extraordinária coisa. Ou talvez não. Na terra do salamaleque e da curvatura, do "sr. dr." e do "sr. prof.", com certeza que não. Já alguém viu uma entrevista ou um debate na Inglaterra ou na América (e não em Espanha em que o governo controla a televisão)? Alguém reparou no que têm de aturar, e com boa cara, Bush ou Tony Blair? Ao que parece, o dr. Cavaco e os portugueses não gostam dessas democracias grosseiras. Preferem uma democracia empertigada, com muita prudência, presunção e língua-de-pau. E, claro, uma sociedade sem qualquer espécie de consciência de si, que chama "inverdade" à mentira e que acha a verdade geralmente ofensiva. Os piores paspalhões que, por azar, encontrei na política indígena subiram quase sem excepção a altos lugares. Não "saíam do seu lugar" e não ofendiam susceptibilidades. Milagres do "respeitinho". Portugal nunca se deu bem com a liberdade.»

Nada é tão útil como o óbvio.

Cavaco Silva, padroeiro do Tuning.

A ASNO VOLANTE - Associação Nacional de Operadores de Tuning, escolheu Cavaco Silva para seu padroeiro. Né Tó, um dirigente da colectividade, afirmou a este blog: "Ninguém construiu mais estradas do que o Presidente Cavaco. E todos nós concordamos com a sua maneira de conduzir este país. Ele é, em duas palavras, extra ordinário!"

24.12.05

MILAGRE DE NATAL!


Acabámos de saber que o futuro Presidente Aníbal Cavaco Silva multiplicou pães num comício perto de Valongo. Após a merenda, uma multidão de devotos ajoelhou-se a seus pés, gritando "Santo, Santo, Santo é o Senhor Professor". O patriarcado recebeu a boa nova de um modo auspicioso, mas prudente. Nos próximos dias actualizaremos este post.

23.12.05

Boas festas para todos.


22.12.05

Ainda há gente boa #3

As minhas toscas sentenças até se conseguem tragar, quando são editadas pelo Eduardo. Mais vale lerem-me lá.

O fascinante Bento XVI.

Primeiro, foram os sapatos vermelhos Prada. Agora o camauro, um gorro de veludo e arminho (espero que seja arminho) usado por Júlio II e muito em voga durante todo o renascimento. Bento XVI parece querer chocar o bom povo cristão com o seu refinado gosto burguês. As escolhas do Papa serão, para um católico, lamentáveis exemplos da vaidade terrena? Talvez. Eu prefiro considerá-las reveladoras da sua ideia de tempo. Ratzinger atravessou cinco séculos em duas peças de roupa. O que é isso, para quem pensa na eternidade?

21.12.05

"Somos diferentes até na linguagem" (Resposta a VLX).

Caro VLX,

Como sabe, sou um leitor recorrente do seu blog. Raramente concordo consigo, mas isso não retira nada ao prazer que tenho em ler os textos que o Vasco e os seus colegas aí publicam. Permita-me por isso arredar as picardias pessoais desta resposta. Se eu não o respeitasse não o lia, se você não me respeitasse, não me respondia. Isso é suficiente para mim.

Mário Soares é um homem com muitos defeitos. É pouco rigoroso, inchado, agressivo e tem de Portugal a visão de uma coutada ao dispor da família Barroso e dos seus amigos de Macau. Além disso, está rodeado de gente sem espírito crítico nem competência política, o que se paga caro quando é preciso alinhavar uma estratégia ou impôr alguma modéstia à feira de vaidades que é este país. No entanto, creio que Mário Soares tem grandeza.

Ele combateu o Salazar, quando Cavaco combatia por medalhas de atletismo. Ele criou um partido no exílio, quando Cavaco criava raízes em York. Ele ajudou a fazer o 25 de Abril, lutou por uma democracia representativa, combateu os comunistas, calou os militares, e impôs algum juizo ao General Eanes quando ele se convenceu que era o General de Gaulle. Aliou-se aos americanos, incorrendo no ódio mortal da nossa patética esquerda. Impôs disciplina financeira a uma terra que ainda andava a falar de reforma agrária. E, acima de tudo, colocou esta nação de trôpegos e néscios camponeses na União Europeia. Apesar das tonterias que o oiço dizer sobre as privatizações e a globalização, VLX, acredito que ninguém fez tanto por este país nos últimos trinta e tal anos como Mário Soares.

E enquanto isso, o que foi feito de Cavaco? Cavaco andou a tratar da vidinha e a dar-se ares de "grande homem", "rigoroso" e "competente". Eu não tenho nada contra o fascínio da classes médias por um módico de respeitabilidade. Só que ser respeitável não é um salvo-conduto para a santidade, nem o devia ser para uma Presidência da Républica.

Você queixa-se de Soares, porque atacou Cavaco Silva. E eu respondo: que homem merece a Presidência, se não sabe defender-se de um ataque? Você lamenta que Soares interrompesse Cavaco. E eu pergunto: o que seria de esperar de alguém que, se o deixassem, teria interrompido o próprio Salazar? Você diz que Soares fez alusões sobre Cavaco. E eu assevero-lhe que qualquer pessoa normal teria posto, logo ali, um fim a essas alusões e exigiria ao adversário uma satisfação formal! O problema daquele debate, VLX, não foi o que Soares fez, o problema foi o que Cavaco Silva o deixou fazer.

Você afirma que o seu post tem a ver com "ci-vi-li-da-de". E eu compreendo que você preferisse um interlocutor manso, titubeante e vagamente enternecedor como uma tia velha da província ou como, digamos assim, Manuel Alegre. Foi nesse sentido que me referi a Álvaro Cunhal, um homem que muita gente da direita começou a elogiar quando ficou senil.

Só que Mário Soares não é Manuel Alegre nem está, felizmente, senil. Lembra-se como gozavam com ele quando iniciou esta campanha? Como a Direita o tratava com desdém? Como diziam que tinha o espírito toldado, a cabeça imprestável, o verbo desarticulado, o ouvido duro, as respostas desfasadas? Não ouvi ninguém queixar-se disso ontem à noite.

Ontem à noite, Mário Soares humilhou Cavaco Silva. Fê-lo sem civilidade? Talvez. Mas isso não desculpa que o vosso "brilhante", "competente" e "rigoroso" timoneiro saísse dali vexado por um ancião. Não é essa a têmpera de que se devem fazer os Presidentes da Républica, VLX.

Quanto aos próximos debates, concordo que não serão necessários. Cavaco Silva, tal como George W. Bush, vai ganhar.

Conclusão do debate.

Cavaco até pode ganhar as eleições, mas nunca terá mais que o desprezo de metade do país. A reacção fisica de Mário Soares mimetizou o que estavam a sentir milhões de portugueses.

20.12.05

Soares.

O melhor que se pode dizer de Mário Soares é que, aos oitenta e um anos, conseguiu unir toda a direita contra si. Alguém se lembra da criatura atarantada e meiga que era Cunhal aos oitenta e um anos? Até agora, nem as pomposas banalidades de Manuel Alegre, nem o doce amor aos proletários de Jerónimo de Sousa, nem a moralidade fria de Louçã tinham conseguido abalar a condescendência destes senhores. Mas hoje, finalmente, ficaram zangados: chamaram-lhe "vazio, oco, lutador é certo, mas obcecado, impreciso, altivo, arrogante, totalmente desajustado e fora deste tempo". Que ridículo.

Espírito de Natal.

Um Lisboeta, quando faz compras, transforma-se inevitavelmente em Rei do Universo. Assisti mais uma vez ao fenómeno, que me dá sempre vontade de emigrar. O Chiado parecia a corte de Luis XVI ao início da tarde, com as Fátinhas a carregar sacos da Zara como se fossem ovos Fabergé. Os empregados de escritório, cheios de imponência e solenidade, fingiam negociar acções da General Motors com o seu telemóvel de "terceira geração". Pela pose dir-se-ia que detinham seguradoras em vez de trabalharem numa. Às vezes pergunto como é que o país mais pobre e improdutivo da Europa Ocidental originou estas enjoativas hordas de empertigados. Onde estão as pessoas simples que encontrava na Baixa quando era pequeno? Se calhar não existiam. Talvez a sua presunção estivesse enterrada, como a turfa, à espera de uns fundos comunitários.

Memória fotográfica: Philip-Lorca diCorcia, 2000.


Título:
"W, March 2000".

Os melhores filmes, livros e músicas de 2005.

Está na hora de fazer como o Ricardo Gross e decidir, de uma vez por todas, o que é que afinal me marcou em 2005. Ora deixa cá ver.

Livros:
Journey Without Maps, Graham Greene
Answered Prayers, Truman Capote
Letters, Lord Chesterfield
Watermark, Joseph Brodsky
en lisant, en écrivant, Julien Gracq
My Life as a Fake, Peter Carey

Filmes:
Aurora, Murnau
Conversation Piece, Visconti
The Barefoot Contessa, Mankiewitz
Barry Lyndon, Kubrick
Saraband, Bergman

CD:
Deidamia, G. F. Handel
Athalia, G. F. Handel
Esther, G. F. Handel
Admeto, G. F. Handel
Acis & Galatea, G. F. Handel

Meu Deus. Como sou velho.

Gente que visita o meu site.

Com o Sitemeter consigo saber a que leitores este blog parece agradar.

Memória fotográfica: Philip-Lorca diCorcia, 1991.

No final dos anos 80, o fotógrafo Philip-Lorca diCorcia recebeu uma bolsa do National Endowment for the Arts. O dinheiro serviu-lhe para contratar prostitutos, vagabundos e toxicodependentes, que fotografou em cenários meticulosos, com uma iluminação obsessivamente controlada. Parece fotojornalismo, mas não é. Esta foto chama-se "Andre Smith, 28, Baton Rouge, LA".

19.12.05

A pátria amedrontada.

Em debate com uma simpática debutante do Partido Comunista, Manuel Alegre professa que "os portugueses têm medo". Isto será verdade? Não sei. Em primeiro lugar, porque conheço poucos portugueses. Os meus antepassados já viam a televisão espanhola, e por mim passo férias no estrangeiro, como em restaurantes italianos, tenho uma empregada moldava, colegas brasileiros, amigos que são, ou pelo menos parecem, um pouco extra-terrestres. Quando ocasionalmente saio à noite vou ao Lux, que fica, como sabemos, em Los Angeles.

Mas vamos presumir que eu conviva, ao longo de uma jornada, com meia-dúzia de lusitanos de gema, desses que apreciam o fado, a caça e a tourada, como o Manuel Alegre, o FNV e um punhado de outros tipos da Direita. Eles terão medo?

Aqui na Avenida da Liberdade, eu diria que não. É sem medo que os vejo a fazer o seu tuning com a Laura Pausini no máximo, em duelo com taxistas. Sem medo, reparo, atravessam a rua quando o semáforo fica verde, para os automóveis. Sem medo carregam de sal a comida, enfardam pudins à sobremesa, fumam dois maços por dia, embriagam-se no trânsito, atropelam-se com as barrigas e fornicam sem preservativo.

No seu lugar não me preocuparia com os portugueses, Manuel Alegre. Pessoas assim, que arriscam a vida todos os dias, nunca terão medo de votar em si.

Feliz Natal, Mr Brown.

Segundo o Financial Times, Tony Blair fez das suas. O Primeiro-Ministro inglês aceitou cortes no reembolso da União Europeia em 7 mil milhões de libras, para desconsolo do seu partido. Pequeno pormenor: esses cortes serão crescentes. O cheque britânico diminuirá apenas 500 milhões de libras em 2009, 1.5 mil milhões em 2010 e 2 mil milhões em cada ano de 2011 a 2013. Nessa altura já será Primeiro-Ministro o novo lider do Partido Conservador, ou então o actual Ministro das Finanças, carrasco e protegé de Tony Blair, o senhor Gordon Brown. Na Inglaterra, a vingança serve-se em libras.

Os melhores de 2005.

O insurgente está de parabéns.

Já não se pode ser original.

Influenciado certamente por mim, o Eduardo Pitta também mudou de template. E agora, como consigo ler os seus textos, descobri que não escreve sobre economia. Há coisas extraordinárias.

18.12.05

Há aqui algo que me lembra Manuel Alegre.

Literatura light: Talleyrand.

Alguém que conseguiu servir Luis XVI, Napoleão I, Luis XVIII e Luis-Filipe, com um brio sempre indiferente às convulsões da história francesa, só pode ser uma pessoa interessante. Talleyrand era um ateu a quem nomearam bispo, um aristocrata que apoiou a revolução, um deficiente com sucesso entre as mulheres, um homem que só podia ser feliz em França, mas viveu na Inglaterra e nos Estados Unidos. Até hoje é considerado um dos mais lendários diplomatas de que há memória. Teve além disso um outro mérito a meus olhos: opôs-se a Napoleão quando este tomou a Républica de Veneza.

Política à portuguesa.

Ribeiro e Castro diz que os comunistas são responsáveis pelo terrorismo. Os comunistas dizem que Ribeiro e Castro é responsável pelo fascismo. O povo vota em Cavaco, que não diz nada.

Ainda há gente boa #2

Dick Cheney estava com saudades do Iraque e visitou as suas tropas de surpresa. Nem o primeiro-ministro iraquiano sabia da deslocação. Mas que importa? Cheney também não deve saber quem é o primeiro-ministro iraquiano. A visita foi uma pândega e todos almoçaram rancho. Para comemorar a ocasião, até os insurgentes abateram 19 pessoas nesse dia.

Ainda há gente boa #1

Este é o senador John Mccain, que obrigou o governo de Bush a banir de uma vez por todas a prática de tortura em prisioneiros sob custódia americana. Assim se redimiu de ser eleito pelo Partido Republicano. A velha Europa deseja-lhe boa sorte nas próximas presidenciais.

17.12.05

Memória fotográfica: James Nachtwey, 9/11/01.


Colapso da torre sul do World Trade Center.

Os extraordinários confrontos raciais de Sydney.

O último lugar onde eu esperava que ocorressem fenómenos a la LA seria a capital Australiana. Sydney é uma das mais encantadoras cidades que conheço: uma metrópole cosmopolita e multicultural, com atmosfera relaxada, que quase nos leva a duvidar da sua população de 4,5 milhões de habitantes. As várias comunidades (orientais, negras, hispânicas e, ao que parece, uma numerosa comunidade portuguesa) parecem habitar os mesmos espaços públicos sem grande intranquilidade. As religiões, orientações sexuais, línguas e hábitos não se acotovelam aos olhos dos turistas. A polícia é tranquila, os jovens são dóceis, e os poucos aborígenes, que se embriagam na rua durante todo o dia, não incomodam ninguém.

Melbourne é diferente: uma cidade agressiva, barulhenta, afectada e rude. Brisbane é provinciana e, segundo me foi dado alcançar, conservadora e temerosa. Hobart é pobre (embora me apaixonasse por ela, a ponto de querer ficar). Em todos estes lugares, poderia conceber um conflito, ou talvez não um conflito, um arrufo de origem racial. Agora, Sydney?!

O mundo é um local muito estranho.

Memória fotográfica: Rita Leistner, hospital psiquiátrico de Rashad, Bagdad, 15/4/04.



Na televisão, o General Richard Myers responde a questões sobre o modo como se propõe a enfrentar os insurgentes, em especial o exército de Muqtada al-Sadr's. Myers desvalorizou a ameaça dos seus inimigos. Alguns meses depois, este hospital seria atingido por morteiros durante um combate entre o exército da coligação e as mesmas forças a que o General dera tão pouca importância.

Memória fotográfica: Thorne Anderson, Mosul, Iraque, 4/2/03

Memória fotográfica: Thorne Anderson, Bagdad, 14/4/03


Um rapaz urina para a cabeça de uma estátua derrubada de Saddam Hussein.

15.12.05

A produtividade francesa e a demagogia portuguesa.

A estatística é um perigo nas mãos da nossa patética esquerda. Rui Pena Pires (link no título deste post), por exemplo, descobriu entusiasmado que a produtividade por hora de trabalho é maior em França do que nos Estados Unidos ou em outros países que desprezam o "modelo social europeu". Conclusão miserável: "Precisamos, urgentemente, de emular a França".



O que Rui Pena Pires se esquece de dizer, entre gritinhos histéricos, é isto:

- a França tem 10% de desempregados, enquanto os Estados Unidos têm 5%.
- o desemprego nestes países atinge principalmente os sectores em que há profissionais com menores qualificações.
- os profissionais menos qualificados criam menor valor numa hora de trabalho do que os mais qualificados.

Logo:

Quem tem maior desemprego ganha automaticamente uma vantagem estatística, porque os habitantes que conseguem trabalhar são mais qualificados e produzem mais. Ou seja, a "eficiência" francesa é decorrente da exclusão de uma boa parte da população activa.

Mas numa coisa a pobre cabeça de Rui Pena Pires acertou em cheio: nós vamos, urgentemente, "emular a França". Os 10% de desempregados estão mesmo ao virar da esquina.

Um milagre de Natal.

Porque é que a Caixa Geral de Depósitos será sempre pública e o liberalismo sempre residual no nosso país.

Agora que os candidatos presidenciais regressaram às catilinárias contra a privatização de "sectores estratégicos" como os transportes, a energia ou a água, talvez seja boa ideia perguntarmos: porque é que ninguém defende a privatização total do maior banco português? Existem três tipos de motivos.

Primeiro, os motivos do "Centrão":

- Se a Caixa fosse totalmente privada, Armando Vara e a Celeste Cardona não seriam seus administradores.

- Os fundos de pensões não seriam transferidos para a Segurança Social, engrossando as receitas fictícias que permitiram ao Ministro Bagão Félix disfarçar o défice.

- Os nossos governantes não podiam financiar, em caso de necessidade, grandes obras públicas de rendibilidade duvidosa como a OTA ou o TGV.

- Acabavam-se as ilusões sobre a nossa "política económica" que é, como sabemos, competência de Bruxelas.

Em segundo lugar, os motivos da Esquerda:

- Privatizar a Caixa seria dar mais poder a alguns ricos. E os barnabés portugueses não combatem a pobreza, combatem os ricos.

- Seria também enfraquecer os sindicatos, que devem a sua "aurea mediocritas" à dimensão do Sector Publico Empresarial. Nenhum sindicalista português sobreviveria muito tempo sem a protecção do Governo.

Finalmente os motivos da Direita:

- Privatizar a Caixa, num país da União Europeia, era arriscar a que ela fosse comprada por um banco estrangeiro. Alguém imagina os danos que um Citigroup, com metade do nosso sector financeiro nas mãos, poderia infligir a concorrentes como o BES, o BPI ou aos doces salazaristas do Milénio BCP?

Os nossos banqueiros são os grandes interessados em que Portugal mantenha a sua Caixa Geral de Depósitos pesada, perdulária, dirigida por ineptos e dominada pelo poder político. Assim, podem ir corroendo a pouco e pouco a quota de mercado do maior banco português, sem pressas nem ostentações, e até com o suave beneplácito de um ministro ou outro. Afinal, a nossa direita aprendeu tudo com o corporativismo.

De resto, um banco público não serve para nada, a não ser para empobrecer um pouco mais a grande maioria dos portugueses.

12.12.05

Pequeno intervalo.

Por motivos pessoais, devo interromper a publicação neste blog durante os próximos dias. Espero, para meu bem e vosso aborrecimento, regressar em breve.

E agora, tudo aquilo que você queria: mais um peditório de Natal.


Há quem se preocupe com os sem-abrigo, há quem chore com o destino dos meninos pobres no Rio de Janeiro, há quem suspire pelos feridos de guerra do Sudão. Eu vou às lágrimas quando penso nas ruas de Veneza, sujeitas ao arrepiante patrocínio do consulado Berlusconi. Frívolo? Paciência. É bom saber que os anjos desta e desta organização não dormem em serviço.

Este Natal, lembre-se da cidade de Henry James, Byron, Bellini, Tintoretto, Whistler, Proust, Carpaccio, Veronese, Browning, Casanova, Ticiano e Joseph Brodsky. No meu outro blog, que anda um pouco adormecido, podem saber mais coisas a respeito da Sereníssima.

Quanto à imagem, é de Canaletto, e revela-nos o troço do Canal Grande onde se ergue a Igreja de la Salute, vilipendiada por John Ruskin por causa das janelas estreitas da cúpula e do "ridículo disfarce dos contrafortes em volutas colossais" ("the ridiculous disguise of the buttresses under the form of colossal scrolls", a tradução é minha e aceito correcções). Esquisitices, portanto.

11.12.05

Condoleezza na Europa.

A Comissão de Honra do Sr. Dr. Garcia Pereira.

Enquanto o deputado Manuel Alegre se deixa tratar por doutor sem o ser, o candidato Garcia Pereira não precisa desses favores. Além de usar o título que lhe pertence com muito gosto, não se cansa de o prodigalizar aos ilustres elementos da sua Comissão de Honra. Eis alguns exemplos, tal como estão referidos no "site" da candidatura:

Sr. Dr. Arnaldo Matos
Srª Drª Isabel Antunes
Sr. Dr. Edmundo Pires
Srª Drª Ana Leal
Sr. Dr. Carlos Paisana
Sr. Dr. António Montalvo
Sr. Dr. José Eduardo Gonçalves Lopes
Sr. Dr. Paulo Graça Lobo
Sr. Engº João Peters
Sr. Dr. Paulo Alves dos Santos
Sr. Dr. Álvaro Sampaio
Sr. Dr. Agnelo Martins
Srª Drª Ana Montalvo
Srª Drª Olga Almeida
Sr. Dr. Luís Telésforo
Srª Drª Filomena Dias
Sr. Engº Matos Cristóvão
Sr. Dr. Caldeira Fradique
Sr. Dr. Carlos Lopes
Sr. Dr. Paulo Custódio
Srª Drª Maria José Campos
Srª Drª. Ana Bela Santos
Srª Drª Rita Garcia Pereira
Srº Professor Doutor José Pinto da Costa

Em Portugal, os doutores estão na vanguarda do proletariado.

O significado político dos Nobel de 2005.

Laureados dos Estados Unidos:

Roy J. Glauber
John L. Hall
Robert H. Grubbs
Richard R. Schrock
Robert J. Aumann
Thomas C. Schelling

Laureados que em algum momento se opuseram aos Estados Unidos:

Mohamed ElBaradei
Harold Pinter

Conclusão: o Comité Nobel apoia George W. Bush por 6 a 2.

10.12.05

Memória fotográfica: James Nachtwey, Afeganistão, 1996

O Natal do menino Bush.

Pequena história sobre a revolução francesa, que nada tem a ver com as eleições presidenciais.

De um lado estava Danton, um homem cheio de vícios, que gostava da mesa, do jogo e das mulheres, cultivava os seus amigos e arrebatava multidões. Danton era um moderado, que várias vezes se esforçou para refrear os ódios da populaça.

Do outro lado estava o seco, o impoluto, o virtuoso e incorruptível Robespierre. Robespierre matou Danton e deu início ao período do Terror, condenando à guilhotina alguns milhares de cabeças empoadas.

Pensem nisso.

9.12.05

Sobre as "boas notícias" que a America está a pagar aos jornais iraquianos para publicarem:

Clique na imagem para a aumentar.

Serviço público: os blogs da esquerda com caixas de comentários.

A minha intenção, neste "serviço público", é recomendar alternativas aos leitores do "Bichos", agora que já não podem conversar. Não me quero referir apenas a blogs de pessoas de esquerda, mas a blogs onde as palavras "esquerda", "socialismo", "PS" e "Bloco", e os nomes "Soares", "Jerónimo", "Louçã", "Alegre" e "Sócrates" aparecem mais vezes sem ser para dizer mal. Provavelmente este post vai ser actualizado durante uns tempos.

Por razões práticas, vou começar por blogs de escrita colectiva. E para já, lembro-me destes:

O metablog, que é de uma esquerda muito dada à filosofia, e que está em perpétuo diálogo com o Rodrigo Adão da Fonseca.

O aspirina b.

E o caso mais exemplar de todos: o canhoto, onde escreve o ex-arguido Paulo Pedroso, com a caixa de comentários aberta, e sujeito às vilezas que vocês imaginam.


Quantos aos blogs individuais ficam para já estes:

O esquerda republicana, que é de esquerda até no título.

E o agridoce , que eu não sabia muito dado à política, embora soubesse que não o era a Cavaco Silva. (Mas sempre o li com devoção)


Inicio esta lista porque acredito no seguinte: um blog, principalmente um blog político, ou é um espaço de diálogo ou está em desvantagem perante os outros que o são. O grande problema dos blogs da esquerda é que, ao contrário dos da direita, estão a deixar de conversar com os leitores. Estão a deixar de ser blogs e a transformar-se em jornalinhos "wannabe", que apenas servem de tribuna a quem os escreve: ora isso não dura muito tempo, a não ser que se escreva como o Mencken ou se tenha algo muito importante para dizer.

Por falar em diálogo, agradeço aos leitores deste post que me forneçam mais sugestões de blogs da esquerda, que sejam razoavelmente activos e funcionem com caixa de comentários aberta.

A minha opinião sobre o debate presidencial.

Qual debate presidencial?

8.12.05

Saídas para o Iraque.

Um portento chamado Cavaco Silva:

"As duas palavras-chaves são ponderação e mobilização".

O pobre e incompreendido Steven Spielberg.

Quando asseverei a alguns amigos que a "Guerra dos Mundos" era um dos melhores filmes do ano, receberam-me com o alheamento, demasiado familiar, de quem acreditava que daí a uma semana iria dizer exactamente o oposto. No entanto, passaram-se alguns meses e eu não mudei de opinião.

Claro que a "Guerra dos Mundos" nunca poderia ser um sucesso de crítica. É uma narrativa esquemática, sem penetração psicológica ou qualquer tentativa de análise social, não tem meditações sobre a arte, nem apresenta a morte de um modo descarnado, intelectualizado ou sequer realista. É um "blockbuster" do início ao fim, completamente inverosímil, com toneladas de sangue e de corpos decepados, que fará o europeu médio, cheio de pretensões, levantar o nariz e sair da sala. Em Lisboa, então, deve ter sido um fracasso humilhante e irrepetível.

Porque é que eu gosto de um filme assim? Porque é uma homenagem aos filmes do tempo da guerra fria, disfarçado de parábola sobre o 11 de Setembro. Porque se nota que o realizador estava mortinho por fazer uma obra com discos voadores, extra-terrestres malvados, jorros de matéria orgânica e uma humanidade constituida por bonecos impotentes. E a infeliz tragédia do World Trade Center serviu-lhe, com muita graça, para cumprir esse desejo de um modo respeitável.

A verdade é que Spielberg anda, há já algum tempo, a fazer experiências com a mitologia. É uma conclusão natural da sua carreira, essa concentração em emoções puras, acirradas por demónios poderosos, numa história que não precisa de razões. A grande simplificação da "Guerra dos Mundos" permitiu-lhe concentrar-se no medo, sem complexos, e levá-lo em estado quase puro à sua audiência preferida, que são os adolescentes de Sábado à tarde. O homem comum é o grande veículo dos mitos de todos os séculos. Spielberg sabe disso melhor que os apagados profetas do "Cahiers du Cinema". E embora não tenha chegado aonde queria, está cada vez mais perto.

P.S.: A "Guerra dos Mundos" acabou de saír em DVD.

O fenómeno.

O Discurso de Harold Pinter.

"you infect the heart of the country, ... you establish a malignant growth and watch the gangrene bloom"

Com um agradecimento ao aspirina b, aqui fica o discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura pelo dramaturgo Harold Pinter. Vale a pena ler e divulgar.

Memória fotográfica: Josef Koudelka, Czechoslovakia, 1968


Poucos minutos depois, esta rua estaria cheia de tanques e de soldados russos. A foto de Koudelka marca o fim da Primavera de Praga.

O "Bichos" acabou com os comentários.

Na sequência do post que comentei aqui, o blog "Bichos Carpinteiros" (link no título) acabou com a sua caixa de comentários. A decisão era previsivel. Medeiros Ferreira justifica-a pelo facto de "os ataques, calúnias e insultos a terceiros se terem multiplicado nestes últimos tempos de forma imparável e intolerável." Isto era, ao que tudo indica, verdade.

Mas ele acrescenta ainda:
"Os parasitas que se serviam da caixa de comentários para chegarem aos nossos milhares de leitores terão agora de se dar ao trabalho de conseguirem audiências por outros meios."

E quanto a este tom e a este argumento, apenas posso afirmar que são deploráveis.

Alguém devia explicar ao senhor Medeiros Ferreira que insultar uma pessoa não é a mesma coisa que usar um comentário como plataforma de intervenção. Eu próprio chamei, no "Bichos Carpinteiros", a atenção para os meus posts algumas vezes, e nunca me passou pela cabeça insultar qualquer dos seus autores.

Um espirito antiquado como é, aparentemente, o senhor Medeiros Ferreira, deve achar que os leitores se chamam apenas pela intervenção partidária ou pelos artigos no Diário de Notícias. Isto era antigamente. Na blogosfera, que é onde o senhor está sem ter dado por isso, os leitores conquistam-se em interacção com os outros blogs, através de links, de comentários, ou pura e simplesmente pela publicidade. Claro que muita gente considera a publicidade um modo de parasitismo. Eu, por defeito profissional, julgo que é ela quem paga os artigos do senhor Medeiros Ferreira no DN.

E a ironia é esta: que eu saiba, o senhor Medeiros Ferreira passou as últimas décadas da sua vida a criar uma rede de contactos, semeando opiniões, chamando a atenção para os seus pontos de vista, chamando, enfim, a atenção para si próprio. Nunca lhe deve ter passado pela cabeça considerar essa actividade "parasitária". E no entanto, quando um blogger chama a atenção para si nos comentários aos seus posts, o senhor reclama, furibundo, o seu direito de propriedade.

Mas os leitores não são propriedade sua, senhor Medeiros Ferreira. Os leitores não são propriedade de ninguém. Essa é a amarga lição que o senhor vai receber quando eles desaparecerem, juntamente com a sua caixa de comentários.

7.12.05

A dama enferrujada.







Margaret Tatcher acabou de ser internada num hospital.

Lugares de encanto.







Árvore solitária, fotografada na zona da praia do Meco.

"Bushismos" .

"Our enemies are innovative and resourceful, and so are we. They never stop thinking about new ways to harm our country and our people, and neither do we."

"The most important thing is for us to find Osama bin Laden. It is our number one priority and we will not rest until we find him."

"I don't know where bin Laden is. I have no idea and really don't care. It's not that important. It's not our priority."

"But all in all, it's been a fabulous year for Laura and me." (A frase foi dita três meses depois do 11 de Setembro).

"See, free nations are peaceful nations. Free nations don't attack each other. Free nations don't develop weapons of mass destruction."

"Feriz Natar".

6.12.05

"As grutas do anonimato" do Mário Bettencout Resendes.

O Mário Bettencout Resendes queixou-se no "Bichos Carpinteiros" (link no título) dos comentários anónimos e desqualificadores que foram feitos a um post da co-autora Joana Amaral Dias. Ele queixa-se com razão, mas não aprofunda os motivos porque não teve "a fortuna de contar com a participação do centro e da direita cultos e bem educados que há em Portugal". Eu acho que sei porquê e deixei este comentário ao seu post:

Como autor de um blog, desagrada-me muito receber comentários anónimos, e mais ainda se forem deselegantes. Mas creio que há algumas soluções para acabar com eles:

1- responder aos comentários:
Poucas vezes lí no seu blog uma resposta a um comentário (...). Ora se os vossos leitores sentem que ninguém lhes responde, é muito natural que levantem a voz. Comparem o vosso comportamento com o dos autores do "Blasfémias", e tirem alguma conclusão.

2- Respeitar a inteligência dos leitores:
Um blog não é um instrumento de propaganda política. Até no "Pulo-do-Lobo" por vezes se dá uma alfinetada ao Cavaco Silva. Se vocês considerarem o vosso blog como o orgão oficial de apoio a um candidato, é natural que atraiam a oposição em peso, principalmente a mais desqualificadora.

3- Não ser arrogante.
O Mário Bettencout Resendes refere-se aos comentários, feitos por anónimos, a um post da autoria da sua colega de blog Joana Amaral Dias. Não acha que ela é adulta e que já estava na altura de esclarecer, por sí própria, como quer ser tratada? A sua triangulação não ajuda a resolver este problema, só o agrava. E agrava também a sensação de que existe muita arrogância na atitude de alguém que trata os seus leitores como se não existissem. Não é que me queixe, pois escrevo aqui pouca coisa. Mas não sou estúpido e reparo.

4- De uma vez por todas esclareçam as dúvidas a respeito dos comentários apagados.
Um blog não pode apagar comentários e depois vir dizer que só é lido por grunhos. Um blog que apaga comentários merece ser lido por grunhos. Nenhum leitor "culto e bem educado", para usar as suas palavras, vai perder tempo com gente que não aceita críticas.

Nietzche dizia que todas as perguntas estúpidas merecem uma resposta inteligente. Se tratarem os vossos leitores como pessoas inteligentes, serão lidos por pessoas inteligentes. Se os tratarem como burros, serão lidos por burros. É só isto, meu caro.



A respeito do quarto ítem, esclareço que já ví no blog várias pessoas a queixarem-se de que viam os seus comentários de indole política (e não pessoal, ou de teor humilhante) serem apagados. A ser verdade, isto é uma vergonha. Um blog tem o direito de censurar os seus comentários. Mas tem de ser claro a esse respeito e arcar com as consequências - ou recebendo críticas, ou perdendo leitores. Não dizer nada, como tem sido apanágio do "Bichos", é profundamente errado. Ainda para mais, em pessoas que passam a vida a queixar-se que Cavaco Silva não fala...

Não quero provocar polémicas inúteis ou julgar alguém apressadamente. Apenas contribuir para que um dos poucos blogs de esquerda que nos restam se comporte com o nível dos princípios que diz defender. Por isso aceitarei os esclarecimentos dos seus autores de boa fé. Mas era bom que houvesse um esclarecimento. Este leitor regular agradecia.

Feliz Natal.

"Talvez Cavaco e Alegre se safassem na Estónia".

Foi com este bonito comentário que Vasco Pulido Valente brindou os leitores do "Público", a propósito do interessante debate entre os dois candidatos presidenciais. E eu só posso dizer: não, Vasco. Você não vai à Estónia há algum tempo. Talin é hoje em dia, ao contrário de Lisboa, uma das cidades mais bem recuperadas da Europa. Além de possuir a maior cidadela medieval do continente, todos os dias vê nascer ao seu redor edificios elegantes, de arquitectura contemporânea, que em nada ficam a dever aos da Noruega ou da Finlândia. A economia da Estónia está a crescer quase dez por cento ao ano. O país possui um dos maiores indices de penetração de banda larga da União Europeia. Os serviços públicos funcionam em rede, e o governo pretende dispensar brevemente o papel nos documentos oficiais. Aliás, o voto electrónico e o cartão único serão daqui a muito pouco tempo uma realidade - tal como nas promessas, que já ninguém recorda, do nosso primeiro-ministro. Você não sabe o que está a dizer, Vasco Pulido Valente. Estónia? Quem nos dera a nós.

Lugares de encanto.




Com a devida vénia ao "Causa Nossa"

Sondagem.







Como lhe pareceu o debate entre Manuel Alegre e Cavaco Silva?
Entusiasmante
Arrebatador
Inspirado
Exaltante
Sublime
Inesquecível



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5.12.05

"O leão há-de comer erva e brincar no meio dos cordeirinhos".








Na feira 100% Design, que decorreu em Tóquio, a empresa &Design apresentou uma colecção de relógios que, embora sejam mecânicos, imitam a linguagem visual dos relógios digitais. Enfim, um mundo ao contrário. O titulo do post é citação de uma antiga vizinha, testemunha de Jeová. (Clique na imagem para aumentar).

Lugares de encanto.

O "Causa Nossa" persiste na sua rubrica "Lugares de Encanto", para alegria deste vosso criado. É sempre com jovialidade que aceito o desafio de tentar reconhecer aquilo que a foto nos revela, por detrás do reflexo do flash e da sombra do fotógrafo. Normalmente é uma paisagem, mas também pode ser a Ana Gomes, ou o David do Miguel Ângelo. Hmmm.Deve ser o David, porque a Ana Gomes é mais forte, e costuma estar vestida. Em muitas ocasiões o objecto é tão indestrinçável que o autor se obriga a esclarecê-lo numa oportuna legenda. Com todo este sacrifício, porque é que Vital Moreira persiste em fazer fotografia? Por causa do Cristianismo, leitor. Todos temos de carregar a nossa cruz. E é por causa disso que nós também não protestamos. Ai Jesus.

Um Natal politicamente correcto.