28.12.05

O apelo da traição.

Acontece aos leitores de Graham Greene, Proust e Laclos, terem um interesse quase filosófico pela traição. E poucos actos são tão ricos em sentimentos contraditórios, como o de trair alguém.

Para Greene, como para a maioria de nós, a traição colocava-se na fronteira entre a obediência a um dever moral e o apelo da liberdade. Mas, como em muitos dos seus livros a História é afectada pela acção dos personagens, quem trai, trai também um país, um partido, um ideal, e não apenas um homem ou uma mulher. Há sempre em Greene estas duas traições: a do parceiro e a do passado. Ambas enriquecem a trama de significações morais, e remetem para a traição primordial, de Eva, que também foi histórica e individual.

Para Proust, trair é um acto largamente imaginário que demonstra a impossibilidade de possuirmos alguém. O amante quer cerrar o objecto do desejo num túmulo hermético de que os dois não sairão. Mas Albertine, ou Odete, ou o jovem amigo de Charlus, têm uma vida própria que se quer escapulir. O ciúme nasce do incapacidade que o amado tem de se apagar, de fazer um sacrifício impossível por quem o deseja. Proust recorda-nos que a solidão é inevitável, e pergunta, como Goethe e Thomas Mann: será que nós vivemos quando os outros também vivem?

Laclos, como é típico dos autores do Século XVIII, dá-nos a perspectiva mais contemporânea da traição. Trata-se de um acto de prazer, uma manifestação sthendaliana de desprendimento, própria dos espíritos jovens que afectam rejeitar a morte e a ternura. Não passa pela cabeça a nenhum dos personagens que as suas traições sejam más. Pelo contrário, trair é um meio de prolongar a alegria, e de ter acesso a uma celebração privada, ou a um segredo incomum.