31.1.06

Valha-nos Deus.

Um jornal dinamarquês publicou doze cartoons que gracejavam levemente com as idiossincracias do Profeta Maomé. A ideia era mostrar aos assassinos de Theo van Gogh e Pim Fortuyn que não tinham conseguido transformar os livres jornalistas da Dinamarca em criados mudos do fanatismo islâmico. Mas esta tímida diligência ocasionou entre os berberes uma histeria incontrolável, que conduziu ao fecho da Embaixada da Líbia (uma tragédia para os dinamarqueses), a um voto de protesto no parlamento do Iémen (qual parlamento do Iémen?) e ao regresso a casa do embaixador Saudita e das suas inconsoláveis mulheres. Os bonecos, diga-se em prol da verdade, são tolos e sem graça. Mas isso não é razão para onze países muçulmanos enviarem uma queixa à ONU. O que esperam eles, que siga para o Conselho de Segurança, juntamente com o dossier atómico do Irão? A história, bem contada, vem aqui. O cartoon, roubei-o ao On.

Novos links.


Apesar de o FNV andar aborrecido comigo (não se é impunemente desbocado, aqui na parvónia), vou acrescentar o Mar Salgado à secção Diários. É um blog muito bem escrito, com o qual discordo por vezes, irremediavelmente, mas que não resisto a ler. Coloco aí também o Estado Civil, não porque o Pedro Mexia escreva todos os dias, mas porque eu lá vou todos os dias ver se ele escreveu. E na lista dos Recomendados entra o famoso Adufe, a quem agradeço o link, e também o Bombyx Mori. Para os mais distraídos, nunca é mau referir que o Vasco Pulido Valente escreve agora no Espectro: Alexandre chegou à Frígia.

Imagem: Charles Le Brun.

A decadência.

Podemos ver o fenómeno localizadamente. O Hamas ganhou na Palestina. Ahmadinejad quer construir a bomba no Irão. E o Iraque, mais tarde ou mais cedo, será depositado com evidente ternura nas mãos capazes do radicalismo islâmico. Junte-se a isto a podridão dinástica da Arábia Saudita e o motim inevitável no Egipto, e torna-se muito fácil prever outro holocausto desmoralizador.

Ou então, podemos recuar um pouco, e acrescentar a este cenário o populismo bolivariano de Hugo Chavez (que tanto entusiasma a nossa patética esquerda), ou a vitória eleitoral de Evo Morales, o dos produtores de coca da Bolívia, que modestamente se chama a si próprio o pior pesadelo dos Estados Unidos. Lula e a senhora que ganhou no Chile não são, felizmente, para aqui chamados.

Depois de anos a proclamar as amenidades da Democracia, o Ocidente parece estar disposto a viver de acordo com os seus preconceitos, e a entregar, muito democraticamente, o governo dos seus antigos aliados a demagogos (na América do Sul) ou a assassínos (no Médio Oriente). Claro que tudo isso é feito sob os doces protestos da Administração Bush e da senhora Merkel, para alegria do povo ignaro na grande Nação Islâmica.

Mas agora recuemos ainda mais. E veremos, lá ao fundo, um território próspero, que nunca dividiu a Arábia nem patrocinou ditaduras sanguinárias na América Latina. Que nunca procurou impôr, nem uma religião, nem um regime, aos países do Terceiro Mundo. Que nunca ocupou ninguém, a não ser os remotos tibetanos. E que ao comprar biliões de dólares, ao longo desta década, tem financiado os vícios perdulários dos Estados Unidos, tal como os Fugger financiaram os vícios perdulários dos Habsburgos. É um país optimista e prático, que precisa muito de petróleo e, evidentemente, se está nas tintas para a democracia.

Apesar dos apertos em que o mundo se meteu, vão ver que tudo acabará por correr bem. Não para nós, mas para eles.

(Enquanto isso, a nossa esquerda exige, nas ruas, uma outra globalização).

O reconhecimento em Portugal. Dois exemplos.

  1. Sempre gostei de escrever. Mas esta semana, fui convidado a mostrar ao público as minhas fotografias. É agradável conhecer um galerista.
  2. José Riço Direitinho. Julguei que viria a ser um consagrado. Há seis ou sete anos ainda publicava umas novelas rurais, estilisticamente interessantes. Manifestamente, não era amigo do Mário Silva.
  3. E agora, vamos abandonar para sempre este assunto fétido.

30.1.06

José Mário Silva diz que só foi um mau crítico e um mau amigo.

José Mário Silva rejeita as farpas e mostra o texto da polémica, para demonstrar que não elogiou Nuno Costa Santos. É verdade que, como ele diz, o livrinho
estrutura uma aproximação à poesia que é sempre uma forma de sabotagem da poesia (ou, pelo menos, sabotagem da sacralização do sublime que ainda é bastante notória em muita da produção contemporânea).
Mas esta extravagância, insinua, tanto pode ser boa, como pode ser má (o mais provável é ser apenas incompreensível). Também é certo que José Mário Silva chama às bagatelas do seu amigo
versos de um lirismo sempre irónico – e por vezes ingénuo – (onde) não há pose, não há verve, não há um rasto que seja de solenidade.
Mas dizer isto, francamente, não é dizer que se gosta, nem é dizer que não se gosta. José Mário Silva nota igualmente os
vislumbres da beleza escondida das coisas ou (...) a nostalgia da infância nas ilhas
Mas caramba, até um açougueiro pode encontrar beleza em Almada, ou ter saudades do tempo em que borrava os cueiros e perseguia a Alzirinha. Finalmente, José Mário sublinha um trecho seu a denunciar
uma escrita arriscada e desigual, no fio da navalha, por vezes excessivamente rasa. Quase poemas de um quase poeta capaz de versos completos.
E isto, segundo o crítico, é uma coisa penosa, que não engrandece ninguém.

Ou seja, para resumir: José Mário invoca a seu favor que apenas fez a respeito daquela obra meia-dúzia de larachas ambíguas, obscuras e confusas, onde não vê motivo para grandes admoestações. E se o Diário de Notícias lhe paga para escrever banalidades esdrúxulas, ou os amigos lhe aprovam a esquivez e o cinismo, o João Pedro George não tem nada a ver com isso. (Eu cá, confesso, não queria ser amigo nem patrão do José Mário Silva).

Quanto ao João Pedro George, que gosta de sangue, não vale a pena procurá-lo num talho em Almada, porque ele está onde sempre esteve, de cutelo na mão a retalhar medievalismos. Eu não me meto mais com ele, apesar de me fazer bem ao Technorati. Só lhe desejo que não esqueça aquele assunto, quando for ao Livro Aberto.

A equipa deste blog agradece a confiança do estimado público.

Justiça poética.

Ontem, o Franco Atirador foi mais lido do que o livro do Nuno Costa Santos.

Um sucesso imperturbável.

A chafarica até tem leitores de Rochester, Indiana. E de Tuscaloosa, Alabama! Acho que já arranjei casa nos Estados Unidos.

O Justiceiro? O Sanguinário?

Graças ao triunfo obtido ontem, julguei que não era má ideia pensar num nome mais dramático para o Franco Atirador.

Da interpretação.

Ontem foi o dia em que mais gente leu este blog durante a sua breve existência. Aparentemente, as pessoas gostam de Swift.

Nota mental.

Separar a amizade da eternidade.

29.1.06

Belém, hoje à tarde, segundo as televisões.

Amizades literárias.

Jonathan Swift era amigo de Alexander Pope. Um dia, Pope foi visitá-lo com um amigo comum (o dramaturgo John Gay), e como soavam as oito horas o deão perguntou-lhes se queriam jantar.

“Já jantámos”, responderam ambos.
“Já jantaram? É impossível.”
“Mas é verdade, doutor.”
“Estranho. Mas, se não tivessem jantado, eu deveria oferecer-vos alguma coisa. Deixem-me pensar: uma ou duas lagostas? Sim, serviriam perfeitamente: dois xelins; tortas: um xelim. Mas não recusarão um copo de vinho, embora já tenham jantado, só para pouparem o meu dinheiro?”

Os dois amigos recusaram. Swift não se deu por vencido:

“Se tivessem jantado comigo, beberiam em minha companhia. Uma garrafa de vinho: dois xelins. Dois e dois são quatro, com mais um são cinco. Apenas dois xelins e seis pence a cada um. Pope, aqui está meia coroa para si, e outra para este senhor, pois estou resolvido a não economizar nada à custa de ambos”

Pope conclui: “Apesar dos nossos protestos, ele insistiu a tal ponto que acabámos por aceitar o dinheiro”.

Conheço esta história há anos, através de um calhamaço que tenho em casa. Hoje lembrei-me dela por causa do post anterior. Não sei se tem moral, nem isso vem ao caso.

João Pedro George contra as toupeiras.

Ontem li um protesto irado do João Pedro George, no Esplanar, contra a crítica literária jornalística de fachada e os textos que se escrevem em função dos favores, críticas que se cozinham como benesses e mesuras a amigos e colegas de trabalho.

Toda aquela indignação, confesso, abananou-me. E como tal, decidi tirar a limpo que vexame horrendo teriam infligido ao ânimo puro do João Pedro George.

Aparentemente o culpado do incêndio era o José Mário Silva, jornalista no DN, que resolvera compor um panegírico ao livro de um tal Nuno Costa Santos, amigo pessoal, colaborador no mesmo jornal, e seu comparsa na equipa que organiza o É a Cultura, Estúpido, a decorrer no S. Luiz.

O post do João Pedro George, aliás, teve a graça de dar azo a um diálogo picante entre celebridades. Pedro Mexia, Eduardo Pitta e Pacheco Pereira brandiram argumentos sobre o acesso aos media dos formadores de opinião.

Quem não reagiu foi o visado, o próprio José Mário Silva, que devia estar em casa a dedicar mais um poema a outro colega portentoso lá do jornal.

Enquanto me ria, decidi assistir ao Livro Aberto, do Francisco José Viegas - na RTPN. O entrevistado da noite chamava-se José Rodrigues dos Santos, escritor de renome e ex-Director de Informação - da RTP.

Apesar desta curiosa proximidade entre siglas, as palavras “favor”, “mesura” ou “benesse” não costumam ocorrer-me à mesma velocidade com que explodem no cérebro activo do João Pedro George. Por isso limitei-me a encolher os ombros e a visitar o site do programa, para tentar saber quem iriam convidar no próximo dia 11.

E olha, que engraçado: não é que vai ser o João Pedro George? O mesmo que lá esteve no dia 19 deste mês, a falar dos melhores livros de 2005.

João Pedro: eu começo a achar que você tem toda a razão. Isto, de facto, é muito pequeno.

28.1.06

Agradecimento.

Muito obrigado, Lutz, por uma recomendação tão gentil. E que bem acompanhado estou!

Conclusão popular.

Vermeer é um jarreta.

O jarro de Vermeer, 4: Mulher a dormir encostada a uma mesa.


O jarro de Vermeer, 3: Senhora a beber com um cavalheiro.


O jarro de Vermeer, 2: Senhora a tocar virginais.


O jarro de Vermeer, 1: Senhora com dois cavalheiros.


27.1.06

Bisturi... Pinça... Constança...


Dá-me imenso prazer abrir alas à Constança Cunha e Sá. Ela prova que quem escreve para multidões não é obrigado a escolher entre a verrina e a banalidade. Aqui está um post para se ler de-va-gar:

Se eu me guiasse por alguns faróis do liberalismo que iluminam a blogosfera, já me tinha provavelmente albergado à sombra do socialismo. Intolerância por intolerância, antes a velha esquerda marxista do que este arrivismo ideológico que passa por liberalismo. Basta ler certas coisas que se escrevem, por aí, para se perceber que, para os seus mais zelosos apóstolos, o liberalismo…não é liberal. É um intricado de regras invioláveis e de certezas iluminadas. Uma luta feroz pela imposição da ortodoxia. E um campeonato pueril de exibições mesquinhas e de egos mal ajustados. Ser mais liberal do que qualquer outro liberal é o grande desígnio que anima certos liberais. O liberalismo é o exclusivo de uns tantos: há sempre alguém, de cartilha em punho e de dedinho em riste, disposto a zelar pelos princípios da seita. O mínimo desvio e a mais leve heterodoxia são imediatamente denunciados pela pena fácil dos mestres. Os mestres, na sua prodigiosa sabedoria, conhecem, apenas, um único caminho: os liberais, se quiserem ser liberais, têm que pensar segundo cânones liberais que foram criteriosamente estabelecidos pelas autoridades liberais, entretanto, designadas. E os cânones são apertadinhos. Não dão azo a deambulações do espírito. Nem a tergiversações doutrinais. A coroa de glória dos mestres é apanhar um liberal em falta. Denunciá-lo na praça pública. Apontar-lhe a ignorância. E mostrar, pelo caminho, a sua superior inteligência de mestre. O mínimo que se pode dizer é que esta gente, coitada, faz pior ao liberalismo que todos os apologistas do Estado.

Ah, os romanos deviam sentir-se assim, como eu me sinto agora, quando viam os leões a desfazerem todos aqueles cristãos.

"Os portugueses permitem-se pouco serem eles próprios, serem verdadeiramente livres".


Eu compreendo-o, leitor.

"Gosto de olhar para imagens. Não ver somente branco e preto."


Os seus desejos são ordens, leitor.

26.1.06

À medida deste desmedido.

A respeito de um post meu, o Eduardo Pitta parece sugerir (não tenho a certeza se o faz) que estou no limiar da discussão política e no começo do moralismo. E diz mais:

Nenhuma candidatura, nenhum grupo específico de eleitores, detém o monopólio da maldade ou da virtude. Amigos meus fazem parte da nomenklatura de Alegre, a qual integra mais meia-dúzia de personalidades que admiro abertamente. Tal como acontece com a de Soares, que também não está isenta de tontos e arrivistas. Não há eleitorados quimicamente puros. Há, digamos, tendências mais visíveis do que outras. E foram essas tendências que fixaram o perfil das candidaturas.

Bom, estes argumentos são inatacáveis. É injusto tipificar os eleitores de um candidato em termos que os menorizam face a outros com idênticas limitações. Também eu tenho a perfeita noção das fraquezas humanas, demasiado humanas, de muitos apoiantes de Soares. O que talvez me falte, Eduardo, é uma boa noção das minhas. Mas estou a aprender.

"O cristianismo destruiu o eros?": boa pergunta, Bento XVI.

Sempre vi em João Paulo II as qualidades e as fraquezas de um provinciano: era simples sem ser cândido, amável sem ser delicado. A sua visão do mundo era tosca, mas suficiente. Através dele, quase podiamos assistir às rudes cacetadas da eterna disputa entre o bem e o mal. Uma coisa boa dos patêgos é que nos ensinam a morrer. João Paulo II morreu sublimemente, como se estivesse numa aldeia, à vista do povo que chorava com ele.

A que distância estávamos de Bento XVI! Ratzinger é voluptuoso e insondável. O seu mundo é o mundo de Pascal, quieto, desmedido, tocado apenas por uma razão inepta que esconde as suas dúvidas numa admirável limpidez. Caso não fosse Papa, Ratzinger também poderia afirmar:

"Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie".

Mas não pode, porque os homens do Renascimento são homens de poder. Vem isto a propósito da nova encíclica, Deus Caritas Est, que vale a pena ser lida. Eis dois ou três parágrafos, para abrir o apetite:
"O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma «loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças quer no céu quer na terra resultam de importância secundária (...) esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.

A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa." (...)

"Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. O epicurista Gassendi, gracejando, cumprimentava Descartes com a saudação: « Ó Alma! ». E Descartes replicava dizendo: « Ó Carne! »" (...)

"Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico. A aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade."

"Deus Caritas Est"

Podem ler ainda um texto sobre os vários nomes que os gregos chamaram ao amor. E já agora ficam a saber que a minha curiosidade a respeito deste tema se inspirou aqui.

Hoje é o dia da grupanálise.


Estamos a fazer terapia a este blog. Eu sou o do cabelo comprido, que está no meio.

Suspiro.

Uma pessoa pede críticas e recebe elogios. Que miséria. Assim, como é que este país há-de andar para a frente?

O QUE FAZER COM ESTE BLOG?


Hoje percebi que o Franco Atirador já tem mais de três meses. Agora que passaram as eleições, é boa altura para parar um pouco, realizar uma análise, detectar inconsistências e descobrir pontos forte e fracos neste blog (caramba, pareço o arquitecto). Isto está a precisar de atingir alguma senioridade. Uma das coisas que me fazem imensa falta é a opinião dos leitores. Preciso de críticas (educadas) e também de sugestões. Para os espíritos mais ordenados, aqui está um formulário possível:

1- o que gosto mais no Franco Atirador:
2- o que gosto menos:
3 - o que faz falta aqui:
Comentário suplementar:

A caixa de comentários está aberta.

25.1.06

Conclusão muito lógica.

O homem que quer ajudar o Governo embora seja da oposição, ganhou.
O homem que quer fazer oposição mas está do lado do Governo, também ganhou.
O homem escolhido pelo Governo, perdeu.

Ainda há gente boa, 4.

O Pedro Mexia disse tudo o que eu queria ter dito sobre estas presidenciais. Aqui.

Louçã.

O Bloco de Esquerda não acabou com estas eleições. Apenas descobriu que tinha chegado ao limite dos votos que correspondem ao seu programa. O Bloco tem vivido de causas "fracturantes", num país que é cada vez menos moralista e menos castrador. A sua cartilha vai ter de ultrapassar rapidamente a questão do aborto e dos casamentos homossexuais: não porque sejam causas erradas, pelo contrário, mas porque são inexoráveis. Nunca valerão mais que cinco por cento do eleitorado.

Por formação, os estrategas do Bloco estão a passar ao lado do grande combate da esquerda nos próximos anos: o ambiente, a protecção dos recursos naturais, a luta contra o aquecimento global. Mas essa não é uma guerra para trotskistas de museu, mesmo que pareçam modernos e bem falantes.

Como vão ser os mandatos de Cavaco?

O primeiro vai ser pacífico e colaborante; o segundo será interventivo e provocador. Nada de novo, também.

Quanto vale Alegre?

Na minha opinião, vale o mesmo que valia. Alegre era, e continua a ser, parte da "reserva moral" do PS. Ele lidera uma facção, agora mais sedimentada, de pessoas que não têm qualquer projecto para o país (nem a mais pequena ideia de como o governar), mas ainda reagem vagamente ao saque das administrações e à corrupção galopante que vigora no centrão. Algumas dessas pessoas seguem Alegre por princípio, a maioria segue-o porque foi posta de lado por José Sócrates na distribuição de cargos e sinecuras. É a ala dos românticos e dos calculistas desprezados. É certo que há uma mão-cheia de românticos, e um ror de desprezados no Partido Socialista. Por isso, Sócrates não vai, evidentemente, provocar Manuel Alegre. O Primeiro-Ministro é um homem demasiado analítico para desperdiçar energias a aprofundar divisões no seu próprio campo. Tudo continuará quase na mesma. E se houver um "movimento", o PS ira segregá-lo calmamente, tal como uma glândula segrega a sua hormona. Nada de novo, nada de grave.

24.1.06

Os portugueses em Paris (retratos-robô): Laurent Simões.

Foi há trinta et trois annés que pegou na valisa e saltou a fronteira. Era então um jeune homem. Havia chômage, mas ele tinha sempre quelque chose a faire. Atilado e competent, demorou longtemps a a regressar a Portugal. Chegou a morar num bidonville, mas finalement comprou um bom autô, pôs-se na autoroute e veio construir a maison com que sonhava. Já não tem familiares na sua terra, mas revient todos os anos, em Juillet, com o Jacques e o François.

Afinal, teria um grande desgosto se os seus filhos não parlassem português.

Enquanto isso, em Lisboa: o Führer promete estabilidade.

Longe da pátria amada: dificuldades de ambientação.


A vida não é fácil, para a Resistência soarista no exílio. Aqui não se come cozido à portuguesa, nem pézinhos de coentrada, nem mão de vaca com grão. Os bifes são au poivre, em vez de serem à café. E andamos cheios de saudades da mousse do Pap' Açorda.

23.1.06

Longe da pátria amada: a odisseia dos soaristas em Paris.

Foi uma tarefa hercúlea, escolher o novo quartel-general dos opositores no exílio. O Vital, que está na Resistência de Coimbra, recomendou-nos o Crillon. Os outros queriam o George V, por causa do spa. Mas graças a Deus o velhote exigiu morar na Rive Gauche, e votámos no L'Hotel. Não é totalmente mau para conspirar. Sempre fica em Saint-Germain des Prés, a dois passos do Jardin du Luxembourg e do Les Deux Magots, foi decorado pelo Jacques Garcia e, last but not the least, recebeu entre os seus hóspedes gente da cultura e das letras, como o Jorge Luis Borges ou o Oscar Wilde. Não se compara ao remanso do lar, isso é verdade. Mas, como diz o Alfredo, podia ser bem pior: quem foi nas cantigas do Alegre, está agora a caminho da Argélia.

Notas do exílio, 1: os opositores a Cavaco em Paris.

Ontem aterrei com os meus compagnons de route na capital francesa. Pelo torpor da pequena comitiva iria jurar que nunca se vira um lote de rostos tão apagados na Cidade-luz. Paris, não sei porquê, fica menos atraente a seguir a uma humilhação. Ainda por cima saímos à pressa, deixando para trás o passado, os nossos modestos haveres, e também o Medeiros Ferreira, por puro esquecimento. Da Joana Amaral Dias toda a gente se lembrou, mas ela quer ficar em Lisboa e passar à clandestinidade - talvez no Bloco de Esquerda, onde já ninguém a reconhece.

É-nos penoso, o fardo da derrota. A turma está deprimida. Assim que entrámos no avião, o Alfredo Barroso começou a recitar Antero:

Só males são reais, só dor existe...

Mas eu, que não me deixo ir abaixo, respondi-lhe à letra:

Sonhei - nem sempre o sonho é coisa vã -
Que um vento me levava arrebatado,
Através desse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã...

Louçã?”, retorquiram-me em uníssono os participantes do colóquio.
Sim, quer dizer alegre”, esclareci eu.
Alegre?!”, gritaram em coro.

Nessa altura achei prudente calar-me. Não lhes vou dar cavaco até as coisas acalmarem.

À bientôt, Portugal.


A partir de hoje, este blog será escrito em Paris.

Agradecimentos 2.

Sim.

NÃO ACHAM ESQUISITO? Se a tradição se cumprir ( 2º mandato presidencial), Cavaco, o "grunho", o "boçal", o "ignorante", virá a completar 20 anos de poder em Portugal.

FNV, no Mar Salgado.

22.1.06

À ESPERA DOS BÁRBAROS.

O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
Dentro do Senado, porquê tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis haviam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.
Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levaram braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis e de esmeraldas magníficas?
E porque levaram hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


Constantino Cavafy, trad. de Jorge de Sena.

21.1.06

Mas claro, nós temos o Expresso.

Uma das razões que me levam a ler o The Economist é a pura qualidade da escrita. Hoje, por exemplo, encontrei este parágrafo a respeito de um médico que é também senador do Oklahoma:

"He wants to return to his preferred profession of medicine once he has served two terms. He delivered 400 babies while in the House and would still spend his weekends pulling them out if the Senate Ethics Comittee hadn't decided that the profession of delivering babies was incompatible with the profession of kissing them".

Em quase todos os artigos há duas ou três frases com este sotaque oxbridge, elegantes, bem torneadas, com um humor muito eduardiano e irresistíveis doses de understatement. Lamentavelmente, desconhecem o João Pereira Coutinho.

O dia.

Estou para aqui farto de reflectir em quem hei-de votar.

20.1.06

Shinjuku, Toquio.


E acabamos por agora a deprimente exibição dos meus méritos fotográficos. Mas podia ser pior: lembrem-se da poesia de Manuel Alegre. Enfim, chama-se a isto um abuso de poder.

Nova barra de links.

Como o número de blogs que conheço tem crescido muito, vi-me na necessidade de dar algum destaque àqueles que leio, sem falta, todos os dias. Assim, criei a categoria "diários" onde estão, por agora, cinco blogs. Esse número vai crescer, juntamente com os meus hábitos de leitura. Para que ninguém se sinta diminuído, chamei aos outros blogs "recomendados", pois também os leio habitualmente (caso contrário não estariam lá). Seleccionar não significa rejeitar ninguém. Finalmente, copiei o bomba inteligente e resolvi fazer um destaque, de preferência reservado a blogs recém-descobertos. Como hoje não descobri nenhum, escolhi por enquanto o babugem, um blog interessantíssimo, para o qual nenhuma recomendação é excessiva.

19.1.06

Os portugueses (retratos-robô): Mizete.

Todas as esthéticienes de Odivelas trabalham muitíssimo antes da Páscoa: é uma das vigílias mais bonitas da Igreja Maná, quando o Espírito Santo derrama a sua unção no verbo do apóstolo Jorge Tadeu e se celebra a morte de Jesus, bem como a fuga de Israel às garras do Faraó. As senhoras, naturalmente, querem resplandecer de olhos postos no Altíssimo e marcam os seus brushings, desfrizagens e balayages com antecedência. A Mizete era uma ovelha cumpridora, mas tinha demorado algum tempo a integrar-se no rebanho e encontrar Nosso Senhor .

A seguir ao segundo divórcio fora amparada pela Eulália, a única confidente que tinha no salão de beleza. Ela é que a alertara para o desmazelo em que trazia o Ruben e a Karina, com três e cinco aninhos. Os filhos são o último reduto do orgulho de uma mulher! Em pouco tempo, com as crianças assoadas, ela já encontrava ânimo para acompanhar a amiga à corrente da prosperidade e à terapia do amor. A congregação recebeu-a com meiguice, mas ela estava perdida e não via consolo em Jesus.

Foi então que o Senhor a abençoou, enviando-lhe o Mantorras.

(Continua).

Como levar mais pessoas ao teatro.

"Orgias é a crónica de pobres emoções sado-masoquistas de dois cônjuges pequeno-burgueses no calor de uma desoladora Páscoa, da fuga-suicídio de uma esposa-amante-escrava, da devastação do esposo ao encontrar-se com uma pequena prostitutazinha de passagem, do seu extremo delírio fetichista e transsexual até ao seu suicídio por enforcamento."

O programa da Culturgest apresenta assim a peça "Orgias" de Pier Paolo Pasolini, que estará em cena entre Março e Abril no grande auditório.

Diga já ao seu marido, dona Marquinhas!

18.1.06

Um castelo qualquer, perto de Tóquio.

Por esta altura, os leitores já devem ter saudades da colecção Berardo, que mostrei aqui.

Evangelhos apócrifos.

Foi há muito tempo: antes da rodagem do carro, antes do Pulo-do-Lobo, antes dos convénios com a Divina Providência.

Um advogado lisboeta muito influente estava de férias na Quinta do Lago, em meados de Agosto, à hora da canícula, com um gin tónico na mão e os pés numa piscina. Após mais um mergulho encostou-se aos azulejos, de água pelo pescoço, a ouvir as cigarras e a inspirar a maresia, quando a empregada lhe anunciou visitas.

- Quem são? – perguntou.
- Um casal. Entregaram este cartão.

Sem paciência para ler, o advogado saiu da água penosamente e dirigiu-se à sala, enfastiado. Quando aí entrou, não reprimiu um sorriso. Entre as suas cadeiras de verga e as fortuitas chitas estivais, estava uma caricatura da velha inglaterra, provinciana e fruste: um homem delgado, fardado de smoking, suava em bica sob o calor das três da tarde. Ao seu lado rutilava uma burguesinha afectada e desejosa de agradar, com uma irremediável toillete em ton sur ton. Pareciam noivos; ou vendedores de enciclopédias absurdamente bem vestidos. Seriam testemunhas de Jeová? Um pouco a medo, o dono da casa balbuciou:

- Com quem tenho o prazer?…

O sujeito do smoking e a esposa entreolharam-se, pensando talvez no cartão. Mas recuperaram depressa o sangue-frio - em três passadas rígidas o homem aproximou-se dele, hirto como um boneco, estendeu-lhe mecanicamente o braço e anunciou com pompa:

- Aníbal Cavaco Silva, doutorado em York.

O advogado parou para respirar. Depois, limpou brevemente a mão aos calções de banho húmidos e retibuiu-lhe o cumprimento:

- André Gonçalves Pereira. Banhista.


NOTA POSTERIOR: Disseram-me, alguns dias após ter escrito este post, que o "banhista" em questão tinha outro nome. Poderia mudar o post, mas decidi mantê-lo tal como está. Encarem a verdadeira identidade deste protagonista como um pormenor ficcional.

Apócrifo.

"do Lat. apocryphu < Gr. apókryphos, oculto. Adj., diz-se dos escritos sem autenticidade comprovada; relativo aos escritos de assunto sagrado que não foram incluídos pela Igreja no cânon das Escrituras autênticas".

17.1.06

Tóquio.







Demasiado vermelho. O meu professor de composição teria odiado, mas não se pode ser perfeito. E caramba, o Oriente é vermelho.

16.1.06

Os portugueses (retratos-robô): Bibito.

Bibito era um homem do mundo: conhecia Cancun, Tenerife, Porto Galinhas, Maceió, Salvador, Varadero, Porto Seguro, Recife, Punta Cana, Agadir, Formentera, Pipa e Natal. Mas entre os lugares maravilhosos por onde tinha veraneado, nenhum ofuscava Ibiza em amenidades locais. As gajas de Agadir também não eram más, principalmente se fossem monitoras do Club Mediterranée, mas Ibiza era o pináculo indiscutível do gajedo à solta, a grande coutada do macho mediterrânico, com uma bifa sózinha por baixo de cada guarda-sol. Só ela e o seu pito, ambos por massajar.

As estrangeiras, é bom esclarecer, não são totalmente idênticas às gajas do Rebordelo, ou de Miranda do Douro: são de uma espécie menos bojuda, têm menos bigode, mas possuem mais pêlo na região do sovaco, deslocam-se com um porte mais fino se não forem inglesas, e raramente comem carne, embora não desprezem um chouriço bem apaladado. Durante algum tempo ele andou viciado em brasileiras, depois enjoou-as. As brasileiras têm um lado mau e um lado bom, que são respectivamente o lado da frente e o lado de trás. As peidas, é verdade, têm muito que se lhes diga. Conheceu algumas nalgas brasileiras que até falavam com ele: moviam-se para cima e para baixo ao ritmo do pandeiro e do reco-reco, sussurando Bi-bito, Bi-bito, Bi-bito…

Em Ibiza, onde há vinte e cinco mulheres para cada voluntário, como no paraíso dos talibãs, as gajas vivem numa saudável concorrência liberal. Elas sabem que depois do almoço têm de arranjar um malho em três ou quatro horas, custe o que custar. Um tipo, mesmo que não seja paneleiro, deve saber afastá-las! São como leoas a abocanhar um boi-cavalo. Cercam um homem com branduras, mostram os umbigos, abanam os piercings e as tatuagens, deitam o cabelo para a frente dos olhos, põem-te a mão na perna como quem não quer a coisa, e dez minutos depois estão em cima de ti a foder alucinadas durante doze horas. Aquelas gajas são um perigo, pá. E é preciso ter cuidado com as doenças...

- Doenças? - perguntou o Xana, esgazeado.
- Sim. Agora há lá um surto, de tuberculose.

O Xana e o Barrote fixaram-no longamente, com indisfarçada inveja. Ali, no Rebordelo, nunca se ouvira dizer que uma foda desse cabo dos pulmões. Bibito olhou sonhadoramente para o ribeiro e saboreou a glória de arrebatar mais uma vez a imaginação daqueles irrecuperáveis patêgos.

Ah, as gajas de Ibiza… Nunca comera nenhuma. Mas tinham sido umas punhetas memoráveis.

Agradecimentos.

É muito agradável receber um destaque no "Da literatura" (parabéns pelos cem mil leitores!) e no "Bomba Inteligente". Obrigado a ambos.

Nota posterior: E obrigado também ao Prozacland, ao Rikezas e ao As minhas histórias verídicas, pelo mesmo motivo.
Ops!, mais um obrigado: para o Quase em Português.
E também ao forum sede. E ainda ao azeite e azia. E já agora ao esquerda republicana.

15.1.06

Sabedoria popular.

A água da Fonte do Peso tinha isótopos radioactivos em tal densidade que nem se dignavam a aparecer totalmente no espectrómetro. O laboratório de análises químicas enviou uma amostra para o CERN, onde foi sujeita aos desmandos do acelerador de partículas e embasbacou Bohrs e Einsenbergs. Nunca se tinha visto uma concentração em estado líquido de energia atómica com tanta pujança demolidora. O caso faria as delícias da administração Bush, se ocorresse no Iraque. Como aconteceu em Vinhais da Bordaleja, deixou indiferente o povo e em particular a tia Isaura, que continuou a beber um litro e meio por dia:

“Bebo desta água desde que era gaiata: a minha mãe sempre ma deu! Tenho hoje oitenta anos e continuo a apascentar as vacas e a cozer o meu pão. E agora, ao fim deste tempo todo é que vindes cá atemorizar a gente? Olhai alí para cima, para o cabeço: vêdes aquele altarzinho, com uma santinha? É a Nossa Senhora da Bordaleja, que protege esta fonte e que vela por nós. Então e vós achais que a Nossa Senhora ia permitir que acontecesse algum mal a quem bebe desta água abençoada? Achais? Ide para vossas casas, incréus, e rezai pelas vossas alminhas, que muito padecereis no inferno”.

(Adaptado, muito livremente, de um documentário).

Quioto, Japão.

O quadrado hilariante.

Haverá ainda quem não conheça o blog de apoio à candidatura de Manuel Alegre? Nele pontificam alguns notáveis da velha esquerda aturdida que durante décadas tem feito as vezes de reserva moral do PS. Ou seja, é mais um infortúnio que devemos à ética estreita de Pina Moura e de muitos amigos da família Barroso.

Mas o que me prende ao "Quadrado" (chama-se assim o blog) é o seu tom involuntariamente cómico. Leia-se por exemplo este post de Helena Roseta:
Cavaco e as crianças.
Tivemos 48 anos de manipulação de mentalidades desde a escola primária. Salazar gostava de aparecer em fotografias rodeado de criancinhas. Não haverá ninguém que explique ao staff da candidatura de Cavaco Silva que a utilização de crianças para fins eleitorais é um abuso e um atentado aos seus direitos? Haja decência.
Helena Roseta não deve ter notado a multidão de bebés gordinhos, de faces rubicundas, que se deixaram beliscar pelos seus camaradas de partido desde o 25 de Abril até agora. Alguns foram contratados por Jorge Coelho e acabaram por ficar na juventude socialista, onde hoje são pagos pela Galp Energia e pela Caixa Geral de Depósitos. António José Seguro, antes de ser uma glória soporífera, deve ter começado assim. De resto, se Helena Roseta queria exigir a alguém que se mantivesse afastado das crianças, podia ter começado por Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues - pelo menos poupavam-se uns boatos e aligeirava-se o trabalho do Ministério Público.

Outra fonte de irreprimíveis gargalhadas é a caixa de comentários do blog. Aqui está apenas um exemplo da autoria do fulgurante José Sá, desconhecido ilustre:
Manuel Alegre (...) assume uma candidatura limpa e sem peias amordaçantes, norteada pelo farol chamado Cultura e sem prévias hipotecas que redundariam em "pagamentos de facturas" sempre de mau tom. (...)É impressionante assistir à entronização beata e estereotipada de um cavaquismo rançoso e monolítico que no império da banalidade vai assentando arraiais, para gáudio e pasmo de uma fauna de nefelifatas vogando nas núvens da apetência por comendas e prebendas, qual engodo perfumado pela mirra dos magos da alta finança. Tudo serve para incensar o grande taumaturgo, o milagreiro das mãos de ouro, o Midas da economia, o mago das finanças, o "jongleur" da retórica e da demagogia (...) Agora, hipocritamente, até defende os desempregados (na mira de lhes aliciar o voto... estranho assédio este... o olhar hipnótico da víbora seduzindo a vítima para o sinistro ágape!), tudo assente numa estratégia de hipocrisia e exploração da credulidade.
As "peias amordaçantes" (e porque não as poias?), o "farol da cultura", os "nefelifatas", o "sinistro ágape"... A erva deve andar boa, lá em Guimarães! Desde Alcácer Quibir que a pátria não via tantos tolos reunidos à volta de um desnorteado. Por falar nisso, onde andará o dom Duarte de Bragança? Candidate-se, homem! Talvez não ganhasse, mas sempre ia à segunda volta.

Os portugueses (retratos-robô): Armindo.

Um metro e setenta, oitenta e três quilos, quarenta e oito anos, bacharelato em económicas, casado, um filho de desanove e uma filha de vinte e quatro anos, apartamento de cinco divisões em Benfica, BMW Série 3, segunda casa perto de Leiria. Armindo é sócio do SLB e frequentador do café “Arabesco”. Há um grupo de amigos no bairro, com quem vai ocasionalmente ao futebol. A mulher é professora primária, os filhos estudam arquitectura e comunicação social.

Armindo tem uma pequena empresa de contabilidade, no Conde Redondo. Uma ou duas vezes por semana fica a trabalhar até tarde, e no final de cada trimestre perde um domingo. Já acompanhou clientes ao Elefante Branco e ao Gallery, mas nunca consumiu - com excepção de uma preta que lhe custou cem contos em moeda antiga, mas foi a foda do século, com direito aos três pratos, embora sem recibo. Tem alguma pena que as putas não façam retenção na fonte, pois poderiam pagar-lhe em géneros.

Nas noites em que fazia serão acontecia-lhe passar com certo alheamento pelo Parque Eduardo VII, onde metia no carro o Raúl, quando estava livre, ou o pequeno Bernardo, que tinha nome de beto mas era do Casal Ventoso - embora as feições trigueiras e o cabelo à surfista não desmerecessem a baía de Cascais. Preferia o Raúl, porque era mais velhinho: como contabilista não lhe convinha ser acusado de cometer ilegalidades, já bastava o que bastava. Nessa altura ficou a saber muito da vida dos deputados e dos ministros.

Quando começou o processo Casa Pia, deixou-se de aventuras. Não acreditava que os miúdos se traumatizavam por causa de uma mamada - mas cautela e caldos de galinha, como dizia a sua mãe. Agora fica pelo Conde Redondo e guarda o telemóvel de dois ou três travestis a quem dá umas pinocadas quando lhe apetece. No fim de contas, são umas boas enrabadelas, sempre com preservativo (elas exigem!) e de costas viradas para a parede, pois nunca gostou de paneleiragens. É católico não praticante, alinha com o PSD e diz que vota em Cavaco Silva, para pôr na ordem esta bandalheira.

Nota: começa aqui uma série dedicada ao retrato-robô dos portugueses típicos. Espero que gostem.

14.1.06

Nikko, Japão.


Em Setembro de 2004 fui sacudido por dois terramotos em Quioto. Julguei que ia morrer, mas desde essa altura, sempre que oiço falar em sismos fico com uma enorme nostalgia do Japão. Nikko é uma cidade histórica, repleta de crianças como estas, que se deixam fotografar entre ruínas. A imagem é minha (confesso-o sem orgulho).

Os melhores livros de 2005.

Foram anunciados por Francisco José Viegas e divulgados hoje no Público os melhores livros de 2005.

No ensaio, fiquei contente por ter sido distinguido o belo livro de Rui Tavares sobre o terramoto, pois conheci brevemente o historiador, com quem simpatizei. Estão presentes na mesma categoria dois autores que só li em inglês: Steiner, que admiro muito, e Mencken, que me espanta ver nesta lista. Mencken é, se não me engano, o pai espiritual de Vasco Pulido Valente - um autor corrosivo que incendiou a América de meados do Século XX. Vale a pena lê-lo em extensão.

Na poesia, chamou-me a atenção mais uma vez a crescente popularidade de Kavafis, que hoje em dia vejo citado a despropósito (até por Durão Barroso). Esse poeta dos poetas (como alguém chamou a Dante) percorreu um longo caminho desde que foi traduzido por Durrel no seu Quarteto de Alexandria. Suspeito que a nossa Sophia de Mello Breyner lhe deve alguma coisa; e também gostei muito da tradução que dele fez Jorge de Sena (bem mais legível, embora talvez menos literal, do que a encetada por Joaquim Manuel Magalhães). Lembro-me recorrentemente da "Cidade" e do poema "O Deus abandona Marco António". Com Kavafis, Lisboa nunca andou tão próxima da Grécia e do Egipto.

No que respeita à ficção estrangeira desiludiu-me que Sábado de McEwan estivesse tão bem colocado (é um exercício de virtuosismo pedante e árido), e que as Memórias das Minhas Putas Tristes andasse tão no fim da tabela. Quem leu a Casa das Belas Adormecidas, de Kawabata, sabe que o livro de Garcia Marquez é uma homenagem belíssima que um velho faz a outro. Sebald, em terceiro lugar, foi a grande descoberta literária dos anos mais recentes - pertence a essa maravilhosa tradição centro-europeia que inclui Musil, Broch, Gombrowicz, Schnitzler e Bernhard - e com excepção de Musil, que foi um génio, não desmerece nenhum deles. Coetzee, o enigmático desenraizado que eu imagino num país sempre diferente, aparece aqui com um "No coração desta terra". Será o Dusklands? Enfim, esta lista parece-me bastante desigual, mas não tem nenhum livro francamente mau. Andam distraídos, felizmente, os admiradores de Paulo Coelho.

Finalmente, no que respeita à ficção portuguesa confesso total ignorância, que não me lisongeia: desconheço qualquer dos livros que faz parte da lista. Mas é uma lacuna que vou corrigir.


Nota: estranhei a ausência de "la possibilité d'une île" do Houellebecq. O autor, exasperante, desagradável e cheio de tiques de escritor maldito, não deixa de ter uma obra muito interessante.

Mais vale tarde.

Segundo Luis Raínha (ver post anterior), Clara Pinto Correia refere-se agora ao seu plágio como "plágio". Ficamos felizes por saber que ela aprendeu, finalmente, a usar aspas.

Clara Pinto Correia e Francisco Louçã: a mesma luta?

Mais um caso de plágio. O pobre Luis Raínha já se considera "o pai do monstro".

E então, mudamos para a TVI?

13.1.06

Um post abrupto sobre o Irão.

Os ex-radicais de esquerda (a que hoje em dia chamamos, por exemplo, neoconservadores) possuem normalmente dois defeitos:
  1. Acreditam que a vontade de um punhado de homens é capaz de mudar o mundo.
  2. Nunca reconhecem um erro.
Ambas as limitações são, de resto, partilhadas pelos alquebrados comunistas que sobreviveram a custo ao muro de Berlim. E por falar nisso, o que estará a pensar o autor da biografia de Álvaro Cunhal a respeito do que se passa no Irão? Agora que a América foi humilhada no Iraque, não tem um pingo de autoridade, se atolou em dívidas e permite ao país dos Ayatolas desenvolver o armamento nuclear sem dar muita importância às inofensivas reticências da administração Bush, será que Pacheco Pereira já se arrependeu do apoio que manifestou à Tempestade no Deserto? Claro que não se arrependeu. Seria não conhecer um esquerdista, ou melhor ainda, um ex-esquerdista.

O melhor da política é ser tão previsivel #2.

Ao contrário das Ministras da Cultura, que duram geralmente um ano no seu cargo, os Procuradores da República arrastam-se penosamente pela Rua da Escola Politécnica até já não saberem bem (se é que alguma vez souberam) o que foram lá fazer. De vez em quando são "chamados" pelo Presidente para discutirem um assunto menor, como as escutas telefónicas ao mais alto magistrado da nação. De resto é uma vida sossegada, sem segredos, principalmente de Justiça, que raramente é perturbada pelas vociferações da imprensa ou dos populares, e muito menos por uma demissão. Há cargos mais bem pagos. Mas poucos são tão tranquilos.

Hoje acordei assim.




(Ou as coisas que alguém que não gosta de "soaristas" é capaz de fazer numa campanha eleitoral).

P.S.: para os menos habituados à blogosfera, o título é uma citação.

Para que serve um blog?

Para aprender a escrever. Benvindos à primária. Perdão, bem-vindos.

12.1.06

Diários: Isabel.


"Nas tardes de Sábado costumava entrar na discoteca Roma e pedir que me escolhessem uma música. Descrevia as emoções que gostaria que me provocasse - e ouvia a música que o empregado seleccionava para mim. Se ele tivesse sido perpicaz, eu comprava o disco. Se não, regressava no Sábado seguinte."

Blogs: do Irão.

No metablog:
"o resultado mais provável de um ataque militar seria o fortalecimento do actual regime. No verão passado estive no Irão, e pelo que vi e ouvi, um ataque militar -sobretudo americano- destruiria toda e qualquer possibilidade de democratização do país, que, face a um ataque exterior, perderia o apoio popular (a guerra Irão-Iraque foi fundamental para a consolidação do poder de Khomeni e destruiu a oposição que restava à sua revolução islâmica). A questão parece-me ser sobretudo política, e depende da capacidade de viabilizar o precário (principalmente após o desânimo generalizado -a maioria dos jovens com quem falei deixou de votar- criado pela presidencia de Khatami) movimento pró-democracia que encontra um enorme apoio entre os jovens e élites Iranianas."

Já agora, uma nota pessoal: é agradável ler o João Galamba a referir-se àquilo que viveu e não apenas ao que pensou.

Gore Vidal inédito na "Harvard Review".

Não conhecia esta revista literária, que vai ficar na estante ao lado de publicações tão improváveis como The Kenyon Review e a saudosa Zyzzyva.

Neste número há um conto inédito de Gore Vidal que Tennessee Williams lhe pediu para não publicar (revelava um segredo de família); um ensaio interessante a respeito da Lapónia (com uma digressão sobre as relações entre a rainha Cristina da Suécia e o filósofo Descartes); e também muita poesia, de boa qualidade.

Pisar a bandeira.

FNV no Mar Salgado:
SERMÃO ENCOMENDADO: Primeiro foi o ex-combatente, agora foi a mulherzinha que jura ter visto Soares a espezinhar a bandeira portuguesa em...Espanha. Cheira a podre, sabe a podre, é podre. Soares tem aguentado com galhardia e infinta paciência, mas pior, muito pior, é quererem-nos fazer crer que estes cromos são espontâneos.
Onde é que eles estavam em 1991?

Não creio que sejam "espontâneos", mas também não acredito que se coordenem. Para esta gente, a campanha eleitoral é um "Big Brother" como outro qualquer. Mais uma oportunidade para aparecer na TV, que eles aproveitam com a emoção das coisas raras.

Teaser.

Dia 22, este blog estará um bocadinho diferente.

Um bom dia para quem usa Mac.

Eu não sabia, mas já saiu o Google Earth para o sistema 10.4! É lindo! É mesmo muito giro! Finalmente! (Podem rir, miseráveis utilizadores de PC).

Vida urbana #1.

Tinha um sono tão pesado, que um dia acordou na cama da vizinha de baixo.

11.1.06

"Village", por Julian Opie.


Salvo referência em contrário, as obras que proximamente mostrar aqui pertencem à colecção Berardo. Acho importante contribuir para que o país tenha uma relação mais saudável com a arte contemporânea.

Santana Lopes diz que Cavaco é instável.

E desta vez, todos os candidatos da esquerda parecem concordar com ele. Como é perversa a nossa relação com a verdade.

Será que vou ouvir o Toy e comover-me com a Linda de Suza?

(Estamos só a onze dias das presidenciais).

O melhor da política é a previsibilidade.

Há cerca de dez meses que o Governo está em funções. Se tudo correr normalmente, daqui a dois acaba o prazo da Ministra da Cultura.

10.1.06

"Oedipus and the Sphinx after Ingres", por Francis Bacon.







Adivinhem onde está.

Eu no (suspiro) ginásio.

Por um qualquer processo insidioso, os ginásios lisboetas descobriram a minha afeição à lampreia de ovos e ao bolo-rei: este natal, enviaram-me dois convites para engrossar as radiosas fileiras do "Clube VII" e do "Holmes Place".

O primeiro, no Parque Eduardo VII, rescende a "prestígio" e a "exclusividade": é o paraíso das classes médias, cobertas de gadgets, atoladas em dívidas e cheias de si. O segundo é o éden resplandecente das secretárias e dos gerentes de loja. Escolhendo entre dois males, alistei-me no Holmes Place.

Devem ganhar bem, as secretárias, porque o clube não é barato. Noventa e tal euros para saltar e para suar! Se eu fosse um cliente "corporativo", esclareceu a simpática funcionária, acumularia vantagens, delicadezas e prebendas. Como não sou, dão-me dois meses de graça ao completar o primeiro ano de padecimento. Deve ser assim que se motivam as almas no inferno.

A meio da tarde recebi uma chamada do meu "personal trainer", que é, suponho, um professor de ginástica disfarçado de chauffeur. Como não possuia um "atestado", fui recebido pelo médico do clube, homem razoável que me fez um exame perfunctório e declarou a minha robustez com equanimidade.

Voltei à recepção, onde várias jovens, de camisola vermelha, envergavam slogans do tipo "quer emagrecer, pergunte-me como". Na companhia de uma daquelas beldades eu saberia como, mas achei que não era ocasião para ser demasiado gráfico.

Ao fim de uma ou duas horas a prencher papéis, voltei para casa, esgotado mas feliz. É saudável, isto do ginásio.

Alguém sabe como se aluga um contentor?

(Faltam apenas 12 dias para as presidenciais).

O plano comunista.

  1. Alegre cita Cunhal.
  2. Cavaco canta a "Vila Morena".
  3. Jerónimo ganha as eleições.

9.1.06

"L'écrasement de la Balle contre la Raque", por Valerio Adami.






Na colecção Berardo, como sempre.

O Diário de Notícias está muito diferente.

Hoje, tive hoje o privilégio de descobrir por lá um artigo do Luis Delgado e outro do João César das Neves. Na última página deliciei-me com um bonito texto anti-Cavaco da Joana Amaral Dias. Coisa nunca vista, portanto.

Clara Pinto Correia desaprova Portugal.

No final da semana passada Luís Delgado deu o mote, sempre gracioso, chamando a Portugal a nódoa negra da Europa. No sábado chegaram-nos as vociferações de Miguel Sousa Tavares, muito apropriadas à autoridade que lhe confere esse ne plus ultra da excelência informativa chamado Expresso. Em seguida, o talentoso Rui Pêgo decidiu partilhar com a pátria embasbacada a sua visão apocalíptica de um país atrasado e absolutamente boçal. Até Helena Sacadura Cabral, admoestando docemente os leitores do Diário de Notícias, sublinhou numa escrita vaporosa que nenhum país cresce sem trabalho e sem esforço.

Por esta altura eu já fazia contas de cabeça e aguardava pela proverbial catilinária da Maria de Fátima Bonifácio, vergastando como o Arcanjo Gabriel a nossa incorrigível Babilónia nas páginas centrais do Público. Em vez disso, porém, quando abri hoje o matutino encontrei uma pequena citação da Clara Pinto Correia, extraída do 24 Horas:

Portugal está a ficar cada vez mais igual à América nas coisas más, sem absorver nenhuma das coisas boas.

De que se queixa, afinal, Clara Pinto Correia? Não sei muito bem, porque não li o artigo inteiro (o leitor não esperava certamente que eu comprasse o 24 Horas). Mas hoje resolvi dedicar-me a um pequeno exercício de imaginação. Creio que a versátil bióloga, universitária e tradutora deve lamentar o seguinte:

- Que em Portugal, como na América, se fale e leia em inglês (exceptuemos Miami, esse preciosismo).
- Que as élites sejam cada vez mais receptivas ao que se escreve no outro lado do Atlântico. Como eram amáveis os tempos da francofonia e do Cahiers du Cinema, em que ninguém lia revistas americanas!
- Que em qualquer boteco da província se encontrem exemplares actualizados da London Review of Books, da Granta e da Vanity Fair. Por onde andará, hoje em dia, o cosmopolita Jornal de Letras?
- Que os portugueses gastem dinheiro com essas futilidades, em vez de comprarem o jornal onde ela escreve.
- Que se dê uma importância desproporcionada à originalidade e às questões da autoria.

Clara Pinto Correia deve considerar deplorável que as nossas classes médias, cada vez mais estrangeiradas, tenham perdido a afeição ao vinho, à tourada, à matança do porco, ao analfabetismo e às outras pequenas glórias da lusitanidade. Qualquer dia, por este andar, lemos todos a New Yorker para saber o que se passa em Portugal!

A pequena viagem que fiz pela imprensa esta manhã só comprovou o que eu temia, mas ainda não tinha interiorizado: os comentadores e o povo andam de costas voltadas. Resta saber se devemos demitir os jornalistas ou o país.

"Lounge chair" e otomana Eames quase velhas, bom preço.

(Faltam apenas 13 dias para as presidenciais).

8.1.06

"Lit Window", por Patrick Caulfield.









Na colecção Berardo.

"Um dos traumas da ficção portuguesa é o sexo foleiro".

Ler "Tomás quase se engasgou", no blog do Pedro Mexia. Não conheço a novela do Rodrigo dos Santos, que imagino como uma bela fantasia entre "céus plúmbeos" e gente desocupada, na linha de Cascais.

Alugo T2, quase novo, no centro de Lisboa.

(Faltam apenas 14 dias para as presidenciais).

7.1.06

Plant Delta, por Nigel Henderson.




Na colecção Berardo, claro.

O grande equívoco a respeito da inveja.

Periodicamente surge em Portugal alguém que se agita contra a inveja dos outros. Não encontro nada de errado nessas investidas, que por motivos pessoais costumam colher a minha solidariedade. O que já me parece desajeitada é a tendência universal para considerar a inveja uma emoção "má", o pecado mortal por excelência, o único sentimento indesculpável que nos resta para além da atracção por criancinhas. Ora, não existem "emoções más". Existem, sim, emoções descontroladas e reprimidas. No entanto é fácil esquecer este bê-á-bá da psicologia. Tenho notado que o modo desabrido como alguns dos nossos conterrâneos rejeitam a inveja, a sua, a dos outros, qualquer inveja, tem muitas vezes o efeito de a alimentar, do mesmo modo que um homofóbico parece tantas vezes sentir desejo pelo objecto da sua raiva, ou um ateu pode viver com uma intensidade quase mística o seu ódio à religião. Não estou, também eu, a querer condenar ninguém, apenas a sugerir que são tortuosos os atalhos para as nossas emoções.

Muito se disse sobre Eduardo Prado Coelho, mas nunca ninguém foi tão

Ano novo, Vita Nuova.

A causa foi modificada recordou-me hoje o "Vita Nuova" de Dante. Não é todos os dias que alguém chamado maradona nos dá a ler isto:

Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.
Poi la svegliava, e d'esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo.

O tiro no pé.

Mários Soares abraçado a Valentim Loureiro. Não sei se me comova ou se comece a chorar.

"Bildnis Helmut Klinker", por Sigmar Polke.










No sítio do costume.

Passaporte, bússola, cantil, repelente de insectos...

(Faltam apenas 15 dias para as presidenciais).

6.1.06

Benza-o Nosso Senhor.

É já no fim do mês que o senhor professor salva o país das forças de bloqueio que nos abalam (esta força de bloqueio, pelo seu turno, vai abalar).

Justiça cósmica #2.

Se o mundo fosse justo, milhões de portugueses abririam lojas dos trezentos em Pequim.

Justiça cósmica #1.

Se o mundo fosse justo, Angelina Jolie e Brad Pitt teriam um filho muito feio.

Cumplicidades.

O Sampaio também se está a despedir de Portugal.

"Pater", por Jean-Michel Basquiat.


Como já adivinham, é uma obra da colecção Berardo.

Santana Lopes faz cá falta.

Todos estão a crescer, e a arrancar em força, e nós, uma vez mais, vamos descendo as escadas, sem saber quando invertemos essa marcha. Portugal é a nódoa negra da Europa.
Luis Delgado, no DN.

Boas contas.

Será que está frio, na Islândia?

(Faltam apenas 16 dias para as presidenciais).

5.1.06

"Tot Negre amb Clivelles", por Antoni Tàpies.

Da colecção Berardo, para Portugal.

Mas afinal, o que é que defende este blog?

Às vezes coloco-me na pele de um dos leitores (nomeadamente a dona Maria, da Póvoa de Varzim) e fico sem saber muito bem o que pensar da minha augusta pessoa. Quem sou? Onde estou? O que acho da vida? Sou religioso? E o que tem a dona Maria a ver com isso?

Para quem sente a falta de uma "linha editorial", julgo que a minha visão do mundo, resumida neste blog, se pode exprimir assim: no que respeita aos temas "fracturantes", concordo em geral com o Bloco de Esquerda. No que respeita à Economia, concordo em particular com o senhor professor António Borges. Isto quer dizer que:

Por um lado, apoio a despenalização do aborto, sou a favor do uso legal das drogas leves (e duras, a partir dos dezoito anos), concordo com a eutanásia, digo sim ao casamento e adopção de crianças por homossexuais, revejo-me nos protocolos de Quioto, recomendo o preservativo e anseio pela separação (a sério) entre o Estado e as Igrejas.

Por outro lado, sou totalmente a favor da globalização, contra a regulamentação das rendas de casa, considero absurdo que o Estado possua "empresas", manifesto o meu incómodo perante as grandes obras públicas (particularmente as ligadas ao futebol), acho que temos, sim, funcionários públicos a mais, concordo que é rígida a nossa legislação laboral, sou contra a intervenção do governo em qualquer ramo da economia, e acredito que há um enjoativo excesso de "direitos" na cabeça da maior parte dos portugueses.

Agora o problema: em que partido é que alguém como eu vota nas legislativas? Talvez possam compreender, finalmente, porque chamei a este blog "o Franco Atirador".

Eu já tenho o meu bilhete de avião.

(Faltam apenas 17 dias para as presidenciais).

Interior with Restful Paintings, por Roy Lichtenstein.

Mais uma obra da colecção Berardo, que poderemos continuar a ver em Portugal.

4.1.06

As inquietações dos leitores: "em quem votar?"

Escreve-nos uma leitora do Bombarral:

Querido Franco Atirador ,
Estou indecisa. Gosto da tranquilidade de um Mário Soares, do sentido de humor de um Manuel Alegre, da inteligência de um Jerónimo de Sousa e da poesia de um Francisco Louçã. Em quem devo votar?
Maria Lúcia.

Querida Maria Lúcia,
No seu lugar, trocaria tudo pela bonomia e o cosmopolitismo de um Cavaco Silva.

Há vida inteligente no Pulo do Lobo.

Façam um exercício: leiam um post do Pulo do Lobo sem olhar para quem o redigiu. Se em nome do seu brilho lhe perdoarem a opinião, é porque foi escrito pelo Pedro Picoito. Tenho rido muito com estas, estas e estas reflexões. Podemos desculpar tudo a um adversário, desde que tenha espírito.

3.1.06

De quem é o dinheiro da campanha de Cavaco Silva?

Aníbal Cavaco Silva critica os outros candidatos à Presidência por receberem dinheiro dos partidos que os apoiam. A esse respeito, ninguém lhe pode apontar o dedo, pois Cavaco é exclusivamente apoiado por particulares. Mas talvez agora seja a altura de nos revelar quem são, esses particulares. Ou só nos resta acreditar no que se diz por aí.

O Luís do Mal.

No Aspirina B, o Luís Raínha tem dedicado os últimos dias à tarefa higiénica e deliciosa de aterrorizar plagiadores. Dedica também, en passant, um post à tentação pesporrente de usar termos difíceis: neste caso a vítima é o Prado Coelho, com a sua predilecção discutível pela palavra "glauco". Ainda bem que não sou um blogger famoso, ou teria pesadelos só de pensar nos danos que o Luís poderia inflingir às minhas aspas, aos meus itálicos e às minhas deploráveis expressões francesas. Para nem falar no uso de termos como "pesporrente".

Happy Valley II, por Andreas Gursky.


Mais uma peça da colecção Berardo, felizmente em Portugal.

2.1.06

O repugnante país do futebol.

Parece que um tal Moreto ia para o Benfica contra a vontade do Porto, ou para o Porto contra a vontade do Benfica, e que a sua intenção ocasionou tal controvérsia que os responsáveis dos clubes se estraçalharam num aeroporto, perturbando a ordem pública sem que a polícia, que estava presente, tivesse esboçado um gesto. As televisões, como é costume, estão a atribuir a esta vergonha a importância equivalente à de um pequeno ataque nuclear, ainda que, aparentemente, ninguém queira saber porque é que esta gente não foi presa, multada, demitida ou, pelo menos, repreendida.

A SIC Notícias e a RTP N, em particular, parecem nunca ter compreendido que uma grande parte do nosso povo não gosta de futebol, nem simpatiza com as patéticas baixezas que cometem os seus irresponsáveis. Mais: existem pessoas em Portugal que não consideram Pinto da Costa, ou as tristes quadrilhas que em Lisboa vituperam contra ele, inimputáveis. Claro que os partidos políticos, entregues aos Valentins do costume, não ajudam a iluminar o espírito crítico dos nossos jornalistas. Mas era bom que, para variar, alguém na comunicação social pelo menos fingisse que não estamos na Colômbia, e tivesse a delicadeza de perguntar à polícia, ao procurador, aos ministros, ou a quem for preciso, o que é que vai, afinal, acontecer a estas pessoas. Os portugueses normais agradeciam.

Frase de ano novo.

"Com estas migas, quem precisa de inimigas?"

Looking, por Michael Craig-Martin.


Uma peça da Colecção Berardo para manifestar o meu apoio a quem, ao contrário de Helena Matos, "compreende" por que motivos vale a pena manter quatro mil obras da melhor arte contemporânea em Portugal. Não deixem de ler o que se diz no Aspirina B e no Da literatura a este respeito. E já agora, os meus parabéns ao segundo, pelo aniversário.

Por falar em traição (III).

Em Roma, onde me encontrava só, recebi um telefonema da X a declarar que decidira visitar-me. Revelei-lhe o meu entusiasmo e perguntei quando vinha. Ao meio-dia, retorquiu-me. Mas era já uma da tarde, esclareci-a. Ela afectou surpresa, eu detectei um artifício. Inquiri onde estava. Respondeu que num hotel. Onde se erguia esse hotel? Em frente ao parlamento. Quem lho recomendara? Um amigo. Como era o bar? Pedante. A vista? Sofrível. O quarto? Decente. A companhia? Excelente. O andar? Por cima do meu.

Resta esclarecer, para evitar um incidente, que a X viajava sob o amparo de um chaperon, e que enquanto esteve comigo, na Cidade Eterna, nunca deixou de pensar no eterno amor que a unia ao seu marido (hoje em dia, ex-marido). Apesar disso a ocasião era irresistivelmente romântica. Passámos o resto da tarde a provar os sabores da Giolitti e jantámos pizza no Trastevere. No dia seguinte regressei, com ela, à Villa Borghese, inaugurando uma ardente vocação de guia turístico, que ainda persiste.

Aí lhe revelei os segredos da escultura de Canova e a relação da maçã empunhada por Pauline Bonaparte com aquela que, no tecto da mesma sala, é entregue por Páris a Afrodite. Em seguida, para acabar de modo memorável a palestra, tirei do bolso um dos frutos de mármore de Maurizio Grossi e coloquei-o na sua mão.

O que é que isto tem a ver com traições? Pela parte da minha amiga, absolutamente nada. Mas eu, pecador, ainda vos confesso um imperdoável frisson.

Resolução para 2006.

Ser, finalmente, bom.

Como se chama a um blog no ano novo?

Bleurgh!

Leituras: Thomas Mann.

Talvez ainda consigam encontrar, na FNAC, uma das melhores surpresas que tive no Natal. O primeiro volume dos diários de Thomas Mann narra a torturada sobrevivência do escritor nos anos de 1918 a 1921 e de 1933 a 1939. Para quem estiver distraído, refiro-me ao periodo que se seguiu à primeira Grande Guerra e ao que coincidiu com a ascenção do nazismo. Era estranha e errante a vida daqueles tempos, e mesmo que o livro não fosse escrito por quem foi, valeria a pena. Na imagem podem reconhecer o segundo volume, que respeita aos anos do pós-guerra.