31.1.06

A decadência.

Podemos ver o fenómeno localizadamente. O Hamas ganhou na Palestina. Ahmadinejad quer construir a bomba no Irão. E o Iraque, mais tarde ou mais cedo, será depositado com evidente ternura nas mãos capazes do radicalismo islâmico. Junte-se a isto a podridão dinástica da Arábia Saudita e o motim inevitável no Egipto, e torna-se muito fácil prever outro holocausto desmoralizador.

Ou então, podemos recuar um pouco, e acrescentar a este cenário o populismo bolivariano de Hugo Chavez (que tanto entusiasma a nossa patética esquerda), ou a vitória eleitoral de Evo Morales, o dos produtores de coca da Bolívia, que modestamente se chama a si próprio o pior pesadelo dos Estados Unidos. Lula e a senhora que ganhou no Chile não são, felizmente, para aqui chamados.

Depois de anos a proclamar as amenidades da Democracia, o Ocidente parece estar disposto a viver de acordo com os seus preconceitos, e a entregar, muito democraticamente, o governo dos seus antigos aliados a demagogos (na América do Sul) ou a assassínos (no Médio Oriente). Claro que tudo isso é feito sob os doces protestos da Administração Bush e da senhora Merkel, para alegria do povo ignaro na grande Nação Islâmica.

Mas agora recuemos ainda mais. E veremos, lá ao fundo, um território próspero, que nunca dividiu a Arábia nem patrocinou ditaduras sanguinárias na América Latina. Que nunca procurou impôr, nem uma religião, nem um regime, aos países do Terceiro Mundo. Que nunca ocupou ninguém, a não ser os remotos tibetanos. E que ao comprar biliões de dólares, ao longo desta década, tem financiado os vícios perdulários dos Estados Unidos, tal como os Fugger financiaram os vícios perdulários dos Habsburgos. É um país optimista e prático, que precisa muito de petróleo e, evidentemente, se está nas tintas para a democracia.

Apesar dos apertos em que o mundo se meteu, vão ver que tudo acabará por correr bem. Não para nós, mas para eles.

(Enquanto isso, a nossa esquerda exige, nas ruas, uma outra globalização).

6 Comments:

Blogger Ricardo Alves said...

Compreendo a ideia, mas quer o Chávez quer o Morales poderão sair no final dos respectivos mandatos, assim as oposições os derrotem. Não se pode dizer o mesmo da outra rapaziada (com a excepção do Ahmadinejad, mas não sei se nesse caso fará grande diferença ir para lá outro...)

2:42 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Tive um professor de Ciência Política, o Jorge Miranda, que dizia que as constituições da América Latina davam muito poder aos seus presidentes. Mas por isso atribuiam-lhes apenas um mandato. Isto ouvi há uns quinze anos e não creio que seja ainda verdade. Não acredtio que o Chavez saia de lá tão cedo. De qualquer modo anoto a objecção.

6:13 da tarde  
Blogger R. said...

Concordo com o exposto no post, aliás porque se trata de uma constatação. Mas, também por isso, que pode/deve o Ocidente fazer? E a esquerda, para além de "exigir" uma outra globalização?

9:59 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

De que é que valeu aos tecelões ingleses protestarem contra a mecanização? Enquanto a Europa protesta, a economia mundial cresce. O caminho é óbvio, e isto também é uma constatação.

11:23 da tarde  
Anonymous Pierre said...

"Depois de anos a proclamar as amenidades da Democracia, o Ocidente parece estar disposto a viver de acordo com os seus preconceitos, e a entregar, muito democraticamente, o governo dos seus antigos aliados a demagogos (na América do Sul) ou a assassínos (no Médio Oriente)."

Pois é, antes eram assassinos na américa latina e demagogos no médio oriente.

E porque é que o Ocidente tem que entregar alguma coisa?

12:33 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

"Pois é, antes eram assassinos na américa latina e demagogos no médio oriente."

Foi isso que eu também disse. Era só ler com boa fé:

"E veremos, lá ao fundo, um território próspero, que nunca dividiu a Arábia nem patrocinou ditaduras sanguinárias na América Latina. "

Mas aparentemente, agora, há quem esteja muito feliz com essa simples inversão,

12:46 da manhã  

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