18.1.06

Evangelhos apócrifos.

Foi há muito tempo: antes da rodagem do carro, antes do Pulo-do-Lobo, antes dos convénios com a Divina Providência.

Um advogado lisboeta muito influente estava de férias na Quinta do Lago, em meados de Agosto, à hora da canícula, com um gin tónico na mão e os pés numa piscina. Após mais um mergulho encostou-se aos azulejos, de água pelo pescoço, a ouvir as cigarras e a inspirar a maresia, quando a empregada lhe anunciou visitas.

- Quem são? – perguntou.
- Um casal. Entregaram este cartão.

Sem paciência para ler, o advogado saiu da água penosamente e dirigiu-se à sala, enfastiado. Quando aí entrou, não reprimiu um sorriso. Entre as suas cadeiras de verga e as fortuitas chitas estivais, estava uma caricatura da velha inglaterra, provinciana e fruste: um homem delgado, fardado de smoking, suava em bica sob o calor das três da tarde. Ao seu lado rutilava uma burguesinha afectada e desejosa de agradar, com uma irremediável toillete em ton sur ton. Pareciam noivos; ou vendedores de enciclopédias absurdamente bem vestidos. Seriam testemunhas de Jeová? Um pouco a medo, o dono da casa balbuciou:

- Com quem tenho o prazer?…

O sujeito do smoking e a esposa entreolharam-se, pensando talvez no cartão. Mas recuperaram depressa o sangue-frio - em três passadas rígidas o homem aproximou-se dele, hirto como um boneco, estendeu-lhe mecanicamente o braço e anunciou com pompa:

- Aníbal Cavaco Silva, doutorado em York.

O advogado parou para respirar. Depois, limpou brevemente a mão aos calções de banho húmidos e retibuiu-lhe o cumprimento:

- André Gonçalves Pereira. Banhista.


NOTA POSTERIOR: Disseram-me, alguns dias após ter escrito este post, que o "banhista" em questão tinha outro nome. Poderia mudar o post, mas decidi mantê-lo tal como está. Encarem a verdadeira identidade deste protagonista como um pormenor ficcional.

10 Comments:

Blogger Nancy Brown said...

e pretendía o quê o desconhecido casal? aprender a nadar?

12:58 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Não, Nancy Brown, o casal queria preparar uma rodagem improvisada.

1:01 da tarde  
Anonymous justiciero español said...

Inexplicable mania tuga de criticar a dos buenas personas: profesor Cavaco y dr. Pina.....

1:36 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

André Gonçalves Pereira é um homem mundano e rico. Cavaco é um homem simples e de famílias pobres. Nada mais natural que a timidez e falta de naturalidade de quem tem de entrar em meios sociais diferentes do seu. Este post é arrogante, snob e pretensioso. Lembro que são pessoas parecidas com o casal Cavaco que ocupam o nº 10 de Downing street. Nem todos têm o desprezo típico provinciano pelos ricos e elegantes que Salazar tinha!

8:41 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Anónimo, como a sua crítica foi educada eu respondo-lhe: é o casal Cavaco, não sou eu, quem emula Salazar. Por outro lado, quem se arma em homem providencial merece todas as críticas, mesmo que sejam "arrogantes, snobs e pretensiosas". Ninguém é obrigado a ler-me: este blog tem uma dose de selvajaria que não vai mudar só porque um leitor não gosta. Principalmente se for anónimo. Aprenda a assinar e depois dê-me lições.

9:05 da tarde  
Anonymous Teixeira Alves said...

O anónimo responde.
Não pretendo dar lições a ninguém.
Cavaco Silva merece todas as críticas pelo seu desempenho bom ou mau. Ninguém merece críticas por aquilo que o meio social onde nasceu não lhe pôde dar!
Teixeira Alves

9:41 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Teixeira Alves, qualquer meio social nos pode dar simplicidade, humildade, e uma saudável ausência de afectação. Repare que eu não critiquei o meio, critiquei a pose.

9:53 da tarde  
Anonymous Pierre said...

Pessoal, estou-me a borrifar para os complexos de classe do senhor Silva. Arrogantes são como os chapéus, há muitos.
E o casal, se não foi lá a banhos, ao menos a rodagem valia a pena? O advogado banhista fazia massagens tailandesas?

E Luís, se o anonimato é problema, passam todos a assinar como Manuel Silva, Teixeira Alves, etc.

1:05 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Leitor:

O anonimato é um problema porque está demasiadas vezes associado à desqualificação do próximo, e eu desencorajo-o. Prefiro que uma pessoa assine como Dartagnan, porque pelo menos estarei a falar com um mosqueteiro e não com um ser indiferenciado e plural. Não é uma questão de identificar alguém na "vida real" (na blogosfera existe pouco disso), mas de o identificar como interlocutor.

Quanto ao resto do seu comentário, confesso que nem o entendo. Eu não me importo de responder a críticas educadas, mas espero que quem as faz se dê ao trabalho de tentar ser um pouco articulado.

O meu blog não é um serviço público, para eu ter de me esforçar a decifrar reclamações.

9:42 da manhã  
Anonymous Pierre said...

Tens razão no que toca ao anonimato. Concordo.

3:50 da tarde  

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