23.1.06

Notas do exílio, 1: os opositores a Cavaco em Paris.

Ontem aterrei com os meus compagnons de route na capital francesa. Pelo torpor da pequena comitiva iria jurar que nunca se vira um lote de rostos tão apagados na Cidade-luz. Paris, não sei porquê, fica menos atraente a seguir a uma humilhação. Ainda por cima saímos à pressa, deixando para trás o passado, os nossos modestos haveres, e também o Medeiros Ferreira, por puro esquecimento. Da Joana Amaral Dias toda a gente se lembrou, mas ela quer ficar em Lisboa e passar à clandestinidade - talvez no Bloco de Esquerda, onde já ninguém a reconhece.

É-nos penoso, o fardo da derrota. A turma está deprimida. Assim que entrámos no avião, o Alfredo Barroso começou a recitar Antero:

Só males são reais, só dor existe...

Mas eu, que não me deixo ir abaixo, respondi-lhe à letra:

Sonhei - nem sempre o sonho é coisa vã -
Que um vento me levava arrebatado,
Através desse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã...

Louçã?”, retorquiram-me em uníssono os participantes do colóquio.
Sim, quer dizer alegre”, esclareci eu.
Alegre?!”, gritaram em coro.

Nessa altura achei prudente calar-me. Não lhes vou dar cavaco até as coisas acalmarem.