26.1.06

"O cristianismo destruiu o eros?": boa pergunta, Bento XVI.

Sempre vi em João Paulo II as qualidades e as fraquezas de um provinciano: era simples sem ser cândido, amável sem ser delicado. A sua visão do mundo era tosca, mas suficiente. Através dele, quase podiamos assistir às rudes cacetadas da eterna disputa entre o bem e o mal. Uma coisa boa dos patêgos é que nos ensinam a morrer. João Paulo II morreu sublimemente, como se estivesse numa aldeia, à vista do povo que chorava com ele.

A que distância estávamos de Bento XVI! Ratzinger é voluptuoso e insondável. O seu mundo é o mundo de Pascal, quieto, desmedido, tocado apenas por uma razão inepta que esconde as suas dúvidas numa admirável limpidez. Caso não fosse Papa, Ratzinger também poderia afirmar:

"Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie".

Mas não pode, porque os homens do Renascimento são homens de poder. Vem isto a propósito da nova encíclica, Deus Caritas Est, que vale a pena ser lida. Eis dois ou três parágrafos, para abrir o apetite:
"O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma «loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças quer no céu quer na terra resultam de importância secundária (...) esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.

A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa." (...)

"Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. O epicurista Gassendi, gracejando, cumprimentava Descartes com a saudação: « Ó Alma! ». E Descartes replicava dizendo: « Ó Carne! »" (...)

"Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico. A aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade."

"Deus Caritas Est"

Podem ler ainda um texto sobre os vários nomes que os gregos chamaram ao amor. E já agora ficam a saber que a minha curiosidade a respeito deste tema se inspirou aqui.

2 Comments:

Anonymous nemesio said...

Não sei se Cristo existiu ou não, mas como "revolucionário do amor" pode dizer-me alguma coisa.Uma igreja feita por homens, que supostamente deveriam-se inspirar no tal "revolucionário do amor" e continua a ser tão injusta e tão hipócrita em tantas situações... Não me diz muito.

12:24 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Bom, Nemésio, confesso-lhe que a figura de Cristo me diz pouco: está demasiado distante para ser operacional, digamos assim. Já os papas interessam-me imenso: são homens muito inteligentes, cultos, poderosos e completamente anacrónicos. Com personagens deste calibre, quem precisa de um Darth Vader?

12:34 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home