15.1.06

Os portugueses (retratos-robô): Armindo.

Um metro e setenta, oitenta e três quilos, quarenta e oito anos, bacharelato em económicas, casado, um filho de desanove e uma filha de vinte e quatro anos, apartamento de cinco divisões em Benfica, BMW Série 3, segunda casa perto de Leiria. Armindo é sócio do SLB e frequentador do café “Arabesco”. Há um grupo de amigos no bairro, com quem vai ocasionalmente ao futebol. A mulher é professora primária, os filhos estudam arquitectura e comunicação social.

Armindo tem uma pequena empresa de contabilidade, no Conde Redondo. Uma ou duas vezes por semana fica a trabalhar até tarde, e no final de cada trimestre perde um domingo. Já acompanhou clientes ao Elefante Branco e ao Gallery, mas nunca consumiu - com excepção de uma preta que lhe custou cem contos em moeda antiga, mas foi a foda do século, com direito aos três pratos, embora sem recibo. Tem alguma pena que as putas não façam retenção na fonte, pois poderiam pagar-lhe em géneros.

Nas noites em que fazia serão acontecia-lhe passar com certo alheamento pelo Parque Eduardo VII, onde metia no carro o Raúl, quando estava livre, ou o pequeno Bernardo, que tinha nome de beto mas era do Casal Ventoso - embora as feições trigueiras e o cabelo à surfista não desmerecessem a baía de Cascais. Preferia o Raúl, porque era mais velhinho: como contabilista não lhe convinha ser acusado de cometer ilegalidades, já bastava o que bastava. Nessa altura ficou a saber muito da vida dos deputados e dos ministros.

Quando começou o processo Casa Pia, deixou-se de aventuras. Não acreditava que os miúdos se traumatizavam por causa de uma mamada - mas cautela e caldos de galinha, como dizia a sua mãe. Agora fica pelo Conde Redondo e guarda o telemóvel de dois ou três travestis a quem dá umas pinocadas quando lhe apetece. No fim de contas, são umas boas enrabadelas, sempre com preservativo (elas exigem!) e de costas viradas para a parede, pois nunca gostou de paneleiragens. É católico não praticante, alinha com o PSD e diz que vota em Cavaco Silva, para pôr na ordem esta bandalheira.

Nota: começa aqui uma série dedicada ao retrato-robô dos portugueses típicos. Espero que gostem.

11 Comments:

Blogger hidden persuader said...

ahahaha sublime; tomara a muitos que certos briefs fossem escritos com esta precisão psicográfica.

2:58 da tarde  
Anonymous nemesio said...

Fantástico!
Não tenho dúvidas da existência de mtos Armindos por "ai".
Cresci numa pequena cidade, a norte de Lisboa, onde grande parte dos respeitáveis chefes de familia tinham vidas ocultas/duplas durante a(s) noite(s),continuavam católicos e votaram Cavaco!!
Enfim!
Parabéns pelo retrato.

Nemésio

2:59 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Obrigado. Acho que vou fazer disto uma rubrica.

5:41 da tarde  
Blogger Eduardo Pitta said...

Parabéns! Vou linkar.

7:38 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

:-)

7:58 da tarde  
Blogger Carlos Azevedo said...

Brilhante!

12:02 da manhã  
Blogger Ricardo Alves said...

Muito duro, mas muito bom. Gostei de ler.
Fico à espera do próximo. ;)

11:56 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

- Tenho a impressão, quase a certeza, que o retrato descrito é o pr´prio da tua pessoa!!!! Não engana!!!!! Grande paneleiro e vais tu votar no maricas do M Soares!!!!!!!!!!!!! Não é??!!!!!

11:39 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

LOL. O que está a fumar, caro leitor?

11:55 da tarde  
Blogger AM said...

Parabéns

Linkei no SEDE

AMNM

2:45 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Já o pus no meu post de agradecimentos ;-)

9:22 da tarde  

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