28.2.06

Cupido pensava que Vénus, se tivesse duas asas, poderia ser uma bela mulher.

Agora sim, a civilização está em perigo.

A gripe das aves chegou à Suécia.

Não que isso mude alguma coisa dentro daquelas lindas cabecinhas.

Mas mesmo assim, aqui está um presente para todos os meninos e meninas que gostam muito do Che.

Não perder.

As competentes ilustrações de Paul Avril que o Bombix Mori tem divulgado.
O pior suplício, para Prometeu, era ser retratado por Pieter Pauwel Rubens.

27.2.06

A pátria está de parabéns.

O Insurgente, esse primo adulto e menos arrivista do Blasfémias, celebra hoje o primeiro aniversário. Durante doze meses assisti de longe à sua defesa da maravilhosa raça luso-brasileira contra a influência nefasta dos cosmopolitas, das mulheres, dos pretos, dos comunas, dos intelectuais, dos emigrantes e dos paneleiros. Conhecendo, como conheço, as fraquezas da nossa rapaziada, tenho a certeza que esta é a primeira de muitas sorridentes primaveras.

A função do blog: esboço de uma palestra (parte 1).

Senhoras e senhores, boa noite.

Raymond Chandler, o famoso autor de novelas policiais, afirmava que o xadrez era o maior desperdício de inteligência criado pelo Homem, a seguir à publicidade. Como sou um publicitário decente e um xadrezista mediocre, mas esforçado, julgo que possuo alguma autoridade para acrescentar dois novos itens a este conjunto de inutilidades: são eles, em primeiro lugar, ler os livros policiais do senhor Chandler; e em segundo, criar um blog.

Sejamos claros: nem todos os blogs são um desperdício; apenas os melhores o são. Existem blogs úteis, como uma lista de compras de supermercado, ou o plano de exercícios de um ginásio, e depois existem os blogs que nos apaixonam, e esses não servem absolutamente para nada. É dos últimos que vou tratar aqui.

26.2.06

Quem não sabe, palestra.

O estouvado autor deste jornalinho recebeu um convite para discorrer sobre blogs perante a exigente audiência do Grupo Átrio, uma tertúlia blasé de doutorados frequentadores de leilões, apreciadores de vinhos e especialistas em literaturas modernas. Dada a composição da sala, creio que o tweed será recomendável. Espero que ainda me sirva.
Jesus concordava com Charlotte, desencorajando o humor sobre animais de capoeira.

25.2.06

Dúvidas, 1.

Não tenho certezas sobre este caso do Porto, mas ao menos posso ir expondo aqui as minhas inquietações.

A identidade sexual da vítima é ou não revelante para a discussão pública do crime?

Tudo indica que o facto de ser transsexual (e não travesti, como no início se disse) teve algum relevo na maneira como os adolescentes a seviciaram. Não sabemos é se a homofobia esteve na origem ou foi um motivo das sevícias. Nem esta pode ser uma questão de opinião, mas sim uma questão de prova. De qualquer modo, a idade dos agressores leva-me para já a pôr em dúvida a consistência das suas motivações.

Eu concordo, por razões que poderei esclarecer, com a inclusão do ódio homofóbico nas circunstâncias agravantes dos crimes tipificados pelo Código Penal. Agora o que a minha enferrujada formação jurídica me diz, é que essa discussão não deve estar associada a um episódio concreto e duvidoso. Parece-me um atalho suspeito na defesa de uma causa justa.

O reality show.

Fernanda Câncio, no Glória Fácil, fala do homicidio do Porto. O texto, muito interessante, deixou-me ainda com mais dúvidas a que não sei responder.

Como sugeri antes, o lado espectacular deste caso e das reacções que provocou, perturba-me cada vez mais: acho que é um convite a várias manipulações.

Também julgo que é perigoso falar de justiça a partir da indignação. Mas tarde ou mais cedo caímos nos vícios da populaça, que quando as florestas ardem exige a pena de morte para os incendiários. Se entregássemos aos indignados a elaboração das leis, teriamos metade da população nas prisões. E algo me diz que nem sequer seria a pior metade.
Depois do sake da noite anterior, o pequeno Baco sentia-se muito indisposto para actualizar o seu blog.

24.2.06

É o país, estúpido.

I.

Há cerca de trinta minutos aguardei a permissão do semáforo para atravessar uma das laterais da Avenida da Liberdade. Não tinha dado dois passos quando fui bloqueado por um automóvel que decidira ignorar o vermelho. Como o trânsito era lento, toquei com o dedo no vidro de trás, para avisar o condutor da sua infracção. O veículo parou imediatamente, e o apressado imbecil que o conduzia chamou-me filho da puta, palhaço, e solicitou-me aos gritos que fosse para o caralho. Eu sou fleumático nestas circunstâncias. Avaliei a distância que já nos separava (cerca de dez metros), calculei o apego de um português médio ao seu Volvo, que nunca abandona, e como entendi que eram escassas a probabilidades de uma agressão física (falta-me talento para as enfrentar), fiz ver ao patife que ele era um atrasado mental. Depois virei as costas, deixando o grunho a vociferar.

II.

Li hoje no Público que catorze adolescentes do Porto mataram um homem à pancada, ou então, não sei o que é pior, que o esconderam para morrer. Apesar das coloridas circunstâncias do caso (a vítima era um travesti, e os algozes estavam entregues a uma instituição de acolhimento), eu acredito que se trata de um assunto excepcional. O que me agride mais, neste país cheio de ódio, é exactamente o que falta ao crime em discussão: a banalidade da violência. O desprezo pelos pobres, que não vi noutro lado da Europa. Os assassinos que dominam as estradas, perante a indiferença de todos. A escravatura das suas mulheres e os velhos ao deus-dará. A raiva, o desleixo e o abuso de poder que cada um de nós tem de enfrentar quando entra em contacto com um serviço, qualquer serviço, do Estado que sustentamos.

O que se passou no Porto é triste e lamentável. Mas infelizmente, parece demasiado folclórico para nos ensinar alguma coisa.
Danae não sabia o que fazer com todo aquele dinheiro que chegava da Europa.

Agradecimento.

Só agora descobri que o Da Literatura passou este blog para o pequeno grupo do seu Inner Circle. Espero que o meu agradecimento não chegue muito atrasado. Ser distinguido pelo blog do Eduardo Pitta, Jorge Melícias, João Paulo Sousa e valter hugo mãe, é um motivo de orgulho para mim. É verdade que tenho recebido, ao longo destes quase quatro meses, provas de afecto de muitos outros blogs. Mas o Da Literatura será sempre especial, por duas razões que se acrescentam à sua evidente qualidade: em primeiro lugar porque detectou este meu Franco Atirador na sua primeira semana de existência (ainda hoje não imagino como). Em segundo lugar, porque o Eduardo Pitta foi um dos primeiros autores a citar-me e aos meus posts no seu blog. O encorajamento que esse amável patrocínio produziu em mim é difícil de exagerar.

23.2.06

Tal como muitos outros casais, Vénus e Cupido amavam-se de um modo estritamente profissional.

Remembering Becket. A Centenary Celebration.

Recomendar um livro sobre Beckett, num país como Portugal, é fazer mais um convite desnecessário à vacuidade pomposa e sonhadora. No entanto, este Remembering Beckett tem duas vantagens sobre as habituais edições comemorativas de centenários semelhantes: evita a hagiografia e o bocejo.

Contém depoimentos raros do autor, uma narração escorreita da sua vida, testemunhos contraditórios de gente que lhe foi próxima e breves homenagens de escritores como Coetzee ou Auster, a quem inspirou. A edição é cuidada, com boas fotos, e julgo que merece a atenção de quem aprecia a obra do irlandês.

Para abrir o apetite, transcrevo aqui duas ou três frases a respeito da sua relação com Joyce:

He was very friendly. He dictated some pages of Finnegans Wake to me at one stage. That was later on when he was living in that flat. And during the dictation someone knocked at the door and I said something. I had to interrupt the dictation. But it had nothing to do with the text. And when I read it back with the phrase like "Come in" in it, he said: "Let it stand".

22.2.06

O pequeno Baco bebia para esquecer o "faux pas" de um tal Franco Atirador.

Nota.

Apaguei um post que aqui estava, por ter sido escrito na ignorância de um facto importante para alguém a quem dizia respeito. Não foi uma questão de censura, mas de bom gosto. Agradeço a quem me avisou.

Ellsworth Kelly. A partir de Março, ele desce do Olimpo para duas exposições simultâneas em Inglaterra: na Tate St Ives e na Serpentine Gallery. Aqui, os leilões da TAP.

21.2.06

Depois dos cartoons.

Gente de quem gosto continua a escrever sobre a crise dos cartoons. Sylvie Kaufmann, no Le Monde:
Choc des civilisations? Sans doute, mais lesquelles ? Trois semaines après le début des troubles qui ont transformé la polémique sur les caricatures danoises du prophète Mahomet en une spirale de violence planétaire, le débat a dépassé la théorie simplificatrice de l'affrontement entre islam et Occident. Révélateur du cheminement des valeurs en Europe et aux Etats-Unis, il expose deux autres fractures : l'une au sein de la communauté occidentale, l'autre entre musulmans d'Europe et musulmans d'Orient, moyen ou extrême.
Teresa de Sousa, no Público:
A onda de violência (...) que se estende do Afeganistão à Nigéria, mistura numa mesma amálgama os símbolos da América ou da França, do Reino Unido ou da Dinamarca, da Noruega ou da própria União Europeia. (...) A opinião pública europeia aprendeu certamente uma lição. O antiamericanismo é uma pura e perigosa ilusão. Não é por aí que passa a fronteira onde temos de defender os nossos valores e os nossos interesses europeus.
Entretanto, o The Economist anuncia esta semana que o partido nacionalista dinamarquês, de extrema-direita, subiu de 13,3 para 17,8 nas intenções de voto. Ao mesmo tempo, embora num registo genérico, o Financial Times deste fim-de-semana continua, na senda da mais recente tradição liberal, a zurzir a Administração Bush pela sua relação licenciosa com a verdade:
George Washington's birthday falls next Wednesday and we all know he told his father that he could not tell a lie. The first president is surely turning in his grave as he surveys the routine mendacity that characterizes US public life today. (Jurek Martin, The truth and a state of incredibility)
Três tendências portanto: a complexificação do convívio entre os dois lados do atlântico, em consequência do fortalecimento de um inimigo comum. O crescimento e radicalização dos extremos na Europa. E em terceiro lugar, a crítica virulenta à administração americana feita pelos media que eram tradicionalmente seus aliados.
O Rapto de Europa, por Durão Barroso.

Nada é o que parece.

Quando o Medeiros Ferreira escreveu tenho uma grande cumplicidade com Talleyrand, eu, por breves instantes, imaginei que tinha uma grande cumplicidade com Medeiros Ferreira. Mas como o Talleyrand dele escreve blogs em Xabregas, acho que fica para a próxima.

Manias do Luis M. Jorge.

O Vieira é que teve a culpa, por esta lista das minhas peculiaridades:

1. Ouvir música dos anos 70. Principalmente, 1670 e 1770.
2. Almoçar aos sábados na pastelaria Suiça (as empregadas amam-me, e no verão fazem sabores de gelado só para mim).
3. Deitar livros fora, provocando o horror universal.
4. Ir em Novembro a uma certa cidade da Europa, comprar bolas de Natal.
5. Rir sózinho no meio da rua (cada vez menos).

É isto. As próximas vítimas são: o Lutz, o R., o On, a Bês, e o JB. Se algum deles foi escolhido anteriormente, aceite as minhas desculpas.

20.2.06


Eles teriam preferido que Lúcia se mexesse mais enquanto estava viva e ficasse quieta depois de morrer.

19.2.06

Irmã Lúcia: o regresso.

Começo a escrever este texto num momento em que os três principais canais da televisão portuguesa transmitem em directo o segundo enterro de uma mulher que ouviu Nossa Senhora profetizar a conversão da Rússia e o triunfo do Seu imaculado coração, entre outras divagações mais ou menos delirantes.

A primeira página do Público já me tinha preparado para o choque civilizacional: de um lado, estou eu. Do outro, os prantos seráficos e as esganiçadas aleluias da parvónia inconsolável. É um mistério para mim que duzentas e cinquenta mil almas, centenas de castrados em batina e várias televisões se tenham deslocado num dia de chuva para assistir ao despejo de uma vidente semi-analfabeta na sua última morada terrena.

Última, é como quem diz. Se a moda pegar teremos todos os anos mais uma remoção das ossadas da irmã Lúcia, ora para Lourdes, ora para Compostela, ora para Jerusalém, até sobrarem quatro tíbias improváveis e meia dúzia de metacarpos dispersos nos lugares santos deste mundo.

O Clarim, a Família Cristã e a Voz da Alvorada competirão para mimosear os leitores com um calendário perpétuo das transladações. O Fátima Missionária venderá bilhetes para acompanhar o caixão às ex-colónias: Lúcia, ou o que sobrar dela, há-de converter os últimos comunistas de Angola numa tournée vitoriosa entre os pretinhos.

Embora morta, Lúcia dirá sim à vida, à castidade e ao amor - e não ao preservativo, às células estaminais e ao aborto. O seu nome será bem-aventurado na Polónia, onde Cristo redivivo nasceria hoje, e temido na Suécia (onde O crucificavam se voltasse).

Mas até ao próximo ano, graças a Deus, podemos contar com ela em Portugal. Por enquanto ainda não houve confirmação de milagres, embora eu tenha uma sugestão: demita o Souto Moura, santinha.

Se a Lúcia não conseguir, ninguém consegue.

18.2.06

Quanto melhor conhecia os homens, mais ela gostava do seu unicórnio.

À atenção do senhor Pedro Mexia.

Ontem encontrei, na Literary Review, esta carta de alguém que decidiu antecipar-se aos escrúpulos daquela publicação:

BAD SEX

Dear Sir,
Having heard about the success of the London Review of Books singles nights, I wondered if it was time for the Literary Review to set up a personals page of its own? It might give your more scholarly readers a chance for some bad sex of their own.
Yours faithfully,

Prof A T White
California, USA

Dá gosto imaginar, todos aqueles literatos a faire cattleya.

17.2.06


Saturno era velho e comera os próprios filhos. Mas uma boa estrutura óssea persuade sempre as mulheres.

As Seis Leis e Meia do Franco Atirador (versão 1.0).

Ontem o Pacheco Pereira formulou no seu Abrupto algumas leis do debate na blogosfera, que estão mesmo a pedir para serem adaptadas a espíritos menos reverentes. É isso que faço aqui, com as Seis Leis e Meia do Franco Atirador. Ei-las:

1 - Um blog deve ser um instrumento do encantamento, da selvajaria ou do poder. Nunca, simplesmente, um instrumento da razão.
Este é um meio artístico, como são os cadernos de um escritor. Ou então, é uma ferramenta da estratégia política, como as anotações que o jovem Luis XIV fazia à margem da Guerra das Gálias. Quando um blog tenta reflectir em vez de persuadir, ou analisar e discorrer em vez de inspirar e sugerir, transforma-se num inenarrável bocejo.

2 - Um blog deve oscilar sempre entre a ordem e o caos.
Os blogs previsíveis aborrecem, os imprevisíveis desnorteiam. O leitor deve hesitar entre a antecipação e a surpresa.

3 - Um blog deve ser suficientemente independente para afastar os seus leitores. E suficientemente interessante para fazer com que eles regressem.
O desconforto é a pedra de toque de um bom blog. Ele resulta de se rejeitar a banalidade, mas só funciona enquanto não banalizar a rejeição.

4 - Um blog não deve fazer promessas.
Porquê? Para não recebermos as cobranças de quem não nos dá nada em troca.

5 – A principal distinção de um blog é a sua voz.
Não falo apenas do estilo. Falo do equilibrio entre o público e o privado. Falo também da sua intencionalidade. Os leitores não procuram a notícia, procuram o romance.

6 – Um blog é sempre dirigido a quem escreve outros blogs.
Já tentei escrever um blog para os amigos. Não resulta. Os meus amigos, com duas ou três discretas excepções, não me lêem. Eu lamento muito, mas compreendo: eles têm critério. E embora gostasse de lhes meter alguma coisa na cabeça, ao fim de todos estes anos, talvez seja melhor assim.

6,5 - Um blog é mais importante do que reconhecem os seus autores.
Isto não é bem uma lei, é antes uma máxima. E não concordo nada com ela. Passo duas ou três horas por dia a escrever tonterias, e a discutir com o Luís Raínha, mas é apenas por brincadeira. Não sou um agarrado, e consigo deixar esta vida a qualquer momento. Claro que sim. (Snif).

E pronto, foi o que aprendi em mais de três meses no Franco Atirador. Agora o leitor já pode dizer destas minhas leis o que disse Somerset Maugham do livro Aspects of the Novel, escrito por E. M. Forster: que apenas o ensinava a fazer livros iguais aos de E. M. Forster. Maugham tinha razão, evidentemente: não podemos fugir de nós próprios. Mas isso, leitor, é uma lei da vida e não dos blogs.
Por vezes cansava-se um pouco de representar as virtudes de uma alimentação saudável.

16.2.06

O amável dedinho do Estado.

O Sindicato dos Trabalhadores das Telecomunicações afirmou hoje que teme o despedimento de 3000 funcionários da Portugal Telecom, se a OPA da Sonae for bem sucedida. Eu acredito. Mas acho um pouco estranho que nenhum elemento dessa organização sindical tenha feito a si mesmo a seguinte pergunta: se na PT existem, de acordo com os seus próprios cálculos, 3000 trabalhadores desnecessários - o que é que eles lá estavam a fazer?

24 Horas.

Agora que é meia-noite, está na altura de concordar em absoluto com este post do Eduardo Pitta a respeito da busca ao jornal 24 Horas. Vista daqui, a operação parece repugnante. Mas eu espero muito estar enganado.

Parecia um infantário. Se é que, num infantário, as crianças esvoaçam no recreio.

Os portugueses (retratos-robô): novo blog.

A Manuela, do post anterior, bem como o Bibito, o Armindo, a Mizete (ainda por completar) e outros retratos que forem nascendo da pena pouco fértil deste prosador vão ser imortalizados num blog exclusivo, que vou colocar entre hoje e amanhã na barra lateral. A série continua, como sempre, quando me apetecer.

Os portugueses (retratos-robô): Manuela.

As mulheres são quem mais sofre com os atrasos das obras públicas.
Tanta carne e eu em jejum!...
Manuela execrava o pó, o ruído e a desordem que o novo hospital trouxera ao bairro, desde Fevereiro do ano anterior.
Ó filha, anda cá que o pai unta-te!
Antes da primeira pedra, já aquele doce recanto na Póvoa de Santo Adrião se assemelhava aos Estábulos de Áugias.
Fazia-te um vestidinho de saliva!
Só que estes, eram um pouco mais difíceis de limpar.
Lindo decote. Se cair, já sei onde me agarro...
Em certos dias, cheia de coragem, ela ainda protestava.
Mau, mau, o quê? Disse algum disparate ou chupas aqui mesmo?
Noutros, afectava uma serenidade logo dissipada.
Que curvas! E eu sem travões...
Tentou uma toillete mais clássica.
Havia de chover mármore em Tavira!...
Passou a apressar o passo, antes de chegar aos tapumes.
Lindas pernas, a que horas abrem?
Ensaiou o tailleur.
Deves ser mais apertadinha que os rebites de um submarino!
Trocou os saltos altos por práticos mocassins.
Diz-me como te chamas, para eu te pedir ao Menino Jesus!
Sujeitou-se à dissimulação de uma écharpe e de uns óculos escuros.
Anda cá, para eu te fazer uma sessão de raboterapia...
Fez queixa à polícia.
Só não tenho pêlos na lingua porque tu não queres!
Pediu ao Artur que a levasse a casa.
Isso é tudo teu?
E finalmente resignou-se a usar calças, entre segunda e sexta-feira.
Ficam-te bem. Mas eu ficava-te melhor!
Até que uma manhã, quando já se preparava para a burka, nada aconteceu. Ao princípio suspeitou que era feriado, mas as betoneiras estrondeavam. Perto dos tapumes, os trolhas pareciam absortos na sua trôpega rotina. Nem um olhar. Nem um assobio. Não era um milagre, mas parecia um acto de contrição.

Na esquina da papelaria, Manuela voltou atrás. Entrou de novo no prédio, subiu quatro lances de escadas, abriu o roupeiro e vestiu uma mini-saia rosa, que não usava há anos, mas tinha para ela um valor sentimental. De regresso à rua, a resposta não tardou.
Partia-te a bilha toda, ó cavalona!

Não te esqueças do meu nome, que logo à noite vais gritá-lo.

Posso-te pagar um copo, ou preferes o dinheiro?
Sempre fora assim, confessou a si própria, já no carro. Suportava a grosseria - mas o desprezo, não.
Ó boa! Dá um beijinho ao trolha...

15.2.06

Eram bons tempos: antes do jazz; e principalmente, antes da dança jazz.

Limitações culturais.

A parte do La Rochefoucauld reconheço (até como o transcreveu um dia uma conhecida jornalista do DN: Laroche Foucault). Agora a parte do olho à Belenenses é que me pôs de olhos em bico.

O Freitas do Mal.

Sua Excelência, o Embaixador do Irão, afirmou ontem que o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros era uma pessoa sensata, razoável e decente, com quem dava gosto conversar. Não quero citar de memória o panegírico, mas concluí que o professor Freitas do Amaral terá sempre um lugar à mesa do piedoso Presidente Mahmoud Ahmadinejad, servido por veladas virgens e velado por velhos guardas da revolução islâmica, entre divertidos remoques a Bush e ao seu fantoche britânico, o exaurido Tony Blair. Freitas sabe que é fácil criar uma certa intimidade com os grandes deste mundo quando lhes tocamos, por baixo das tagines, com o dedo grande do pé. Podemos falar de futebol, debater Nossa Senhora de Fátima (sempre com muito respeito), e rir a valer com os divertidos cartoons que agora desmentem o holocausto nazi, lá em Teerão.

Por falar nisso: Sua Excelência, o Embaixador do Irão, disse ainda outra coisa. Além de elogiar o Governo, ele garantiu que era impossível aos nazis terem chacinado seis milhões de judeus, como sustentam os ímpios cães israelitas. Seriam necessários pelo menos quinze anos para cumprir uma tarefa tão vasta, esclareceu. A produtividade iraniana, como sabemos, ainda é menor que a nossa, mas o novo amigo do Ministro da Defesa português parecia saber do que falava. O Ministro é que talvez não soubesse.

Ou seja: eu já não entendo se a política externa portuguesa tem um rumo. Mas sei que parece ter um Eixo, com Diogo Freitas do Amaral.

14.2.06


E finalmente chegou o dia em que os passarinhos cantam nas árvores, as flores desabrocham nos canteiros e um perfume demasiado intenso se demora no ar.

Palavras que gosto de usar.

Errata.

Olhando de novo para este post, sou obrigado a dar a mão à palmatória. O Luis Raínha comportou-se como um imbecil, mas às vezes até os imbecis têm razão.

Páris não se ressentia tanto do mobiliário em estilo império, como do seu absurdo barrete à jacobino.

13.2.06

On War.

No Blogoexisto tem vindo a ser criada uma interessante colectânea de textos de guerra. Está lá também Joseph Conrad, sem o qual este mundo não tem sentido algum. Recomendo ao João Pinto e Castro, se ler este post, um textinho de Ernst Junger onde se fala de quem conheceu a guerra antes de conhecer as mulheres. Infelizmente, não consigo encontrá-lo.

Portugal no seu melhor.



Golias perdera a cabeça. Mas apesar disso, ainda acreditava numa reconciliação.

Hoje foi um bom dia para Viana do Castelo.

Nenhum proprietário de boite assassinou a tiro a empreendedora concorrência local. Nenhuma peregrinação a Fátima se organizou sob a égide de uma Câmara corrupta ou de um demagogo triunfante. Nenhuma turba ululante cortou estradas, tentando elevar a Concelho uma caverna das berças qualquer. Não se puseram fogos, nem se barrou o caminho ao saque de mais uma fábrica deslocalizada. Nenhuma criança foi vista em condições dementes de miséria e abandono. Não ocorreu nada de absurdo nem de repugnante, hoje, na nossa província. E no entanto, ela apareceu em todo o seu esplendor, na televisão.

Porquê? Porque o doutor Paulo Portas visitou os estaleiros de Viana do Castelo. O doutor Paulo Portas criticou suavemente o Governo. O doutor Paulo Portas até encenou um pequeno tabu, e prometeu andar por aí, como o seu ex-colega Pedro Santana Lopes. O doutor Paulo Portas, hoje, longe de Lisboa e sem dizer nada de jeito, teve mais tempo de antena que o putativo lider do seu partido em nove meses de trémula irrelevância.

Tanto trabalho por causa dos cartoons.

E afinal, bastava terem esperado mais uns dias para justificar aquelas manifestações.

12.2.06



Para Ganímedes, pior do que ser raptado por um deus concupiscente transformado em águia, era saber que a gripe das aves tinha chegado à Grécia.

"Todos causam asco", diz o Vitalino Canas do Bloco de Esquerda.

O articulado Luis Raínha sofre este reflexo, tão habitual nos bloquistas, de achar a violência uma coisa relativizável, desde que seja originária do Islão. No caso, ele considera igualmente asquerosos os incendiários que se manifestaram em Damasco e os jornalistas que se entretêm a acirrá-los, em perniciosas colunas de opinião. Vale a pena transcrever estes delírios um pouco beatos, que um dia poremos na lista dos automatismos da nossa extrema-esquerda:

De um lado, os imãs que acreditam piamente que a deles é a única visão certa; que quem ousa entender o mundo de forma diferente é apenas um blasfemo a pedir conversão urgente. Do lado de “cá”, lemos (...) gente igualmente solipsista, para quem o Outro é fonte de todos os males, para quem só “nós” é que somos, evidentemente, civilizados e tão superiores.
Para quem se entretém hoje a acirrar multidões — acrecentando quando necessário caricaturas ainda mais ofensivas às originais — a provocação de um jornal manhoso é bastante para decretar que todo um continente deve agora limpar-se de um novo pecado original. Para os “nossos” comentadores, sempre tão irredutíveis na perfeição das suas certezas, a liberdade de expressão passou de súbito a absoluto sem fronteiras que não deve ser limitado por qualquer susceptibilidade ou valor do tal “outro”.
Uns vêem do lado de lá turbas selvagens que nada respeitam, bárbaros às portas do império da decência e da justiça. Os outros idem. Todos berram o seu ultraje com este caso. Todos apontam o dedo às abjectas criaturas que se empilham do outro lado, incapazes de decência, sentimentos nobres ou de fazer “sonhar” seja quem for. Todos causam asco.

Estão bem uns para os outros, concluiria o luminoso Vitalino Canas, farol do grupo parlamentar socialista. São todos iguais, podia acrescentar eu, se fosse a dona Celeste da Bordaleja.

11.2.06

A liberdade segundo José Saramago.

Pensava escrever alguma coisa sobre este assunto, mas o Rui já escreveu o que era preciso. Nunca gostei de me demorar com aquela criatura.
Secretamente, o cisne lamentava que as crianças fossem tão parecidas com a mãe.

Figaro.

Ontem deixei de associar Gioachino Rossini à indigestão de um tornedó com o mesmo nome na zona velha de Florença. O Barbeiro de Sevilha tirou-me o gosto a pasta de figado e molho au Madeira dessa noite trágica que pouparei misericordiosamente ao leitor.

Já não ia ao São Carlos desde a última Turandot, para evidente desconsolo das Bebés e Teresinhas que despejavam flutes de champagne na cafetaria, a seguir ao primeiro acto. Ao contrário de mim, elas gostaram mais do segundo. A obra é divertida, sem propriamente levar às lágrimas uma plateia contemporânea. Se confiarem na opinião de um fanático de Handel (Alcina é a minha ideia de uma grande ópera italiana), poderão dizer que Kate Aldrich (Rosina) cantou soberbamente, que Marius Brenciu (o Conde) e Franco Vassallo (o barbeiro) foram galhardos, sem serem portentosos, e que Bruno Praticò (Bartolo) conseguiu mostrar-se expressivo, tal e qual como se pedia.

Gostei dos cenários, que não descolaram da época mas tiveram dois ou três pormenores muito irónicos, de alguma inspiração. E gostei também do público, que está treinado nestas coisas e não conversa, não assobia nem pateia, além de desligar os telemóveis quando tal lhe é sugerido. Coisa rara e nunca vista.

Vingança.

Em Arouca, os autarcas condecoraram Jorge Sampaio.

10.2.06

Quando Maria, ainda virgem, teve o primeiro filho, José concluiu que todas as famílias são um pouco disfuncionais.

9.2.06

Porque gosto tanto da Cinemateca.

É triste ser arrastado para o cinema por uma bela mulher e ainda resmungar que podíamos ter ficado em casa a escrever o nosso blog. Ontem lá fui, ver o filmezinho a que o mundo inteiro já assistiu: o Fiel Jardineiro. O que há para contar? Que o Ralph Fiennes fazia suspirar a minha amiga e bocejar este seu contrariado chaperon? Que os pretinhos estão ainda mais escanifrados e maltrapilhos do que era habitual? Que as lindas paisagens africanas, com os lindos flamingos e as lindas crateras vulcânicas rodeadas de frondosos baobás me encheram de um enfado irreprimível e monumental? Que nem o major Valentim Loureiro me fez erguer hoje o sobrolho, apesar das asneiras que esbracejou, tal foi o cansaço acumulado por infindáveis takes de escanzelados bidonvilles em remotas capitais de espostejados ermos centro-africanos? A história era uma boa história, o guião parecia um bom guião. Mas que podemos dizer quando um realizador de cinema confunde o seu talento com a nobre vocação de guia turístico extasiado com as amenidades de um safari no Quénia e os encantos de uma palhota nas Seychelles? Vou evitar os próximos filmes deste senhor, se me conseguir lembrar do seu funesto nome mais uma vez.

A sétima e a oitava mulher do pintor garantiam que a outra tinha sido a retratada.

Aposto que ele não tem palavras.

Por ter escrito para o Público um valente artigo a favor da liberdade de expressão, e por acima de tudo o ter feito acompanhar de uma corrosiva caricatura de Maomé, Pacheco Pereira tem a honra de entrar hoje, com o seu Abrupto, na minha lista de blogs recomendados. Melhor que isto, só mesmo receber de um certo Presidente da República a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, como já ocorreu ao incauto Bill Gates.
A partir de certa hora, na prova de vinhos dos Putti, alguém tomava sempre o Shiraz por um Cabernet Sauvignon.

Venha pelas dinamarquesas, se não vier pela liberdade de expressão.

COMUNICADO - CONVITE
Na próxima 5ª feira, 9 de Fevereiro, pelas 15 horas, um grupo de cidadãos portugueses irá manifestar a sua solidariedade para com os cidadãos dinamarqueses (cartoonistas e não-cartoonistas), na Embaixada da Dinamarca, na Rua Castilho nº 14, em Lisboa. Convidamos desde já todos os concidadãos a participarem neste acto cívico em nome de uma pedra basilar da nossa existência: a liberdade de expressão. Não nos move ódio ou ressentimento contra nenhuma religião ou causa. Mas não podemos aceitar que o medo domine a agenda do século XXI. Cidadãos livres, de um país livre que integra uma comunidade de Estados livres chamada União Europeia, publicaram num jornal privado desenhos cómicos. Não discutimos o direito de alguém a considerar esses desenhos de mau gosto. Não discutimos o direito de alguém a sentir-se ofendido. Mas consideramos inaceitável que um suposto ofendido se permita ameaçar, agredir e atentar contra a integridade física e o bom nome de quem apenas o ofendeu com palavras e desenhos num meio de comunicação livre. Não esqueçamos que a sátira – os romanos diziam mesmo "Satura quidem tota nostra est" – é um género particularmente querido a mais de dois milénios de cultura europeia, e que todas as ditaduras começam sempre por censurar os livros "de gosto duvidoso", "má moral", "blasfemos", "ofensivos à moral e aos bons costumes". Apelamos ainda ao governo da república portuguesa para que se solidarize com um país europeu que partilha connosco um projecto de união que, a par do progresso económico, pretende assegurar aos seus membros, Estados e Cidadãos, a liberdade de expressão e os valores democráticos a que sentimos ter direito.
Pela liberdade de expressão, nos subscrevemos
Rui Zink (916919331)
Manuel João Ramos (919258585)
Luísa Jacobetty

Trascrevo todo o texto dO Espectro. Mesmo que só goste de loiras, apareça.

8.2.06

Normalidade.

A Sonae faz uma OPA, o défice baixa, o Bill Gates estende a mão a uma dúzia de ministros, que a beijam prestimosamente. Anuncia-se de novo o "combate à burocracia" e a "formação" de um milhão de portugueses (talvez os mesmos que, coitados, votaram em Manuel Alegre). Um número insuspeitado de empresas internacionais parece querer transformar este buraco indigente na radiosa Coreia do Sul. Enfim, o Professor Cavaco Silva é um génio.

Cupido. Não é Cúpido.
Estúpido.
Pára com isso, Eco!
Eco.
Eco.
Bah!
Ah.
Ah.
Ah.

7.2.06

Diálogo entre dois novos leitores deste blog.

- Máriza...
- Sim, môr.
- Quem era a Madame do Pompadour?
- Não sei, mõr.
- E o Bou... Boucher?
- Não sei, môr.
- Já ouviste falar na Arcádia?
- Já. É uma pastelaria em Alfornelos.
- Antes ou depois da rotunda?
- Ao pé da loja dos trezentos, onde pomos o euromilhões.
- Ah...

Diálogo entre dois velhos leitores deste blog.

- Duzentas e sessenta pessoas, ontem, foi o que disse? Mon Dieu!
- Sim, ele já não sabe o que fazer.
- E não podia regressar ao outro blog, sobre Veneza?
- Creio que esse era um pouco exclusivo demais.
- E agora, será que tenho de convidar toda essa gente para jantar?
- De modo algum, meu caro. Pense nas suas pratas.
- Podia fazer uma garden party...
- Para ocuparem a piscina, e fazerem a reforma agrária no relvado? Por favor...
- É verdade. Já bastou o que bastou, em 75.
- Lamento, mon cher. Julgo que só nos resta segregá-lo.
- Tem razão. Ce pauvre Luis! Com quem falarei agora de Crébillon fils?

Os meus velhos leitores pensaram em Voltaire. Os novos, na guilhotina.


Madame de Pompadour, por Drouais. Uma revoltante surpresa para quem se deleita com os Batanetes da TVI.

Au revoir, povoléu.


Esta é a madame de Pompadour, por Boucher. Um bom modo de afastar cinquenta ou sessenta leitores, logo pela manhã.
O Franco Atirador teve ontem demasiados leitores. Corrijamos esse lamentável obstáculo à nossa promessa de exclusividade: hoje vamos afastá-los.

Era-nos dado o essencial. Aos solitários, um deserto. Aos fugitivos, um algoz. Aos perdidos, uma venda. Aos ébrios, o olvido. Mas sonhávamos com as planícies que ficavam do outro lado da montanha, longe de nós, longe da Arcádia, que era todo o nosso mundo.

6.2.06

O teatrinho já chegou ao Irão.


Além de respeito, Maomé também exige a bomba.

Finalmente percebemos.


Começa a ser claro que estes protestos não são para levar a sério como manifestação religiosa, mas como uma manobra de intimidação política. Esta gente foi traída pelo seu overacting.

Fake.

Ajuste de contas.

Estava no aeroporto de Los Angeles quando Diana de Gales morreu. A notícia foi dada, quase em simultâneo, pelas várias televisões a que assistíamos no lounge, antes de entrarmos para o avião. Mas esta notícia não foi recebida com os usuais gritinhos (oh my God!) que os americanos reservam a tudo o que os maravilha. No silêncio que se seguiu (a palavra sepulcral aplica-se aqui, por uma vez, com propriedade), duas amigas minhas murmuraram que o mundo inteiro iria ficar prostrado quando a noite acabasse. Foi então que peguei no cigarro, pus o meu ar mais pretencioso e discordei com altivez: Diana era uma personagem regional, esclareci. A sua morte seria vagamente lamentada durante dois ou três dias, talvez uma semana e, depois disso, misericordiosamente esquecida. O mundo nunca mais ouviria falar daquela pobre tola, nem dos seus aborrecidos dramas amorosos. Como se vê, eu era um sujeito esperto, em 1997.

A 31 de Janeiro referi-me neste blog aos cartoons sobre Maomé publicados pelo Jyllands-Posten da Dinamarca. O assunto ainda não estava nas primeira páginas de todos os jornais (só no dia seguinte o Público o mencionou); e eu achei que o poderia tratar como mais uma anedota involuntária, protagonizada por toscos muçulmanos sob o olhar desdenhoso do Ocidente. Como se vê, ainda sou um sujeito esperto, em 2006.

Durante a semana, várias pessoas avaliaram estes protestos tendo em conta o seu contexto. Eu prefiro encará-los a partir dos valores que neles se opõem. São:

1. O respeito pela liberdade de expressão contra o respeito pela crença.
2. O direito à indignação contra o direito à segurança dos seus alvos.
3. A superioridade do Ocidente contra a igualdade entre as civilizações.

1. liberdade vs. crença

Sou claramente a favor da liberdade de expressão. Uma crença pode impôr comportamentos a quem a professar, mas não a quem lhe for exterior. Se o islão proibe os desenhos de Maomé, só os pode proibir aos seus fiéis (do mesmo modo que, em Portugal, quem faz uma promessa não pode obrigar alguém a ir descalço a Fátima para a cumprir). E este princípio deve ser rígido, sem contemplações. Os desenhos eram de mau gosto? Paciência. Nenhum governo, de nenhum país, deve pedir desculpa aos muçulmanos ou a quem quer que seja.

2. direito à indignação vs. segurança

Aqui, julgo que os dois valores se equilibram. Não tenho nada a opor aos protestos dos muçulmanos. Não me aborrece que invadam as ruas ou queimem bandeiras (uma bandeira só obriga, como digo antes, quem acreditar nela). No entanto, é importante que os países europeus defendam os seus cidadãos e os seus bens sem hesitar.

3. Ocidente vs. outros.

Antigamente era eurocêntrico, e hoje ainda o sou em alguns aspectos: no que diz respeito à relação entre os sexos. À integração das minorias (incluindo as muçulmanas). Ao convívio com a tecnologia. À divisão dos poderes políticos. Mas um árabe valorizará outras coisas: talvez uma noção superior de amizade, hospitalidade, e ligação familiar. Ou uma visão mais límpida da morte e do prazer. Dará mais importância à glória ou à abnegação. Não sei. Mas sei que, dentro do mesmo barco, não cabe à pescada dizer se é mais saborosa que o atum.

Para resumir: julgo que o escândalo dos muçulmanos não nos obriga a nada. Os seus protestos não nos devem repugnar. Mas devemos proteger-nos sem hesitações, e sem imaginar que somos superiores a eles.

Goodbye, Lady Di.


Indispensáveis: este, este, este, este , este e este post. E se não me engano (outra vez) acho que a lista vai crescer.

5.2.06

George W. Bush e Daniel Oliveira concordam.

«A Administração americana diz compreender por que razão os "muçulmanos acham estas imagens ofensivas".» (Via Origem das Espécies).

Para a nossa esquerda, isto é um típico protesto contra o Je Vous salue, Marie.

4.2.06

O que se passa com o Público?

Tendo em conta o estado do seu jornal, é certamente uma infeliz coincidência que José Manuel Fernandes escreva hoje sobre o ocaso das civilizações. Até há pouco tempo eu costumava dizer aos amigos que o Público era a minha única razão para não emigrar. Mas esta manhã dei por mim com saudades das férias que passei na entediante Escandinávia, em Setembro do ano passado. Até mesmo Oslo, essa bonbonnière apinocada e engomadinha, me pareceu digna de uma apologia. E compreendi, finalmente, que já não tinha motivos para perseverar nesta esquisita mania de viver em Portugal.

Claro que no Público sempre se fizeram concessões ao gosto do país real: havia a Xis, essa publicação tenebrosa, dirigida às admiradoras do Feng Shui e do Paulo Coelho. Havia o suplemento Carga e Transportes, onde se presumiu durante anos que existisse uma economia portuguesa fora dos bancos e da construção civil.

Mas o resto, onde incluo o José Manuel Fernandes, não era mau: a Helena Matos dizia pouca coisa, ou andava calada. A Câmara Municipal de Oeiras e o Centro Comercial das Amoreiras infligiam mais espaçadamente aos leitores as suas brochuras sobre a recolha do lixo e os relógios Vacheron Constantin. Até o Miguel Sousa Tavares (agora no seu túmulo do Expresso) parecia culto e bem informado, em vez de parecer bruto e desenfreado.

Depois, tudo mudou. À segunda-feira tenho de gastar mais uns cêntimos com uma revista tonta, inútil e mal escrita, que me quer ensinar a poupar (uma ideia: acabem com a revista e baixem o preço do jornal). A meio da semana, quando menos espero, fustigam-me com outra catilinária edificante da Maria de Fátima Bonifácio. O Pacheco Pereira anda agora numa fase protofascista, e só pensa nos partidos em decomposição. E o mais grave é que quase todas as páginas ganharam um odor a sacristia de liberais, como se uma casta de beatos blasfemos (perdoem a aliteração e o pleonasmo) tivesse tomado conta do local.

Claro que ainda por lá andam os artigos da Teresa de Sousa, a subtil São José Almeida, o Vasco Pulido Valente (a cujo blog agradeço o link, por falar nisso); e nos dias bons, que vão nascendo, ainda se lê sem demasiado sacrifício o verbo melífluo do Eduardo Prado Coelho. Mas isto não chega, senhor director: eu quero o Público. Eu quero o meu jornal.

Como escrever sobre África.

A Granta deste trimestre é dedicada ao continente africano. Mas antes de começarem a suspirar, leiam dois ou três parágrafos do queniano Binyavanga Wainaina, num texto entitulado How to write about Africa:
Always use the word 'Africa' or 'Darkness' or 'Safari' in your title. Subtitles may include the word 'Zanzibar', 'Masai', 'Zulu', 'Zambezi', 'Congo', 'Nile', 'Big', 'Sky', 'Shadow', 'Drum', 'Sun' or 'Bygone' Also useful are words such as 'Guerrillas', 'Timeless', 'Primordial' and 'Tribal'. Note that 'People' mean Africans who are not black, while 'The People' means black Africans

Never have a picture of a well-adjusted African on the cover of your book, or in it, unless that African has won the Nobel Prize. An AK-47, prominent ribs, naked breasts: use these. If you must include an African, make sure you get one in Masai or Zulu or Dogon dress.

In your text, treat Africa as if it were one country. It is hot and dusty with rolling grasslands and huge herds of animals and tall, thin people who are starving. Or it is hot and steamy with very short people who eat primates. Don't get bogged down with precise descriptions. Africa is big: fifty-four countries, 900 million people who are too busy starving and dying and warring and emigrating to read your book. The continent is full of deserts, jungles, highlands, savannahs and many other things, but your reader doesn't care about all that, so keep your descriptions romantic and evocative and unparticular.

Make sure you show how Africans have music and rhythm deep in their souls, and eat things no other humans eat. Do not mention rice and beef and wheat; monkey-brain is an African's cuisine of choice, along with goat, snake, worms and grubs and all manner of game meat. Make sure you show that you are able to eat such food without flinching, and describe how you learn to enjoy it—because you care.

(...)

Agora a boa notícia: o texto completo encontra-se, miraculosamente, aqui.

Duas convulsões da fé.

No Ocidente cristão, é contaminada pelo racionalismo. No Oriente islâmico é saqueada pelo fervor.

3.2.06

Valha-nos Deus, parte 2.

Era de esperar. Cada vez que se fala na intolerância islâmica saem logo vinte ou trinta bloquistas da sua toca para nos recordar a contra-reforma, a santa inquisição e o fardo do homem branco em geral. O triste exemplo que está na imagem é um cartaz do Je vous salue, Marie, o filme de Godard que fez espumar o Presidente da Câmara de Lisboa e as trémulas virgens do Patriarcado nos finais da década de oitenta. Porque é que o mostro aqui? Porque o Nuno Ramos de Almeida, do Aspirina B, julgou muito engraçado colocá-lo no seu blog por baixo da inteligente frase:
Estes muçulmanos são tramados: não respeitam a liberdade de expressão!
Já no Bichos Carpinteiros, a incansável Joana Amaral Dias, aparentemente refeita da sua fase soarista, revela-nos um anúncio proibido em Itália por abordar o famoso episódio bíblico em que doze apóstolas escassamente vestidas jantavam com um latagão.

Nenhum deles reconhece, no entanto, que o cerne da polémica não respeita tanto aos limites da liberdade de imprensa, como ao reforço físico desses limites. Vou ser mais claro: o problema não está só no protesto dos Ayatolás, mas principalmente no modo como os seus seguidores condenam, perseguem e matam jornalistas, escritores e realizadores europeus ao mesmo tempo que estão a protestar. E com franqueza, acho estranho que nem a tosca nonchalance do Nuno Ramos de Almeida, nem as sentenciosas evocações da Joana Amaral Dias tenham em conta esta pequena diferença.

2.2.06

Casamentos de inconveniência.

Apesar deste bom post do Eduardo Pitta, ainda acho que o casamento gay também devia ser um assunto para os heterossexuais. Não estou, como é óbvio, a falar do gaguejante Pacheco Pereira: refiro-me aos heterossexuais que não têm medo de ser contaminados pelo famoso vírus da rabetíce, e a quem não caem os parentes na lama se alguém sugerir que eles engolem a palhinha ou pegam de empurrão.

Eu preferia, evidentemente, morar num país com dez por cento de homossexuais assumidos, que numa parvónia repleta de patêgos analfabetos, marialvas etilizados, pomposos quadros médios e falsas tias a arrastar a voz nos salões de beleza de um subúrbio qualquer. É talvez uma questão estética. Digamos que me sinto mais de acordo com os padrões europeus.

Mas mesmo que eu não preferisse: o que é que está a defender, afinal, quem pretende continuar a limitar o casamento a pessoas de sexo diferente? Defende a procriação? Proíba-se o matrimónio a seguir à menopausa. Defende a religião? Acabe-se com o registo civil, e encham-se as sacristias de virgens vaporosas e rutilantes. Defende a família tradicional? A única que eu recordo, neste momento, julga-se herdeira da coroa de Bragança e descendente do profeta Maomé, além de não ver televisão.

Sejamos francos. O único motivo para adiar ainda esta medida nem sequer é o preconceito, mas a cobardia. Os nossos admiráveis políticos, que se estão nas tintas para o casamento homossexual, julgam que o povo não está. Eles temem que os barrascos do Vimioso e de Miranda do Douro saltem para os carros de bois numa fúria miguelista e saqueiem a Capital de enxada na mão e odre de vinho à ilharga, desfazendo em bordoada as venerandas galerias do seu prestigiado antro legislativo.

Mas podem ficar descansados, senhores deputados. O nosso bom povo, que via com ternura o circunspecto José Castel-Branco a abanar o rabo para o fogoso depositário das suas afeições, na verdade anseia pelo momento em que os senhores legislem como devem; e em que o país inteiro possa assistir ao auspicioso matrimónio, num inesquecível directo da TVI.


Nota posterior: há muita gente não gagueja na blogosfera. Daniel Oliveira no Aspirina B e Constança Cunha e Sá no Espectro fazem de mim um daqueles patetas denunciados por Vasco Pulido Valente, que ficam todos satisfeitos quando concordam com quem escreve nos jornais (cito de memória).

O que fazemos, fazemos para o servir melhor.

O objectivo do Franco Atirador é transformar-se, a curto prazo, no mais exclusivo blog português. Para esse efeito, temos o prazer de o informar que já no próximo dia 30 de Fevereiro iniciaremos a cobrança de 25 euros mensais a cada um dos nossos leitores. Contamos com a sua colaboração.

O crime e a astróloga: episódio 2.

(Está aqui o episódio 1).

Parecia uma manhã tranquila no Bairro Alto. A Nazaré, da loja de tatuagens, com o corpo coberto de magnólias e dragões, conversava com um velho de aparência tão rural que, embora fosse de Lisboa, talvez nunca tivesse visto o mar.
O Nicolau, de rolos na cabeça e tamancas holandesas, estendia à varanda as cintas de liga vermelha e os kimonos de cetim em que os turistas sempre reparavam, como se já fizessem parte do Guide du Routard.
Lá ao fundo, entre a Adega Velha e a Mercearia Machado, no terceiro andar do número 16, ela conseguia ver o consultório do seu arqui-rival, o mago Karassas. Era um negro luzídio, de músculos definidos, temperamento fleumático, que se diria ter passado mais horas no ginásio do que a decifrar o Livro Tibetano dos Mortos.
Durante todo o dia acumulavam-se mulheres em frente à sua porta, como odaliscas na piscina de um sultão; mulheres de todas as cores, de todas as classes, de todos os paises, que o Meireles da drogaria via passar com estalos de língua, comentando entre dentes que aquele consultório lhe lembrava a Terra Santa, disputado por israelitas e palestinianas.

Luis M. Jorge, sonhador, pensa na Fama, na Fortuna, e nas vantagens de se escrever um blog para cinco mil e quinhentos leitores.

O efeito Vasco Pulido Valente.

O sitemeter dos outros fascina-me, confesso. Não resisto a dar uma espreitadela às audiências diárias dos blogs de referência. No Espectro, em particular, detectei uma evolução muito interessante: no domingo, 29 de Janeiro, o blog tinha menos de novecentos leitores. Dois dias depois, contava cinco mil e quinhentos. Vá-se lá saber porquê.

1.2.06

A luta de Jacob, segunda parte.


Em Amona, um colonato ilegal perto de Ramallah, alguns judeus ortodoxos também não encaram as provas divinas com equanimidade. Ninguém por aqui viu o Anjo, que tinha dito: "não te chamarás mais Jacob, mas Israel, porque foste forte contra Deus".

A luta de Jacob com o Anjo (detalhe).


Nesta obra, Delacroix representou o combate, relatado no Génesis, entre Jacob e um Anjo até ao amanhecer. O pintor afirmou que este episódio era considerado, pelos livros santos, "um símbolo das provas que Deus envia por vezes aos seus eleitos".

O crime e a astróloga: episódio 1.

A astróloga Gaia respirou fundo e acendeu o cigarro. Perguntou a si mesma se estaria a fumar demasiado, mas concluiu que não, pois conhecia bem a data da sua morte, que nenhum maço de Marlboro Lights poderia antecipar. Pegando outra vez no mapa, profetizou:
- Os seus trânsitos, senhor Artur, fazem-me lembrar o meu genro. Escondem o passado como se tivessem cometido um crime, e falam do futuro como se fossem cometer outro, ainda pior. O senhor ficará rico em Setembro. O montante é muito alto para ser ganho honestamente. Irá viver para o estrangeiro. Estará sempre rodeado de mulheres, mas será perseguido por um homem. Conhecerá brevemente a glória, e depois disso uma infelicidade duradoura. Mas terá uma velhice sossegada, na companhia da sua filha.
- Filha?
- Ainda não sabe? Não se preocupe, vai saber. São cem euros, por favor.
Estonteado, o cliente vestiu a gabardine, depositou duas notas na caixa de madrepérola e, hesitando ainda, saiu sem o guarda-chuva. A astróloga Gaia fechou os olhos, em meditação. Teria deixado a àgua a correr em casa? Mais uma vez lamentou não ser omnisciente, apesar do estágio na Califórnia.

(Continua).

Olha, olha, quem veio almoçar.

O José Mário Silva, o tal dos jogos florais, visitou a minha caixa de comentários com uma conversa sobre Almada, e tal. Só que eu não sou impressionável: respondi com isenção, e enviei a disquete para o João Pedro George. Eles que se esgadanhem.