6.2.06

Ajuste de contas.

Estava no aeroporto de Los Angeles quando Diana de Gales morreu. A notícia foi dada, quase em simultâneo, pelas várias televisões a que assistíamos no lounge, antes de entrarmos para o avião. Mas esta notícia não foi recebida com os usuais gritinhos (oh my God!) que os americanos reservam a tudo o que os maravilha. No silêncio que se seguiu (a palavra sepulcral aplica-se aqui, por uma vez, com propriedade), duas amigas minhas murmuraram que o mundo inteiro iria ficar prostrado quando a noite acabasse. Foi então que peguei no cigarro, pus o meu ar mais pretencioso e discordei com altivez: Diana era uma personagem regional, esclareci. A sua morte seria vagamente lamentada durante dois ou três dias, talvez uma semana e, depois disso, misericordiosamente esquecida. O mundo nunca mais ouviria falar daquela pobre tola, nem dos seus aborrecidos dramas amorosos. Como se vê, eu era um sujeito esperto, em 1997.

A 31 de Janeiro referi-me neste blog aos cartoons sobre Maomé publicados pelo Jyllands-Posten da Dinamarca. O assunto ainda não estava nas primeira páginas de todos os jornais (só no dia seguinte o Público o mencionou); e eu achei que o poderia tratar como mais uma anedota involuntária, protagonizada por toscos muçulmanos sob o olhar desdenhoso do Ocidente. Como se vê, ainda sou um sujeito esperto, em 2006.

Durante a semana, várias pessoas avaliaram estes protestos tendo em conta o seu contexto. Eu prefiro encará-los a partir dos valores que neles se opõem. São:

1. O respeito pela liberdade de expressão contra o respeito pela crença.
2. O direito à indignação contra o direito à segurança dos seus alvos.
3. A superioridade do Ocidente contra a igualdade entre as civilizações.

1. liberdade vs. crença

Sou claramente a favor da liberdade de expressão. Uma crença pode impôr comportamentos a quem a professar, mas não a quem lhe for exterior. Se o islão proibe os desenhos de Maomé, só os pode proibir aos seus fiéis (do mesmo modo que, em Portugal, quem faz uma promessa não pode obrigar alguém a ir descalço a Fátima para a cumprir). E este princípio deve ser rígido, sem contemplações. Os desenhos eram de mau gosto? Paciência. Nenhum governo, de nenhum país, deve pedir desculpa aos muçulmanos ou a quem quer que seja.

2. direito à indignação vs. segurança

Aqui, julgo que os dois valores se equilibram. Não tenho nada a opor aos protestos dos muçulmanos. Não me aborrece que invadam as ruas ou queimem bandeiras (uma bandeira só obriga, como digo antes, quem acreditar nela). No entanto, é importante que os países europeus defendam os seus cidadãos e os seus bens sem hesitar.

3. Ocidente vs. outros.

Antigamente era eurocêntrico, e hoje ainda o sou em alguns aspectos: no que diz respeito à relação entre os sexos. À integração das minorias (incluindo as muçulmanas). Ao convívio com a tecnologia. À divisão dos poderes políticos. Mas um árabe valorizará outras coisas: talvez uma noção superior de amizade, hospitalidade, e ligação familiar. Ou uma visão mais límpida da morte e do prazer. Dará mais importância à glória ou à abnegação. Não sei. Mas sei que, dentro do mesmo barco, não cabe à pescada dizer se é mais saborosa que o atum.

Para resumir: julgo que o escândalo dos muçulmanos não nos obriga a nada. Os seus protestos não nos devem repugnar. Mas devemos proteger-nos sem hesitações, e sem imaginar que somos superiores a eles.

Goodbye, Lady Di.


Indispensáveis: este, este, este, este , este e este post. E se não me engano (outra vez) acho que a lista vai crescer.

7 Comments:

Blogger Rui MCB said...

E este. Este també é indispensável.

11:53 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Obrigado Rui. Você deve ter sido o único a chegar ao fim desta estopada ;-)

2:30 da tarde  
Blogger Idanhense said...

Eu também consegui chegar ao fim e no essencial partilho as suas ideias.

3:26 da tarde  
Blogger AM said...

Publiquei no SEDE:
http://forumsede.blogspot.com/

"Pornoliberdade de expressão

Quem percorrer a cidade do Porto (como, decerto, tantas outras) verificará que, na generalidade das lojas que se dedicam ao comércio de jornais e revistas, se encontram expostos em escaparates ou montras, à vista de todos, os mais diversos exemplares de jornais e revistas habitualmente classificados de “pornográficos” ou "eróticos" nas versões “hard” ou “soft”.

Pessoalmente, acho essa exposição de extremo mau gosto e considero-a até ofensiva, nem precisando de citar situações específicas em que a localização dos estabelecimentos ou bancas poderia acrescentar mais algumas considerações ao simples “mau gosto”.

É claro que os comerciantes além do DIREITO, tem a LIBERDADE de expor o seu produto, e se aquilo se publica é porque se vende, por isso tem que haver quem venda...

(Gostaria aqui de deixar bem claro que estou longe, mas bem longe, de ser um qualquer tipo de moralista (verdadeiro ou falso) e que muito teria a confessar se fosse adepto de alguma religião que se dedicasse a tais práticas, não, não é disso que se trata, trata-se apenas de GOSTO, obviamente relativo, se bem que admita que, para outros, a questão até possa ser mais grave.)

Mas, repito, os comerciantes tem a LIBERDADE de proceder desta forma e não serei eu que os irei tentar, pela palavra, demover dessa prática, até porque há certas coisas que ou se é capaz de ver, sem ajuda, ou então não há ajuda que valha.

Agora tenho que reconhecer que me desgosta viver numa sociedade em que haja quem se sinta bem a ganhar a vida a publicar “daquilo”, em que haja comerciantes que não se importam de colaborar com esse comércio para ganhar mais uns tostõezitos e que não exista uma “pressão do mercado” que leve a que os comerciantes entendam que seria mais vantajoso, para a sua actividade global, demonstrar outro grau de respeito pelos seus clientes.

Será que isto significa que eu sou defensor da censura?

Ou será que entendo que a liberdade de expressão não é um dos valores fundamentais da nossa sociedade?

António Moreira"

5:11 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

António:

Eu acredito que a liberdade de expressão é um dos nossos valores fundamentais- ela está no centro dos juizos críticos, que por sua vez estão no centro de todos os nossos modelos de desenvolvimento. É talvez dos valores mais centrais do ocidente nos últimos séculos. E aplica-se com mais justeza exactamente àqueles casos em que nós não gostávamos que se aplicasse.

12:40 da manhã  
Blogger 日月神教-任我行 said...

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9:42 da tarde  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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6:36 da tarde  

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