19.2.06

Irmã Lúcia: o regresso.

Começo a escrever este texto num momento em que os três principais canais da televisão portuguesa transmitem em directo o segundo enterro de uma mulher que ouviu Nossa Senhora profetizar a conversão da Rússia e o triunfo do Seu imaculado coração, entre outras divagações mais ou menos delirantes.

A primeira página do Público já me tinha preparado para o choque civilizacional: de um lado, estou eu. Do outro, os prantos seráficos e as esganiçadas aleluias da parvónia inconsolável. É um mistério para mim que duzentas e cinquenta mil almas, centenas de castrados em batina e várias televisões se tenham deslocado num dia de chuva para assistir ao despejo de uma vidente semi-analfabeta na sua última morada terrena.

Última, é como quem diz. Se a moda pegar teremos todos os anos mais uma remoção das ossadas da irmã Lúcia, ora para Lourdes, ora para Compostela, ora para Jerusalém, até sobrarem quatro tíbias improváveis e meia dúzia de metacarpos dispersos nos lugares santos deste mundo.

O Clarim, a Família Cristã e a Voz da Alvorada competirão para mimosear os leitores com um calendário perpétuo das transladações. O Fátima Missionária venderá bilhetes para acompanhar o caixão às ex-colónias: Lúcia, ou o que sobrar dela, há-de converter os últimos comunistas de Angola numa tournée vitoriosa entre os pretinhos.

Embora morta, Lúcia dirá sim à vida, à castidade e ao amor - e não ao preservativo, às células estaminais e ao aborto. O seu nome será bem-aventurado na Polónia, onde Cristo redivivo nasceria hoje, e temido na Suécia (onde O crucificavam se voltasse).

Mas até ao próximo ano, graças a Deus, podemos contar com ela em Portugal. Por enquanto ainda não houve confirmação de milagres, embora eu tenha uma sugestão: demita o Souto Moura, santinha.

Se a Lúcia não conseguir, ninguém consegue.

4 Comments:

Anonymous NM said...

Mas tá parvo ou quê? Nasceu na Parvónia?Respeite para ser respietado

9:53 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Certamente, leitor. Se os católicos apelarem ao uso do preservativo em África, salvando com isso milhões de vidas, se encorajarem a investigação com células estaminais a partir de embriões, se combaterem a pedofilia do clero, protegendo as suas vítimas em vez de olharem para o lado, eu terei todo o prazer em respeitá-los.

Até lá, serão tratados neste blog como os parolos nefastos e cumplíces de vários genocídios que me parecem ser.

E já agora, embora isso seja menos importante, podiam também deixar de monopolizar a minha televisão.

10:43 da tarde  
Anonymous formol said...

Acho terrível terem privado a mulher de viver a sua vida normal: de ter filhos numa escola profissional, de ter um patrão parolo (da Académica, com um grande BMW com GPS e mapas da Europa toda!), de comprar uns móveis pirosos no Salão da Batalha, de ver o Fernando Rocha com uma anedota circular sobre um preto por volta das 3 da manhã na SIC, de ir à Lousã ver o rancho das Estrelinhas do Areal, de ver passar o comboio da tropa na Linha do Norte nas belfas de Soure...

Padralhada criminosa essa, que priva uma vida iluminada de viver na pele comum o mundo moderno da região centro.

3:11 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Ena, isso dava outro bom post. O pormenor do rancho das Estrelinhas do Areal e do comboio da tropa nas belfas do Soure causaram-me até uma certa inveja, falando apenas como narrador.

9:55 da manhã  

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