24.2.06

É o país, estúpido.

I.

Há cerca de trinta minutos aguardei a permissão do semáforo para atravessar uma das laterais da Avenida da Liberdade. Não tinha dado dois passos quando fui bloqueado por um automóvel que decidira ignorar o vermelho. Como o trânsito era lento, toquei com o dedo no vidro de trás, para avisar o condutor da sua infracção. O veículo parou imediatamente, e o apressado imbecil que o conduzia chamou-me filho da puta, palhaço, e solicitou-me aos gritos que fosse para o caralho. Eu sou fleumático nestas circunstâncias. Avaliei a distância que já nos separava (cerca de dez metros), calculei o apego de um português médio ao seu Volvo, que nunca abandona, e como entendi que eram escassas a probabilidades de uma agressão física (falta-me talento para as enfrentar), fiz ver ao patife que ele era um atrasado mental. Depois virei as costas, deixando o grunho a vociferar.

II.

Li hoje no Público que catorze adolescentes do Porto mataram um homem à pancada, ou então, não sei o que é pior, que o esconderam para morrer. Apesar das coloridas circunstâncias do caso (a vítima era um travesti, e os algozes estavam entregues a uma instituição de acolhimento), eu acredito que se trata de um assunto excepcional. O que me agride mais, neste país cheio de ódio, é exactamente o que falta ao crime em discussão: a banalidade da violência. O desprezo pelos pobres, que não vi noutro lado da Europa. Os assassinos que dominam as estradas, perante a indiferença de todos. A escravatura das suas mulheres e os velhos ao deus-dará. A raiva, o desleixo e o abuso de poder que cada um de nós tem de enfrentar quando entra em contacto com um serviço, qualquer serviço, do Estado que sustentamos.

O que se passou no Porto é triste e lamentável. Mas infelizmente, parece demasiado folclórico para nos ensinar alguma coisa.

6 Comments:

Blogger Filipe Moura said...

Não exageres. Quanto à situação I sucedeu-me há uns meses algo semelhante em Paris (numa passadeira). NINGUÉM parava e a gente ali na passadeira. Pedi a uma amiga um guarda chuva daqueles que dão para uma família toda e que não se viram nem com um furacão. Ameacei partir o pára brisas do carro que se aproximava, que enfim parou e, enquanto finalmente atravessávamos (repito, na passadeira), ainda teve o desplante de barafustar. Não entrei em discussão com ele, mas como não gosto de levar desaforos para casa limitei-me a mostrar-lhe o dedo do meio.
Quanto ao caso II, felizmente creio que é excepcional.

11:05 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Sim, Paris também é uma cidade doente, embora encantadora.

2:19 da tarde  
Blogger Sofia Loureiro dos Santos said...

Não o percebi muito bem.

Se o que o agride mais é a banalidade da violência portuguesa, que falta a este caso, então sente-se menos agredido pelo assassínio de um indivíduo frágil e marginal? Porque este tipo de crime é folclórico e, portanto, a excentricidade é preferível?
Ou será que a violência folclórica é cada vez mais banal, e por isso passa a sentir-se agredido?

Não, de facto não o devo ter percebido bem.

5:46 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Compreendo a sua dúvida, sofia. O que eu quis dizer é que este crime é excepcional e inútil, no sentido em que não conseguimos evoluir a partir dele. E que o facto de estarmos demasiado concentrados nele se deve a motivos que não têm nada a ver com a fragilidade da vítima (todas as vítimas são frágeis) mas com o lado mais "televisivo" das suas circunstâncias. De qualquer modo vou alterar uma palavra numa das frases, para a tornar mais explícita. Responda-me se quiser. Não me importo de continuar a discutir consigo este tema.

6:25 da tarde  
Blogger Sofia Loureiro dos Santos said...

Que evolução?
Para nós, pessoas bem intencionadas, sentadas confortavelmente em frente aos nossos computadores, a discorrer habilmente sobre a banalização da violência e a agressividade do tratamento folclórico destes temas, é fácil distanciarmo-nos dos frágeis, sejam eles vítimas ou agressores.
O que me agride, a mim, é que como sociedade não fazemos tudo o que podemos para que as crianças, seres em formação, e que podem, de facto evoluir, tenham um ambiente saudável para optarem e escolherem o seu caminho. Não vejo manifestações nem inquéritos parlamentares questionarem o que se passa nesses colégios e nesses centros de acolhimento. Não vejo movimentos cívicos apelando aos seus concidadãos que tomem nas suas mãos a responsabilidade pelo acompanhamento dessas crianças, mesmo que apenas pela vigilância atenta, ou pela doação de fundos, tempo, carinho, etc.
Temos uma esquerda que defende os excluídos, teoricamente, e uma direita que apregoa a caridade mas que não considera os excluídos como iguais.
E se fossem nossos filhos?

7:33 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Sofia:

Não sei se está a manifestar algum desacordo comigo, mas o seu comentário parece-me correcto. Apenas discordo da referência às "manifestações" e aos "inquéritos parlamentares", que são para mim inutilidades anacrónicas.

Uma outra nota: é perigoso falar de justiça partindo da indignação. Mas tarde ou mais cedo caímos nos vícios da populaça, que quando as florestas ardem se manifesta pela pena de morte para os incendiários. Se entregássemos aos "indignados" a nossa justiça, teriamos metade da população nas prisões. E julgo que nem seria a pior metade.

Quanto às misérias da direita e da esquerda, acho que tem toda a razão.

7:45 da tarde  

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