16.2.06

Os portugueses (retratos-robô): Manuela.

As mulheres são quem mais sofre com os atrasos das obras públicas.
Tanta carne e eu em jejum!...
Manuela execrava o pó, o ruído e a desordem que o novo hospital trouxera ao bairro, desde Fevereiro do ano anterior.
Ó filha, anda cá que o pai unta-te!
Antes da primeira pedra, já aquele doce recanto na Póvoa de Santo Adrião se assemelhava aos Estábulos de Áugias.
Fazia-te um vestidinho de saliva!
Só que estes, eram um pouco mais difíceis de limpar.
Lindo decote. Se cair, já sei onde me agarro...
Em certos dias, cheia de coragem, ela ainda protestava.
Mau, mau, o quê? Disse algum disparate ou chupas aqui mesmo?
Noutros, afectava uma serenidade logo dissipada.
Que curvas! E eu sem travões...
Tentou uma toillete mais clássica.
Havia de chover mármore em Tavira!...
Passou a apressar o passo, antes de chegar aos tapumes.
Lindas pernas, a que horas abrem?
Ensaiou o tailleur.
Deves ser mais apertadinha que os rebites de um submarino!
Trocou os saltos altos por práticos mocassins.
Diz-me como te chamas, para eu te pedir ao Menino Jesus!
Sujeitou-se à dissimulação de uma écharpe e de uns óculos escuros.
Anda cá, para eu te fazer uma sessão de raboterapia...
Fez queixa à polícia.
Só não tenho pêlos na lingua porque tu não queres!
Pediu ao Artur que a levasse a casa.
Isso é tudo teu?
E finalmente resignou-se a usar calças, entre segunda e sexta-feira.
Ficam-te bem. Mas eu ficava-te melhor!
Até que uma manhã, quando já se preparava para a burka, nada aconteceu. Ao princípio suspeitou que era feriado, mas as betoneiras estrondeavam. Perto dos tapumes, os trolhas pareciam absortos na sua trôpega rotina. Nem um olhar. Nem um assobio. Não era um milagre, mas parecia um acto de contrição.

Na esquina da papelaria, Manuela voltou atrás. Entrou de novo no prédio, subiu quatro lances de escadas, abriu o roupeiro e vestiu uma mini-saia rosa, que não usava há anos, mas tinha para ela um valor sentimental. De regresso à rua, a resposta não tardou.
Partia-te a bilha toda, ó cavalona!

Não te esqueças do meu nome, que logo à noite vais gritá-lo.

Posso-te pagar um copo, ou preferes o dinheiro?
Sempre fora assim, confessou a si própria, já no carro. Suportava a grosseria - mas o desprezo, não.
Ó boa! Dá um beijinho ao trolha...

9 Comments:

Blogger Susana Bês said...

Olhe que não, olhe que não...

11:30 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Susana, quero já esclarecer, que falo da Manuela. Não da Mulher.

12:27 da tarde  
Blogger Susana Bês said...

Até à saia, o comportamento da Manuela não é específico de um retrato-robô. A saia e a preferência pela não-indiferença podem ser lidas ou como simples remate (o que fiz inicialmente) ou como verdadeiro centro do post (e, portanto, momento constituinte do retrato-robô).
Apesar de ter lido os anteriores retratos-robô, não me recordava deles e não fiz, por isso, a leitura do post inteiro "ao longo" da série. Fi-la, pois, "ao longo" do género.
Tanto com o esclarecimento, como com a ajuda do post subsequente que faz referência à série, estou integralmente ciente de que a saia da Manuela é só da Manuela.
Assim, já posso sair à rua com a minha saia cor-de-rosa em pleno sossego e rosnar aos trolhas que me chateiem.
Mas penitencio-me pela confusão de leitura. Pela minha parte, esclarecida.

9:11 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Não sei se a segui completamente, Susana. Nem me quero levar muito a sério no que é apenas um exercício de estilo e de caracterização. O pormenor da mulher que volta atrás para quando não é assobiada, por incrivel que pareça, tirei-o da vida: roubei-o a uma entrevista com uma rapariga brasileira (nem sei quem era) que gostava de fazer isso, há uns anos atrás. Mas no fundo foi o pretexto para amarrar esta série de piropos de trolha numa história, e de lhes dar um ar "experimental" (desculpe a pompa). Gostei desta estrutura em paralelo: a história dela e os piropos, alternadamente. Podia ter escolhido um trolha para protagonista, mas como já tinha o Bibito na série, achei que se repetiam. Uma coisa é certa: este tipo psicológico não combina, na minha opinião, com a maior parte das mulheres, e acho-o muito menos realista que os outros retratos da série.

Não precisa de se penitenciar, eu gosto de levar os meus leitores ao limite, principalmente se forem leitoras ;-) (graçola marialva)

Mas falarei nisso num dos posts seguintes.

Um abraço.

10:08 da tarde  
Blogger Susana Bês said...

:)

11:31 da tarde  
Blogger Susana Bês said...

Luís, será porventura inútil ou mesmo causador de entropia, mas faço questão de esclarecer que o meu post "subir na vida" NÃO visa(va) o Franco Atirador. Ao aperceber-me, tardiamente, que também tem "links to this post", já depois do que poderia ter sido, mas não foi, uma controvérsia em volta da saia da Manuela, receei que pudesse ter-se dado essa distorção na atmosfera. Fica também o meu esclarecimento. Gosto de dosear judiciosamente os rigores, sobretudo quando aplicados a cavalheiros :)

11:20 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Susana,

Não vi links dos que refere, mas como tinha acabado de criar um blog com os meus textinhos sobre os "portugueses", a que me afeiçoei, reconheci no seu post uma possível "boutade". Se o foi, não me atingiu. Reconheço-me muito nos "aguçados sarcasmos", pouco nas "untuosas bajulices" (consegui até, em três meses e tal, provocar alguns famosos anti-corpos), e quanto a "subir na vida", como é que lhe hei-de explicar: já subi. Mas fico contente por não ter querido dizer o que disse, quando viu que eu não tinha dito o que você achava que eu queria dizer.

3:49 da tarde  
Blogger Susana Bês said...

Não, não. Eu nem disse, nem quis mesmo dizer, o que o Luís diz que eu disse (ainda que o Luís admita que eu tivesse deixado de o querer dizer se tivesse visto que o Luís não tinha dito o que eu acharia que o Luís queria dizer). Sem boutade e com cordialidade.

4:21 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Ok, ganhou.

5:27 da tarde  

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