31.3.06

Menos?

Os adversários das quotas para mulheres em cargos políticos, sugerem que as futuras titulares poderão ser menos competentes do que os actuais ocupantes da Assembleia da República. Atrevo-me a discordar, senhores deputados.

Convicção e estratégia.

Um bom insight da Carla Quevedo, que me levou a distinguir entre dois tipos de moralistas: os que têm um objectivo prático, e os que obedecem a uma voz interior. Os primeiros, param a tempo. Os segundos, não. Qual dos modelos é pior? Perguntem a um moralista.

Sócrates, Pulido Valente, e o reformismo.

Com excepção dos infelizes sequestrados na Região Autónoma da Madeira, acredito que toda a gente que lê blogs, lê o Público. Não vou, por isso, citar o artigo de hoje do Vasco Pulido Valente. Apenas direi que compara a paixão de Sócrates pela Ciência, com a paixão de Fontes pelo comboio: ambas conduzirão, inevitavelmente, ao desastre.

Para ler o Vasco Pulido Valente, é recomendável que o leitor conheça dois preconceitos habituais num historiador. Primeiro: a História repete-se sempre. Segundo: tudo acaba em desastre. O que há de errado nestas impressões? Nada. Ambas são geralmente razoáveis e verdadeiras. Mas ignoram o sucesso ocasional do reformismo.

Uma norueguesa dizia-me há meses que o seu avô ia descalço para a escola, quando era menino, na região de Trondheim. Hoje, a Noruega é o país mais rico do mundo. O petróleo ajuda, mas nem tudo, por ali, vem do petróleo. As empresas ajudaram, mas nem tudo veio das empresas. Houve também uma intenção reformadora, lenta e inexorável dos seus governos, que acabou por produzir resultados.

Isto para dizer que não julgo completamente errado um governo investir 250 milhões de euros em ciência e criar 5000 bolsas de estudo. Embora a possibilidade de um milagre seja escassa, não me parece que a intenção mereça um vitupério, ou uma catilinária.
Dormia dezoito horas e sonhava com uma desconhecida.

Uma fase, ou uma frase, sentenciosa.

Alguém com quem falamos através da internet continua a ser um estranho? Eu julgo que não, mas sei que sim. Só conhecemos uma pessoa quando nos desilude.

30.3.06

Da boa memória.

Ontem comuniquei ao Luís Rainha que lamentava a sua saída do Aspirina B, desejando que ele não guardasse uma lembrança amarga das nossas altercações. Respondeu-me com um pedido de desculpa afectuoso, mas injustificado. Porque terá sido tão fácil fazer as pazes? Porque o Luís é um homem com talento. Os medíocres nunca esquecem.
O bom ministro Freitas tentava salvar os exilados do terrível destino que os aguardava em Portugal.

Bem-hajam.

Ontem, este post foi citado pelo Diário de Notícias. Confesso que não fiquei surpreendido: quando fazemos justiça ao professor César das Neves, Deus nunca se esquece de nós.

29.3.06

Por falar nisso.

Nunca compreendi as pessoas que tentam escrever como o Graham Greene ou como o Paul Bowles. A nossa obrigação é tentar escrever como o anjo que destruiu Sodoma e Gomorra. Tudo o resto, é uma pura perda de tempo.
Com ele, Diana perdera o medo de voar.

O meu safari liberiano.

Em 1935 Graham Greene atravessou a Libéria, um país fundado por escravos libertos e intocado pela colonização. A aventura deu origem a um dos melhores livros de viagens que conheço, Journey Without Maps. Pouca gente sabe, no entanto, que existe uma segunda narrativa dessa expedição: Barbara Greene, a prima do escritor, que este refere pelo nome apenas uma vez, a twenty-two-year-old, slightly ditzy, naive, and utterly charming Londoner, a socialite some eight or nine years younger than her dour, somewhat secretive, literary cousin, Graham (podem ler o resto aqui), foi a última pessoa a quem ele podia perguntar, e a única que concordou em acompanhá-lo. A travessia foi um inferno, mas Barbara manteve o seu diário, a partir do qual compôs um livro ao regressar a Inglaterra. Chama-se Too Late To Turn Back. Hoje descobri que há um exemplar em Londres, só para mim.

28.3.06

Louis d'Orléans coloca uma providência cautelar perante o rosto da amante.

Amnésia ou ignorância?

É um pouco estranho, mas promissor, que a Margarida Rebelo Pinto e a Oficina do Livro não recordem os inúmeros sucessos editoriais originados por um escândalo como este. Diz-me um passarinho que a Objecto Cardíaco se vai sair muito bem.

O que é que eu faço aqui?

Não sou do Benfica, nem do Sporting, nem de esquerda, nem de direita. Não sou gay, nem marialva, nem agressivamente heterossexual. Não tenho religião de qualquer espécie, nem respeito à Nossa Senhora de Fátima. Não acredito no Feng Shui. Não gosto mais de praia do que a maior parte do mundo. Já viajei bastante, mas não fui ao Brasil. Nunca me apaixonei por carros, nem por motorizadas, nem por bicicletas de montanha. Gosto de comer, mas não me desloco por causa de um cozido. Gosto de vinhos, mas não tenho garrafeira. Gosto de dinheiro, mas sempre o gastei como se não lhe desse qualquer espécie de importância. Não me identifico com pategos de fato e gravata assoberbados por soluções de gestão. Já não posso ver os giros, dinâmicos e oh tão modernos e self-conscious designers nacionais. Detesto a Fátima Lopes, o Saramago, o Paulo Coelho, a Mísia, a Kátia Guerreiro, os Delfins, o Expresso, as portugálias e os lounge cafés todos brancos e iguais que agora brotam, com um atraso de décadas e um serviço miserável e pedante na cidade. Detesto o Lux, com as suas hordas de classe média baixa em óculos escuros e poses afectadas. Não considero Lisboa, por muito que mo digam os seus ignaros habitantes, nem de longe, nem de perto, a mais bela capital do mundo. A província leva-me às lágrimas. O Porto nunca será uma opção. Por isso, pergunto: com excepção, talvez, do Alentejo, onde é que há, neste país, lugar para mim?

Profecia.

Nas próximas legislativas, o engenheiro José Sócrates será o primeiro lider europeu a ultrapassar os 83% de votos que Alexander Lukashenko obteve, tão justificadamente, na Bielorússia.
Celeste jurava-lhes que aquele seria, muito em breve, um grande amor.

Nunca ninguém ficou tão bonzinho a comer wienerwurst.

Vale a pena ler este texto do Lutz, para comprovar o efeito dos nossos ares e da nossa amesendação.

O cantinho de César das Neves (1).

Nesta nova rubrica, daremos voz ao Altíssimo e ao seu mais dedicado servidor no Diário de Notícias, João César das Neves, insigne economista cristão. Eis o destaque da semana:

A juventude naturalmente não pode existir sem uma fé. Os que a assumem, vivem equilibrados; os outros são explorados por interesses sedutores. O rock e o metal, por exemplo (...).

Na próxima segunda-feira há mais.

27.3.06

O meu agradecimento ao Bombix-Mori.

Por todos os depravados de bom gosto que hoje tem andado a enviar para aqui.

Odeio dizer "eu tinha razão".

Mas eu tinha mesmo razão. Um mês e tal depois deste meu post sobre Manuel Alegre, a Joana Amaral Dias escreveu este, com alguma informação privilegiada e o seu habitual mau perder. Suspeito que o MIC ainda vai dar muitas alegrias aos nossos cartunistas (também odeio esta palavra).
Faltava-lhe coragem física, mas a sua cabeça nunca recuava.

26.3.06

Carta de amor, nº 2: de madame X para um tal L.M.J.


Meu pequenino,


Queres amor? A madame Xana dá-te todo o amor que desejares. Visita o meu boudoir ao Saldanha, entre segunda e sexta-feira, a partir das seis da tarde, e eu prometo conduzir-te ao auge da paixão.

Podemos começar por um banhinho em jacuzzi, muito chique, muito morninho e tranquilizador. Quando estiveres relaxado, levo-te para a caminha e acaricio-te com as minhas mamocas rijas e pontiagudas, para acordares novamente. Depois faço-te um botãozinho de rosa e um oral natural que te vão pôr a chorar de prazer! Se te satisfizeres na minha boquinha, ofereço-te logo ali uma segunda oportunidade: o meu bumbum redondo e gostoso dar-te-á uma nova vida, ou recebes o teu dinheiro de volta. A seguir, se ainda tiveres força para os três pratos, sou toda tua outra vez. Caso contrário, e apenas na primeira sessão, permito que me faças uma chuvinha dourada inesquecível, completamente gratuita!

Tudo isto, meu amor, pode ser teu sem pressas nem tabus, por apenas cinquenta "beijinhos" (mas sem factura). Tenho um metro e sessenta, cinquenta e cinco quilos, busto quarenta e dois. Fico à tua espera quando te sentires só ou tiveres vontade de conhecer uma empresária espectacular.

Au revoir, Madame XXX.
Passaria a respeitá-la depois do matrimónio ou da maternidade, o que quer que chegasse primeiro.

BURNT NORTON ('Four Quartets', nº 1)

(...)
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden. My words echo
Thus, in your mind.
But to what purpose
Disturbing the dust on a bowl of rose-leaves
I do not know.
Other echoes
Inhabit the garden. Shall we follow?
Quick, said the bird, find them, find them,
Round the corner. Through the first gate,
Into our first world, shall we follow
The deception of the thrush? Into our first world.
There they were, dignified, invisible,
Moving without pressure, over the dead leaves,
In the autumn heat, through the vibrant air,
And the bird called, in response to
The unheard music hidden in the shrubbery,
And the unseen eyebeam crossed, for the roses
Had the look of flowers that are looked at.
There they were as our guests, accepted and accepting.
So we moved, and they, in a formal pattern,
Along the empty alley, into the box circle,
To look down into the drained pool.
Dry the pool, dry concrete, brown edged,
And the pool was filled with water out of sunlight,
And the lotos rose, quietly, quietly,
The surface glittered out of heart of light,
And they were behind us, reflected in the pool.
Then a cloud passed, and the pool was empty.
Go, said the bird, for the leaves were full of children,
Hidden excitedly, containing laughter.
Go, go, go, said the bird: human kind
Cannot bear very much reality.
(...)
T.S.Eliot.

25.3.06

Laura.







Hoje às 11 da noite, no Canal 2. Estou quase, quase a desmarcar um jantar.

Pacheco Pereira recomenda (1):


Fag Rag: (...) Was your first sexual experience with a man or a woman?
Gore Vidal: (...) I was much too polite to ask.

In Sexually Speaking, de Gore Vidal.
Depois de casar, José Maria ainda recordava com ternura a sua iniciação sexual.

Prado Coelho e o ministro Manuel Pinho - versão americana.

Está felizmente online este editorial do The Economist, sobre a importância dos intelectuais na política dos EUA. A boa notícia é que eles têm alguma importância. A má, é que muitos são Republicanos. Mas todos ajudam a transformar o mundo num local mais tranquilo, ameno, e tão democrático como Bagdad:
Europe produced both grand visionaries like Marx and compulsive improvers like Bentham; America prided itself on being a businesslike civilisation. Europeans used the word “intellectual” (a French invention, naturally) as a term of praise. Americans regarded it as synonymous with “egghead”, if not “sexual deviant”.

But look at the world of public policy today and it is America that is the land of the intellectuals and Europe that is the intellect-free zone. Look at the Iraq war, and you can see the influence of the dreaded neocons. Look at tax policy, and you can see the influence of the supply-siders. Look at the debate about gender roles and, lo and behold, Harvey Mansfield, Harvard University's lone conservative, has just mounted a heavyweight philosophical defence of “Manliness” (though the references to Aristotle have not stopped Oprah Winfrey from flashing it on the cover of her magazine, next to a smiling picture of herself).
Vale a pena ler o resto.
Ela era apenas humana, mas o seu coração estava legal.

24.3.06

Carta de amor nº 1: de um tal L.M.J. para a senhorita X.

Será que o meu amor não chega ao fim?

O tempo não o esgota, pois vivo fora do tempo, desde o tempo em que a vi. Nem a distância o encurta, porque a amo agora, como se estivesse aqui. Nem o desejo o consome, porque a desejo sempre mais, quanto mais amor encontro em mim. Nem a ternura o acalma, a este fogo na alma que nada parece extinguir.

O meu amor por si, é como um astro, que continua a girar mesmo depois de se pôr. É como a água de um rio, que continua a correr, castigada pelo verão. É como um pássaro, que canta quando todos dormem, um relâmpago que explode quando ninguém olha, um fruto que cresce sem se colher. É um bosque profundo, um oceano sem fundo, uma neve eterna. E não vai acabar.

Porque eu sou apenas humano, mas o meu coração é imortal.

Light of my life, fire of my loins: um concurso de cartas de amor.

Em atenção ao público feminino, cada vez mais importante para este blog, o Franco Atirador decidiu inaugurar uma nova rubrica que fará as delícias de todas as senhoritas: um concurso de amáveis, doces e ridículas cartas de amor! Quantas vezes, minha boa amiga, recebeu uma? E quantos desses exercícios amadores, no mau sentido, a conduziram à cama, mas apenas para dormir? Pois bem, isso tem que mudar: este vosso indigno criado, daqui em diante, irá tranformar-se num vaporoso repositório de cartas de amor. Caros leitores, enviem-mas e eu as publicarei. Ou então, colocam-nas em post com um link, que eu as citarei. Permitam-me ser o Petrónio Árbitro do vosso romantismo! O concurso é válido para homens, mulheres, crianças, e até para o nosso Presidente da República, se nos estiver a ler.

Para dar o exemplo, vou colocar no post seguinte um exemplar que burilei há tempos, infelizmente sem sucesso. Eu tinha dois biceps a menos, e a senhora um namorado a mais, mas fiquei, estrategicamente, amigo dela até hoje. Divirtam-se.

Correcção absolutamente inútil e um pouco snob.

Na verdade, são anos 30, eduardo. Cerca de 1730. (Não tem que agradecer).

Andei o dia todo preocupado com isto.

Não valeria a pena avisar o Pacheco pereira sobre este livro do Gore Vidal?

23.3.06

Philippa amava Carlyle, que era um pouco sonso, mas muito educado.

Os metabloggers também mudam de opinião.

Há posts que deviam transformar-se em comentários.

Peter Doig: On the Future of Painting.



Vale mesmo a pena comprar a Modern Painters deste mês (de todos os meses) e ler a entrevista com Peter Doig. Vou transcrever dois ou três trechos, quando tiver tempo. Por enquanto, deixo-vos este amuse bouche que extraí do site:
Over Christmas Doig had been busy finishing two large canvases for the Whitney. They are dark, brooding works that continue his recent exploration of almost transparent figures filled with mystery and promise. He said lightly ‘I had the canvases propped up last week and a wind blew through the studio and the large one fell over onto a scaffolding pole. It went straight through. I waited for Miro to wince but she looked, as always, inscrutable. He continued, ‘Then I fixed it and Bang! Over it went and a spray can went straight through.’ He continued, ‘Not as bad though as when critic Matthew Higgs visited years ago, parked his bicycle and a canvas fell right through its handle bars’. We all laughed together, but I’m going to look very closely at the surface of that Whitney canvas.
A imagem reproduz um quadro de Doig, entitulado Transparency.
Os amigos acusavam-no, aliás injustamente, de exibir o seu dinheiro.

Maldito narcisismo.

Qualquer blog que se preze inclui uma auto-citação. Esta é fresca, em comentário ao penúltimo post:

Ai, Susana, qualquer dia não tenho vida privada! Eu sei, eu sei que a culpa é minha. Sou muito dado e singelo. Possuo uma inocência natural. Mais um mês de blog e fico como a Elizabeth Taylor: ela não sabe quantas vezes se casou, mas o mundo sim.

Será normal, alguém rir a sós com as tontarias que profere? O humor é uma tortura.

Sexta coluna.

Conheci este blog ainda há pouco, mas gosto muito dele. O Eduardo parece ser uma pessoa com quem se pode conversar.

22.3.06

Golias aprendera a meter-se com alguém do seu tamanho.

Não é aspirina, é xarope.

Desde que o meu amigo Luís Raínha deixou de postar todos os dias, o Aspirina B transformou-se numa estopada sem brilho, nem esperança de redenção. É certo que por lá se passeiam agora o Daniel Oliveira e o Rodrigo Moita de Deus. Mas o primeiro quer tanto fazer blogs como eu quero estudar direito constitucional: been there, done that. O outro, lembra-me aqueles pais que anseiam levar os filhos à discoteca quando estes fazem dezoito anos: o amável convívio transforma-se depressa num horrível embaraço, que acaba à meia-noite com a criança, sisuda, a arrastar o velho bêbedo para fora da pista de dança, proibindo-o de conduzir.

A coisa não seria tão má, se ao mesmo tempo não houvesse por aquelas bandas um cheiro remoçado a sacristia de esquerda radical: agora, com as manifestações na Sorbonne, a malta imagina-se outra vez no Maio de 68 - em pelota, e a atirar pedras à polícia. Não vamos, aqui, tentar explicar-lhes a diferença entre os revolucionários de outrora e os jovens conservadores que eles hoje em dia glorificam: os homens, dizia T. S. Eliot, não suportam muita realidade. No entanto, caro Nuno Ramos de Almeida, talvez se pudessem evitar posts como este.

É que tudo tem limites: não deixe que os do bom gosto se percam, juntamente com o talento.

21.3.06


Golias era grande, mas David possuia armas de destruição maciça.

"Eles criam um deserto e chamam-lhe paz".

A frase é de Tácito, que a aplicou aos romanos. Cito-a em homenagem a José Manuel Fernandes, um dos poucos entusiastas da guerra do Iraque a assinalar o terceiro aniversário da mimosa data, com um artigo no Público (sim, ele ainda acha que tinha razão, e que os franceses se portaram mal).

Como, sem encher a boca, também eu me considero um liberal, e portanto acredito na responsabilidade de cada um, vou imitar o Lutz e recordar aqui alguns blogs em que se apoiou esta operação miserável, na qual morreram 100.000 civis, os mesmos que se pretendiam libertar. É uma pena que toda esta gente da direita tenha ficado agora calada: certamente foi por comoção.

E por falar em historiadores romanos, qual será neste momento a opinião do latinista? Ainda não a encontrei, mas tenho a certeza que ele a deu - seria inconcebível que alguém, geralmente tão prolixo, escolhesse o silêncio num momento destes.

Aqui, na Finlândia.

O plano tecnológico do engenheiro José Sócrates já está a dar os primeiros resultados. O à-vontade do nosso povo com a ciência aplicada é indesmentível. Ainda hoje ouvi uma criatura, de telemóvel em punho, dizer a outra, na Avenida da Liberdade:

- Então, paneleira, não respondestes à mensagem?!

Como é óbvio lembrei-me logo de Helsínquia, cheio de nostalgia.
Toma. É para ti.

20.3.06

O Yates de Pedro Mexia.

É uma ideia atraente, para Pedro Mexia, definir Yeats como um poeta misógino. No entanto, a classificação é discutível, pois Yeats nada tinha contra as mulheres em geral, mas contra a mulher que amava e o rejeitou vezes sem conta, em particular. Um psicólogo dirá que é sempre assim, um gramático não. Há limites para a interdisciplinaridade.
Antunes não costumava degolar os filhos sem uma boa razão.

Mitos portugueses, 1: os brandos costumes.

Até a TVI irromper no imaginário popular com a sua descendência de facadas, incestos, estupros e empalações, a amável sabedoria das nossas avós dispensava uma periódica homenagem aos brandos costumes nacionais. Os alemães, já se sabe, eram todos maus. Os franceses, pervertidos e, pior que isso, cultivados. Com a Inglaterra, essa nação de biltres a tresandar a álcool, convinha-nos, como convém à criadagem, esconder a inveja e afectar algum desdém. Os espanhóis suscitavam-nos apenas dois ou três provérbios desmoralizadores. Dos nórdicos tinhamos uma visão distante, gélida e idealizada, que perdura até hoje. Foi assim durante mais de cinquenta anos. Portugal, sem ser uma bonbonnière, tinha de si próprio a imagem de um envoltório protegido das horrendas tragédias do Século pela distância, a pobreza, a religião, as colónias e Salazar. O nosso ânimo, evidentemente, estava de acordo com a mediocridade destas convicções. Éramos nhurros, mas obedientes, pobretes, mas alegretes, e sempre ligeiros a erguer o chapéu perante mais uma pequena potestade regional. O saque metódico do Estado, que tanto arrebata a nossa magnífica esquerda, é uma criação desses tempos: a revolução só lhe acrescentou o seu patético descaramento. Uma mão lavava a outra, e a nossa manifesta brandura oleava a máquina que dava corda a esta corrupção universal.

Vem isto a propósito de quê? De eu já não ouvir a expressão brandos costumes há cerca de dois anos. O caso não tem mistério algum: nessa altura, a pátria embasbacada descobriu que a Casa Pia não era uma associação de suaves benfeitores. E ao mesmo tempo, compreendeu que a sua famosa meiguice raramente se aplicava aos mais velhos, aos mais fracos, aos mais pobres, aos mais novos e aos mais desprotegidos. Florescendo, como se previa, no caldo de incultura nacional, o jornalismo tablóide teve uma enorme vantagem: mostrou ao povo ignaro o que este era capaz de fazer, inclusive com as suas crianças. Não estou a falar simplesmente das vítimas da pedofilia. Refiro-me também à criança chamada Joana e às outras que foram espancadas até à morte pelos pais, mães, padrastos, tios ou avós perante a criminosa incompetência e o desleixo empoado dos nossos servidores públicos: seria muito difícil que alguma ilusão de docilidade sobrevivesse a estes episódios. A consciência que temos de nós, felizmente, evoluiu, e a fábula dos brandos costumes chegou ao fim. Paz à sua alma.

19.3.06

Também ele tivera um verbo fácil e despreocupado.

Parabéns a você.

A você Azia, que reabriu o tasco (volta para a barra dos links logo à noite). E a você Bombix Mori, por um ano de bem redigidos despautérios.

Os nossos liberais.

Depois do Liberalismo Clássico e do Liberalismo Social, o mundo, atordoado, descobre o Liberalismo Ridículo. (Via Quase em Português).

18.3.06

Perdoai-nos, senhor.

Há um problema com os blogs: são extraordinariamente feios. Podemos enchê-los de imagens sublimes, boas pinturas, excelentes fotografias, que o embaraço não desaparece. Tudo num blog tem um ar trôpego e mal acabado. Os nossos descendentes hão-de rir bem alto do tempo que perdemos a construir estes monumentos sem préstimo à banalidade. Acharão, certamente, comovedor o esforço a que nos sujeitamos para emendar o que não tem correcção. Quem já tentou escolher um template sabe do que falo. Num mundo geralmente grotesco, os blogs são o mais medonho testemunho da nossa suburbanidade.

Duelos ao sol, 3.

Caro Afonso: vai tu, pá.
O Amor andava pelo ar.

Beam Me Up, Scotty.

A última investida americana no Iraque, o entediante congresso do PSD e a tosca hostilidade do segundo maior banco português não chegam para acordar este blog do seu mais recente torpor experimental. Espero que isso não vos incomode.

- Quem fez esta?
- Um dos seus deuses.

No.

It's not because I'm now too old,
More wizened than you guess...
If I say no, it's only
Because I fear that yes
Would bring me nothing, in the end,
But a fiercer loneliness.


Senhora Ki No Washika, Século VIII.
Trad. inglesa, Graeme Wilson.

17.3.06


- Mas é o Pégaso!
- Não, é o Paco.

Limites, III.

Limites, II.

O Luís, que se sacrifica para ser meu personal trainer duas vezes por semana num ginásio de Lisboa, descobriu este blog. Hoje revelou-me que não apreciava muito a escrita e o desenho, elegendo actividades mais práticas, como o futebol. Tudo bem, Luís. Até há poucos meses, eu também não sabia onde ficavam os quadríceps. Espero, ao menos, que sejam só dois.

Limites, I.

Sem livros, podemos escrevê-los; sem quadros, podemos pintá-los. Mas sem Handel, não podemos fazer nada.
Mimi brincava todos os dias com a sua incansável bichinha.

16.3.06

A paixão.

Acordou uma manhã entre os lençóis contaminados por uma matéria sombria, espessa, húmida, de cheiro acre e cor avermelhada. Olhou para as mãos e descobriu que sangravam. Os pés túrgidos, quando caminhou, deixaram atrás de si um rasto pegajoso, denso e indelével. Pôs compressas de gaze nas quatro chagas, que se negaram a sarar. Uma semana depois, finalmente, melhorou. Ainda bem que o amor não é eterno.



- Morreu?
- Ainda não sei.
- Acontece-lhes muito.

Keeler.

É uma pena que João Pinto e Castro escreva tão pouco: concordo sempre com ele.
Entre antigos e modernos, a jovem condessa não rejeitava ninguém.

Antigos e modernos.

Tenho uma alma literal. É-me indiferente saber se uma frase foi escrita há cinco minutos ou há cinco séculos atrás. Não existe muita gente como eu: normalmente, um ser humano prefere alguma coisa. E as guerras entre antigos e modernos, que varreram o Século XVIII para júbilo de Swift, continuam entre nós. Depois da Revolução Industrial os modernos ficaram em vantagem (vou poupar-vos à inevitável citação do exasperante Rimbaud), mas em 1860 Schopenhauer ainda se recusava a ler livros com menos de cem anos, para não perder tempo. Hoje em dia, a maior parte do mundo considera que os livros são velhos se já não ocuparem as revolvidas prateleiras de um hipermercado. O padrão de longevidade razoável é o do Código Da Vinci: o período que vai da publicação ao lançamento do filme e distribuição do DVD.

Eu não quero saber. Prefiro uma página de Tácito a quinhentas de Fukuyama. E hoje mesmo deliciei-me com a aprovação de Thomas Jefferson, que considerava os trabalhos do historiador romano as pre-eminent specimens of logic, taste, and that sententious brevity which, using not a word to spare, leaves not a moment for inattention to the hearer. Ah, se alguns modernos escrevessem assim.

15.3.06

Duelos ao sol, 2.

Para Lolinha, a boa poesia era o esmerado ornamento de um bom coração.

Arte poética.

Tentei ler com a atenção que mereciam estes cinco posts do Jorge Melícias:

Um: dirigir o sentido do poema, densificá-lo.
Dois: espoliar o poema da emoção e da memória.
Três: investigar a excepção.
Quatro: assumir que a unidade é o livro, não o poema.
Cinco: evitar o quotidiano, arriscar.

Embora lhes chame breves notas para uma poética da terminologia, pareceu-me que o autor misturou neles um manifesto contra o kitsch. A intenção é louvável, o diagnóstico digno, a prescrição higiénica. Baldada, é certo, mas nunca é um mau dia para enfadar uns poetastros.

No entanto, alguma coisa nestes textos me incomoda. Uma pessoa não passa impunemente dois ou três meses com John Milton ou William Wordsworth, para citar exemplos distantes - é difícil não procurar nos seus poemas, e depois disso em todos os poemas, alguma homenagem à indestrutibilidade. Mas não é isso que Jorge Melícias tem para oferecer:

A secura não é suficiente. (...) Há que procurar por dentro da secura a esterilidade mais rasa, uma sede que se alimente da sede, absoluta apenas no seu definhamento.

Secura
, esterilidade, rasa, sede, definhamento. Onde anda a sua apologia do risco, o seu elogio da excepção? Qual é o intuito dos poemas que idealiza? Fica a pergunta: além do estimável propósito de aborrecer uns mediocres, este projecto serve para quê?

Involução.

Cro-magnon - homo sapiens - homo neanderthalensis - homo erectus - homo habilis - australopitecos - orangotangos - pássaros - dinossauros - répteis - tubarões - aranhas - centopeias - lampreias - artrópodes - medusas - esponjas - algas - neo-republicanos - amibas.

14.3.06

Duelos ao sol, 1.

Elizabeth gostaria muito de oferecer a sua virtude ao amável estrangeiro.

Why foreigners love us. (As inglesas e o sexo).


An opinion poll of young men recently asked which of the Continent's women they would most like to sleep with. Italian and french girls took the honours, but there was a strong showing from the Swedish ladies, even if they're likely to harangue you about Third World debt and gender inequalities before, after, or even during the act of intercourse. British girls were nowhere in sight, but we should not reflect too sadly upon this - because there was another question a little further down the page, and our babes won by a mile. It asked, which country's women have you already slept with? Absolutely no contest.

This propensity of British girls to give of themselves, selflessly, over and over again, their minds seemingly unpoisened by even the vaguest notion of discrimination, is excellent news for our tourism industry (...).

In The Spectator, Sex and Society Special Issue.

Rude Britannia.

O conservador The Spectator publicou este mês um número especial dedicado ao sexo. Aí poderão encontrar uma defesa da castidade na página 18 e uma explicação do sucesso das inglesas no estrangeiro, na página 26. É um pouco intrigante que os nossos blogs de direita não se tenham referido a esta simpática publicação. Se calhar, não apreciam o assunto.

13.3.06

Briolanja dava um cacho de uvas e três marmelos pelo rapaz,
que não era muito feio e sabia ler mais ou menos bem.

Vende-se.

Ex-blogger de sucesso, com quatro meses e tal de experiência, 187 leitores (a descer) e um assomo repentino de auto-comiseração. Bom preço.

P.S.: não aceito ofertas de liberais com fato e gravata e perninha roliça, que tratam os interlocutores por senhor doutor nos debates do programa Choque Ideológico. De resto, qualquer coisinha serve.

Reveses de um pequeno empresário.

O meu site meter já se ressente da extinção do Espectro.

Efemérides.

Este blog orgulha-se de ter deixado passar, sem qualquer menção, a tomada de posse do Presidente da Républica e o primeiro aniversário do Governo. Mas a Maria Cavaco Silva, tenho de reconhecer, estava rutilante.
Também ele não resistira àquela importante digressão veneziana.

James Whistler, a quem nunca perdoarei por ter humilhado o infeliz Oscar Wilde, recebeu por sua vez um cumprimento mortal do grande crítico de arte John Ruskin, que a respeito de uma obra sua o acusou de ter atirado um balde tinta à cara do público (flinging a pot of paint in the public's face). A publicidade negativa afastou os patronos e Whistler, forçado a vender a casa, partiu para Veneza. Aí produziu imagens magníficas, que lhe restituíram boa parte do antigo crédito no seu regresso a Londres. Esta chama-se Nocturne: Blue and Gold - St Mark's, Venice. A do post anterior entitula-se, muito criativamente, Venice at sunset. E com isto acaba, por agora, a minha obsessão um pouco doentia com a Sereníssima.

12.3.06

Reflexão melancólica.

Para alguns dos nossos leitores, talvez seja um despropósito falar de pintura a propósito de algumas deleitáveis fatias de vaca ou de salmão.

Carpaccio e nós.


Um alheamento algo insolente, uma vaga solenidade, um encanto fácil e irónico, uma reserva mental perante a história. A mesma predilecção por arquitectura e por viagens. Valerá a pena recordar que Hugo Pratt se considerava veneziano?

11.3.06

(Cf. post anterior).
Ainda sobre Carpaccio, vale a pena transcrever um texto de Ian Littlewood que já usei noutras circunstâncias:
Vittore Carpaccio, a painter whose most outlandish subjects are stamped with something quintessentially Venetian. Whatever their ostensible setting, the gorgeous architecture of Venice will usually find its way into the background. Equally constant, and perhaps equally Venetian, is an element of time-worn melancholy in the pictures; Carpaccio's characters have a languid elegance that makes them seem half-disengaged from the scene of which they are a part. Always his processions and regattas and receptions are witnessed by at least one youthful figure whose thoughts are caught in a dream.
In A Literary Companion to Venice.
A partida dos embaixadores, por Vittore Carpaccio. Um dos meus pintores favoritos homenageia os que se despedem.

10.3.06

Que merda.

Agora acabou o Espectro.

Links.

Infelizmente chegou ao fim o azeite-azia, um dos meus blogs preferidos. Na lista de blogs de leitura diária, de onde o retirei entre grossas lágrimas, entram agora o sexta coluna, o bloguítica e o enigmático bombix mori. O maradona, que nunca fez um link a este estaminé, entra também - mas por causa da sua má vontade não vou apoiar o mAMA. Sejam bem-vindos à minha sala de visitas.
Assim, os seus caracolinhos eram mais fáceis de domar.
Rititi gostava de homens com uma boa cabeça.

9.3.06

A (suspiro) análise do debate.

Confesso que me arrependi da promessa que fiz no post anterior. O debate sobre blogs no feminino foi uma pepineira insossa e rasa, apesar da qualidade de alguns intervenientes. Quando digo alguns estou a referir, nomeadamente, os homens. Mas as duas mulheres, ou direi antes as duas amazonas que compareceram ao encontro, quiseram transformá-lo numa batalha campal e cavalgar no dorso dos infelizes machos que por ali se encontravam.

O primitivismo do seu argumentário foi embaraçoso: a senhorita Vieira do Mar atreveu-se a sugerir que os posts escritos por homens são um prolongamento do pénis! Estivesse eu na sala e talvez lhe respondesse que o seu humor me parecia um prolongamento do período. Quanto à famosa Rititi, ainda hei-de saber quanto cobra por fazer um brushing e uma balayage à Celeste, que vem cá a casa: não ouvia alguém ser tão grosseiro desde os tempos amáveis da Manuela Moura Guedes.

No entanto, devo reconhecer que o momento alto da noite foi protagonizado por ela: após insultar o sexo oposto numa interminável exibição de agressividade deslocada, a senhora Rita Silvério afirmou cordatamente que talvez devesse acalmar-se, pois o seu marido, na audiência, estava a mandá-la calar! Aqui no centro de Lisboa ressoaram as minhas gargalhadas: faço um brinde a esse marido, que está disposto a salvar a Ibéria de mais uma destrambelhada Salomé.

Os outros pareceram-me bem. Fosse o debate sobre blogs no masculino, e teria sido um clamoroso sucesso.

Depois das dores de cabeça, dos filhos e da pensão de alimentos, os homens e as mulheres já podem conversar sobre blogs.

Os blogs femininos são mesmo diferentes? Compram tudo nos saldos? Param quatro meses depois da gravidez? Na semana passada o ciclo Falar de Blogues tentou responder aos anseios das nossas leitoras familiarizadas com a informática, com a internet, e com esse mundo dos homens cada vez mais atentos à palavra, ou melhor, às inesgotáveis palavras das mulheres. Por enquanto, podem ouvir o debate aqui (via Origem das Espécies e Indústrias Culturais). A análise segue dentro de momentos.

8.3.06

Luis M. Jorge não se importaria de levar ainda mais longe
o saudável princípio da paridade entre os sexos.

No dia da mulher.

1. Tendo em conta o que ocorreu esta semana à Charlotte, à Rititi, à Miss Pearls e a muitas senhoritas que ornamentam gentilmente a nossa blogosfera, considero um pouco singular que a Constança Cunha e Sá não nos tenha presenteado ainda com um post vaporoso sobre a cerimónia dos Óscares e o deslumbrante Versace da Salma Hayek. A vida não é só política, minha senhora.

2. Por falar nisso: o Franco Atirador, tal como o primeiro-ministro José Sócrates, também defende o princípio da paridade com o belo sexo. Portanto acrescentamos hoje à barra lateral alguns blogs femininos, na esperança certamente vã de polinizar com a sua delicadeza e sensibilidade este sisudo estabelecimento.

Da liberdade.

Espírito livre: Vasco Pulido Valente escreve, para meu alívio, sobre Clara Ferreira Alves e a sua edificante noção de decoro e de lealdade.
Choque de civilizações: é indispensável assistir a este trecho de um debate transmitido pela Al-Jazira. (Via O Insurgente).
Liberalismos: Lutz explica muito liberalmente o que significa ser um liberal de esquerda. Enquanto isso, os liberais encartados citam Ann Coulter e levam-se a sério.
Liberdade poética: como se previa, o Mar Salgado contratou Hannibal Lecter. Mas o doutor Jekyll ainda redige a maior parte dos posts.

7.3.06

Ela amava Celso ainda antes de o saber soletrar.

6.3.06

O modelo finlandês.

Viajei entre Helsínquia e a Lapónia no final do Verão passado. À medida que caminhava para Norte, a floresta de coníferas era repassada por uma luz violácea e a superfície fria dos lagos, outrora diáfana, ia adquirindo um abatimento espectral. Mas esta não é a minha história e sim a do primeiro-ministro José Sócrates, que ontem também foi à Finlândia procurar inspiração.

Anos depois do amor à educação, tremulamente professado pelo engenheiro António Guterres enquanto construia dez estádios de futebol e várias auto-estradas; depois do exemplo irlandês, bendito por Durão Barroso enquanto planeava um assalto à medida das suas ambições; depois do case study venezuelano, emulado pelo saleroso Santana Lopes pouco antes da merecida (e tardia) reforma, chega agora a Portugal o novo paradigma rutilante do progresso: o modelo Finlandês.

Quem já viajou pelos países nórdicos sabe como é absurda a presunção de que algum dia a nossa borbulha no rabo da União Europeia se possa assemelhar vagamente à Escandinávia, ou sequer ao Báltico, para não perdermos totalmente o sentido do ridículo. Mas na opinião do PS e dos génios que o dirigem, tudo o que lhes permita esbanjar dinheiro, aumentar impostos, fazer umas discursatas ocas e dar emprego ao Fernando Gomes, soa logo a coisa boa. Como se os boys do Partido Socialista conseguissem imitar, por um minuto, a honestidade e a decência de um dos países menos corruptos do universo.

Eu não me importava nada. Em Helsínquia, vi menos automóveis de luxo que em Lisboa. Os doutores não andam na rua de peito inchado ao lado das Fátinhas coruscantes, de saco Bershka na mão. Os telemóveis, que se notam raramente, não são no país da Nokia um instrumento de prestígio ou temor reverencial. As pessoas em Helsínquia comportam-se em geral com uma modéstia que seria tida por pobreza neste paraíso dos cromos e das vedetas, onde qualquer labrego tem um estilo e impõe com maneirismos a sua importante opinião. O serviços pareceram-me eficientes e discretos, o convívio tímido, mas delicado, e os poucos funcionários do Estado finlandês com quem falei não me infligiram, ó coisa extraordinária, humilhações horrendas, nem tratos de polé.

Pareceu-me uma terra de pessoas competentes e felizes, com uma noção razoável dos seus limites e um orgulho natural naquilo que construíram. O que tem isto a ver com Portugal? Perguntem ao engenheiro José Sócrates. Ele é que teve mais uma visão para o país.
Não lhes faltava o amor, mas teriam agradecido um Lexotan.

O Deus de Tony Blair.

O primeiro-ministro britânico afirmou esta semana que Deus irá julgar se ele fez bem ou mal em enviar tropas para o Iraque. É compreensível que Tony Blair não deseje entregar esse veredicto à opinião pública do seu país: de acordo com as últimas estatísticas que consultei, morreram 2300 soldados americanos e 103 ingleses em território iraquiano desde o início da ocupação. Os feridos são em número muito superior, como é evidente, e as vítimas de origem iraquiana permanecem um mistério pouco lisongeiro para a coligação que gentilmente as libertou. Nestas circunstâncias, quem pode condenar um homem por recorrer ao juizo sumamente benévolo de Alguém que até agora sempre esteve do seu lado?

A ideia de invocar o testemunho divino, em vez do grosseiro entendimento dos homens, não é inteiramente nova. Até ao Concílio de Latrão, no início do Século XIII, os ordália faziam parte dos instrumentos normais da justiça: quando faltavam os meios de prova, ou quando os depoimentos se contradiziam, recorria-se à vontade do Senhor.

Havia vários modos de averiguar a Sua insondável resolução. Algumas vezes, amarrava-se uma pedra grande ao dorso do acusado e atiravam-no a um rio. Se flutuasse, era inocente. Se obedecesse às leis da natureza, culpado. Em outras ocasiões, colocavam a mão do réu numa fogueira, ou faziam-no andar descalço sobre carvão incandescente, ou punham o seu braço em água a ferver.

Caso tivesse a sorte de morar em Portugal, Tony Blair poderia agarrar num ferro em brasa, por um minuto ou dois. Seria depois untado com óleos, coberto com linho ou estopa, e enfaixado durante um periodo máximo de três dias. Se ao fim desse prazo guardasse ainda traços visíveis da queimadura, era sumariamente condenado.

Estes métodos cairam infelizmente em desuso. Mas algo me diz que, apesar da sua profunda devoção, o primeiro-ministro britânico talvez prefira o nosso Século de incrédulos e o juizo severo dos seus eleitores. Sempre é melhor do que enfrentar a mutilação, a tortura e a morte, como os arguidos da Idade Média. Ou como os soldados que enviou para o Iraque.

4.3.06

Mudanças.

Reparei que a qualidade dos meus posts diminuiu na última quinzena. Atribuo o facto ao cansaço do ritmo diário que impus a mim próprio desde o momento em que, regressado de férias, criei o Franco Atirador. Ora, eu fiz este blog para escrever bem, o que nem sempre é compatível com escrever demasiado. A partir de agora, desejo concentrar-me no prazer que os textos me derem, e não na necessidade altamente imaginária de alimentar duzentos leitores todos os dias. Este blog caminhará ao meu ritmo para uma estrutura assente em textos mais longos e menos reactivos. Vou cultivar o understatement, em vez da polémica um pouco gratuita que tenho detectado por aqui. Vou ficar em silêncio, quando não houver nada para dizer. As mudanças começam na segunda-feira.

3.3.06

Todas as tardes ela tocava os címbalos para o adormecer.

Fujam, que vem aí o arquitecto.

Já me zanguei muito com ele. Já lhe chamei Luis Pereira de Sousa e trato-o habitualmente por arquitecto (em homenagem ao defunto director de um célebre semanário). No entanto, gosto muito dele. Porquê? Porque o Filipe Moura é bonzinho! A cada um dos meus despropósitos, respondeu sempre com um sorriso tolerante e compreensivo. O Filipe acredita, tal como a minha mãe, que se formos gentis com o mundo, receberemos coisas boas em troca. Que tolos são os dois!

Esta é a parte boa. A parte má é que o Filipe se mostra totalmente incapaz de reconhecer um erro. Depois de nos ter massacrado durante décadas, no Blogue de Esquerda, com as suas absurdas opiniões políticas, ele voltou agora à carga num blog individual chamado (evidentemente) o Avesso do Avesso. E com o sentido de humor a que nos tinha habituado até colocou em epígrafe estas bonitas frases do Karl Marx:
A dialética está de cabeça para baixo. É necessário pô-la de cabeça para cima, a fim de descobrir a substância racional dentro do invólucro místico.
Tenho ou não tenho razão? Enfim, se quiserem dar umas boas gargalhadas, passem por lá. Eu já fiz inimigos que cheguem.

Ó valter, deixe lá o santinho.

A minha vizinha tem uma camisola do Che, fica-lhe justa e notam-se os bicos das mamas.
Uma coisa é certa: quem fala assim não é menino da mamã.

Veneza, 2.

Water equals time and provide beauty with its double. Part water, we serve beauty in the same fashion. By rubbing water, this city improves time's looks, beautifies the future.
Joseph Brodsky, Watermark.
A galinha, o faisão e o pavão saboreavam o momento, e evitavam discutir a actualidade mundial.