15.3.06

Arte poética.

Tentei ler com a atenção que mereciam estes cinco posts do Jorge Melícias:

Um: dirigir o sentido do poema, densificá-lo.
Dois: espoliar o poema da emoção e da memória.
Três: investigar a excepção.
Quatro: assumir que a unidade é o livro, não o poema.
Cinco: evitar o quotidiano, arriscar.

Embora lhes chame breves notas para uma poética da terminologia, pareceu-me que o autor misturou neles um manifesto contra o kitsch. A intenção é louvável, o diagnóstico digno, a prescrição higiénica. Baldada, é certo, mas nunca é um mau dia para enfadar uns poetastros.

No entanto, alguma coisa nestes textos me incomoda. Uma pessoa não passa impunemente dois ou três meses com John Milton ou William Wordsworth, para citar exemplos distantes - é difícil não procurar nos seus poemas, e depois disso em todos os poemas, alguma homenagem à indestrutibilidade. Mas não é isso que Jorge Melícias tem para oferecer:

A secura não é suficiente. (...) Há que procurar por dentro da secura a esterilidade mais rasa, uma sede que se alimente da sede, absoluta apenas no seu definhamento.

Secura
, esterilidade, rasa, sede, definhamento. Onde anda a sua apologia do risco, o seu elogio da excepção? Qual é o intuito dos poemas que idealiza? Fica a pergunta: além do estimável propósito de aborrecer uns mediocres, este projecto serve para quê?

5 Comments:

Blogger chuvamiuda said...

.....bem hoje cheguei tarde, o pequeno almoço já terminou, no entanto sempre lhe direi, um projecto com o propósito de aborrecer medócres é um projecto com futuro.....

9:08 da manhã  
Blogger chuvamiuda said...

.....(medíocres)....

9:09 da manhã  
Blogger Dunyazade said...

Duvido, chuva miúda, porque é um projecto que se dirige aos outros, virado para fora, quando a arte começa sempre por dentro.

3:05 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ó Dumyazade, talvez seja melhor leres outra vez. O projecto de que se fala é um manifesto ou reflexão sobre a poética, não é o poema em si. A arte deve vir de onde vier, e a reflexão sobre ela também. Isso do dentro e fora é muito abstracto, é, na prática, nada.
Por outro lado, não me parece que seja só para aborrecer medíocres, acho que um poeta pode, e deve, a todo o tempo pensar honestamente sobre aquilo que persegue. Demitir-se disto é que não é de esperar.
Rui Mantas - O Gajo sem blog

4:28 da tarde  
Blogger Nádia Jururu said...

Há muito tempo que não via uma nova proposta poética, quase desde o tyempo em que o Antero entrou num duelo por essas e por outras.
Mas agora devemos ser todos consensuais...
Não leram o livro do José Gil? Não devemos fazer ondas...

10:43 da tarde  

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