20.3.06

Mitos portugueses, 1: os brandos costumes.

Até a TVI irromper no imaginário popular com a sua descendência de facadas, incestos, estupros e empalações, a amável sabedoria das nossas avós dispensava uma periódica homenagem aos brandos costumes nacionais. Os alemães, já se sabe, eram todos maus. Os franceses, pervertidos e, pior que isso, cultivados. Com a Inglaterra, essa nação de biltres a tresandar a álcool, convinha-nos, como convém à criadagem, esconder a inveja e afectar algum desdém. Os espanhóis suscitavam-nos apenas dois ou três provérbios desmoralizadores. Dos nórdicos tinhamos uma visão distante, gélida e idealizada, que perdura até hoje. Foi assim durante mais de cinquenta anos. Portugal, sem ser uma bonbonnière, tinha de si próprio a imagem de um envoltório protegido das horrendas tragédias do Século pela distância, a pobreza, a religião, as colónias e Salazar. O nosso ânimo, evidentemente, estava de acordo com a mediocridade destas convicções. Éramos nhurros, mas obedientes, pobretes, mas alegretes, e sempre ligeiros a erguer o chapéu perante mais uma pequena potestade regional. O saque metódico do Estado, que tanto arrebata a nossa magnífica esquerda, é uma criação desses tempos: a revolução só lhe acrescentou o seu patético descaramento. Uma mão lavava a outra, e a nossa manifesta brandura oleava a máquina que dava corda a esta corrupção universal.

Vem isto a propósito de quê? De eu já não ouvir a expressão brandos costumes há cerca de dois anos. O caso não tem mistério algum: nessa altura, a pátria embasbacada descobriu que a Casa Pia não era uma associação de suaves benfeitores. E ao mesmo tempo, compreendeu que a sua famosa meiguice raramente se aplicava aos mais velhos, aos mais fracos, aos mais pobres, aos mais novos e aos mais desprotegidos. Florescendo, como se previa, no caldo de incultura nacional, o jornalismo tablóide teve uma enorme vantagem: mostrou ao povo ignaro o que este era capaz de fazer, inclusive com as suas crianças. Não estou a falar simplesmente das vítimas da pedofilia. Refiro-me também à criança chamada Joana e às outras que foram espancadas até à morte pelos pais, mães, padrastos, tios ou avós perante a criminosa incompetência e o desleixo empoado dos nossos servidores públicos: seria muito difícil que alguma ilusão de docilidade sobrevivesse a estes episódios. A consciência que temos de nós, felizmente, evoluiu, e a fábula dos brandos costumes chegou ao fim. Paz à sua alma.

2 Comments:

Blogger chuvamiuda said...

......é mais "brandes" costumes.....

.....falar e escrever sobre estas merdas, que não são brandas, de via ser uma preocupação bloguitica, em vez de andarem a dar numa de intelectuais se retrete com torneiras douradas......

......há já me esquecia, continuo a gostar da combinação das letras.....

Tenha um bom dia e uma boa semana

11:39 da manhã  
Blogger sabine said...

Há mitos que uma pessoa sabe que sao mentira e por isso fica-se aliviada quando caem. Este é um deles.

9:19 da tarde  

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