6.3.06

O Deus de Tony Blair.

O primeiro-ministro britânico afirmou esta semana que Deus irá julgar se ele fez bem ou mal em enviar tropas para o Iraque. É compreensível que Tony Blair não deseje entregar esse veredicto à opinião pública do seu país: de acordo com as últimas estatísticas que consultei, morreram 2300 soldados americanos e 103 ingleses em território iraquiano desde o início da ocupação. Os feridos são em número muito superior, como é evidente, e as vítimas de origem iraquiana permanecem um mistério pouco lisongeiro para a coligação que gentilmente as libertou. Nestas circunstâncias, quem pode condenar um homem por recorrer ao juizo sumamente benévolo de Alguém que até agora sempre esteve do seu lado?

A ideia de invocar o testemunho divino, em vez do grosseiro entendimento dos homens, não é inteiramente nova. Até ao Concílio de Latrão, no início do Século XIII, os ordália faziam parte dos instrumentos normais da justiça: quando faltavam os meios de prova, ou quando os depoimentos se contradiziam, recorria-se à vontade do Senhor.

Havia vários modos de averiguar a Sua insondável resolução. Algumas vezes, amarrava-se uma pedra grande ao dorso do acusado e atiravam-no a um rio. Se flutuasse, era inocente. Se obedecesse às leis da natureza, culpado. Em outras ocasiões, colocavam a mão do réu numa fogueira, ou faziam-no andar descalço sobre carvão incandescente, ou punham o seu braço em água a ferver.

Caso tivesse a sorte de morar em Portugal, Tony Blair poderia agarrar num ferro em brasa, por um minuto ou dois. Seria depois untado com óleos, coberto com linho ou estopa, e enfaixado durante um periodo máximo de três dias. Se ao fim desse prazo guardasse ainda traços visíveis da queimadura, era sumariamente condenado.

Estes métodos cairam infelizmente em desuso. Mas algo me diz que, apesar da sua profunda devoção, o primeiro-ministro britânico talvez prefira o nosso Século de incrédulos e o juizo severo dos seus eleitores. Sempre é melhor do que enfrentar a mutilação, a tortura e a morte, como os arguidos da Idade Média. Ou como os soldados que enviou para o Iraque.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O Tony Blair é absurdo. Foram os ingleses que o elegeram, e serão eles a julgá-lo. O direito divino já acabou há que tempos.

CC

11:25 da manhã  

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