6.3.06

O modelo finlandês.

Viajei entre Helsínquia e a Lapónia no final do Verão passado. À medida que caminhava para Norte, a floresta de coníferas era repassada por uma luz violácea e a superfície fria dos lagos, outrora diáfana, ia adquirindo um abatimento espectral. Mas esta não é a minha história e sim a do primeiro-ministro José Sócrates, que ontem também foi à Finlândia procurar inspiração.

Anos depois do amor à educação, tremulamente professado pelo engenheiro António Guterres enquanto construia dez estádios de futebol e várias auto-estradas; depois do exemplo irlandês, bendito por Durão Barroso enquanto planeava um assalto à medida das suas ambições; depois do case study venezuelano, emulado pelo saleroso Santana Lopes pouco antes da merecida (e tardia) reforma, chega agora a Portugal o novo paradigma rutilante do progresso: o modelo Finlandês.

Quem já viajou pelos países nórdicos sabe como é absurda a presunção de que algum dia a nossa borbulha no rabo da União Europeia se possa assemelhar vagamente à Escandinávia, ou sequer ao Báltico, para não perdermos totalmente o sentido do ridículo. Mas na opinião do PS e dos génios que o dirigem, tudo o que lhes permita esbanjar dinheiro, aumentar impostos, fazer umas discursatas ocas e dar emprego ao Fernando Gomes, soa logo a coisa boa. Como se os boys do Partido Socialista conseguissem imitar, por um minuto, a honestidade e a decência de um dos países menos corruptos do universo.

Eu não me importava nada. Em Helsínquia, vi menos automóveis de luxo que em Lisboa. Os doutores não andam na rua de peito inchado ao lado das Fátinhas coruscantes, de saco Bershka na mão. Os telemóveis, que se notam raramente, não são no país da Nokia um instrumento de prestígio ou temor reverencial. As pessoas em Helsínquia comportam-se em geral com uma modéstia que seria tida por pobreza neste paraíso dos cromos e das vedetas, onde qualquer labrego tem um estilo e impõe com maneirismos a sua importante opinião. O serviços pareceram-me eficientes e discretos, o convívio tímido, mas delicado, e os poucos funcionários do Estado finlandês com quem falei não me infligiram, ó coisa extraordinária, humilhações horrendas, nem tratos de polé.

Pareceu-me uma terra de pessoas competentes e felizes, com uma noção razoável dos seus limites e um orgulho natural naquilo que construíram. O que tem isto a ver com Portugal? Perguntem ao engenheiro José Sócrates. Ele é que teve mais uma visão para o país.

9 Comments:

Blogger azeite said...

mais um post que acerta no alvo, caro luís. sócrates, por seu turno, insiste na política à portuguesa dos tiros no escuro.
e quem se lembra ainda de, há uns anos, o primeiro-ministro da bulgária ter apontado portugal como modelo para o seu desenvolvimento? vai uma aposta em como esse, pelo menos, cumpriu a sua promessa?

6:57 da tarde  
Blogger chuvamiuda said...

....muito temos e teremos a aprender com Finlândia, só há uma coisa que me intriga, one anda o nosso espirito empreendedor de outras eras, será que nos acomodámos a estender a mão e, a olhar para a galinha da vizinha.....

7:31 da tarde  
Anonymous 2º revisor said...

Muito bem dito! Eu também estou para saber quando é que no fundo dos ministérios, se começa a pensar a sério nas nossas especificidades e a trabalhar nisso. No fundo, temo que o nosso plano tecnológico só venha refinar a técnica dos e-mails de apresentações brasileiras em powerpoint.

Segundo me contaram (admito o boato) já houve um tipo brilhante no Ministério da Educação que também se embasbacou com a Escandinávia e teve a ideia genial de copiar um edifício de uma escola na Suécia. Foi daqui uma comissão para analisar esse modelo exemplar de progresso educativo, onde toda a gente é feliz e muito bem sucedida em tudo. A maior glória reside no facto de uma réplica fiel do super-edifício ter ido parar a Almada, essa terra onde o civismo e a vida organizada são um culto que tem perpassado todas as gerações desde sempre, provavelmente.

Acontece que à entrada da escola havia por todo o lado umas ranhuras altas e fundas, sem propósito nenhum. Se fosse um desenho do Siza, as pessoas percebiam logo o sentido daquilo (i.e, a sua perfeita integração, ao nível de uma simbólica inconsciente, com o projecto educativo, tornada operativa através da multiplicação de referentes à verticalidade e ao potencial da envolvente e representada no tolhimento da apropriação subjectiva do espaço pelo rigor da forma), mas como era dum sueco qualquer, os profs mais dotados, na dúvida, puseram-se a pensar para que diabo serviria aquela catrefada de buracos. Os miúdos, claro, como não perdem tempo em conhecer coisa nenhuma, começaram logo a beneficiar da dinâmica do espaço e apertavam lá as mochilas e, muito mais apropriadamente, as matracas e os tacos de baseball. Mas os professores procuraram durante algum tempo o porquê daquilo.

É claro que só pensa quem não sabe. Um dia alguém que conhecia a mente dos suecos afirmou que as ranhuras servem para arrumar esquis.

8:27 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

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8:43 da tarde  
Blogger R. said...

Portugal continua a ser um país autocentrado. Neste sentido acho positivo que a comitiva do Governo vá procurar inspiração na Finlândia. Não se trata de nos tornarmos num país como a Finlândia, mas podemos inspirar-nos em modelos, adaptando-os à realidade nacional. A Educação é um bom exemplo. Há diversos aspectos que podem corrigir-se no sistema de ensino português, aprendendo do caso finlandês, ou outros, porque dependem mais da organização do que de recursos humanos e financeiros. Aliás, não apenas na Educação mas também em diversos sectores. E não se trata de copiar, mas de aprender com os outros que já há muito resolveram problemas com que continuamos a deparar-nos. Se “esse tipo brilhante que embasbacou com a Escandinávia” tivesse importado algumas especificidades do sistema de ensino sueco, em vez de plantas de edifícios escolares, alguns dos problemas que existem no ensino já estariam resolvidos.
Por outro lado, nas declarações de José Sócrates à comunicação social vi apenas propaganda política, nada mais que mera intenção em passar a mensagem de que as medidas implementadas até agora pelo Governo vão no sentido de nos aproximar da Europa mais desenvolvida (e evoluída). Recorrendo uma vez mais ao exemplo da Educação, quando o primeiro-ministro disse que na Finlândia não há “feriados” pretende fazer subentender que, em relação às aulas de substituição, cá passou a fazer-se o mesmo que lá. Ora, o que importa é a organização do sistema de ensino e a forma como se processam as aulas de substituição - cá e lá são coisas radicalmente diferentes. Quanto ao plano tecnológico continua a ser um conjunto de ideias vagas e boas intenções. Sobre a aposta na protecção social, terceiro aspecto focado por José Sócrates, nem vale a pena falar, pois as políticas do Governo vão exactamente em sentido contrário.
Se há coisa em que este Governo é realmente bom é em aproveitar todas as oportunidades e tempos de antena para gerir a imagem. Todos os Governos são assim, mas este é exímio.

10:21 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Creio que o Primeiro Ministro terá em mente a afinidade dos dois povos ao nível etílico - só no consumo de álcool teremos hipótese de nos aproximarmos.

Mas agora que penso na Finlândia, não é aquele país que se tornou um sucesso porque criou o seu próprio modelo, adaptado à sua especificidade, em vez de andar a copiar modelos avulso?

CC

11:02 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

AZEITE:

"sócrates, por seu turno, insiste na política à portuguesa dos tiros no escuro"

É verdade, e é exactamente isso que me irrita. Não é que ele não queira fazer coisas boas: acho que quer. O problema é que tem todos os vícios de falta de rigor intelectual próprios de quem embarca na primeira conversa que lhe cheira a "sucesso" e a "progresso", exactamente como os seus antecessores, sem qualquer respeito pela realidade.

2º REVISOR:

Essa escola não fica em Almada, fica em Lisboa. Eu andei nela quando tinha 12 ou 13 anos, e apesar desse pormenor ridículo dos esquis, não a achei nada má.


R.:

Chama-lhe um defeito profissional meu, mas não creio que o Governo seja assim tão exímio na propaganda. Acho é que é demasiado deslumbrado com ideias requentadas, principalmente se elas incluírem uma visão hegemónica do Estado. E eu sou totalmente contra uma visão hegemónica de um Estado como o português.

Quanto à questão dos "modelos educativos", à "organização do sistema" e aos "feriados", não me convences. Digo-te porquê: cheira-me a paleio igual ao que ouvi durante anos e anos. E como já conheci demasiados professores a trabalharem quatro horas por dia, a ganhar muito mais do que a sua competência justifica, e a refugiarem-se em críticas ao "sistema", recuso-me a alinhar também nessa conversa. Isto não quer dizer que não tenhas razão. Claro que a questão também é o "sistema". Mas quem impede a "organização" e o funcionamento normal desse "sistema", por aquilo que tenho observado, são principalmente os professores. Lamento que isto te escandalize, mas acho que chega de paleio: até prova em contrário, confio mais na ministra do que nos docentes.

Quanto às políticas sociais, a questão é ainda mais simples: Mais de 90% do valor do orçamento português vai para prestações sociais ou ordenados. Queres aumentar as prestações sociais? Então diminui os ordenados da função pública. Queres aumentar os ordenados? Diminui as prestações sociais. Enquanto a produtividade não aumentar, vai ter de ser assim.

Sim, é claro que sobram os impostos: mas esses só aumentam por cima do cadáver de pessoas como eu. A pouca-vergonha tem limites.

11:07 da tarde  
Blogger R. said...

Luís,
Que a culpa é dos professores tenho eu ouvido bastas vezes nos últimos tempos. Já estou habituado, portanto não me escandaliza! Aliás as opiniões não me escandalizam, estimulam-me! E claro que discordo. Os professores actualmente estão sobrecarregados. Podemos comparar com os professores finlandeses. Um professor na Finlândia trabalha 190 dias por ano, três a oito horas por dia ( http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2005/05/23/AR2005052301622_pf.html). Tem de se preocupar apenas com dar e preparar aulas, não com as inúmeras tarefas burocráticas que os professores se vêem obrigados a realizar nas escolas portuguesas. As turmas na Finlândia são de vinte elementos e há dois professores em cada sala, um dos quais apoia os alunos com mais dificuldades. Estes aspectos explicarão alguma coisa do sucesso finlandês. Na Finlândia os professores não ficam na escola a tomar conta dos meninos, se ficam é para preparar aulas. Não resisto a trnscrever este excerto de um texto que se encontra no site da Embaixada da Finlândia (http://www.finlandia.org.pt/doc/pt/infofin/educa.html):

«O dia escolar termina entre o meio-dia e as duas horas da tarde, dependendo do dia e do grupo. Os pais de quase todas as crianças trabalham o dia todo como é hábito na Finlândia, e as crianças pequenas da escola acham que as tardes em casa são muito longas. Consequentemente, as autoridades da cidade construíram um playground próximo da escola, com acesso seguro em relação ao tráfego de veículos. O playground oferece às crianças da escola uma generosa e ampla área recreativa com equipamentos, jogos e dois prédios onde elas podem fazer os trabalhos de casa, ou jogar jogos em ambiente fechado. Cinco auxiliares do playground tomam conta das crianças, que também recebem gratuitamente um lanche da tarde. De resto, todo o playground é gratuito. Aqui observam-se também os princípios pedagógicos de Freinet: as crianças participam na criação de um ambiente bom e agradável para elas próprias.»

Isto dirá algo sobre uma das medidas da ministra que criou mais descontentammento nas escolas: o prolongamento dos horários para assegurar tempos nas escolas do primeiro ciclo. E a ideia que lhe está subjacente, a de que os alunos devem passar o dia nas escolas. Cá não se podem fazer playgrounds gratuitos? Tudo bem. O que não está bem é que sejam os professores a fazer de amas-secas!

Em relação às políticas sociais talvez tenhas razão. Mas haja decoro! Quando se corta nos salários e nas carreiras da função pública e se aumentam em 20% os salários dos gestores públicos deixa de haver legitimidade moral para pedir sacrifícios. Quando os inúmeros institutos, criados há anos atrás, muitos para arranjar tachos, absorvem rios de dinheiro, para gestores e funcionários (para os quais os gestores decidem o salário) não fazerem nada (conheço pessoalmente alguns exemplos), e não se extinguem pura e simplesmente, não há legitimidade moral. Não se podem subir impostos, mas podem-se cobrar, combater a fuga e a fraude fiscal. E podem promover-se políticas para a igualdade - certamente que a diferença entre o salário mínimo de um finlandês e um gestor público finlandês é inferior à diferença que existe para os mesmos em Portugal. Pelo menos em relação a França, vi algures os números,é assim. Mas a minha questão relativamente à protecção social referia-se sobretudo às declarações do primeiro-ministro e á mensagem que tentou passar, i. e., que as políticas sociais do Governo (quais?!) são boas e vão no sentido das finlandesas!

12:37 da manhã  
Anonymous 2º revisor said...

Lamento a minha incorrecção. Oxalá sobreviva a moral da história.

1:09 da manhã  

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