31.5.06

So i never slept, let alone sinned,

in a cast-iron family bed with pristine, crisp linen, embroidered and richly fringed bedspread, cloudlike pillows, and small pearl-encrusted crucifix above the headboard. I never trained my vacant stare on an oleograph of the Madonna, or faded pictures of a father/brother/uncle/son in a bersagliere helmet, with its black feathers, or chintz curtains on the window, or porcelain or majolica jug atop a dark wood chest of drawers filled with local lace, sheets, towels, pillowcases, and underclothes washed and ironed on the kitchen table by a young, strong, tanned, almost swarthy arm, as a shoulder strap slips off it and silver beads of sweat sparkle on the forehead. (Speaking of silver, it would in all likelihood be tucked away under a pile of sheets in one of those drawers.) All this, of course, is from a movie in which I was neither a star nor even an extra, from a movie which for all I know they are not going to shoot again, or, if they do, the props will look different. In my mind, it is called Nozze di Seppia, and it's got no plot to it, save a scene with me walking along the Fondamente Nuove with the greatest watercolour in the world on the left and a red-brick infinity on the right. I should be wearing a cloth cap, dark serge jacket, and a white shirt with an open collar, washed and ironed by the same strong, tanned hand. Approaching the Arsenale, I'd turn right, cross twelve bridges, and take via Garibaldi to the Giardini, where, on an iron chair in the Caffè Paradiso, would be sitting she who washed and ironed this shirt six years ago. She'd have before her a glass of chinotto and a panino, a frayed little volume of Propertius' Menobiblus or Pushkin's Captain's Daughter; she'd be wearing a knee-lenght taffeta dress bought once in Rome on the eve of our trip to Ischia. She would lift her eyes, the colour of mustard and honey, fix them on the figure in the heavy serge jacket, and say: "What a belly!" If anything is to save this picture from being a flop, it will be the winter light.

Joseph Brodsky, Watermark.

Na imagem vemos San Cristoforo, San Michele e Murano vistos do Fondamenta Nuove, por Francesco Guardi. Este post será colocado também aqui.

Voltaram as bandeiras.






Se tudo correr bem, será só por onze dias.

29.5.06

Quando olho para os posts anteriores.

Quase concordo com este amável elogio do Eduardo.

Estão verdes.





Não faça beicinho, Soraia. Apesar do que dizem certos blogs, a menina também tem classe.

28.5.06

"Será que estamos vivos quando os outros também vivem?"

Um tema desenvolvido por Freud, Thomas Mann, Harold Bloom e, ultimamente, pelo Pedro Mexia. A questão, portanto, não é a de saber se devemos estudar os clássicos, mas antes se conseguiremos fugir-lhes.

27.5.06

Boa vizinhança.



Menina Soraia,


Gostaria de informar que tenho a casa cheia de pacotes de acuçar, sal, ovos, limões, coentros, salsa, pão branco, de milho ou integral, além de muitos outros ingredientes que terei todo o gosto em disponibilizar. Apareça com a sua malguinha sempre que quiser.

Do vizinho amigo,

Luis.

Os argumentos.

Uma amiga comunicou-me ontem, de copo na mão, que sou vizinho da Soraia Chaves.

- Quem é a Soraia Chaves?
- Não sabes quem é a Soraia Chaves? Ela fez O Crime do Padre Amaro.
- Não foi o Eça de Queiroz?
- Era a amante do padre!
- Não estou a ver.
- Impossível.
- Porquê?
- Porque são as melhores mamas de Lisboa, Luis. Talvez de Portugal.
- Melhores que as tuas?
- Muito melhores.

Talvez comece a ir às reuniões de condomínio.

25.5.06

Cadernos de um narrador (2): Asuza em Quioto: contexto.

Andei pelo Japão em Setembro e Outubro de 2004. Foi talvez a pior época dos últimos anos para visitar o país. Enquanto lá estive, oito tufões assolaram as cidades do litoral. Um vulcão regressou à actividade, expelindo cinzas que atingiram os arredores de Tóquio. Finalmente, dois terramotos de intensidade superior a 7 graus na escala de Richter sacudiram-me, felizmente longe do epicentro (que foi no oceano), quando dormia no meu quarto de hotel, no oitavo andar de um dos poucos edifícios altos que recordo em Quioto. Eu sabia que o território era propenso a convulsões geológicas e metereológicas, mas aquilo era um pouco demais para mim. Quando vi na televisão que fora convocada uma reunião de emergência do Governo (o primeiro-ministro sonolento, mas vistoso como uma pin-up, os restantes ministros cinzentos e entediados), compreendi que também era um pouco demais para eles.

Os dois tremores de terra ocorreram com um intervalo de cinco horas: a experiência, francamente, não se recomenda. O primeiro apanhou-me incrédulo e absurdamente estonteado. Acordei aos solavancos, como um epiléptico, e olhei pela janela sem acreditar no que via: do outro lado da rua, dois ou três edificios oscilavam como juncos sacudidos pela brisa. Nunca o cimento e a pedra me pareceram tão elásticos, tão vegetais. Compreendi também, nessa altura, que o pudor, pelo menos no meu caso, supera o instinto de auto-preservação: enquanto tentava chegar à rua, descendo as escadas de emergência, ia vestindo as calças e apertando os botões da camisa, como se preferisse que me encontrassem morto, mas não desprevenido.

Não vou contar tudo o que ocorreu nessa noite, pois este não pretende ser o relato dessa noite. Estou a planear uma história de sedução e não um filme de horror. No entanto, o contexto foi suficientemente interessante para me pôr a pensar: será que me concentro na linha narrativa principal, ou introduzo nela este tom um pouco catastrofista e escatológico? Nada como uma história de amor com a tragédia em pano de fundo. Exemplo: The End of the Affair, ou a Morte em Veneza. Mas isso obrigava-me a alterar o final. Fica, por enquanto, a dúvida.

24.5.06

Nota mental.

Suavizar a adjectivação. As pessoas que vivem mais tempo só usam substantivos, verbos e advérbios.

23.5.06

Glub...

A televisão, para Manuel Maria Carrilho, é uma espécie de areia movediça. Quanto mais esbraceja, mais se enterra.

22.5.06

As tretas do costume.

Hoje li mais uma tontaria sobre as desigualdades em Portugal. Deve ser da época do ano, em que esta conversa se repete sempre, com a proverbial catilinária sobre os lucros da banca e o offshore da Madeira. Ora, como qualquer pedinte escalavrado de qualquer remoto bairro social já entendeu há muito tempo, Portugal não é um país desigual. Portugal é um país esclavagista. São coisas muito diferentes. A desigualdade é um problema, o esclavagismo é uma solução. A desigualdade incomoda os políticos e mobiliza as suas vítimas. O esclavagismo é tranquilamente aceite por todos como uma coisa vagamente recomendável e fatal. Fora deste curto mês de Maio, em que por efeito de um relatório internacional a nossa miséria é repetidamente escancarada nos media, a verdade é que ninguém quer alterar as desigualdades portuguesas. A começar pela Esquerda. E a acabar, como é evidente, nos escravos.

I'm a poor, lonesome cowboy...

Isto encheu-me de um orgulho tolo e infantil.

21.5.06

Cadernos de um narrador (1): Asuza em Quioto.

Há uns tempos decidi contar uma história que quase se passou comigo em Quioto, a mais secreta cidade do Japão. Na altura já tinha este blog, e abandonei-o para iniciar aquela narrativa. No entanto, o ritmo de escrita diária que mantive enquanto alimentava o blog, dissipou-se assim que comecei a formular aquilo a que chamei, pomposamente, o meu projecto. Percebi que tinha um problema. Os comentários, os leitores, a reacção espontânea das pessoas que me liam, faziam-me falta. Era isso que, todos os dias, me encorajava a escrever. Mesmo quando os posts não eram comentados, eu sabia que alguém os tinha lido e elaborado um juizo, certamente severo, a seu respeito. Estava, como metade do país, viciado num público.

Cheio de saudades do blog, participei depois noutro projecto, que afinal não era meu. Agora voltei, e o problema também. A história de Quioto continua a atrair-me. O olhar do público, mesmo que seja um público pequeno, faz-me falta. Por isso decidi matar dois coelhos de uma cajadada: os coelhos são o blog e a novela - a cajadada, claro está, vai ser o triste destino de ambos, se esta ideia não correr bem.

A partir de hoje estou decidido a partilhar com a humanidade, ou a minúscula parte dela que tiver a paciência de me ler, todo o trabalho de construção de uma narrativa. O leitor, que eu certamente não invejo, está convidado a confirmar as suas piores suspeitas quanto às minhas misérias literárias. Estes cadernos de um narrador prometem arrastar-se penosamente, por largas semanas, senão meses, sem um rumo, sem um enredo claro, sem diálogos faiscantes, sem episódios eróticos, sem momentos dramáticos ou qualquer ponta de interesse, cumprindo assim a tradicional fatalidade do romance português contemporâneo.

Avisado que está, seja bem-vindo ao meu projecto, para o qual só tenho, por enquanto, uma ideia e um título: Azusa em Quioto.

Tarefas para quem regressa a casa.

Tirar os sapatos. Esticar os dedos dos pés. Fazer uma limpeza na barra dos links. Mudar o template. Tentar esquecer como ficaram horríveis os posts velhos depois de mudar o template. Pensar se vou continuar a mostrar quadros antigos. Decidir que não. Pensar que vou ter de instalar outra vez o Sitemeter. Pensar que ainda é muito cedo.

Milagre!




E ao segundo mês, ele ressuscitou.