25.5.06

Cadernos de um narrador (2): Asuza em Quioto: contexto.

Andei pelo Japão em Setembro e Outubro de 2004. Foi talvez a pior época dos últimos anos para visitar o país. Enquanto lá estive, oito tufões assolaram as cidades do litoral. Um vulcão regressou à actividade, expelindo cinzas que atingiram os arredores de Tóquio. Finalmente, dois terramotos de intensidade superior a 7 graus na escala de Richter sacudiram-me, felizmente longe do epicentro (que foi no oceano), quando dormia no meu quarto de hotel, no oitavo andar de um dos poucos edifícios altos que recordo em Quioto. Eu sabia que o território era propenso a convulsões geológicas e metereológicas, mas aquilo era um pouco demais para mim. Quando vi na televisão que fora convocada uma reunião de emergência do Governo (o primeiro-ministro sonolento, mas vistoso como uma pin-up, os restantes ministros cinzentos e entediados), compreendi que também era um pouco demais para eles.

Os dois tremores de terra ocorreram com um intervalo de cinco horas: a experiência, francamente, não se recomenda. O primeiro apanhou-me incrédulo e absurdamente estonteado. Acordei aos solavancos, como um epiléptico, e olhei pela janela sem acreditar no que via: do outro lado da rua, dois ou três edificios oscilavam como juncos sacudidos pela brisa. Nunca o cimento e a pedra me pareceram tão elásticos, tão vegetais. Compreendi também, nessa altura, que o pudor, pelo menos no meu caso, supera o instinto de auto-preservação: enquanto tentava chegar à rua, descendo as escadas de emergência, ia vestindo as calças e apertando os botões da camisa, como se preferisse que me encontrassem morto, mas não desprevenido.

Não vou contar tudo o que ocorreu nessa noite, pois este não pretende ser o relato dessa noite. Estou a planear uma história de sedução e não um filme de horror. No entanto, o contexto foi suficientemente interessante para me pôr a pensar: será que me concentro na linha narrativa principal, ou introduzo nela este tom um pouco catastrofista e escatológico? Nada como uma história de amor com a tragédia em pano de fundo. Exemplo: The End of the Affair, ou a Morte em Veneza. Mas isso obrigava-me a alterar o final. Fica, por enquanto, a dúvida.

8 Comments:

Blogger azia said...

bem, parece que vou ter que fazer novas alterações à lista de blogues. mas tu sabes o que trabalho que isso dá, luis? bem-vindo de volta. este abraço.

2:03 da manhã  
Anonymous sm said...

deixar um comentário não vás desistir aqui da história ;)
A descrição de um primeiro ministro como uma pin up sonolenta é suficiente para despertar a curiosidade de um passante :)

10:21 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

azia:

como ves eu gosto de dar trabalho às pessoas.


sm:

obrigado. Isto ainda nao é a história, só a estou a preparar.

luis m jorge

10:55 da manhã  
Anonymous Anónimo Simões said...

É uma pena. Um gajo inteligente, com talento, mas essa maldade que te soube quando não fazem exactamente o que tu queres é que lixa tudo.

2:12 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

já gostei mais deste, anónimo. seja um bom menino, e terá ao seu alcance o lugar de bobo na minha caixa de comentários.

2:16 da tarde  
Anonymous anónimo matos said...

Não ficarei por cá tempo suficiente para alcançar esse lugar de bobo no palco da tua soberba, não te preocupes. O meu serviço está feito.

2:20 da tarde  
Blogger Fernando_Vilarinho said...

nunca fui gd admirador deste blogue: mais pelo conteúdo do que pela forma
De tempos a tempos lá vou passando aqui a ver se os conteúdos afiguram-se-me mais interessantes.
Pelos vistos desta vez uma das palavras mágicas do meu dicionário, Quioto, está presente e vou com interesse e curiosidade seguir essa sua série.
Mais dois olhos (n)à mira...

http://bibliotecas-.blogspot.com
http://www.biblio.crube.net (em mudança para http://www.bsf.org.br - yeap an organization! our trick idea)

já agora uma dica, pode retirar o word verification que o blogger já controla bem isso.

1:01 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

"nunca fui gd admirador deste blogue: mais pelo conteúdo do que pela forma"

Parece-me justo, leitor. Eu também nunca fui gd admirador dos seus.

2:44 da tarde  

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