29.6.06

New World.

Finalmente fui ver o novo filme, tão comovedor, de Terrence Malick. Nada melhor para assinalar umas muito merecidas férias. Este blog cumpre serviços mínimos durante o próximo mês e tal.

27.6.06


Nothing can be said here
(including this statement) that has not been said before. One often hears the Piazza described as an open-air drawing-room; the observation goes back to Napoleon, who called it "the best drawing room in Europe". A friend likens the ornamental coping of St Mark's to sea foam, but Ruskin thought of this first: "... at last, as if in ecstasy, the crests of the arches break into a marbly foam, and toss themselves far into the blue sky in flashes and wreaths of sculptured spray..." Another friend observes that the gondolas are like hearses; I was struck by the novelty of the fancy until I found it, two days later, in Shelley: "that funereal bark". Now I find it everywhere. A young man, boarding the vaporetto, sighs that "Venice is so urban", a remark which at least sounds original and doubtless did when Proust spoke of the "always urban impression" made by Venice in the midst of the sea. And the worst of if is that nearly all of those clichés are true. It is true, for example, that St Mark's at night looks like a painted stage flat; this is a fact which everybody notices and which everybody thinks he has discovered for himself. I blush to remember the sound of my own voice, clear in its own conceit, enunciating this proposition in the Piazza, nine years ago.
"I envy you, writing about Venice", says the newcomer. "I pity you", says the old hand. One thing is certain. Sophistication, that modern kind of sophistication that begs to differ, to be paradoxical, to invert, is not a possible attitude in Venice. In time, this becomes the beauty of the place. One gives up the struggle and submits to a classic experience.

Mary McCarthy, Venice Observed.

Na imagem vemos A ponte para a festa da Madonna della Salute, por Luca Carlevaris, de 1720. Como já é habitual, este post será também colocado aqui.

Liberais e libertários.

Portugal parece enfrentar hoje dois grandes desafios politicos:

1. Reduzir (e radicalmente) a dimensão Estado, sem lhe retirar a função social.
2. Fazer conviver o liberalismo económico com a liberdade dos costumes.

O primeiro desafio, é o de cortar a gordura sem atingir o músculo (perdoem a imagética). Ele só será cumprido se nunca esquecermos que o Estado não deve servir os seus funcionários à custa dos seus cidadãos.

O segundo desafio é fazer com que as pessoas de Esquerda, que acreditam nos protocolos de Quioto, nos direitos das minorias, e na correcção das desigualdades, passem também a acreditar no mercado livre e a aceitar sem cobardias a globalização.

Apesar do que se vai dizendo na nossa blogosfera, não é inevitável que um liberal seja também um reaccionário, ou que um libertário seja um socialista.

26.6.06

R.I.P.


Há uns tempos perguntaram ao empresário Belmiro de Azevedo o que achava ele do TGV. O patrão da Sonae esboçou o mesmo sorriso com que oculta normalmente o seu infinito desprezo pela loucura dos homens, e afirmou apenas que nunca se iria fazer.

Hoje, o Governo português insinuou que talvez não seja absolutamente necessário construir tantas linhas de TGV como tinha planeado. Pensando bem, considerou mesmo que a sua construção, embora indiscutivelmente prioritária - todos o sabemos - para nos ligar à Europa e ao Progresso, poderá ser adiada por mais uns... digamos, cinco anos.

Ora, o que são cinco anos na vida de um país? Bom, meus amigos, na vida de um país como Portugal, cinco anos, se tiverem o nosso competentíssimo aparelho do Estado à mistura, são pelo menos uns quinze. Recordemos que o Governo ia dedicar esta legislatura a concluir alguns estudos, e só na próxima, confiando ainda na imperturbável liderança do engenheiro José Sócrates, avançaria para a construção do futuro. Com este adiamento, esperamos por ele mais uma geração.

Os nossos filhos, se calhar os nossos netos, poderão ir de Lisboa ao Porto à velocidade estonteante de trezentos quilómetros por hora. Até lá, vai ficar pelo caminho mais um sonho imbecil e grandiloquente, de um punhado de tardo-keynesianos e de alguns, demasiados, milhares de burocratas.
Há muito que não me entusiasmava tanto com alguma coisa: caros leitores, apresento-vos o Trip Planner do Yahoo Travel. O serviço ainda está em fase beta mas acabei de planear em poucos minutos uma pequena viagem, apenas com recurso à net. Explorem-no um pouco. Eu teria poupado dias de trabalho se o conhecesse há mais tempo.

25.6.06

Espero que o João Miranda concorde.

Afinal, parece que o Scolari não é assim tão mau. Os liberais do Norte deviam talvez seguir o exemplo do Maniche, e começar a acreditar na meritocracia.

24.6.06

Torcendo o pepino.

Será que a infância também é responsável pelas nossas convicções? Poderemos atribuir o zelo de um católico à doce memória dos tempos em que borrava os cueiros, ou rasgava o fatinho da primeira comunhão a perseguir a Alzirinha? Ou talvez não seja bem a infância, mas a adolescência remota: os primeiros retiros em Taizé, o despertar da líbido, as conversas sérias com o padre Martinho sobre o Vaticano Segundo e a masturbação. Quantas almas se desperdiçam quando acordamos molhados, senhor padre?

E um esquerdista, recordará as matanças do porco nos jantares-comício do MDP/CDE? As sessões de esclarecimento que frequentava com o pai durante a Reforma Agrária? As longas noites em que se ouvia a Ópera do Malandro na casa de Benfica, e os cinzeiros transbordavam, entre garrafas vazias de White Horse, enquanto uma dezena de barbudos ouvia o Torres, o Torres do Conselho da Revolução, a desancar nas multinacionais? Ah, o Verão Quente de 75...

Esses bons velhos tempos explicarão porque somos hoje em dia socialistas, nacionalistas ou liberais? Espero que não. Afinal, não tenho razões para desejar uma lastimosa meninice ao doutor Carlos Espada.

No mires MTV.

O projecto está a ser um sucesso em Espanha. Não deixem de ver os filmes.

23.6.06

O Paradise Lost não tem que ser um inferno.

O esplendoroso Satã de John Milton já fala português, numa edição bilingue da Cotovia. Quem se apaixonou pelo poema como eu e sofreu para o ler a sós como sofri, perdoará ao autor do post o trocadilho miserável do título.

22.6.06

Tankas very much.

Leiam este post no devagar.

Parábola.

Por causa desta câmara, continuo a passar horas no escuro, a cortar as mãos em arestas metálicas, a contaminar-me com ácidos nefastos, a sacudir vezes sem conta tanques de revelação. Podia estar no meu belo Powerbook, a melhorar as minhas belas fotografias digitais, capturadas com a minha bela Nikon e uma das belas objectivas que trouxe do Japão. Podia estar a fazer o que toda a gente faz hoje em dia. A ser ajuizado e limpo, em vez de truculento, caprichoso e pedante. Mas esse não seria eu. Nem esta seria uma bela história de amor.

21.6.06

Ameaças do ócio.

O mundo desenvolvido distribui-se por quatro locais: Europa do Norte, Estados Unidos, Austrália e Japão. O hábito que leva as nossas classes médias a passarem férias em Cancun e Varadero só pode ter graves consequências políticas.

20.6.06

Decidam-se, por favor.

Se fosse preciso um défice das contas públicas para proteger os velhos, as crianças, os desempregados e os pobrezinhos, Portugal não teria um dos maiores défices da Europa comunitária, ou então, não teria um dos mais elevados índices de pobreza e desigualdade. O descalabro das nossas finanças não é um mal necessário, é apenas um mal. Nem foi originado por qualquer espécie de princípios, mas exactamente pela falta deles.
Chegaram os figos. O verão começou.

19.6.06

Centenário, II.

Ainda há coisas boas, mesmo assim, na actual Presidência da República - e nenhuma delas merece tão entusiástico aplauso como a ausência da primeira-dama. Só espero que não tenha passado estes três meses e meio fechada na modista. O país real talvez não suportasse tamanho deslumbramento.

Centenário.

A Direita comemora os cem dias de Cavaco. Parece que ele elogiou uma ministra, reenviou uma lei para o Parlamento e convidou as forças armadas para as comemorações não sei de quê. Há, também, a cooperação estratégica, e tal. Umas visitas à parvónia. Um discurso sem cravo no dia da liberdade. Enfim, coisas fulgurantes, do homem portentoso que ia salvar o país. Cem dias, com Cavaco Silva, parecem cem anos.

18.6.06

Declinação de responsabilidade.

Quanto ao resumo alargado, podem comprar hoje o Público, que dedica as treze primeiras páginas ao assunto. Eu, por motivos de saúde, lavo as minhas mãos. Apenas revelarei que no Grupo Excursionista Vai Tu a amesendação é rústica e dasataviada, o serviço correcto, mas sem ornamento, a imperial fresca, embora em copo de plástico, a bifana infelizmente mais cozida que refogada, a carcaça da bifana muito embebida nos sucos da desditosa febra, e o caldo verde honesto, sem pretensões, com rodela de chouriça, despojado de broa e muito abundante em tubérculos. O caracol, de que provei três espécimes, miúdos mas saborosos, revelou-se a surpresa da tarde. O menu era escasso, a carta de vinhos inexistente, o Sumol imperdoavelmente de lata e a bica caríssima, a oitenta cêntimos o exemplar, embora me garantisse a gerência que só durante as festas de Lisboa. A luz faltou a meio da partida, mas depressa se recompôs. O talher foi de plástico, o resultado dois a zero. Em conclusão: uma experiência estimulante, num local a que pretendo regressar.

Classificação: 7/10

17.6.06

Decadência.

É ir assistir ao jogo Portugal-México no Vai Tu!, uma tasca insalubre de belfas viradas para o elevador da Bica. Segundo me constou (mas vou confirmar com o maitre d' in loco, isto é, na baiuca) nem sequer servem Super Bock Green em copo alto a gente sequiosa e viril. Os tremoços e as caracoletas rastejam por lá em toalhas de oleado, para desnorteamento dos pinguços. E parece que possuem mesmo um ecrã gigante entre calendários da Mabor General e ninfas pneumáticas. Daqui a umas horas há-de chegar a este blog, valha-me Deus, o resumo alargado. Que Nossa Senhora do Caravaggio nos proteja.

16.6.06

15 rolos de Velvia, 10 rolos de Acros, 7 rolos de HP5 e 20 rolos de TMAX depois.

Posso afirmar, com alguma segurança, que o meu talento fotográfico é de uma irrecuperável banalidade.

15.6.06

À Zandinga.

Em 2004, quando o suave consulado do engenheiro Guterres tinha dado lugar ao pântano e à decepção, a maior parte do país festejava os novos estádios de futebol, absurdos e inúteis, de bandeirinha nas mãos. Foi mais ou menos por esta altura, em conversa com um amigo, que lhe comuniquei a minha ansiedade em relação ao futuro: Portugal teria pela frente quinze ou vinte anos de paralisia económica. Não era preciso ser um génio para chegar a estas conclusões - bastava ter um saudável desprezo pelo bulshit ideológico que vicejava entre nós e ler regularmente a imprensa económica internacional. O facto de tão pouca gente, à minha volta, concordar comigo, comprovava não o meu engano, mas as deficiencias do sistema educativo (ou da genética) nacional.

Nessa noite tentei explicar ao meu amigo porque precisávamos de todo esse tempo para nos reformarmos. Essencialmente, era preciso fazer o seguinte:

1. Reduzir as funções do Estado.
Deixar de alimentar uma sociedade de dependentes, de mão estendida em casa das mães ou nas empresas, tirando o tapete a quem lhes dava o exemplo: os que andavam de mão estendida pelos ministérios. (Esse trabalho ainda está por fazer).

2. Despedir funcionários públicos inúteis.
Cinquenta anos de salazarismo e trinta de democracia tornavam a tarefa duplamente árdua: era preciso convencer o país que os funcionários públicos não estão protegidos pelo direito divino, e em segundo lugar era preciso ter a força suficiente para os despedir. (Esse trabalho está por fazer).

3. Combater a tentação das obras públicas.
Os estádios do Euro, os pavilhões da Expo, as auto-estradas, o TGV - nada disto eram obviamente necessidades, mas apenas uma estratégia de sobrevivência do poder político e de centenas de milhares de burocratas. (Em vez de contrariar esta tendência, o Governo Sócrates tem andado a alimentá-la).

4. Pôr os juizes julgar, os professores a ensinar, os médicos a curar.
Como o engenheiro Guterres já tinha despejado milhões de contos por cima de toda essa gente, só faltava responsabilizá-la pelos resultados. (Parece uma evidência? Os juizes, os professores e os médicos, aparentemente, não acham).

5. Sair das empresas públicas.
Como se comprovava já, abundantemente, pelo exemplo da golden share da Portugal Telecom, as empresas públicas ou participadas, em Portugal, não serviam para nada - principalmente não serviam para servir bem os consumidores. (Aqui, mais uma vez, o Governo Sócrates tem feito um trabalho miserável).

6. Deixar de ouvir os sindicatos.
Nos países nórdicos, 60 a 80 por cento dos trabalhadores são sindicalizados. Em portugal, apenas 15 por cento. Nos países nórdicos, os sindicatos negoceiam com as empresas sem intervenção dos governos. Em Portugal, são ouvidos, acarinhados e mimoseados por vários ministérios. A explicação para isto é simples. Os sindicatos em Portugal não protegem os trabalhadores - protegem os funcionários do Estado. Ora, como os funcionários públicos em Portugal ganham em média 50% mais que os trabalhadores do sector privado, qualquer Governo responsável teria a obrigação moral de deixar de os ouvir.

7. Desburocratizar.
Mais que aligeirar as regras, desburocratizar significa aligeirar as estruturas. Para isso, ver o ponto 2.

8. Baixar os impostos.
O que se passa com o sistema fiscal português devia ser dissecado em vários posts. Mas, economicamente, o problema é o seguinte: a nossa carga fiscal aproxima-se da média europeia - o que não seria necessariamente mau - mas as indústrias nacionais não competem com os países da europa ocidental: competem com os países da Ásia e da Europa de Leste, cuja carga fiscal é muitíssimo menor. A Esquerda diz, obviamente, que a culpa é dos empresários - gente com a quarta classe, e pouca competência em marketing ou gestão. O que a Esquerda não diz é que os nossos licenciados, nas últimas décadas, se refugiaram maciçamente na função pública. Porque é que eles não estão a abrir negócios? Porque não precisam. De qualquer modo, não é de esperar que surjam do dia para a noite empresas modernas, com gestão sofisticadas e produtos de alto valor acrescentado em Portugal. Até deixarmos de ter patrões com a quarta classe, que competem pelo custo da mão-de-obra, teremos de ser competitivos fiscalmente - e precisamos de reduzir os impostos. (O Governo Sócrates, está a aumentá-los, e com isso, a preparar o desastre).

9. Dizer a verdade.
Hoje, em 2006, os anúncios da retoma envenenam a atmosfera que tornaria as reformas possíveis. A verdade é muito simples: não vai haver retoma nenhuma. A nossa economia pode vir a crescer um ou dois por cento - mas a isso não se chama retoma, chama-se decadência.

Conclusão:
Dois anos depois, o que disse naquela conversa transformou-se num conjunto de lugares-comuns. Mas há dois anos não eram lugares-comuns: eram provocações de um tipo de direita (coisa que eu nunca fui), que queria destruir o estado social (coisa que nunca quis).

Se alguma coisa mudou nestes dois anos, foi a minha visão do futuro. Já não acho que precisamos de vinte anos para nos reformarmos. Neste momento, tendo a considerar que Portugal é um país irreformável. O poder político está demasiado dependente dos trabalhadores do Estado. As famílias também. Há uma enorme hostilidade perante qualquer mudança, e uma atmosfera profundamente anti-liberal vigora entre as elites. A maioria das pessoas que conheço prefere ir perdendo, a pouco e pouco, alguma coisa - e a proximar-se de uma economia de subsistência - a apoiar o desmantelamento dos equilibrios actuais.

Não nos preparamos para enfrentar uma crise, mas uma pobreza reles, velhaca e sem esperança. Não é por acaso: é a herança dos séculos, que nos puxa para baixo. Gostaria muito de não ter razão.

Na blogosfera.

Luis Carmelo continua a analisar com inteligência o tom dos blogues.
João Pinto e Castro, que escreve infelizmente tão pouco, discorre com método e interesse sobre futebol.

Luis Mourão revela-nos o funcionamento exemplar do júri da APE. Deve ter sido por isso que o Pedro George não se queixou.

Derrotando o economicismo.

As mini-férias dos professores, apesar da chuva, foram um sucesso.

14.6.06

Derrotando o neoliberalismo.

A fábrica da General Motors na Azambuja ia encerrar, colocando em risco mil e oitocentos postos de trabalho. No entanto, podemos dormir tranquilos. Os vários sindicatos que representam o sector já anunciaram uma forte paralisação.

13.6.06

Os pozzi.


O Século XIX alvoroçou-se com as masmorras do Palácio dos Doges. Dickens visitou-as em Novembro de 1844, e tirou o melhor partido da ocasião:

One cell I saw, in which no man remained for more than four-and-twenty hours; being marked for dead before he entered it. Hard by, another, and a dismal one, whereto, at midnight, the confessor came - a monk, brown-robed, and hooded - ghastly in the day, and free bright air, but in the midnight of that murky prison, Hope's extinguisher, and Murder's herald. I had my foot upon the spot, where, at the same dread hour, the shriven prisioner was strangled; and struck my hand upon the guilty door - low browed and stealthy - through which the lumpish sack was carried out into a boat, and rowed away, and drowned where it was death to cast a net.

Nas paredes de algumas celas ainda se podem decifrar as garatujas dos prisioneiros desalentados. Mas convém recordar aqui uma carta de 1833, onde a esposa de Bulwer-Lytton nos explica a longevidade dessas inscrições:

the guide told us they were nearly effaced till Lord Byron had spent two days re-cutting them into the walls.

Byron, em Veneza, merecia um outro blog.

O post será colocado aqui, com algumas indicações bibliográficas. A imagem reproduz um óleo de Luca Carvelaris, de 1720, com uma perspectiva geral do Molo e, à esquerda, a fachada do Palácio dos Doges.

12.6.06

O fardo do homem branco.

Como não conseguiria vencê-los juntei-me a eles, e fui ver o Portugal-Angola ao Outra Face da Lua, antigamente no Bairro Alto, agora na Rua da Assunção, entre papéis de parede dos anos setenta, mobiliário holandês, camisas vintage psicotrópicas e jóias de autor. Podia ter pedido um sumo de melancia com hortelã, ou um chá verde com canela e jinseng, mas em vez disso escolhi uma Super Bock Green em copo alto, já que a ocasião exigia uma certa virilidade.

Basicamente, gostei daquilo que vi (refiro-me ao jogo, não às turistas alemãs). Seria impróprio derrotar por mais que um golo os nossos amodorrados adversários africanos, ainda sob o torpor das cangas e das grilhetas após três séculos e tal de colonialismo. Na Selecção Nacional, convém-nos recordar, também há gente de Esquerda, para quem a concretização é um assunto absolutamente secundário, e a culpa fala sempre mais alto.

No fundo, tudo acabou bem. Os portugueses buzinaram nos seus Audis a caminho de Massamá, e nenhum angolano resolveu incendiar as Portas de Benfica. Estava previsto um confronto - mas em vez disso descobrimos, como é habitual, o socialismo.

8.6.06


(Palladio)

As perguntas.

Acredito secretamente que os bons romances têm a sua origem numa frase, e que essa frase é em geral uma pergunta. Como se transforma a ira em compaixão? A fraqueza dos outros pode ser um espelho do nosso desamparo? O que é a felicidade num mundo sem redenção? Coetzee afirma que em todos os seus livros pretendeu descrever homens a virarem-se para a luz (cito de memória).

Vem isto a propósito do romance mais recente de um autor que não lia há vários anos, Paul Auster. Os últimos livros de Auster aborreceram-me mortalmente. As suas personagens, sempre perdidas, pareciam-me bonecos de papel recortados da Trilogia de Nova Iorque, a que o autor acrescentava apenas um pequeno dom, uma mania curiosa, uma suave excentricidade, para facilitar, digamos assim, a catalogação.

Mas estou a gostar deste Brooklin Follies, com os seus seres à procura do calor. E finalmente compreendi o que me atraia nos livros de Auster há uns anos atrás. Não era nada de particularmente criativo ou original. Pelo contrário, é um traço comum na literatura americana, mas raro na europa: o abandono. As personagens de Auster, como as de Kerouac ou de Carver antes dele, têm a tentação irresistível de se deixarem ir. E descobrem, como a maior parte de nós, que o mundo é fascinante quando baixamos os braços.

Adenda: nunca tinha pensado nisto, mas parece-me que o próprio Moby Dick pode estar integrado nessa tradição americana, e é possível interpretá-lo como uma apologia do abandono, embora enquadrada pela experiência religiosa: entrega-te a Deus, nunca desafies as suas obras. Melville, o primeiro beatnik? No...

4.6.06

Ocupado.


A trabalhar em excesso e a preparar uma exposição de fotografia. Este blog vai acalmar na próxima semana (já não era sem tempo).

2.6.06

Foi hoje apresentado o Plano Nacional de Leitura.

Uma iniciativa meritória que, juntamente com o Plano Tecnológico e um pequeno aumento dos impostos, transformará os nossos grunhos imprestáveis em prósperos empresários finlandeses.

1.6.06

São opções.

José Medeiros Ferreira, como tantos políticos do centrão, parece preferir os indigentes aos alarmados.