8.6.06

As perguntas.

Acredito secretamente que os bons romances têm a sua origem numa frase, e que essa frase é em geral uma pergunta. Como se transforma a ira em compaixão? A fraqueza dos outros pode ser um espelho do nosso desamparo? O que é a felicidade num mundo sem redenção? Coetzee afirma que em todos os seus livros pretendeu descrever homens a virarem-se para a luz (cito de memória).

Vem isto a propósito do romance mais recente de um autor que não lia há vários anos, Paul Auster. Os últimos livros de Auster aborreceram-me mortalmente. As suas personagens, sempre perdidas, pareciam-me bonecos de papel recortados da Trilogia de Nova Iorque, a que o autor acrescentava apenas um pequeno dom, uma mania curiosa, uma suave excentricidade, para facilitar, digamos assim, a catalogação.

Mas estou a gostar deste Brooklin Follies, com os seus seres à procura do calor. E finalmente compreendi o que me atraia nos livros de Auster há uns anos atrás. Não era nada de particularmente criativo ou original. Pelo contrário, é um traço comum na literatura americana, mas raro na europa: o abandono. As personagens de Auster, como as de Kerouac ou de Carver antes dele, têm a tentação irresistível de se deixarem ir. E descobrem, como a maior parte de nós, que o mundo é fascinante quando baixamos os braços.

Adenda: nunca tinha pensado nisto, mas parece-me que o próprio Moby Dick pode estar integrado nessa tradição americana, e é possível interpretá-lo como uma apologia do abandono, embora enquadrada pela experiência religiosa: entrega-te a Deus, nunca desafies as suas obras. Melville, o primeiro beatnik? No...

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O Paul Aulster é em grande parte um admirador e imitador de Knut Hamsun... e é também um escritor secundário.... Paciência

11:31 da manhã  
Blogger Carpinteiro said...

"O mundo é fascinante quando baixamos os braços" - interessante essa descrição.

1:02 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Hamsun... pois! Só não escreveu o Mein Kampf por acaso.
Auster, secundário... é judeu, entendi!

2:01 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

entendeu mal... eu até sou judeu...

1:12 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

e já pensou na pintura americana? No Edward Hopper(1882-1967) é a delicadeza do abandono em imagem, em america pura.
zma

7:19 da tarde  

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