30.7.06

Férias.

Eles criam um deserto e chamam-lhe paz.


Foram mais de cinquenta esta noite, muitas crianças. (...) Se eu dissesse aos que por aqui vou conhecendo, gente normal e sem grandes conhecimentos políticos, que me pergunta com alguma ingenuidade porque é que a Europa nada faz, que, no meu país, não falta quem apoie esta loucura, olhariam para mim com o mesmo espanto que nos olhamos quando vemos que há nos países árabes gente que parecendo normal apoia Ben Laden.

Daniel Oliveira, no Arrastão. O título deste post é uma citação de Tácito.

29.7.06

Call a stop now, without conditions - diz mais um bastião do anti-semitismo internacional.

Cá em casa, como sabem, só se lê imprensa da Esquerda radical: o Financial Times, o Le Monde, o The Economist, e outros títulos que desconhecem as virtudes do liberalismo clássico e do apoio a Israel. Não espanta, por isso, ver nos textos citados por este blog tanta aversão às vibrantes reflexões da nossa melhor intelectualidade. Esta semana foi o The Economist, inspirado pelos Protocolos de Sião, a publicar em editorial o trecho que se segue:

Stuck in Lebanon

(...) Israel's air force has pounded every corner of that wretched country, killing hundreds of civilians and putting hundreds of thousands to flight, for more than two weeks. Yet this has not stopped Hizbullah from sending about 100 rockets a day in the opposite direction. All of Israel's efforts so far to kill Mr Nasrallah have failed as well. And so, of course, have its attempts to force Lebanon's government to take him on itself. If the mighty Israelis are not capable of defeating the Arabs' new Saladin, why should one of the region's most feeble and divided governments dare to try?

(...)A war that neither sides dare to loose and both believe it can win is a perilous thing. Apart from prolonging the killing, it risks escalating and spreading. How long before Syria and Iran try to restock Mr Nasrallah's arsenal and Israel tries to stop them? Even the pro-American Saudis are finding it hard to sit on the sidelines while the hated Zionists knock the stuffing out of Lebanon (...) Whatever the rights and wrongs of this particular new fight, America's perceived partiality to Israel is a gaping hole in its policy in the Middle East. It should avoid widening it. (...)

Call a stop now, without conditions.

The right thing for America is to call for an immediate stop to the fighting, postponing its plans for the reordering of Lebanon until the period after the guns fall silent. This may not lead soon, or ever, to the disarming of Hizbullah, which means that Lebanon will remain unstable and Israel will still feel threatened. Nor would such an ending deal the desired blow to Hamas and Iran, which will continue to work against a negotiated Israeli peace with Palestine. But the truth is that Israel's military campaign shows little sign of being able to achieve these goals either. (...)

Há mais para ler no artigo, mas tenho hoje um jantar-comício a que não posso faltar.

28.7.06

Foi mau feitio.


A verdade, f., é que o assunto já andava engatilhado - e quando a vi levar a mão ao coldre, disparei. Podia ter sido consigo, ou com outra pessoa qualquer. Se atingi uns civis inocentes, desculpe qualquer coisinha. Como se diz em israelita: c'est la guerre.


O falso Franco Atirador continua em actividade, confundindo alguns leitores. Já informei o Blogger, que se comprometeu a resolver o problema. Darei conta dos desenvolvimentos.

Déjà vu.

Não quero reanimar a entediante conversa sobre os amiguismos literários, mas apeteceu-me contar isto. Estou a reler um artigo entitulado Mozart et le Pape à Venise, de Philippe Sollers, num número esquecido da L'Infini, dirigida por Philippe Sollers. Enquanto folheio a revista, vou encontrando, entre os textos dos seus colaboradores, inúmeras referências, piscadelas de olho e pelo menos uns três rasgados elogios à pessoa e à obra do senhor director - Philippe Solers.

27.7.06

Israël va intensifier ses bombardements sur le Liban.

Le ton s'est durci au lendemain de la réunion internationale à Rome, qui n'a pas permis de dégager une solution à la crise. D'autant que, selon le ministre de la justice israélien, Haïm Ramon, "hier à Rome, [Israël a] en fait obtenu l'autorisation de continuer [ses] opérations jusqu'à ce que le Hezbollah ne soit plus présent dans le sud du Liban et soit désarmé". Ce proche du premier ministre a aussi estimé que "tout le monde sait qu'une victoire du Hezbollah constituerait une victoire du terrorisme mondial".
No Le Monde.

A dúvida.

Parece-me evidente que Kofi Annan não enlouqueceu: O ataque começou de manhã e durou até ao final da tarde. Foi coordenado entre a artilharia e a força aérea. E atingiu um posto da ONU estabelecido há muito e claramente marcado. O posto foi atingido quatro vezes, enquanto o staff das Nações Unidas telefonava repetidamente a comandantes militares israelitas, que lhes prometiam parar (Público, link indisponível).

Se o objectivo deste ataque não foi o de sabotar a conferência de Roma, o resultado foi esse. Fica por isso a pergunta: o Governo israelita ainda controla o exército israelita?

Mais umas dondocas, para animar a caixa de comentários.

É claro que isto de moralizar sobre o nosso povo tem limites: há uns dias, na televisão, Lili Caneças e Cinha Jardim lamentavam que os portugueses trabalhassem tão pouco.

26.7.06

O gosto dos outros.


Para a Fernanda Câncio, por causa deste post.



Uma amiga holandesa a residir em Lisboa costuma dizer-me que nenhum povo é tão inseguro nos seus gostos como o português. Sempre que lhe ouvi essa crítica, ela pareceu-me certeira. O medo de cometer um faux pas horroriza a nossa classe média-alta, e contribui para o seu ar apinocado e engomadinho, para o vício do name dropping e para a falta de sentido de humor. Em Portugal as pessoas olham-se, julgam-se e condenam-se por coisas ridículas.

Até no circuito Fashion Clinic - Bica do Sapato - Lux, onde impera o casual chic, nada é tão casual assim. Aqui, na Avenida da Liberdade, não posso sair à rua sem encontrar, de nariz empinado, a fina flor das nossas secretárias em romaria, carregando sacos de compras como se fossem ovos Fabergé. Os maneirismos desta feira de vaidades afectada e estéril não têm paralelo com alguma coisa que tenha observado no estrangeiro. Nem os italianos, nem os japoneses são assim.

O que há por trás deste horror português ao foleiro não é uma tirania do gosto, é a tirania da suburbanidade. As pessoas não querem apenas ser finas, querem esquecer que foram pobres. E não querem apenas ser sofisticadas, querem também destruir quem, comendo da mesma malga, não o é. Em cada pobre de espírito que ganhe mais de 2500 euros neste país abriga-se uma madame Verdurin, pronta a vociferar aos patêgos o que eles devem vestir, o que eles devem ouvir, o que eles devem comprar (já ler não é preciso, graças a Deus).

Ora isto produz uma sociedade sem memória, sem consciência do seu sofrimento, que parece ter vivido numa redoma até acordar, perfumada e chique, no final dos anos noventa. E nós sabemos que Portugal não era assim. A mentalidade do fidalgote, dominante nesta cidade, está a destruir a nossa economia, a alimentar um elitismo serôdio e a criar nos nossos filhos a ilusão de que podem triunfar sem esforço. E isto não é verdade. Mas insistimos em perpetuar a nossa receita para o desastre, enquanto nos entretemos a discutir, displicentemente, o gosto dos outros. Contra mim falo, também.


P.S.: Se a Fernanda ler o meu post a que se refere, concluirá que eu não gosto de Dire Straits - eu cresci com Dire Straits, o que é muito diferente. No entanto, isso não tem grande importância.

Sobriedade.

Muitos portugueses consideram que exigir ao Governo israelita alguma parcimónia na sua intervenção libanesa é um sinal de anti-semitismo. Acredito no oposto. É por Israel ser uma democracia que podemos ter esperança de influenciar o seu Governo com os nossos protestos. É por Israel partilhar os valores do Ocidente que lhe podemos dizer para parar um massacre de civis que apenas serve para revigorar o Hezbollah. É por Israel conhecer a humanidade e a temperança, que lhe podemos pedir a frugalidade e a cautela. É por Israel adoptar as nossas leis, que podemos solicitar-lhe para as cumprir.

O nosso protesto contra Israel é a melhor homenagem que podemos fazer ao seu povo, seguindo a nobre tradição ocidental de negar um salvo-conduto aos seus governantes.

25.7.06

As mulheres não choram.


Para a Ana Sá Lopes, por causa
deste post.


Quando ontem cheguei a casa, ao fim da noite, a profusão de bandoletes, frisados e balayages nem por um minuto me enganou: os Dire Straits andavam em concerto pelo Canal 2. Com eles regressei à minha adolescência remota, das greves da Tabaqueira e dos Nike de contrabando, das calças de ganga elástica e das croissanteries em todos os cafés.

Portugal era então uma espécie de Roménia, sem o encanto torturado de um Ceausescu. Mas para nós, que ainda sonhávamos com o Frágil e com o Inter-Rail, o mundo era uma promessa gloriosa, coroada de lírios, escoltada por uma luz celestial e animada, não por um coro de anjos, mas pelas guitarradas pomposas do Mark Knopfler.

Não me orgulho muito desses tempos; mas ontem à noite fiquei por ali a ouvir os temas que me ajudaram a crescer: o Once upon a Time in the West, o Telegraph Road, o Sultans of Swing, e finalmente a cançãozinha responsável por este post - um portento da sensibilidade xaroposa entitulado Romeo and Juliet.

Sem querer massacrar os leitores com a prosa poética da obra, peço a vossa complacência para o trecho que se segue:


Juliet, when we made love you used to cry
You said "I love you like the stars above, I'll love you till I die"


Aos dezasseis anos - tolo, virgem e poltrão - eu achava que o amor seria assim: as mulheres chorariam quando se enrolassem comigo. Pela minha cabeça delirante passavam Kátias, Filipas, Marisas, Sónias, Sofias, Rutes e Madalenas lavadas em lágrimas, soluçando abandonadamente enquanto eu as cobria, digamos assim, de bem-aventurança. Não havia neste espírito alterado grande distinção entre um lenço e um preservativo, e por isso também não estranhei que à época a revista do Círculo de Leitores tentasse introduzir o vibrador nas casas portuguesas, chamando-lhe massajador facial.

Um pouco mais tarde (excessivamente tarde para o meu gosto) pude comprovar que os Dire Straits não tinham razão. É verdade que nunca conheci, biblicamente, Julietas. Mas as Kátias, as Marisas, as Sónias, as Sofias, as Rutes e as Madalenas não se desfazem em pranto quando dormem comigo. Primeiro julguei que o problema era meu (ai, esta insegurança masculina). Depois, concluí que se trata de uma disfunção universal.

A verdade, meus amigos, é que não é nada fácil pôr uma mulher a chorar pelas boas razões.

24.7.06

Michael Kenna, Hokaido, Japão.

Benza-os Deus.

Hoje à tarde, numa piscina do Estoril, os meninos chapinhavam na água, brincando aos crocodilos. Ao vê-los não pude deixar de pensar nos seus papás, que aqui, na blogosfera, brincam às águias israelitas.

O que é um agarrado?

Le 15 mai 1796, le général Bonaparte fit son entrée dans Milan à la tête de cette jeune armée qui venait de passer le pont de Lodi, et d’apprendre au monde qu’après tant de siècles César et Alexandre avaient un successeur. Les miracles de bravoure et de génie dont l’Italie fut témoin en quelques mois réveillèrent un peuple endormi; huit jours encore avant l’arrivée des Français, les Milanais ne voyaient en eux qu’un ramassis de brigands, habitués à fuir toujours devant les troupes de Sa Majesté Impériale et Royale : c’était du moins ce que leur répétait trois fois la semaine un petit journal grand comme la main, imprimé sur du papier sale.

Au Moyen Age, les Lombards républicains avaient fait preuve d’une bravoure égale à celle des Français, et ils méritèrent de voir leur ville entièrement rasée par les empereurs d’Allemagne. Depuis qu’ils étaient devenus de fidèles sujets, leur grande affaire était d’imprimer des sonnets sur de petits mouchoirs de taffetas rose quand arrivait le mariage d’une jeune fille appartenant à quelque famille noble ou riche. Deux ou trois ans après cette grande époque de sa vie, cette jeune fille prenait un cavalier servant : quelquefois le nom du sigisbée choisi par la famille du mari occupait une place honorable dans le contrat de mariage. Il y avait loin de ces moeurs efféminées aux émotions profondes que donna l’arrivée imprévue de l’armée française. Bientôt surgirent des moeurs nouvelles et passionnées. Un peuple tout entier s’aperçut, le 15 mai 1796, que tout ce qu’il avait respecté jusque-là était souverainement ridicule et quelquefois odieux. Le départ du dernier régiment de l’Autriche marqua la chute des idées anciennes : exposer sa vie devint à la mode ; on vit que pour être heureux après des siècles de sensations affadissantes, il fallait aimer la patrie d’un amour réel et chercher les actions héroïques. On était plongé dans une nuit profonde par la continuation du despotisme jaloux de Charles Quint et de Philippe II ; on renversa leurs statues, et tout à coup l’on se trouva inondé de lumière. Depuis une cinquantaine d’années, et à mesure que l’Encyclopédie et Voltaire éclataient en France, les moines criaient au bon peuple de Milan, qu’apprendre à lire ou quelque chose au monde était une peine fort inutile, et qu’en payant bien exactement la dîme à son curé, et lui racontant fidèlement tous ses petits péchés, on était à peu près sûr d’avoir une belle place au paradis. Pour achever d’énerver ce peuple autrefois si terrible et si raisonneur, l’Autriche lui avait vendu à bon marché le privilège de ne point fournir de recrues à son armée.

En 1796, l’armée milanaise se composait de vingt-quatre faquins habillés de rouge, lesquels gardaient la ville de concert avec quatre magnifiques régiments de grenadiers hongrois. La liberté des moeurs était extrême, mais la passion fort rare (...)
Um agarrado é alguém que precisa de ler isto recorrentemente, e depois fica de olhar vazio, sentado a um canto, à espera da próxima dose.

23.7.06


A Ag deste mês revelou-me o trabalho deslumbrante do fotógrafo Michael Kenna em Hokkaido, no Japão. Nos próximos dias vou ilustrar os meus posts com outras fotos, infelizmente muito reduzidas, do autor.

O Financial Times: mais um pasquim desnorteado e pouco atento à blogosfera portuguesa.

Se os editores do sobrevalorizado Financial Times lessem os posts da nossa arquitecta Isaura ou do nosso gestor Francisco, talvez não proferissem os dislates que em seguida reproduzo, na edição deste fim-de-semana. Os sublinhados são meus:

Israel is on the way to defeating its aims

When Israel last went into Lebanon in force in April 1996 with the intention of crushing Hizbollah, it managed to kill precisely two members of the Shia Islamist militia in the course of a 17-day bombardment that killed a lot of civilians and turned the country into a refugee camp. This time things are going much faster.

After 10 days of shelling and rocketing, the Israeli armed forces have killed about three times as many civilians, razed whole villages and suburbs of Shia Lebanon - in the south, in south Beirut and the northern Bekaa valley - attacked Christian and Sunni areas as well, and have still barely laid a glove on Hizbollah.

Israel's strategic goal - to destroy its most effective adversary, which drove Israeli forces out of Lebanon in 2000 after a 22-year occupation - does not appear to be working.

It is incontestable that Hizbollah provoked Israel by its cross-border raid in which it killed several soldiers and seized two others. Hizbollah's leader, Hassan Nasrallah, normally a politically sophisticated operator, seems to have misread sentiment internationally and in the region. For in the wake of the Iraq debacle, the US and its Sunni Arab allies have become profoundly alarmed about the advance of Shia radicalism under the leadership of Iran.

Israel, even under a weak and untested government led by Ehud Olmert, has understood that perfectly. It knows it has a green light from the Bush administration to destroy as much of Hizbollah - seen by American politicians of all stripes purely asan Iranian proxy on Israel's border- before Washington's dilatory diplomacy gets round to negotiating a cessation of hostilities. But, not for the first time, Israel is overplaying its hand.

Around the region and the world, people are repelled by newscasts of Israeli forces pulverising the homes and lives of ordinary Lebanese. Their leaders are being forced to react.

Israel is now massing troops on and just beyond its northern border, ostensibly for a ground invasion. It has ordered out the entire population of south Lebanon up to the Litani river. That will certainly boost Hizbollah support. That, after all, was what happened after the 1982 Israeli invasion that incubated the fundamentalist group. The Shia militia will also welcome a rematch with the Israelis on the mountainous guerrilla terrain where it beat them before.

Israel is therefore well on the way to defeating its aims, as well as dragging the sullied reputation of its American ally through the Lebanese mud.

The best chance of getting Hizbollah under control is by a large international force with a robust mandate to help Lebanon's government secure the south and the border with Israel, as called for by Kofi Annan, the United Nations secretary-general.

Condoleezza Rice, US secretary of state, intends to travel to the Middle East next week. It is to be hoped she gets their faster than her predecessor, Colin Powell, did in April 2002. His long odyssey allowed Israel time to retake the West Bank and take apart Palestine's incipient national institutions, which helped prepare the ground for the triumph of Hamas.

There is, at any rate, unlikely to be any ceasefire before the end of the month. In the meantime, therefore, as Mr Annan and others have demanded, Israel must make a credible effort to protect civilians and civilian infrastructure. It is part of Ms Rice's duty to ensure that it does.

Enfim. Os falcões portugueses deviam mostrar a estes pomadistas como funciona a política internacional.

Outro com saudades de Vichy.

O João Gonçalves conseguiu fazer hoje o post que eu ia tentar escrever amanhã.

22.7.06

Já cá faltava o Hitler.

Os leitores não esperavam certamente que os defensores desta chacina libanesa ficassem muito tempo sem acusar os seus críticos de anti-semitismo. Hoje, a honra de inaugurar o inteligente apodo coube à Helena Matos, no sítio do costume. Apelando à troca de ideias, a autora pensou melhor e preferiu atirar uns insultos para o outro lado da barricada, neste caso para a França (ah, o que seria dos nossos liberais sem a França...). Será que nós, opositores desta colonização anunciada, somos fássistas? No Blasfémias parecem acreditar que sim.

E está nas palhinhas deitado, coitadinho.

Pela mão vaporosa de Esther Mucznik, investigadora em assuntos judaicos, chegam ao Público, todas as semanas, histórias edificantes sobre o longo padecimento, a serenidade infinita, e o cálido heroismo do povo eleito na terra prometida. Estas ficções desconchavadas não se deixam perturbar pela realidade. Eis, por exemplo, o belo exercício de vitimização que a senhora Mucznik nos propunha ontem, enquanto as suas tropas arrasavam o sul do Líbano:

Numa sinagoga de Safed, teve lugar no passado sábado a circuncisão de uma criança, entre dois ataques de mísseis do Hezbollah. Deram-lhe o nome de Israel - símbolo da vida que teima em renascer em cada momento. Talvez na esperança de que se confirmem as palavras do sermão do rabino: "Da tristeza nasce a felicidade".

A este envolvente slice of life seguia-se um longo arrazoado elogiando o apoio público e a evidente proporcionalidade da reacção hebraica. A peça é uma obra-prima da propaganda mais impudente que alguma vez foi paga pelo bolso dos leitores, pelo engenheiro Belmiro e, se calhar, pelo Ministério da Defesa Israelita. Mas não há dúvida que a senhora Mucznik sabe contar uma história - e o pequeno Israel, se for um bom menino, deve estar roxo de vergonha.

21.7.06

Uma evolução natural.

Entre os amigos de Israel, que hoje em dia se acotovelam na blogosfera portuguesa, começo a notar um curioso padrão argumentativo.

Primeiro, defendem a superioridade moral do regime judeu: afinal, trata-se de uma democracia, onde se permitem mulheres despidas, bebidas alcoólicas, gays (desde que se comportem com modéstia) e ao qual só faltavam o Fado e as Touradas para ser um paraíso na terra, como o nosso belo Portugal.

Esta gente entusiástica talvez repare, pouco depois, que o Líbano também é uma democracia (ou direi antes, era, até ser destruído há dois ou três dias pela ira do senhor Jeová). Ainda há meses se formou no Líbano um governo de coligação, após eleições livres e participadas. E não consta que andassem a apedrejar mulheres na rua por vestirem mini-saia, nem creio que, apesar dos inúmeros pedidos, cortassem a cabeça ao Daniel Oliveira, se ele lá decidisse passar as suas merecidas férias.

Sem a legitimação da superioridade moral, os amigos de Israel testam agora um novo argumento: o Estado Judaico tem tanto direito a ser mau como os outros Estados da região. A coisa parece-me bem vista, pois todos eles são, afinal, filhos do seu Deus.

No entanto, há um pequeno problema: segundo o Economist desta semana, Israel matou 300 civis no Líbano e afugentou das suas terras outros 400.000. Os terroristas do Hezbollah, por sua vez, terão ceifado menos de um décimo de vidas humanas em Israel. O que significa que, para ser tão mau como os outros, o Governo Israelita tem um débito de 270 vidas e, possivelmente, 360.000 desalojados.

Essa desproporção é tão grande que talvez seja dificil, ao Estado Judaico, saldar as sua dividas. Sobra, por isso, um terceiro e último argumento à nossa motivada Direita: depois de afirmarem que Israel é melhor que os outros, e após sustentarem que Israel é tão mau como os outros, resta agora a essas alminhas o consolo de poderem defender que o Estado Israelita tem todo o direito de ser muito pior do que os outros.

Trata-se, apenas, de uma evolução natural.

O quintal israelita.

Quase sem querer, Pacheco Pereira revela-nos o plano que agora se desenrola à nossa frente:

Apesar de tudo, a situação de segurança de Israel melhorou, em grande parte porque a ocupação dos territórios da Cisjordânia e da Síria melhorou a sua capacidade de defesa, deu-lhe profundidade. A situação de Israel também melhorou, porque o "mundo árabe" se dividiu, alguns corajosos chefes de Estado no Egipto e na Jordânia aceitaram a realidade do seu Estado e o mesmo aconteceu com alguns palestinianos, a começar por dirigentes da OLP e da Fatah. Esse caminho foi positivo e é positivo.

Compreendem? Israel precisa de profundidade. Precisa de espaço - e o Líbano está mesmo ali ao lado. Os mortos que forem necessários para o mondar poderão sempre ficar submersos em bulshit piedoso, e na retórica auto-legitimadora da solidão dos guerreiros.

Como era previsível, cá na blogosfera não falta quem, de malas aviadas, queira ir lutar com eles. As chacinas, bem o sabemos, são um óptimo entretenimento.

20.7.06

A história de uma T-shirt.

O melhor que se pode afirmar de um livro sobre economia é que não conseguimos parar de o ler. A autora desta Viagem de uma T-shirt na Economia Global ensinava gestão em Washington quando se iniciaram os movimentos anti-globalização. Um dia assistiu a um comício, no campus da sua universidade, e ouviu o discurso inflamado de uma jovem que perguntava: sabem quem fez a vossa t-shirt? Pietra Rivoli confessou a si própria que não sabia, e naturalmente decidiu investigar. A pesquisa tomou-lhe três anos, transportou-a aos confins do Texas e à China profunda, e deu origem ao mais interessante ensaio que conheço sobre o comércio global. Sob o emaranhado de slogans imbecis que rodeiam o assunto, é um alívio podermos ler esta resposta inteligente e complexa, em linguagem escorreita, a uma pergunta demasiado fácil.

Daphne.


Conduzem-me a lugares estranhos, as leituras sobre Veneza. Agora descobri, por exemplo, que este excelente filme de terror dos anos 70, localizado na Sereníssima, se baseia num conto de Daphne du Maurier. E de repente, recordo outros seis ou sete filmes, mundialmente famosos, inspirados na sua obra.

Tal como ocorreu a Somerset Maugham, a extraordinária notoriedade de Daphne parece ter desembocado num anonimato tácito. As suas obras continuam a vender-se (ainda há pouco o confirmei, na FNAC do Chiado). Os filmes que se basearam nelas são dos mais vistos nas cinematecas do mundo inteiro. E no entanto, há vários anos que não me lembro de ver o seu nome referido num suplemento literário. Qual é o mal de se ser popular?

Eu, que adoro Maugham (e Greene, e Conrad antes deles), tenho pena.

19.7.06

Setenta anos depois.

Tem razão, o Pedro Vieira, ao lamentar o silêncio sobre o aniversário da Guerra Civil de Espanha no Público de hoje. Depois de pensar um pouco, concluí que o momento talvez não fosse bom, Pedro. As guerras coloniais da democracia israelita, agora em curso, não se querem misturadas com os velhos massacres de um caudilho apoiado por Hitler.

O Franco Atirador em perspectiva.

Este blog, que começou por ser satírico e exibicionista, e depois foi artístico e narcisista, está agora político e intimista. Espero que me passe depressa.

18.7.06

Pela blogosfera.

Pedro Caeiro, do Mar Salgado, parece possuir qualidades extraordinárias num jurista - a mais rara das quais é, sem dúvida, o sentido de justiça. Gostei da sua análise às sequelas do homicídio de Jean Charles de Menezes, baleado pela polícia inglesa.

Para quem se aborrece com Proust, Eduardo Pitta revela por vezes uma arrepiante frieza proustiana. Eis um comentário cirúrgico sobre a gaffe de George W. Bush.

Também eu, Luis Mourão, apreciei o seu extracto de Jorge Almeida Fernandes. Infelizmente, não pude ler o artigo na totalidade.

João Pedro Henriques disserta com graça sobre a "entrevista" de Maria João Avillez a José Sócrates. Pela primeira vez, tive pena do nosso primeiro-ministro.

Devemos regressar aos lugares onde fomos felizes.

Este ano não vou poder afastar-me longamente do país. Para escapar por entre as grades a esse contrangimento, decidi realizar duas ou três visitas curtas a locais que já conheço, compensando a ausência de surpresas com um acréscimo de familiaridade. A única cidade recorrente, para mim, até agora, era Paris. Faz uma década que lá vou todos os anos, em finais de Novembro, comprar bolas de Natal. Hoje em dia quase não saio de Saint-Germain e do Jardin du Luxembourg, a não ser para percorrer ao fim da tarde as Tuilleries ou jantar no Marais. Não conheço propriamente uma cidade, mas um bairro, e apenas no Inverno.

Devo estar a ficar velho, porque me apetece voltar às cidades que amei. O Verão é má altura, com as suas hordas de chinela no pé a soltar ais e ós perante o famoso Van Gogh ou o incontornável Dali. Mas na semana passada também eu andei a fotografar velhos e fachadas e igrejas na Europa, como um bem comportado lugar-comum. Viajar talvez não seja ir a um local, mas regressar a ele uma e outra vez.

17.7.06

Autor anónimo, cerca de 1890.

16.7.06

Israel y los matices , III.

Os Estados Unidos apoiaram as represálias israelitas. A União Europeia condenou-as. Pilatos não faria melhor.

Israel y los matices , II.

Sharon, o genocida, o sanguinário, foi também, ironicamente, o homem que não fez esta guerra.

Israel y los matices

Mario Vargas Llosa fez publicar hoje no El Pais uma crónica que transcrevo integralmente. Os sublinhados são meus:
Illan Pappe, historiador revisionista israelí, procede de una familia de judíos alemanes de sólidas credenciales liberales, y él mismo fue educado dentro de esta corriente de pensamiento que defiende la sociedad abierta, el mercado, al individuo contra el Estado y opone al colectivismo -la definición del ciudadano por su pertenencia a una clase social, una raza, una cultura o una religión- la soberanía individual. Hace unos días le oí contar que, cuando empezó a tomar distancias contra el sionismo, doctrina que sustenta la creación y la naturaleza del Estado de Israel, pensó que su evolución política estaba dentro de la ortodoxia liberal y que cuestionar la ideología sionista era, además de otras cosas, dar una batalla contra el colectivismo. Pero no encontró en su país partido o movimiento político liberal donde encajaran sus ideas, pues la inmensa mayoría de los liberales israelíes eran sionistas. Esto lo fue acercando a quienes, por doctrina, eran sus naturales adversarios políticos, los comunistas, con quienes discrepaba en todo lo demás, pero coincidía en su posición crítica del sionismo. Y eso hace que desde entonces, se quejaba, los amantes de la simplificación y enemigos de los matices, lo cataloguen de "comunista".

La abolición de los matices facilita mucho las cosas a la hora de juzgar a un ser humano, analizar una situación política, un problema social, un hecho de cultura, y permite dar rienda suelta a las filias y a las fobias personales sin censuras y sin el menor remordimiento. Pero es, también, la mejor manera de reemplazar las ideas por los estereotipos, el conocimiento racional por la pasión y el instinto, y de malentender trágicamente el mundo en que vivimos. Hay ciertos conflictos que, por la violencia y los antagonismos que suscitan, conducen casi irresistiblemente a quienes los viven o siguen de cerca a liquidar los matices a fin de promover mejor sus tesis y, sobre todo, desbaratar las de sus adversarios.

Quiero ilustrar con un ejemplo personal lo que trato de decir. La Fundación Internacional para la Libertad organizó hace unos días, en Madrid, un encuentro entre intelectuales judíos y árabes, en el cual, en una de sus intervenciones, el periodista Gideon Levy, crítico severo del Gobierno de su país, dijo que él militaba contra la ocupación de Cisjordania porque no quería sentirse avergonzado de ser israelí. Yo, por mi parte, al clausurar el evento, parafraseando a Levy, dije que mis críticas a la política con los palestinos de los dos últimos gobiernos de ese país se debían a que tampoco quería sentirme avergonzado de ser amigo de Israel. Dos días después, el diario israelí Haaretz publicaba una crónica del propio Gideon Levy sobre el encuentro madrileño, bastante exacta, pero con un título que, al cambiar el matiz, me hacía decir algo que yo no había dicho: "Vargas Llosa tiene vergüenza de ser amigo de Israel".

El diario recibió 199 cartas de lectores israelíes indignados, que publicó en su blog. Las he ojeado con cierta estupefacción, pese a que ellas no hacen más que confirmar algo que, desde que empecé a pensar por mi propia cuenta en cuestiones políticas hace cuarenta años, ya sé de sobra: lo fácil que es tergiversar, caricaturizar o desacreditar a quien disiente, o parece disentir, de nuestras convicciones dogmáticas. Lo curioso es que casi todas las cartas me llaman "comunista", "ultra izquierdista", "castrista", "otro Saramago", "antisemita", y, una de ellas, la más imaginativa, se pregunta: "¿Qué se puede esperar de alguien que sube a los escenarios con la conocida actriz estalinista Aitana Sánchez Gijón y que escribe en EL PAÍS, el periódico más izquierdista de toda Europa?". Bueno, bueno. Mis vociferantes objetores no parecen sospechar siquiera que de lo que yo suelo ser acusado más bien, en España y en América Latina, es de neo-con, de ultra liberal, de pro americano y otras lindezas por el estilo por atacar a Fidel Castro, a Hugo Chávez y criticar con frecuencia el fariseísmo y el oportunismo de los intelectuales de izquierda.

En realidad, una de las cosas que soy, o, mejor dicho, trato de ser en la vida, es un leal amigo de Israel. Muchas veces he escrito que visitar ese país hace treinta y pico de años fue una de las experiencias más emocionantes que he tenido y que sigo creyendo que construir un país moderno, en medio del desierto, de lineamientos democráticos, con gentes provenientes de culturas, lenguas, costumbres tan distintas, y rodeado de enemigos, fue una gesta extraordinaria, de enorme idealismo y sacrificio, un modelo para los países como el mío, o los demás países latinoamericanos o africanos, que, con muchos más recursos que Israel, no consiguen todavía salir del subdesarrollo. Es verdad que Israel en el curso de su breve historia ha recibido mucha ayuda exterior. Pero ¿no la han recibido también muchos otros, que la han desaprovechado, derrochado o simplemente saqueado?

Para mí, el derecho a existir de Israel no se sustenta en la Biblia, ni en una historia que se interrumpió hace miles de años, sino en la gestación del Israel moderno por pioneros y refugiados que, luchando por la supervivencia, demostraron que no son las leyes de la historia las que hacen a los hombres, sino éstos, con su voluntad, su trabajo y sus sueños los que le marcan a aquélla unas pautas y una dirección. Ningún país existía allí, en esa miserable provincia del imperio otomano, cuando nació Israel, cuya existencia fue luego legitimada por las Naciones Unidas y el reconocimiento de la mayoría de países del mundo.

Ahora bien, para que Israel tenga un porvenir seguro y sea por fin un país "normal", aceptado por sus vecinos, debe encontrar un modo de coexistencia con los palestinos. Y contra esta coexistencia conspira esa ocupación de Cisjordania que se prolonga indefinidamente y que ha convertido a Israel en un país colonial, lo que ha crispado de manera indecible sus relaciones con los palestinos. Las condiciones en que éstos han vivido, en Gaza, y viven todavía dentro de los territorios ocupados, sobre todo en los campos de refugiados, son inaceptables, indignos de un país civilizado y democrático. Lo afirmo porque lo he visto con mis ojos. Los amigos de Israel tenemos la obligación de decirlo en alta voz y censurar a sus gobernantes por practicar en esos territorios una política de intimidación, de acoso y de asfixia que ofende las más elementales nociones de humanidad y de moral. Y, también, de condenar sus reacciones desproporcionadas a los actos terroristas, como la actual, que, a raíz del secuestro criminal de un soldado israelí por militantes palestinos, ha causado ya decenas de muertos civiles inocentes en Gaza y amenaza con resucitar la guerra con el Líbano.

Esto no significa, en modo alguno, justificar las acciones criminales de los terroristas de Hamás o la Jihad Islámica o de los otros grupúsculos armados que operan por la libre. Pero sí reconocer que detrás de estas acciones injustificables y crueles -las bombas de los suicidas, los ataques ciegos a la población civil, los secuestros, etcétera- hay un pueblo desesperado al que la desesperación empuja cada vez más a escuchar no la voz de los moderados y razonables sino la de los fanáticos y a creer, estúpidamente, que el fin del conflicto no está en la negociación sino en la punta del fusil o la mecha de la bomba.

La superioridad de Israel sobre sus enemigos en el Medio Oriente fue política y moral antes que la de sus cañones, sus aviones y su modernísimo Ejército. Pero, debido a su extraordinario poderío, algo que suele volver a los países arrogantes, la está perdiendo, y eso lleva a algunos de sus dirigentes, como creía Ariel Sharon, a pensar que la solución del conflicto con los palestinos puede ser un diktat, una fórmula unilateral impuesta por la fuerza. Eso es una ingenuidad que sólo prolongará indefinidamente el sufrimiento y la guerra en toda la región.

Mi amigo israelí David Mandel (¿o debo decir ahora ex amigo, ya que me he vendido a los palestinos?) me conmina en una carta abierta a que devuelva el premio Jerusalén que recibí en 1995. Se trata de un premio más bien simbólico, pero que a mí me llena de orgullo, y no voy a renunciar a él, porque, aunque David no pueda entenderlo, lo que yo hago y escribo sobre Israel no tiene otro objetivo que seguir siendo digno de esa hermosa distinción, que me fue concedida por mi compromiso con la democracia y la libertad. Para mí, mi adhesión a Israel es inseparable de aquel compromiso, como es el caso de tantos israelíes que, a la manera de Illan Pappe, Gideon Levy, Amira Hass o Meir Margalit, pero sin duda de manera más radical que yo, denuncian las políticas de su Gobierno con los palestinos y plantean alternativas.

Es verdad que ellos representan una minoría, ese matiz que los adoradores de verdades dogmáticas desprecian. Ni siquiera sé si yo estoy de acuerdo en todas las posiciones que ellos defienden. Probablemente, no. Creo, por ejemplo, que el sionismo tiene unas razones que no pueden descartarse de manera abstracta, prescindiendo de un contexto histórico preciso. Pero que ellos, y otros muchos como ellos, vayan contra la corriente y sean capaces de oponerse de manera tan resuelta a lo que les parecen políticas equivocadas, contraproducentes o brutales, y que puedan hacerlo sin ser perseguidos, encarcelados, o liquidados, como ocurriría -ay- entre casi todos los otros países de la región, es una de las realidades que todavía mantiene viva mi esperanza de que haya un cambio en Israel, y, otra vez, la negociación sea posible, y pueda llegarse a un acuerdo razonable que ponga fin a esa infinita hemorragia de dolor y de sangre.

El encuentro madrileño de judíos y árabes fue asimétrico, porque cerca de diez palestinos que habían aceptado nuestra invitación no pudieron venir, y porque algunos israelíes, como Amos Oz y David Grossman, cuyas voces queríamos escuchar, tampoco lo hicieron. Pero no fue inútil: una gota de agua en el desierto es mejor que ninguna. Hubo, por ejemplo, exposiciones magníficas y no del todo irreconciliables, de Shlomo Ben Ami y de Yasser Abed Rabbo, que participaron en las negociaciones de Camp David. Trataré de seguir convocando estos diálogos, invitando no sólo a quienes hablan por la mayoría, sino también por las pequeñas minorías, esos matices olvidables en los que, sin embargo, muy a menudo se agazapa la verdad.

3.7.06

E agora sim, está na altura de fazer um intervalo.

Noblesse oblige.

Freitas do Amaral foi meu professor na muito provinciana e muito pedante Faculdade de Direito de Lisboa, há quase vinte anos atrás. Afirmar que ele não merecia aquela santa instituição é quase redundância, se pensarmos que a partilhava com os prosélitos de Soares Martinez e Oliveira Ascensão. Agora que saiu do Governo, arrisco-me a dizer que também não merece este país. Freitas do Amaral foi o homem mais sério, trabalhador, inteligente e honrado que conheci na minha estouvada juventude. As campanhas miseráveis que a Esquerda, primeiro, e a Direita, depois, fizeram contra ele, só provam que a canalha está bem distribuida em Portugal. No entanto, tenho a certeza que nem os seus alunos, nem a História, o irão esquecer.