21.7.06

Uma evolução natural.

Entre os amigos de Israel, que hoje em dia se acotovelam na blogosfera portuguesa, começo a notar um curioso padrão argumentativo.

Primeiro, defendem a superioridade moral do regime judeu: afinal, trata-se de uma democracia, onde se permitem mulheres despidas, bebidas alcoólicas, gays (desde que se comportem com modéstia) e ao qual só faltavam o Fado e as Touradas para ser um paraíso na terra, como o nosso belo Portugal.

Esta gente entusiástica talvez repare, pouco depois, que o Líbano também é uma democracia (ou direi antes, era, até ser destruído há dois ou três dias pela ira do senhor Jeová). Ainda há meses se formou no Líbano um governo de coligação, após eleições livres e participadas. E não consta que andassem a apedrejar mulheres na rua por vestirem mini-saia, nem creio que, apesar dos inúmeros pedidos, cortassem a cabeça ao Daniel Oliveira, se ele lá decidisse passar as suas merecidas férias.

Sem a legitimação da superioridade moral, os amigos de Israel testam agora um novo argumento: o Estado Judaico tem tanto direito a ser mau como os outros Estados da região. A coisa parece-me bem vista, pois todos eles são, afinal, filhos do seu Deus.

No entanto, há um pequeno problema: segundo o Economist desta semana, Israel matou 300 civis no Líbano e afugentou das suas terras outros 400.000. Os terroristas do Hezbollah, por sua vez, terão ceifado menos de um décimo de vidas humanas em Israel. O que significa que, para ser tão mau como os outros, o Governo Israelita tem um débito de 270 vidas e, possivelmente, 360.000 desalojados.

Essa desproporção é tão grande que talvez seja dificil, ao Estado Judaico, saldar as sua dividas. Sobra, por isso, um terceiro e último argumento à nossa motivada Direita: depois de afirmarem que Israel é melhor que os outros, e após sustentarem que Israel é tão mau como os outros, resta agora a essas alminhas o consolo de poderem defender que o Estado Israelita tem todo o direito de ser muito pior do que os outros.

Trata-se, apenas, de uma evolução natural.

10 Comments:

Blogger zazie said...

esqueces-te do principal- eles fazem contas à vida e convencem-se que se Israel exterminar o infiel, o infiel não lhes ocupa a casa.

É a fantasia apocalíptica da cagunfa.

Quanto ao resto há santinhos para todos os gostos. A "democracia" e a panóplia politicamente correcta já tem direito a incenso em muita casinha burguesa.

Chama-se a isso tolerância obrigatória pelo "outro", que não os outros.

9:12 da tarde  
Anonymous Ana said...

Grande texto

10:31 da tarde  
Blogger zazie said...

o mais curioso é que não há fractura esquerda/direita nesta questão.
Encontras os mesmos mitos "civilizacionais" de ambos os lados. Aquilo que poderia separá-los- a lei do mais forte- é ultrapassada pelo trauma do judeu errante o uda vítima do Holocausto.

10:48 da tarde  
Blogger sabine said...

Zazie:
«o mais curioso é que não há fractura esquerda/direita nesta questão.
Encontras os mesmos mitos "civilizacionais" de ambos os lados»
concordo com esse ponto de vista.

3:12 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Eu também concordo.

4:40 da tarde  
Blogger Nlpn said...

Até seria um bom texto - ao lado, mas engraçado - se não cometesse o erro de contar cabeças...
A "bondade" ou "maldade" não está no número de mortos (é igualmente "mau" largar uma bomba num mercado, quer estejam 50 ou 500 pessoas lá dentro, p.ex ) , mas antes na acção em si, nas suas causas e nos efeitos pretendidos.

Para além disso, esquece ainda que as acções de Israel são uma inequívoca manifestação de força, para punir agressões sofridas. Sendo um país entalado entre países inimigos, ao alcance dos seus rockets, é evidente que Israel não pode dar sinais de fraqueza, sob pena de os ataques se tornarem mais frequentes.

Esquece também que as partes beligerantes defendem os seus interesses - sendo que o de Israel é garantir a sua segurança (seja desmantelando o Hamas e o Hezbollah, seja criando zonas-tampão que ponham o seu território a salvo de ataques) e o do Hezbollah e Hamas (patrocinados/incitados/controlados por Irão e Síria) é aniquilar Israel. No meio disto, o Líbano sofre as consequências de ser pouco mais que uma província Síria.

9:29 da tarde  
Blogger JPN said...

o último parágrafo é de antologia. como se costuma dizer, basta isso, não é preciso dizer mais nada.

5:01 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Here are some links that I believe will be interested

9:23 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Here are some links that I believe will be interested

7:54 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

This site is one of the best I have ever seen, wish I had one like this.
»

9:47 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home