31.8.06

O nosso pequeno monstro.


Mencionam Nosferatu, e imediatamente me acode a memória irrepetível de João César Monteiro.

Mas vou começar pelo princípio, como convém: em meados dos anos noventa assisti na Culturgest à projecção de dois filmes do Murnau - o Fausto e este Nosferatu que mencionei. Eu andava muito embrenhado nas narrativas faustianas, lendo Marlowe, Thomas Mann, Goethe, Valery e até a Tempestade, por causa de certas alusões que não vêm ao caso. O certo é que entrei no auditório animado por um invulgar sentimento de antecipação.

À minha frente já se erguia a tela, por cima do palco, e de cada um dos seus lados, à altura de um metro, outra estrutura exibia os instrumentos do conjunto musical que iria acompanhar as projecções: o quarteto Art Zoid.

Misturar dois filmes dos anos vinte com os ruídos avant-garde desta espécie de rock progressivo (não quero chocar os conhecedores, mas pensem, talvez, em Einsturzende Neubaten) era uma ideia arriscada. Fazê-lo quando um génio da provocação estava na sala revelou-se inesquecível.

Assim que o espectáculo começou, o vulto dobrado de um gnomo subiu para o palco. Chegou perto dos músicos vagarosamente e estendeu-lhes os braços, numa atamancada súplica, implorando alguma coisa que nos escapava. A esgrouviada silhueta aproximou-se então da plateia e fez uma mesura trágica, enquanto o seu pequeno corpo se deixava iluminar pelo rosto lívido de Max Schreck planeando o fim do mundo. A sala inteira reconheceu César Monteiro.

Numa vozinha frágil, mas extraordinariamente perceptivel, que se sobrepunha àquela espécie de ruído industrial, o cineasta revelou-nos ao que vinha:

Parem a música. Stop the music. Isto é uma pouca-vergonha! - afirmou revoltado. Stop the music. Eu quero a minha maçaroca! E por ali ficou, dois ou três minutos, com os dedinhos a rasparem uns nos outros, exigindo o seu dinheiro de volta.

Um segurança subiu ao palco para o convencer a sair: o funcionário tinha o dobro da sua estatura e César Monteiro, obviamente, atirou-se a ele. Fê-lo com a energia dos loucos, foi vencido num ápice, e saiu humilhado ao colo do homem que o derrotara.

Até ao intervalo temi que lhe tivessem feito mal; mas depois encontrei-o lá fora, muito melancólico, extraíndo grandes baforadas de um SG Gigante, na sala dos não fumadores.

Descascando a macheza.

Tenho tentado, João Gonçalves. O machismo, o marialvismo, a credulidade do povo, o desleixo das elites, a empáfia das classes médias, a voracidade de toda, absolutamente toda a gente que toca no dinheiro dos nossos impostos; mas também a preguiça ideológica da Esquerda, o ultramontanismo da Direita, a vacuidade pomposa de tantos intelectuais, o egotismo dos empresários, a chico-esperteza dos quadros médios, a falta de vergonha dos políticos, a indolência ruidosa dos pobres, a tirania dos pequenos poderes, a falta de humor de quem nunca se levou a sério, os grandes ares, o estilo esfinge, as ridículas poses de Estado: há muito para descascar na feirinha de vaidades em que temos vindo a transformar este país. Mas o João sabe isso melhor do que eu, porque ninguém tem descascado tanto e tão bem como o seu Portugal dos Pequeninos. Resta-nos manter a alegria, aguçar o sarcasmo, e fugir do ressentimento como o diabo foge da cruz.

30.8.06

29.8.06

Um ano depois.


Mais uma vez se fala de New Orleans, e mais uma vez os comentadores pasmam com a pobreza que havia escondida naquela cidade. Escondida? Só se fosse para quem andava em Cancun e Varadero: a New Orleans que eu conheci, há cerca de oito anos, estava cercada de miseráveis. Era, para começar, um dos locais mais perigosos dos Estados Unidos. Mal chegavam, os turistas eram simpaticamente aconselhados a não sair do French Quarter. Os folhetos do seu famoso cemitério informavam-nos que havia ladrões e violadores à solta nos jazigos. Na semana em que lá estive, um psicopata gay esfaqueava homens de trinta anos nas ruas em redor do meu hotel (safei-me, porque tinha vinte e nove). A cidade era deslumbrante, recortada por vastas alamedas onde os eléctricos deslizavam vagarosamente, entre mansões gloriosas de arquitectura colonial. Mas bastava sair um pouco do circuito turístico para conhecer a outra New Orleans: uma espécie de favela, suja, inquietante, em que os negros olhavam para nós como se fossemos brindes publicitários. Só lá dormi quatro noites, mas ainda hoje amo aquela cidade: é linda, lenta, louca, langorosa e pobre. Muito pobre.

Erudição desperdiçada.

Más lágrimas se derraman por las plegarias atendidas que por las que se quedan sin responder, disse Santa Teresa de Ávila. When the gods wish to punish us they answer our prayers, confirmou Oscar Wilde. Cuidado com aquilo que desejas, porque pode acontecer-te, conclui o povo judicioso. E agora vou parar com as citações, antes que alguém me chame Carla de Elsinore - mas julgo que me fiz entender.

28.8.06

James Baldwin, Nova Iorque, 1947, por Karl Bissinger.

O natural e o sublime.

Às vezes julgo que os escritores contemporâneos se dividem em dois grupos (lá vamos nós outra vez): os que procuram a naturalidade e os que ambicionam o sublime. O problema é que o estilo sublime facilmente cai na banalidade pomposa, enquanto os herdeiros de Voltaire, Stendhal e Sevigné, os defensores do natural, raramente conseguem não ser chatos. Haverá alternativa? Há sempre alternativas: Carey, Bellow, Rushdie, Amis, talvez Roth, parecem procurar um diálogo inspirado com o leitor. É um bom programa, mas será mais natural ou mais sublime? Não sei; acho que não sou muito bom em classificações.

Frescos.

Lolitas.

Ninguém me tira da cabeça que a nossa predilecção por mulheres pequenas revela uma tendência nacional para a pedofilia: as bonequinhas da mitologia local, baixinhas, maneirinhas, jeitosinhas, como as sardinhas, devem ter quatorze anos e gostar muito de calipos. Será que uma parte dos homens portugueses inveja aquele austriaco que prendeu uma menina no quarto para dela extrair satisfação sexual? Sonharão com uma cave repleta de gaiatas impúberes a quem possam dar umas nalgadas antes do jantar? A sobriedade com que a imprensa lusitana tratou este assunto pareceu-me comprometedora - se tiver paciência, hei-de voltar a ele.

27.8.06

Jean Renoir no Café Nicholson por Karl Bissinger, Nova Iorque, 1950.
É de mau gosto levar a sério alguém que não seja fútil.

26.8.06

Truman Capote em Paris, por Karl Bissinger, 1948.

Em que pensa o Portugal profundo?

Pensa em leitões da Bairrada, futebol, baixa política e férias no Brasil (o melhor país do mundo, assegura o viajado LR). O Blasfémias é uma janela para Portugal, numa seguradora perto de si.

25.8.06

Faça o seu próprio filme de Bollywood.

Veja o meu aqui e depois clique no botão make a movie.

Da iliteracia.

O falso Miguel Esteves Cardoso, se não o desmentissem, teria um evidente sucesso na nossa blogosfera. Com algum tempo, meia-dúzia de jantares e uma boa gestão das ligações, talvez até ganhasse um Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.
Se eu fosse ditador de Portugal (um sonho antigo, cada vez mais remoto) colocaria na cadeia todos os taxistas e dirigentes desportivos. Talvez assim cometesse algumas pequenas injustiças, mas tenho a certeza que o saldo dessa decisão seria extraordinariamente positivo.

A ler.

A Economia real, para lojistas portugueses.


A Interna Empório Casa, que até há pouco tempo ocupava um palacete de três pisos no Príncipe Real, mudou-se para uma loja definitivamente mais pequena do Chiado. Durante anos, a Empório fez parte das minhas peregrinações semanais. Por lá comprei, se a memória não me falha, um sofá, duas estantes, uma lounge chair, uma mesa de apoio, dois ou três candeeiros, uma cama e vários acessórios para consumo próprio ou para oferecer.

Um belo dia adquiri no andar inferior um pequeno presente, um pisa-papéis de 25 euros, que mais tarde tentei trocar. Como não tinha comigo a factura, a funcionária da caixa negou-me a restituição. Expliquei-lhe que era um cliente habitual (perdoem a empáfia), e disse-lhe que agradeceria muito a sua gentileza. Nada feito. Perguntei-lhe se possuiam, em computador, o histórico dos clientes. Não tinham. Já agastado, mandei chamar o dono da loja, a quem relatei o meu caso. De voz arrastada e mão na anca, a criatura retorquiu-me que eu devia compreender o lado deles. Eu compreendi. Compreendi tão bem o lado deles que um mês depois estava a escolher esta chaise longue na Galante.

Três anos mais tarde, acho que eles aprenderam a lição.

24.8.06

Paul Bowles por Karl Bissinger, c. 1949.

23.8.06

Não, João Pinto e Castro.

Também eu defendi um cessar-fogo imediato no Sul do Líbano. Havia, no entanto, um pequeno anseio a acrescentar à exigência: que a seguir ao término da chacina israelita se pudesse reforçar a segurança na zona fronteiriça, de modo a evitar que o Hezbollah, aproveitando a folga, disparasse os seus mísseis contra o norte de Israel. Era para isso que podia servir uma força da ONU. E a França, que passou semanas a clamar por um cessar-fogo, tinha a obrigação moral de ajudar a reforçá-lo. Ajudar a sério, bem entendido: com homens, com armas, com vontade política, e não com um ressentimento canalha e desavergonhado. Exigir um cessar-fogo a Israel sem fazer depois alguma coisa para travar o Hezbollah seria o mesmo que condenar os judeus a um bem comportado suicídio. E não é isso que nós queremos, pois não, João?

Hello.

No Japão, era vulgar que grupos de crianças, em uniforme de colégio, ao passarem por mim na rua me dissessem: "harô!". Demorei alguns dias até entender o significado daquela exclamação. Hoje penso que Deus, se por um acaso extraordinário existir, talvez olhe assim para nós: como uma multidão de seres pequenos e indistintos que, a uma distância confortável, lhe gritam, nervosamente: "harô!".
Morro Bay, Califórnia. Os leitores tenham paciência.

22.8.06

Que nostalgia.

Julgo que foi Eça de Queirós o primeiro a constatar que todas as putas do seu tempo eram absolutistas. Com uma carreira um pouco menos tradicional, mas nem sempre tão compensadora, João Carlos Espada manifesta idêntico fascínio pela ordem, o asseio e a autoridade. O que às vezes, confesso, me comove. A sua digressão no Expresso desta semana sobre compostura sartorial (com gravata, botões de punho, suspensórios e fato de riscas) recordou-me o pequeno Marco Aurélio, filho de uma antiga porteira, companheiro invariavelmente relutante dos folguedos da minha meninice. Tenho uma memória fotográfica desses tempos inocentes: eu muito emporcalhado e pingão, ele altivo e imaculado, para gáudio da mamã. A senhora era excelente, e o menino já é doutor.

Nota: podem ler um extracto daquela crónica memorável no blog do Vasco M. Barreto.

21.8.06

Sirocco, e outras aflições (II).

Por ser um porto, Veneza revelou-se muito vulnerável às pestes. Em 1348, 1575 e 1630 a cidade perdeu um terço da população. A última epidemia ceifou 50.000 vidas entre Julho de 1630 e Outubro de 1631. Os venezianos eram saudavelmente cépticos (desprezavam a Inquisição, e protegiam os judeus em troca de impostos asfixiantes), mas não totalmente incapazes de um sincero arrependimento, se avistassem na laguna a barca de Caronte. A igreja do Redentor, que observamos nesta imagem de Canaletto, foi desenhada por Palladio para celebrar o fim da mortandade de 1575; e a de Santa Maria della Salute por Baldassare Longhena, para cumprir uma promessa feita pelo Senado durante a peste de 1630. A primeira é um marco do neoclassicismo, a segunda do Barroco Romano, à Bernini. John Ruskin, para quem a arte veneziana começava no periodo Bizantino e acabava mais ou menos no Gótico, disse mal de ambas por uma questão de princípio.

O post, como os leitores já sabem, será colocado aqui.
Existirá alguma ilusão mais coriácea que a ilusão da superioridade?

Ridicule.

Eduardo Pitta, no Da Literatura:
Durante semanas, a França esperneou com a exigência de uma força de interposição no sul do Líbano. Uma força de que ela, a grande França, seria a espinha dorsal. Foi aprovada uma resolução à sua medida. E fixado um número: 15 mil homens. Passados dez dias (depois de negociados vários drafts, sempre por exigência francesa, a votação realizou-se a 11 de Agosto) a França mandou ontem para o Líbano 49 homens. Quarenta e nove. Quarenta e nove de um total de 200 que está disposta a destacar. Nem mais um. Duzentos. Mas não perdeu a pose: «Hoje é o primeiro passo. A França é o primeiro país a mobilizar tropas adicionais para a região.»

Vale a pena ler todo o post. De facto, a miséria moral dos políticos gauleses ainda consegue surpreender.

19.8.06

Deve ser moda.

Ontem, uma tola qualquer jurou que eu tinha sede de politicamente correcto. A verborreia, por estar mal redigida, numa espécie de vociferação raivosa e deslocada, não merece a satisfação de um link. Mas aquela do politicamente correcto ficou. Senti-me uma espécie de animal doméstico. Com que então, politicamente correcto. Eu, o Tigre da Malásia.

Tem razão, o Nuno Costa Santos.

Não se deve perturbar a biodiversidade.

Sirocco, e outras aflições.


Como é que os turistas de há cem anos suportavam passar tantas horas, sempre tão vestidos, sob o sol de Itália no pico do Verão? Não suportavam. A estação turística, até há pouco tempo, acabava em Maio. O escritor Aschenbach (ou compositor Aschenbach, para quem apenas viu o filme de Visconti) morreu no Lido antes da canícula. Em Junho, Julho e Agosto, Veneza era um matadouro. A cólera, os miasmas, o ar quente que provinha do deserto, tudo serviu aos escritores da época para explicar o interdito Verão italiano. Hoje sabemos que o mosquito Anopheles, transmissor da malária, era o mais copioso dos assassinos. Foi necessária a popularização dos desinfectantes e do quinino para que os elegantes turistas contemporâneos se pudessem arrastar de chanata e câmara de video, pela ponte de Rialto, dia 15 de Agosto às três da tarde.

Este post será também, como é habitual, colocado aqui.

18.8.06

O Público, mais uma vez.

Fui desde o início um leitor apaixonado do Público. O Expresso, que não compro há anos, parecia-me ilegível. O Diário de Notícias mudava de orientação editorial ao sabor das maiorias parlamentares (ainda hoje recordo com horror o DN de Luís Delgado, à época do triste consulado de Pedro Santana Lopes). Os outros jornais diários não eram uma opção. Restava-me por isso o Público e a imprensa internacional. Hoje em dia não é assim.

Embora os dois blogs sejam muito populares, vale a pena citar estes posts do Abrupto e do Arrastão. Ambos revelam o tipo de truques grosseiros que, em nome da ideologia, um diário que honrou o jornalismo agora usa para insultar a inteligência dos leitores.

A História, com "h" grande, encarregar-se-á do resto.

Sexo.


Através de um leitor, descubro a lista das 14 melhores cenas de sexo da história do cinema. Meus amigos, alguém anda muito distraído lá em Hollywood. Quem quer que se tenha posto a coçar o cocuruto para chegar a este estéril inventário prestou um mau serviço à cinefilia. Em primeiro lugar, porque não refere o magnífico trabalho de mãos de Identificação de uma Mulher. E além disso, o que é imperdoável, ignorou o simpático encontro entre Billy Bob Thornton e Halle Berry num filme que por cá se chamou Depois do Ódio. Aquilo sim, foi uma foda memorável.

O Franco Atirador.

Um blog fássista.

17.8.06

Marcelo à distância.

Por razões pessoais não partilho o desdém que tem sido tantas vezes dedicado à memória de Marcelo Caetano. Conheço alguns dos seus descendentes, li uma boa parte das suas obras, e tenho do antigo Presidente do Conselho a ideia de um homem inteligente e honrado. Por isso, fico contente por verificar que o distanciamento histórico já nos permite avaliar a sua memória com equidade: elogiando o académico, reconhecendo os seus princípios, mas sem deixar de festejar os homens que, correndo riscos maiores do que se julga, nos libertaram do regime que ele protagonizou.

Sete principios.

Num livro de Susan Sontag, a personagem principal formula os seguintes princípios de "conduta e atitude":
1. Not to be satisfied with my own, or any one else's, good intentions;
2. Not to wish for others what they did not wish for themselves;
3. Not to spurn the advice of others;
4. Not to fear disapproval, but to observe as much as is feasible the rules of tact and discretion;
5. Not to value possessions, nor be distracted by ambition;
6. Not to advertise myself, nor make demands on others;
7. Not to wish for a long life.
Estas máximas pareceram-me bastante mais razoáveis que o decálogo.

Vaidade.

A confissão de Grass recordou-me as de Mitterrand. Ambos cederam à ambição, inevitavelmente malograda, de tentar escapar à avidez dos biógrafos e de pretender influenciar a sua posteridade. Ambos ficariam surpreendidos.
Raramente conseguimos perdoar às pessoas que maltratamos.

16.8.06


Mais valia teres ficado caladinho.

15.8.06

Surpresa.

Não sei onde é que eu estava para ignorar isto (se bem me conheço, devia estar em 1780s).

A Toccata of Galuppi's, por Robert Browning.


O músico veneziano Baldassare Galuppi (1706-85), organista de San Marco e criador de óperas ligeiras, visitou a Inglaterra em 1741, alcançando um extraordinário reconhecimento. Browning, que possuia duas tocatas manuscritas do compositor, completou o poema seguinte em 1885.

I
Oh Galuppi, Baldassaro, this is very sad to find!
I can hardly misconceive you; it would prove me deaf and blind;
But although I take your meaning, 'tis with such a heavy mind!

II
Here you come with your old music, and here's all the good it brings.
What, they lived once thus at Venice where the merchants were the kings,
Where Saint Mark's is, where the Doges used to wed the sea with rings?

III
Ay, because the sea's the street there; and 'tis arched by . . . what you call
. . . Shylock's bridge with houses on it, where they kept the carnival:
I was never out of England--it's as if I saw it all.

IV
Did young people take their pleasure when the sea was warm in May?
Balls and masks begun at midnight, burning ever to mid-day,
When they made up fresh adventures for the morrow, do you say?

V
Was a lady such a lady, cheeks so round and lips so red,--
On her neck the small face buoyant, like a bell-flower on its bed,
Over the breast's superb abundance where a man might base his head?

VI
Well, and it was graceful of them--they'd break talk off and afford
--She, to bite her mask's black velvet--he, to finger on his sword,
While you sat and played Toccatas, stately at the clavichord?

VII
What? Those lesser thirds so plaintive, sixths diminished, sigh on sigh,
Told them something? Those suspensions, those solutions--"Must we die?"
Those commiserating sevenths--"Life might last! we can but try!

VIII
"Were you happy?" --"Yes."--"And are you still as happy?"--"Yes. And you?"
--"Then, more kisses!"--"Did I stop them, when a million seemed so few?"
Hark, the dominant's persistence till it must be answered to!

IX
So, an octave struck the answer. Oh, they praised you, I dare say!
"Brave Galuppi! that was music! good alike at grave and gay!
"I can always leave off talking when I hear a master play!"

X
Then they left you for their pleasure: till in due time, one by one,
Some with lives that came to nothing, some with deeds as well undone,
Death stepped tacitly and took them where they never see the sun.

XI
But when I sit down to reason, think to take my stand nor swerve,
While I triumph o'er a secret wrung from nature's close reserve,
In you come with your cold music till I creep thro' every nerve.

XII
Yes, you, like a ghostly cricket, creaking where a house was burned:
"Dust and ashes, dead and done with, Venice spent what Venice earned.
"The soul, doubtless, is immortal--where a soul can be discerned.

XIII
"Yours for instance: you know physics, something of geology,
"Mathematics are your pastime; souls shall rise in their degree;
"Butterflies may dread extinction,--you'll not die, it cannot be!


XIV
"As for Venice and her people, merely born to bloom and drop,
"Here on earth they bore their fruitage, mirth and folly were the crop:
"What of soul was left, I wonder, when the kissing had to stop?


XV
"Dust and ashes!" So you creak it, and I want the heart to scold.
Dear dead women, with such hair, too--what's become of all the gold
Used to hang and brush their bosoms? I feel chilly and grown old.


Pouco depois desta meditação sombria, Browning viria a falecer em Veneza no Palazzo Rezzonico, propriedade da sua família, que vemos à esquerda nesta imagem de Michele Giovanni Marieschi, tal como era em 1742.

Mais uma vez, este post será também colocado aqui.

14.8.06

Hoje é o Dia D. D de débeis mentais.

Primeiro foi a revista Xis, uma espécie de curso de preparação para a menopausa, inspirada no feng shui e no Alberoni, dirigida ao vasto conjunto de mulheres que nada entendem de Física mas falam seriamente em energia e acreditam na fatalidade das estrelas.

Agora tem sido o Dia D, um suplemento que promete esclarecer-me gentilmente sobre a economia que me interessa - um chorrilho de banalidades sentenciosas, dogmas ligeiros e picardias imaginárias com uma esquerda que já quase não existe.

A direcção do Público parece cada vez mais apostada em transformar os seus leitores, habitualmente razoáveis e inteligentes, em émulos do horrível Blasfémias.

Confesso-vos que ando quase com saudades do Diário de Notícias.

Nota posterior: o Filipe Moura escreveu dois posts sobre o mesmo assunto, que só vi depois de publicar o meu. Também no Blogoexisto me recordo de terem sido referidas as inanidades deste suplemento.

Trabalho bem feito.



É coordenar o regresso de férias com as encomendas da Amazon.uk. Eis o que me entrou hoje no correio, logo pela manhã.

13.8.06

Pela blogosfera.


1. No seu blog sobre kleist, Alexandre Andrade refere-se aos trabalhos de João Queiroz de um modo singularmente elogioso. Alexandre afirma, perspicaz, que as telas do pintor se apropriam e, ao mesmo tempo, interrogam o modelo clássico da paisagem. Considera, entusiasmado, que o observador não poderá deixar de nelas reconhecer arquétipos, facilmente identificáveis, de paisagens clássicas; mas com detalhes, com peculiaridades, com acidentes que lhes conferem um aspecto duplo de figuração e conceptualização. E depois conclui, definitivo, que os quadros de João Queiroz provocam uma atracção e sedução poderosas, que não elidem, antes transmitem maior força e acutilância às questões que a abordagem do artista suscita.

De um modo mais prosaico, Ricardo Gross concorda com Alexandre Andrade: e também ele encontra, nesta tela de João Queiroz, arquétipos, paisagens clássicas, além de um aspecto duplo de figuração e conceptualização capaz de despertar, suponho eu, uma atracção e sedução poderosas, dando maior acutilância às questões que a abordagem do artista suscita.

O leitor, imagino, não será o primeiro a contradizê-los.

2. É agradável regressar de férias e encontrar o Eduardo Pitta a citar as Ligações Perigosas. Um espírito mais malicioso que o meu poderia agora começar a estabelecer paralelismos irónicos entre essas tais ligações perigosas e a defesa ardente, protagonizada pelo crítico, das decisões do Governo Israelita. Eu, com singeleza, não vou entrar por aí: em primeiro lugar porque o Eduardo Pitta faz mais pela sobrevivência deste blog do que eu próprio tenho feito, e em segundo lugar porque acredito, como Jorge Luis Borges, que nada é tão pouco importante, num ser humano, como as suas opiniões.

Quanto a Laclos: se o leitor gostar muito, não deixe de ler Crebillon Fils, Vivant Denon, e este Louvet de Couvray que nos últimos dias me tem andado a distrair.

3. Nuno Costa Santos, de regresso à blogosfera, anda a folhear o mais cínico dos arrivistas ingleses, o encantador Lord Chesterfield. Sobre este livro afirmou o doutor Johnson que ensinava the morals of a whore and the manners of a dancing-master. O que o transforma, obviamente, na leitura ideal para triunfar na blogosfera. Eu, como tenho os livros mas não o tacto diplomático, posso ao menos presentear o Nuno Costa Santos com esta máxima de La Rochefoucauld:

Pour s'établir dans le monde,
on fait tout ce que l'on peut pour y paraitre établi.


Espero que lhe seja útil, nas batalhas contra o ressentimento.

4. E por falar em tacto diplomático, vale a pena ler a selecção de artigos sobre o Médio Oriente que Ana Gomes publicou, este fim-de-semana, no Causa Nossa.

12.8.06

Por onde andam os turistas japoneses este Verão.


Além do Rembrandt na Gemäldegalerie, vale a pena ver a exposição Berlin-Tokyo/Tokyo-Berlin, na Neue Nationalgalerie, dedicada à intensa cumplicidade que nos últimos cem anos uniu as duas capitais. Para lá do Dadaismo, da Bahaus, do Japonismo e de outras polinizações clássicas, esta retrospectiva revela-nos também como está a ocorrer actualmente o diálogo artístico entre ambas as cidades. Abundam as peças engenhosas, como aquela metrópole construida com chips que recebe o visitante no andar inferior, ou o ensaio sobre pet architecture, de uma graciosidade muito oriental, que exibe a obsessão japonesa com o aproveitamento do espaço em várias zonas de Tóquio. No entanto, prefiro a estas obras a revelação mais intimista dos quadros de Naofumi Maruyama, que desconhecia. O pintor apresentou aqui três telas de uma nostalgia pungente sobre o final do Verão, infelizmente indisponíveis na net. Deixo-vos por isso esta imagem, entitulada Brisa do rio 1, vagamente evocativa das outras três que observei em Berlim.

Vês, Helmut, como o avozinho era tão mau?


Os meninos da Ebert Strasse brincavam a valer nas sepulturas de betão do Memorial do Holocausto, gritando a plenos pulmões, esquecidos de si, com a alegria selvagem dos cupidos retratados por Caravaggio, e saltavam cada vez mais alto de jazigo em jazigo, em direcção ao topo da montanha de mortos, inebriados pelo odor dos corpos imaginários e pela sua doce submissão, loucos por sangue e por prazer, desafiando as profundidades, de mãos estendidas para o céu, como se implorassem ao sol para consumir-lhes as asas, como se também eles ansiassem a derrota, como se também quisessem, sessenta anos depois, ser vencidos pela vertigem ou pelo cansaço.

O monumento, que ocupa todo o quarteirão, não pode propriamente designar-se um cemitério. Não é constituido por lápides, nem por túmulos, nem sequer por cenotáfios. Apenas blocos de cimento, de alturas diversas, sulcados por trilhos que os meninos exploram a correr. De vez em quando há um que escala os paralelipípedos sob o olhar bondoso dos familiares. O triunfo é súbito e imemorial. Oh mãe, isto é tão giro! - berrava um rapazinho a poucos metros de mim.

Tens razão, pequeno Helmut. É mesmo giro.