31.8.06

O nosso pequeno monstro.


Mencionam Nosferatu, e imediatamente me acode a memória irrepetível de João César Monteiro.

Mas vou começar pelo princípio, como convém: em meados dos anos noventa assisti na Culturgest à projecção de dois filmes do Murnau - o Fausto e este Nosferatu que mencionei. Eu andava muito embrenhado nas narrativas faustianas, lendo Marlowe, Thomas Mann, Goethe, Valery e até a Tempestade, por causa de certas alusões que não vêm ao caso. O certo é que entrei no auditório animado por um invulgar sentimento de antecipação.

À minha frente já se erguia a tela, por cima do palco, e de cada um dos seus lados, à altura de um metro, outra estrutura exibia os instrumentos do conjunto musical que iria acompanhar as projecções: o quarteto Art Zoid.

Misturar dois filmes dos anos vinte com os ruídos avant-garde desta espécie de rock progressivo (não quero chocar os conhecedores, mas pensem, talvez, em Einsturzende Neubaten) era uma ideia arriscada. Fazê-lo quando um génio da provocação estava na sala revelou-se inesquecível.

Assim que o espectáculo começou, o vulto dobrado de um gnomo subiu para o palco. Chegou perto dos músicos vagarosamente e estendeu-lhes os braços, numa atamancada súplica, implorando alguma coisa que nos escapava. A esgrouviada silhueta aproximou-se então da plateia e fez uma mesura trágica, enquanto o seu pequeno corpo se deixava iluminar pelo rosto lívido de Max Schreck planeando o fim do mundo. A sala inteira reconheceu César Monteiro.

Numa vozinha frágil, mas extraordinariamente perceptivel, que se sobrepunha àquela espécie de ruído industrial, o cineasta revelou-nos ao que vinha:

Parem a música. Stop the music. Isto é uma pouca-vergonha! - afirmou revoltado. Stop the music. Eu quero a minha maçaroca! E por ali ficou, dois ou três minutos, com os dedinhos a rasparem uns nos outros, exigindo o seu dinheiro de volta.

Um segurança subiu ao palco para o convencer a sair: o funcionário tinha o dobro da sua estatura e César Monteiro, obviamente, atirou-se a ele. Fê-lo com a energia dos loucos, foi vencido num ápice, e saiu humilhado ao colo do homem que o derrotara.

Até ao intervalo temi que lhe tivessem feito mal; mas depois encontrei-o lá fora, muito melancólico, extraíndo grandes baforadas de um SG Gigante, na sala dos não fumadores.

9 Comments:

Anonymous filinto said...

é de certa forma chocante pensar em rock progressivo e em Einsturzende Neubauten, mas percebe-se a ideia ;-). obrigado pela partilha, divertida.

10:10 da manhã  
Anonymous sheesh kabob said...

É "perceptível" e "sobrepunha-se" que se escreve. Desculpa a adenda mas certas coisas são mais fortes que eu e esta é uma delas.

12:38 da tarde  
Anonymous sheesh kabob said...

Mas sem dúvida que é um episódio divertido e que nao se esquece facilmente.

12:40 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

meu deus, obrigado pelas correcções. é o mal de escrever às oito da manhã.

12:47 da tarde  
Anonymous T. de Q. said...

Excelente!

Ninguém o ter aplaudido foi um sinal.

2:45 da tarde  
Blogger Joshua said...

Consigo imaginar o magro indicador roçando no polegar exigindo a maçaroca. César Monteiro era um insubmisso, mestre em insurgência.

Ai de nós se, comedidos, lhe não seguirmos minimamente as passadas excessivas deliciosamente insurrectas.

3:00 da tarde  
Anonymous sheesh kabob said...

;)

10:15 da tarde  
Blogger zazie said...

Que maravilha! não conhecia esta história

Obrigada pelo relato

2:52 da manhã  
Blogger dorean paxorales said...

Pois eu estava precisamente sentado no lugar atrás do senhor e da sua família. Assim que o vi agradou-me logo saber que o realizador se encontrava entre aquelas duas únicas filas dianteiras de espectadores que de facto haviam comprado bilhete para uma exibição singular num auditório com 600 lugares.

Um amigo meu guardou o charuto (e não gigante) que o senhor deixou cair na luta que tentou travar com o segurança.

A mulher e a filha riram o tempo todo como umas perdidas.

O que é certo é foi tudo previsto e planeado e confesso que me aborreceu aquela intromissão à minha soireé.

1:43 da tarde  

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