19.8.06

Sirocco, e outras aflições.


Como é que os turistas de há cem anos suportavam passar tantas horas, sempre tão vestidos, sob o sol de Itália no pico do Verão? Não suportavam. A estação turística, até há pouco tempo, acabava em Maio. O escritor Aschenbach (ou compositor Aschenbach, para quem apenas viu o filme de Visconti) morreu no Lido antes da canícula. Em Junho, Julho e Agosto, Veneza era um matadouro. A cólera, os miasmas, o ar quente que provinha do deserto, tudo serviu aos escritores da época para explicar o interdito Verão italiano. Hoje sabemos que o mosquito Anopheles, transmissor da malária, era o mais copioso dos assassinos. Foi necessária a popularização dos desinfectantes e do quinino para que os elegantes turistas contemporâneos se pudessem arrastar de chanata e câmara de video, pela ponte de Rialto, dia 15 de Agosto às três da tarde.

Este post será também, como é habitual, colocado aqui.

8 Comments:

Anonymous O Mascarilha said...

O mundo mudou. Os mosquitos também.

5:49 da tarde  
Anonymous Thomas De Quincey said...

Veneza, Veneno. Ah! Já não há arte em nada! Eu gostava de ler um post sobre a virtude dos envenenamentos em Veneza. Aí sim, ultrapassava a questiúncula do politicamente correcto.

1:41 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Um leitor que escolhe o meu querido de Quincey para pseudónimo merece toda a consideração. Hei-de fazer esse post sobre venenos, embora os Venezianos não fossem especialistas no assunto. Já mais a sul, em Florença, a conversa seria outra.

10:24 da manhã  
Anonymous thomas de quincey said...

Desconhecia esse facto. Mas Veneza, como é mais húmido, dá-lhe outro tom, parece-me. E aposto que iam fulanos de Florença de propósito para fazer ensaios. No caso, é essencial não fazer trapalhadas em casa.

Grato pela simpatia.

2:58 da manhã  
Anonymous thomas de quincey said...

Já agora, caso não conheça: Don't Look Now

Um género muito pouco agradável. Mas uma obra-prima de "setting".

3:18 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Sim, eu tenho esse filme, leitor. Perseguia-me aliás há muitos anos, desde que o tinha visto, ainda pequeno, na televisão.

7:13 da manhã  
Anonymous amc said...

A minha recordação de Veneza é única, a de Visconti e de Mann.
Por imprevistos e contrariedades nunca me desloquei a Itália sequer.
Mas Veneza é a cidade para morrer, o epítome da beleza que sufoca porque intangível.
Alguns fotogramas e meia dúzia de linhas descrevem esse arrebatamento final:
«A praia estava inóspita. Sobre a planura extensa de água que separava a praia dos primeiros bancos de areia, corriam aguaceiros que enrugavam a superfície. O Outono, uma sensação de fim da estação, abatera-se já sobre a estância, antes tão viva e colorida, agora quase abandonada, e já ninguém limpava sequer a areia. Junto ao mar estava uma máquina fotográfica, aparentemente sem dono, sobre um tripé, e o pano negro que dela pendia esvoaçava no vento frio.»
Thomas Mann, A Morte em Veneza
Abraço

3:48 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Um belo livro, amc.

12:20 da manhã  

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