29.8.06

Um ano depois.


Mais uma vez se fala de New Orleans, e mais uma vez os comentadores pasmam com a pobreza que havia escondida naquela cidade. Escondida? Só se fosse para quem andava em Cancun e Varadero: a New Orleans que eu conheci, há cerca de oito anos, estava cercada de miseráveis. Era, para começar, um dos locais mais perigosos dos Estados Unidos. Mal chegavam, os turistas eram simpaticamente aconselhados a não sair do French Quarter. Os folhetos do seu famoso cemitério informavam-nos que havia ladrões e violadores à solta nos jazigos. Na semana em que lá estive, um psicopata gay esfaqueava homens de trinta anos nas ruas em redor do meu hotel (safei-me, porque tinha vinte e nove). A cidade era deslumbrante, recortada por vastas alamedas onde os eléctricos deslizavam vagarosamente, entre mansões gloriosas de arquitectura colonial. Mas bastava sair um pouco do circuito turístico para conhecer a outra New Orleans: uma espécie de favela, suja, inquietante, em que os negros olhavam para nós como se fossemos brindes publicitários. Só lá dormi quatro noites, mas ainda hoje amo aquela cidade: é linda, lenta, louca, langorosa e pobre. Muito pobre.

2 Comments:

Blogger LNT said...

Estive lá há seis anos e parte daquilo que aqui se diz é verdade. Também me fizeram os avisos, também vi muita miséria mas felizmente não soube de nenhum psicopata esfaqueador (embora me tivessem querido roubar os sapatos a caminho do French Quarter).
A pobreza saindo do circuito turístico era constatável. Na visita ao delta e na subida do Mississipi o povo Cajun vivia miseravelmente. A miséria no Lousiana é mais visível que noutros estados americanos, mas também a vi em muitos outros estados, começando pelo de NY.
O fascínio por New Orleans é capaz de resultar de todos os contrastes e de todas as culturas que ali se encontram, desde a violência até à extrema simpatia, passando por ser o local mais louco que até hoje conheci no Mundo.
Fiquei com uma grande simpatia por aquela cidade que lembro com saudades, com muitas saudades.

ET. Conhecendo a pacovice moralista americana e sabendo dos conflitos sociais que existiam (existem) em New Orleans, talvez se possa perceber com mais clareza o desleixo com que a protecção civil nacional americana actuou. Certamente na Califórnia ou em Orlando a actuação teria sido diferente.
Um abraço

1:49 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

Certamente que teria, lnt.

8:29 da manhã  

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