12.8.06

Vês, Helmut, como o avozinho era tão mau?


Os meninos da Ebert Strasse brincavam a valer nas sepulturas de betão do Memorial do Holocausto, gritando a plenos pulmões, esquecidos de si, com a alegria selvagem dos cupidos retratados por Caravaggio, e saltavam cada vez mais alto de jazigo em jazigo, em direcção ao topo da montanha de mortos, inebriados pelo odor dos corpos imaginários e pela sua doce submissão, loucos por sangue e por prazer, desafiando as profundidades, de mãos estendidas para o céu, como se implorassem ao sol para consumir-lhes as asas, como se também eles ansiassem a derrota, como se também quisessem, sessenta anos depois, ser vencidos pela vertigem ou pelo cansaço.

O monumento, que ocupa todo o quarteirão, não pode propriamente designar-se um cemitério. Não é constituido por lápides, nem por túmulos, nem sequer por cenotáfios. Apenas blocos de cimento, de alturas diversas, sulcados por trilhos que os meninos exploram a correr. De vez em quando há um que escala os paralelipípedos sob o olhar bondoso dos familiares. O triunfo é súbito e imemorial. Oh mãe, isto é tão giro! - berrava um rapazinho a poucos metros de mim.

Tens razão, pequeno Helmut. É mesmo giro.

13 Comments:

Blogger sabine said...

Nunca pensei que me fosse decepcionar tanto consigo. Agora a guerra de Israel deu-lhe para ser racista?

11:20 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

por amor de deus sabine, qual racismo? e já agora, contra quem?

11:23 da manhã  
Blogger sabine said...

Pode-me explicar entao o tom e o sentido deste post? Falar da morte e da escravização de pessoas por um regime é coisa séria.

8:18 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

sabine, no dia em que tiver de explicar o sentido de um post, acabo com o blog.

9:03 da tarde  
Anonymous konrad said...

Sabine, não sabemos se o rapaz berrava:
"das ist lustig"
"das ist toll/macht Spass etc."
Crianças precisam de aprender, precisam de nós, precisam...

Eis a "lição" , que o Luis nos quis dar -

Lição = Lehre UND Strafe !!

Wie will ein Kind Zementquader verstehen wenn nicht als Spielplatz ?

Luis Kommentar ist an uns gerichtet: Beissend sarkastisch, treffsicher mitten ins Herz !

Verstehst Du weshalb ich den Beitrag sogar als ausserordentlich wertvoll schaetze ?

Gruesse aus Perafita
Konrad

11:17 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Obrigado, konrad. Só consegui compreender uma parte do seu comentário em alemão, mas apreciei aquilo que compreendi.

1:00 da manhã  
Blogger zazie said...

ahahahahah

o mundo ficou doido com tanto preconceito à solta.

":O))))

cá para mim, pelo sotaque, foi post anti-semita e pró-islâmico

ehehehe

2:27 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

provavelmente foi, zazie ;-)

9:33 da manhã  
Blogger zazie said...

É... nós rimo-nos mas olha que eu penso que o caso não é só para brincadeira. Sinto-me extra-terrestre perante esta geração politicamente correcta. E ainda mais, face aos que se lobotomizaram para a acompanhar.

Estas patrulhas e todo este espírito inquisidor que já vai ao ponto de querer que te arrependas das pulsões que possas ter sem saberes, é um fenómeno totalitário que extravasa a linguagem...

Por mim está no topo daquelas embirrações a que não cedo e até me recuso a lhes adoptar a novi-língua.
Alguém tem de resistir, que diabo!

Boas férias

12:36 da tarde  
Blogger JSA said...

Caro luís, depois de ler o post imaginei quem seria a primeira pessoa a dizer que era brincar com um sentimento demasiado doloroso. Foi a sabine, infelizmente foi ainda mais longe que a indignação e deu-lhe para o insulto. Mas enfim, realmente há que compreender o sentido. O principal daquilo que o konrad escreveu está mesmo em «Wie will ein Kind Zementquader verstehen wenn nicht als Spielplatz» (como pode uma criança entender um bloco de cimento senão como espaço de recreio? - tradução algo liberal).

E note-se, quando se ocupa na mente da criança este espaço geográfico com os blocos de cimento, obriga-se a que a criança, um dia, pergunte para que servem, porque razão estão ali. É uma forma de "marcar território" que servirá um dia para a consciencialização.

11:19 da manhã  
Blogger Luis M. Jorge said...

"Caro luís, depois de ler o post imaginei quem seria a primeira pessoa a dizer que era brincar com um sentimento demasiado doloroso."

Caro jsa, eu não estava a brincar. Estava a pôr no papel um insight que me pareceu poderoso e interessante.

Será que não posso fazer um post que desafie os leitores sem ficar sujeito ao didatismo moralizador de umas quantas alminhas que me querem "consciencializar"?

Ainda não entendeu, jsa, que as pessoas conscientes não são "consciencializáveis"?

11:54 da manhã  
Blogger JSA said...

Caro Luís, compreendeu-me mal (ou se calhar fui eu que não me expliquei bem). Eu não disse que estava a brincar. Disse que alguém o acusaria disso (como se viu). Eu não moralizo nem quero moralizar o seu post, no máximo interpretarei uma possível intenção dos autores da obra. O seu post não me incomodou nada, bem pelo contrário, gostei muito dele. escusa de reagir a quente, mesmo que tenha levado a mal o meu comentário (ainda que, como disse, a culpa possa ter sido minha por me explicar insatisfatoriamente).

Também eu já vi o memorial e gostei dele. Mais que do outro, na Unter den Linden, aos mortos, no geral, das guerras.

Quanto ao resto, espero que estejamos conversados.

PS - qualquer pessoa é consciencializável, mesmo que já seja consciente. Não acredito numa conciência perfeita acerca de qualquer assunto. Por isso continuo a ler sobe eles mesmo quando estou consciente sobre elas. Claro que está perfeitamente à vontade para discordar.

12:20 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Caramba, jsa, ia jurar que estava a dizer exactamente o contrário. Queira aceitar o meu pedido de desculpas.

5:26 da tarde  

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