30.9.06

As mulheres que nos recusam os prazeres da juventude tentam oferecer-nos as consolações da meia-idade.

29.9.06

Nas cinzas de Idomeneo.

O caso fez-me recordar Maquiavel: não vale a pena evitarmos as guerras, porque elas chegam quer queiramos quer não.

amizades imperfeitas

Sandro está eufórico com os seus três anos de blogosfera; Ruca diz que se tivesse três faria tudo para os perder.

(Dedicado ao Pedro Vieira)

American way.

Graças ao Eduardo Pitta encontrei hoje na imprensa esta coisa extraordinária: uma recensão a um livro que me deu vontade de o ler. Eis um pequeno extracto aqui.

Ah, uma novidade.


Não quero com isto trair a minha sublime Contax G2, mas talvez gostem de saber que chegou ao mercado a nova Leica M8.

Em 2021.

O Martim espancara um professor e a Francisca fora apanhada com haxixe no pátio da escola. Lourenço, Sebastião e Constança estavam a chegar num carro roubado perto do restaurante chinês. Salvador não ia às aulas desde Janeiro. Sancha também andava por ali, à espera da Matilde que lhe prometera uns riscos de coca na terça-feira. Mariana fazia colares de missangas, Afonso tocava djembé. Se a Carlota e o Tomás não estivessem na cadeia, seria um dia normal na freguesia da Rinchoa.


Congresso de escritoras.

Adília e Teolinda sentaram-se longe de Fiama e Agustina.

To a butterfly.

I'VE watched you now a full half-hour;
Self-poised upon that yellow flower
And, little Butterfly! indeed
I know not if you sleep or feed.
How motionless!--not frozen seas
More motionless! and then
What joy awaits you, when the breeze
Hath found you out among the trees,
And calls you forth again!

This plot of orchard-ground is ours;
My trees they are, my Sister's flowers;
Here rest your wings when they are weary;
Here lodge as in a sanctuary!
Come often to us, fear no wrong;
Sit near us on the bough!
We'll talk of sunshine and of song,
And summer days, when we were young;
Sweet childish days, that were as long
As twenty days are now.

William Wordsworth. (Podem comparar com este poema de Joseph Brodsky)

28.9.06

Despojos de um almoço na esplanada.

Uma frente fria deslocava-se para Leste a partir do Atlântico. Nas Penhas Douradas, a temperatura mínima atingia os quatro graus. Do céu muito nublado caiam aguaceiros, em especial nas terras altas. No ano em que o homem chegou à Lua, Portugal parecia fazer parte de um planeta igualmente inóspito e desencorajador.

A criança deitava-se depois do boletim metereológico, embalada pelo ponteiro metalizado do senhor Antímio de Azevedo. Muitas vezes já cambaleava, quando o João Pestana, o Chico Escuro e o Manuel Esfrega repetiam a sua melodia no televisor a preto e branco:

“nós somos os amigos do sono,
quando chegamos toda a gente fica bem…”

A avó abria a cama, colocando nela os lençóis, um cobertor de papa, uma manta de improvavel pêlo de leopardo, e vestia à criança um pijama que ao passar pelo cabelo o magoava invariavelmente.

Desperto de novo, o rapaz ficava quieto, de rosto encostado à almofada, a olhar para o avô que na sala do lado já cabeceava por trás dos seus óculos bifocais, a apreciar a renda que a avó fazia, essa longa extensão de flores tão delicadas e remotas como edelweiss e igualmente perdidas entre um manto branco, não de neve, mas de linhas em ponto de arroz.

Dia sim, dia não, iam à praça. Ele torcia o nariz ao cheiro áspero da carne pendurada nas bancas, ao fedor do queijo picante, intrusivo e hostil. Mas gostava do aroma fresco dos legumes, dos morangos sempre maduros, dos bolos por vezes quentes, que pareciam seios cobertos de açucar, dos lírios e das rosas que impregnavam o ar. As vendedoras ofereciam-lhe cerejas graúdas da Guarda, alperces e gomos adstringentes de dióspiro.

A avó pontificava entre as verduras e os legumes como Carlos Magno entre os lombardos, regateando preços e franzindo o sobrolho, como se as vendedoras ou as couves lhe devessem vassalagem. Espetava o dedo incriminador nas guelras dos peixes e afectava uma comiseração desmesurada para com as nervuras do bife da alcatra.

Nessas alturas ele afastava-se um pouco e ia cumprimentar uma velha bruxa de verruga no nariz, que bondosamente lhe estendia uma maçã bravo esmolfe muito mirrada. O menino recusava-a sempre, por conhecer o lamentável destino da Branca de Neve.

Quando o tempo estava melhor iam ao Paço do Bispo. Aí, entre o jardim de buxo recortado, a criança descobria repuxos de granito que matavam a infinita sede de vagarosos peixes vermelhos. As estátuas dos reis de portugal, dos signos do zodíaco, dos veneráveis santos da patrística e da tomística, erguiam-se lado a lado, em misteriosa simetria. Uma piscina enorme, coberta de limo, despertava em si um extraordinário terror. Só ele parecia adivinhar, fascinado, quantos corpos de crianças da sua idade tinham caído dentro da água infecta, arrastados por sereias, e quantas pequenas ossadas restavam ainda, presas por algas ao fundo de pedra.

Nesses dias o jantar era triste como um luto.
Sou tão capaz de resistir a um capricho como Nero a uma caixa de fósforos.

Quem faz o quê.

A mania de distinguir entre corrupção passiva e corrupção activa faz com que, na minha cabeça, os crimes económicos estejam vulgarmente associados à prática da homossexualidade.

As angústias da influência.

Constantinopla.

Os que se opõem à entrada da Turquia na União Europeia deviam meditar nisto: vêem-se mais burqas em Paris do que em Istambul.

27.9.06

Helena Garrido Vs. Compromisso Portugal.

O relatório sobre competitividade do Fórum Económico Mundial é uma vergonha para os gestores e empresários portugueses e um elogio às instituições públicas. Portugal desceu do 31.º lugar para o 34.º entre 125 países fundamentalmente por causa do mau funcionamento das instituições privadas. Afinal, a fraca imagem do País deve-se em grande parte ao sector privado.

O pior indicador de Portugal é o que está relacionado com o baixo crescimento e os défices público e externo. A seguir, a mais baixa qualificação está na sofisticação dos negócios. Ou seja, fracos processos produtivos, problemas nas estratégias de marketing e dificuldade em delegar competências. Aquilo de que tanto se queixam os gestores, ou seja, os custos de contexto, que correspondem ao enquadramento em que se movem os negócios, e a qualidade das instituições têm afinal uma classificação melhor que o funcionamento das empresas e das entidades privadas em geral. Em termos globais, as instituições públicas têm, no ranking do Fórum com sede em Davos, melhor classificação que as privadas.

O défice público, um dos problemas do País que podem ser directamente atribuídos aos governos, está em vias de resolução. Se a reestruturação do Estado for conseguida, o sector privado passa a ser o grande problema do País, aquele que contribui também para o fraco crescimento e o défice externo.


Alguns apontamentos:

1. dizer que o défice público está em vias de resolução é propaganda política. Era bom que os jornalistas do DN deixassem de fazer o que sempre fizeram - alianças acríticas com o Governo do momento, qualquer que ele seja.

2. Ignorar a importância da dívida externa é prestar um mau serviço aos leitores: a nossa dívida externa per capita é pura e simplesmente a maior do mundo!

3. Dizer que se a reestruturação do Estado for conseguida, o sector privado passa a ser o grande problema do País é um truísmo miserável. Por enquanto, 6 em cada 10 euros dos nossos impostos são para pagar ordenados a funcionários públicos e isso não está em vias de resolução.

Dito isto, Helena Garrido tem toda a razão. As empresas portuguesas têm uma produtividade africana, departamentos de marketing dignos do antigo Bloco de Leste e devem tipicamente uma boa parte dos seus lucros à fuga ao fisco e à esperteza saloia de quem as dirige. Alguns dos participantes do Compromisso Portugal, cujas empresas conheço bem, são gestores da sua imagem mais que outra coisa qualquer.

A ler.

Horários aqui - o maradona não coloca links nos posts, por isso vão ter de procurar este no seu blog (o que até dá um certo prazer torturado aos leitores). Começa com uma citação de Helena Matos ("c) uma boa parte dos abortos praticados em Portugal são o resultado de decisões tomadas por mulheres com meios económicos. As operárias têxteis abandonadas pelo patrão e pelo namorado no início da gravidez são um cartaz neo realista que pouco tem a ver com a realidade.") e vale mesmo a pena.

eu, jornalista de causas, para não variar - o caso Arroja continua a dar que falar. A f. pelo menos não se cala, e faz ela muito bem.

Os comentários ao meu post Adiante, sim senhor, onde AA explica como devem ser as relações entre liberalismo e fascismo.

Jornalismo de causas.

Manuel Queiró escreveu para o Público um artigo titubeante sobre o filme de Al Gore e o aquecimento global. É bom saber que alguém naquele matutino ainda vai ao cinema.

26.9.06

Adiante, sim senhor.

No Arte da Fuga, António Amaral ficou muito perturbado com o jornalismo de causas que Fernanda Câncio terá aplicado a Pedro Arroja. Parece que a f. é incapaz de apreender conceitos de nível superior, como os que são produzidos pelo académico impoluto: conceitos enunciados subtilmente, como a bondade da raça branca em geral e de Pinto da Costa em particular, o desprezo pelos pobres, a humanidade da pena de morte, e até as virtudes económicas da escravatura.

António Amaral não afirma que o professor Arroja tenha sido deturpado ou impedido de dizer alguma coisa. Não: o que parece incomodá-lo é exactamente o oposto. O que parece perturbar António Amaral, nesse jornalismo de causas que denuncia, é a sua capacidade de pôr os Pedro Arroja deste mundo a revelar exactamente aquilo que pensam, e aquilo que são.

Almoço.

Salada de tomate com mozzarella de búfala, manjericão, pinhões, vinagre balsâmico e flor de sal. O estômago reconhece sempre onde a cabeça queria estar.

A palavra ao santinho.

A f. repescou uma entrevista interessantíssima do senhor professor Pedro Arroja, o novo e portentoso blasfemo. Aqui fica este delicado amuse bouche:

Você é adepto da pena de morte.

Não, eu tenho escrito que os economistas americanos provaram que quando uma pessoa é executada os criminosos potenciais retraem-se, porque têm medo. O que se concluiu é que por cada pessoa executada na cadeira eléctrica havia sete crimes que deixavam de ser cometidos. Então o que é que é desumano?

Nem vale a pena averiguar como é que eles chegaram a esse número...

Através de técnicas de simulação, com modelos econométricos. E comparando entre estados com pena capital e os que não a têm. A metodologia não é complicada.

Mas a realidade é. E como existem outros números e dados que dizem que para se ser condenado à morte nos EUA é preciso ser-se pobre e de preferência negro, estamos conversados.

É natural que sendo pobres tenham mais tendência a cometer crimes...

E sendo negros tenham mais tendência a ser mortos.

Posso-lhe dizer que não há país do mundo onde os negros vivam tão bem como na América.

Costumava ouvir-se isso em relação à Àfrica do Sul...

E com verdade. Era o país com o mais alto nível de vida para os negros em África, mas agora vai cair.

Claro que estamos a falar de valores económicos.

Sim. Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra.

Ah não? E quem é que os levou para lá?

Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo.

25.9.06


Com uns bons dias de atraso vale a pena fazer publicidade a este número da Granta, dedicado à literatura de viagens. Destaque para We Went to Saigon de Tia Walmann, The End of Travel de James Hamilton-Paterson, e para a magnífica série de fotografias da Rússia, assinadas por Simon Roberts.

O regresso de Cocó e Facada.

O João Gonçalves acertou: em qualquer país civilizado o engenheiro Guterres e o doutor Barroso, assim que pusessem os pés na fronteira, receberiam ordem de prisão.

As excepções.

No repugnante cenário de corrupção e nepotismo que envolve Portugal (um panorama de que o PS devia ter vergonha, e no qual possui particulares responsabilidades) é bom saber que há gente capaz de virar a mesa: Sá Fernandes em Lisboa, Moita Flores em Santarém e Macário Correia em Tavira, salvo melhor opinião, parecem pertencer a esse grupo de pessoas. São justiceiros? Não, são simplesmente honestos. Com duzentos autarcas assim deixávamos a Roménia para trás.

Mesdemoiselles soleil.

Para o caso de andarem a perder as magníficas recensões da Literary Review, aqui deixo um pedaço da que é dedicada ao livro de Antonia Fraser Love and Louis XIV: The Women in the Life of the Sun King.

Splash, dash and panache, however, were not quite so much Louis’s style where women were concerned. Among several arresting aspects of Antonia Fraser’s book is the paradox which reconciles one of history’s most image-conscious rulers with a more reserved individual, capable of loyalty and discretion in affairs of the heart and not a complete stranger to emotion. Louis was a tyrant, with all the selfishness intrinsic to his position, but he was never a monster, and women were plainly drawn to him by something stronger than the banal magnetism of absolute power.

The biggest what-if aspect to Louis’s personal life lay in the choice of a consort, made for him by his mother, Anne of Austria, and her chief minister, Cardinal Mazarin. Had the Spanish infanta Maria Teresa been more alluring and sophisticated, Louis, though hardly the uxorious type, might have felt less inclined to wander. In fact she seems to have made no effort, as France’s Queen Marie-Thérèse, either to assume the less rigid manners of her adopted country or, more significantly, to support her young husband in his determination to restore dignity and magnificence to the French crown. Surrounded by her Spanish entourage of dwarfs and dogs, she was interested in little beyond gambling and visiting convents. No wonder that, although the King spent almost every night of their 23-year marriage in his wife’s bed, he advised his first-born son to ‘ask of God a princess who was agreeable to him’.

Louise de La Vallière, his sister-in-law’s lady-in-waiting, was a rather tastier prospect. Possessed of what one contemporary called ‘the grace more beautiful than beauty’ and referred to by another as ‘a violet hidden in the grass’, this first in line of the royal mistresses emerges, in Fraser’s account, as the most attractive, not least because her intense passion for the King was continually at war with a sincere Catholic piety. Louise had needed to convince herself that losing her virginity to her sovereign was a sacred duty. When at length, after bearing him two children, she renounced the office of maîtresse en titre to become a Carmelite nun, it was through her own long-meditated resolve. Wearing a hair-shirt, she sought the Queen’s pardon for her wrongdoing, but though Marie-Thérèse granted it with surprising magnanimity she was no doubt delighted to be present when, some days later, the fair sinner donned the habit of a postulant. Louis himself had shed bitter tears at their final interview.

24.9.06

Os serviços secretos americanos são anti-americanos.

Pacheco Pereira tem razão: o anti-americanismo é contagioso. Desta vez foram os próprios serviços secretos dos Estados Unidos a juntar a voz às pessoas más que querem sabotar o excelente trabalho do presidente Bush. Eles dizem que a guerra do Iraque fortaleceu o radicalismo islâmico e aumentou a probabilidade de ataques terroristas. O New York Times, como não gosta da democracia, parece concordar. Ah, a falta que lá fazem os nossos liberais...

Clinton à Fox News.

All of President Bush’s neocons claimed that I was too obsessed with finding Bin Laden when they didn’t have a single meeting about Bin Laden for the nine months after I left office. All the right wingers who now say that I didn’t do enough said that I did too much. Same people.
A transcrição está aqui.

Boa vizinhança.

Revigorado pela pausa da semana que hoje acaba, decido enfrentar a blogosfera com uma frescura amável e contagiante. Para começar, aqui deixo uma sugestão: dois importantes defensores da Liberdade que interpelaram consciências nos seus países adormecidos e bovinizados. Tenho a certeza de que ambos aceitariam com agrado a galharda missão de engrossar o ramalhete dos notáveis lidadores que desferem estocadas redentoras à pátria sonolenta no impagável Blasfémias.

Como cozinhar um panda.

Este post é dedicado aos leitores de direita que aguardaram quase uma semana pelo autor deste blog. Meus amigos, aqui vai a recompensa: neste documento encontrarão tudo o que é necessário para enfurecer o partido ecologista e auxiliar o presidente americano a satisfazer as suas legítimas aspirações.

Como enriquecer urânio.

Este post é dedicado aos leitores de esquerda que aguardaram quase uma semana pelo autor deste blog. Meus amigos, aqui vai a recompensa: neste documento encontrarão tudo o que é necessário para auxiliar o presidente iraniano a satisfazer as suas legítimas aspirações.

Thank you.

20.9.06

Pausa.

Até à próxima semana.

19.9.06

Na livraria Buchholz

existe uma elevada mezzanine carregada de estantes, com obras dedicadas aos estudos árabes e aos estudos judaicos. A localização pareceu-me apropriada: muçulmanos e israelitas, como bem sabemos, sempre gostaram de viver perigosamente.


Os mendigos da Rua do Carmo têm mais feridas
mais perninhas em côto do que na rua do Ouro.
Os cegos - como a minha avó os invejaria -
olham-me por baixo; eles estão na Rua Ivens.
Há um bem antigo e cego de bengala cor de Mó-
naco, polaca, preferem os outros.
Às vezes vejo-o no metro, vem com a companheira
- companheiras são bem coisas de cegos -,
é andar! Caem rápidas as moedas, nóvinhas, à
volta da minha casa. Vida de cego, cantada e
socialista. Ai quem me dera,
vivíamos num grande quarto.

Por causa de David Byrne, de João Miguel Fernandes Jorge.

Pacheco Pereira, pelo contrário, está certíssimo.

Ele revolta-se atiladamente contra os responsáveis da RTP, que, em vez de documentários didácticos sobre o criacionismo, emitem abjectos panfletos anti-americanos.

Darwin estava errado.

Demonstrando que os organismos vivos não evoluem, João Miranda ataca a Ciência.

18.9.06

Pensando em Juliano.

Esta querela entre mouros e cristãos seria menos desagradável se algumas pessoas, em que modestamente me incluo, pudessem invocar uma espécie de paganismo esclarecido.

O Avante está com as FARC, contra os terroristas de gravata.

Todas as pessoas que votam no Partido Comunista deviam ser obrigadas a ler o Avante:
A coisa seria ridícula se não fosse trágica o que esta encenação denota de hipocrisia e espírito revanchista por parte de quantos, reivindicando na própria verborreia a designação de democratas, têm raízes fundas no passado fascista em que militaram de corpo e alma ou de que são descendentes disfarçados de modernidade serôdia e muito cotão na entretela.(...)

Acusando o PCP de apoiar «terroristas», os próceres da direita não procuram apenas passar uma esponja sobre a luta heróica de sucessivas gerações que combateram o fascismo em Portugal e nas ex-colónias, quantas vezes à custa da liberdade e da própria vida, mas sobretudo negar o direito dos povos a decidir dos seus próprios destinos, se necessário pela via armada(...)

A verdade porém é que na Colômbia, onde as FARC lutam há mais de quatro décadas contra regimes corruptos e despóticos, serventuários do imperialismo norte-americano, os autênticos terroristas usam fato e gravata e incumbem o exército ou organizações paramilitares de lhes fazer o trabalho sujo, enquanto debitam nas Nações Unidas, na Casa Branca ou em Bruxelas discursos de paz e justiça social.
O texto é de Anabela Fino, o link do Eduardo.

17.9.06

A verdade de Al Gore.

O filme não é um objecto estético. A informação é exposta friamente, e as poucas emoções que alternam com o didatismo dos factos, os momentos intimistas felizmente esparsos que pretendem aliviar a narrativa, não convencem nem comovem. Mas por isso mesmo, por não ser um espectáculo conseguido, é que Uma Verdade Inconveniente se revelou um filme tão avassalador: a sua mensagem é clara, auto-explicativa e horrenda. Concordo com Eduardo Pitta: o filme devia ser de exibição obrigatória nas escolas. O assunto tem de passar a ser vital no debate político e importante para o cidadão comum. Temos de convencer a direita a levá-lo a sério, ou então, se não a conseguirmos convencer, temos de derrotar a direita. Uma coisa é certa: confundir o nosso sentimento de urgência com histeria não é um bom começo. Mais informação aqui.

O Expresso ou o Sol?

O Morangos com Açucar ou a Floribela?

Feeling morally, intellectually confused?


Num vídeo memorável (tem o mesmo título deste post e está bem à vista nos Special Comments), Keith Olbermann aplica a magnífica tradição retórica da King James's Bible, de Abraham Lincoln e Martin Luther King ao patético Donald Rumsfeld. This country faces a new type of fascism, indeed, conclui o jornalista da MSNBC. Quem aprecia os anti-americanos da América, vai adorar.

16.9.06

Mendes merece mais e melhor.

Um excelente post do Pedro Correia, no Corta-Fitas.

Das Kapital.

As mesmas lojas Vuitton e Boss, as mesmas colónias Acqua di Parma, o mesmo jazz nas mesmas poltronas de um Starbucks, as mesmas boutiques com nomes franceses (Anthropologie, Philosophie, Coquetterie), os mesmos kaiten-sushi e os mesmos hotéis do Starck, os mesmos sapatos Bally com 30% de desconto nos terminais de aeroporto de Paris, Los Angeles, Sidney, Berlim. Quem conhece um pouco do mundo sabe que está cada vez mais igual. Há uns anos perdi as ilusões ao encontrar, nos antípodas, os meus perfumes de Santa Maria Novella e os meus chocolates Dalloyeau. Essa descoberta teve a força de uma revelação: se qualquer pessoa, em qualquer canto do universo, tinha acesso ao que antes existia apenas numa rua tranquila de Florença, que sentido poderia um objecto acrescentar à nossa identidade? Hoje compro tudo o que posso na H&M, poupo dinheiro e já não quero saber.

Entretanto, li este parágrafo:

Capital burns off the nuance in a culture. Foreign investment, global markets, corporate acquisitions, the flow of information through transnational media, the attenuating influence of money that's electronic and sex that's cyberspaced, untouched money and computer-safe sex, the convergence of consumer desire -- not that people want the same things, necessarily, but that they want the same range of choices.

Don Delillo, Underworld.

É aquilo que fazemos que nos torna únicos?

15.9.06

Uma justiça quase divina.

Espero que a hierarquia católica, tal como ocorreu na crise dos cartoons, agora compreenda a reacção irada do bom povo islâmico à provocação desnecessária de Bento XVI.

Eco e Narciso.

Não sou o meu assunto disse, salvo erro, Gore Vidal. E no entanto, como é absurda a afirmação: se Vidal não é o seu assunto, quem o será? Wagner, em Veneza, ouvia músicas de Wagner no café Quadri: também ele era o assunto de si próprio. Dos cinco ou seis autores autores que marcaram o século (o século XX, ainda em vigor), Proust, Musil e Joyce - para quem gosta de Joyce - eram o seu assunto. Kafka, possivelmente, não. Conrad? Em metade das obras, sim - em outras, aparentemente, não. Podemos escapar ao confessionalismo? Se para isso for preciso ignorar a psicologia, talvez seja tarde.

Não é nada, FNV.

No Mar Salgado, o Filipe Nunes Vicente diz que este seu post é uma contradita dos meus. Os leitores decidam. Eu sei que vou andar entretido a escrever sobre Enrico Dandolo - um doge veneziano eleito aos oitenta anos que, apesar de ser cego e de trocar possivelmente os nomes do imperador Alexis III e do seu antecessor Manuel Comenus, nem por isso deixou de saquear Constantinopla e aterrorizar o Império Romano do Oriente (os pobres bizantinos, coitados, também julgavam com propriedade que o velho devia ser criticado no plano da discussão das ideias). Enfim: Deus, ou Alguém por Ele, me dê energias para tudo, que só tenho trinta e sete anos e muito para fazer ainda hoje.

14.9.06

Bom,

isto da política cansa. Em breve regressaremos a Veneza, à Elevação e à Cultura.

Por outro lado.

Pacheco Pereira também diz coisas muito acertadas, bendito seja (maldita esquizofrenia, que nunca me larga - ou será que nunca o larga?).

É lamentável que a Santa Inquisição tenha sido extinta pelas Cortes Gerais de 1821.

Com o seu conhecimento da história, a sua obsessão com a virtude e uma insuperável mestria na subtil arte da desqualificação, Pacheco Pereira ficaria bem de olhinhos ausentes e rosto macerado, em frente à fogueira quase extinta de um auto-da-fé, aquecendo as mãos sedosas nas ruínas calcinadas de um cadáver fumegante.

Os leitores que assistiram ao seu, como direi, entaramelado desempenho no Prós e Contras de segunda-feira não estavam com certeza à espera que a vingança contra Mário Soares tardasse muito. Não só não tardou, como veio antecipada, nas páginas oportunas da revista Sábado. Vejam com que panache Pacheco Pereira associa aqui Mário Soares aos tristes governos de Evo Morales e Hugo Chávez:

Duas ditaduras estão rapidamente em construção na América Latina. Como não são militares de óculos escuros, ao serviço da CIA, ninguém diz nada. Na Bolívia, o Movimento para o Socialismo do Presidente Evo Morales, fez aprovar de forma anticonstitucional legislação que possibilita ao regime impor tudo o que quiser a pretexto do carácter "originário" da Assembleia Constituinte; na Venezuela, Chávez prepara-se para se declarar Presidente Vitalício. O apoio político a Morales e Chávez tem vindo em Portugal dos que se reclamam do altermundialismo de Porto Alegre, verdadeiro cadinho político desses dois candidatos a ditadores, ou seja, o BE, Boaventura de Sousa Santos, Mário Soares, entre outros. Seria interessante saber o que pensam sobre os seus amigos latino-americanos.

Dando de barato que os eleitos Chávez e Morales se comparam ao usurpador Pinochet, e admitindo até que desejem chacinar estádios inteiros de opositores ou atirar chefes de família para o alto-mar, concentremo-nos no argumento essencial:

Mário Soares é aliado dessa gente porque, tal como ela, participa nos encontros de Porto Alegre e quer impor algumas regras à globalização.

Permitam-me agora um salto abrupto ao post imediatamente anterior do blog com o mesmo nome. Aqui, Pacheco Pereira insurge-se contra o Bloco de Esquerda e contra Francisco Louçã, por este comparar a classe empresarial portuguesa à máfia:

Ora para quem é Corleone, para quem é da máfia, só há uma resposta - se nós levássemos a sério Louçã e o seu BE, o que num acto de bom senso não levamos, titularíamos o seu discurso inflamado, com caixa alta: “Louçã quer prender os empresários portugueses “. Ninguém fará isso, mas que é fiel á letra e ao conteúdo do comício do BE, lá isso é.

Compreendem? Podemos comparar Soares a Morales e a Chávez sem qualquer escrúpulo, mas já é indecente juntar numa única frase Carrapatoso, Belmiro e Corleone. E mais: para além de incorrer no mesmo tipo de associações que condena nos outros, Pacheco Pereira ainda espera que Mário Soares se explique pela associação que ele, Pacheco, faz.

Se me perdoarem os mesmos vícios de argumentação concluirei, à maneira do famoso comentador, que Torquemada não faria melhor.

et pout cause.

O Causa Nossa está mais interessante deste que o Luis Filipe Borges começou a agitar aquela sisuda corja socialista. E num interlúdio ligeiro até podemos ler este post do muito odiado Vital Moreira, sem corrermos o risco de ainda perder alguma ilusão a respeito da nossa excelente magistratura.

13.9.06

Para compreender o país.

Um post obrigatório (e arrepiante) do Filipe Moura.

Gaceta de Bogotá.

No julgamento do caso da ponte de Entre-os-Rios, o Ministério Público pede a condenação dos arguidos, mas sugere que lhes seja aplicada uma amnistia.

Entretanto, a Ordem dos Notários prepara-se para desobedecer a uma lei acabada de aprovar, solicitando aos seus membros que recusem documentos autenticados por advogados e solicitadores.

Nas ruas, Valentim Loureiro, Filipe Vieira e Pinto da Costa passeiam-se entre processos abafados, arquivados ou prestes a arquivar, enquanto a imprensa se enche de morceaux choisis das escutas que lhes fizeram e das enormidades que confessaram ao telefone.

O combate à corrupção ficou de fora do novo pacto para a justiça - num país em que ninguém, repito, ninguém está preso por ter recebido luvas ou pago favores.

O virtuoso Armando Vara, recordemos, continua administrador, e sonha talvez com a presidência da Caixa Geral de Depósitos - um banco pesado e inútil, que só pertence ao Estado português para dar emprego a pessoas como Armando Vara.

Cinco ou dez minutos em contacto com os nossos media chegam e sobram para a melancólica conclusão de sempre: Portugal inteiro, os seus políticos, os seus magistrados, os seus notários, o seu povo, continuam viciados na impunidade.

Falam do exemplo finlandês, mas seguem o colombiano.





Tallulah Bankhead torcendo pelos Giants, Nova Iorque, 1951, por Karl Bissinger.

A cada terra sua catástrofe.

Pedro Vieira, no irmaolucia.
A escrita diária aproxima-nos a pouco e pouco da vibração de uma cobra que muda de pele. Não é tanto alguma coisa que se descasca, mas que cresce em nós. Tentar surpreender os outros é pueril, quando o nosso próprio demónio acorda em sobressalto.

12.9.06

Caridade cristã.

João Pinto e Castro no BlogoExisto.

O sentimento de um ocidental.

João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos.

Pontos nos i.

Se não fosse Mário Soares, a vasta maioria dos nosso liberais estaria neste momento a chegar da horta em cima de um burro, e a preparar-se para dividir uma sardinha por três acompanhada com pão. Como Mário Soares foi quem foi, e fez o que fez, eles já podem falar com nostalgia da quinta da família, enquanto conduzem o BMW série 3 para Massamá. Ou seja: são os mesmos patêgos, mas agora (graças a Mário Soares) consideram-se europeus.

Que assédio.

O Insurgente está outra vez a falar em mim. Qualquer dia ainda sou obrigado a ler o maldito blog todas as manhãs.

Acabou o sossego.

O Glória Fácil já veio de férias (como se alguém não tivesse reparado).

Uma cabeça, duas sentenças.

Teresa de Sousa, no Público:
É talvez isso que é mais perturbador neste quinto aniversário. O vazio deixado pela super-potência que deveria liderar o mundo contra a nova ameaça do fundamentalismo islãmico. De um lado, uma desordem internacional que nos parece à beira do caos. Do Iraque ao Afeganistão, do Líbano à Palestina, de Darfur à deriva anti-democrática da Rússia, dos bombistas-suicídas, que não compreendemos, à possibilidade assustadora de termos de lidar com as consequências de um Irão nuclear. Do outro, um Presidente em quem já nem os americanos acreditam e uma América que paga hoje muito caro os erros que ele cometeu. Enfraquecida militarmente pelo desastre iraquiano, diminuída moral e politicamente aos olhos do mundo. Por causa do unilateralismo arrogante do primeiro mandato, mas, em primeiro lugar, por causa de Guantánamo, de Abu Graibe, do Patriot Act e dos prisioneiros da CIA, das inevitáveis tragédias humanas das guerras que não são compreendidas como justas.

José Manuel Fernandes, em Marte:
"As liberdades cívicas que tornam a vida tão tão agradável no Ocidente (...) assentam num compromisso social. Ora os terroristas querem perturbar este equilíbrio, porque se sentem especialmente afrontados pelo simples facto de gozarmos dessas liberdades."

Mário Soares não é Odete Santos.

Às alminhas mais caceteiras da nossa direita costumam escapar estas subtilezas: Mário Soares, que ontem vi discorrer sobre o 11 de Setembro (de Nova Iorque, não do Chile), recusou-se a alinhar em teorias da conspiração. O que ele fez, foi propor uma outra estratégia para combater o terrorismo: separar os muçulmanos moderados dos radicais, atraindo uns e alienando os outros, em vez de hostilizar todos à bomba, indiscriminadamente. Para defender o seu ponto de vista, Soares formulou uma crítica demolidora da doutrina Bush, sublinhando os seus péssimos resultados, e ainda sugeriu, muito justamente, que os neocons apenas são duros e impiedosos para quem não comeu da mesma gamela: Bin Laden continua a monte. Pelo caminho, Soares conseguiu deixar Pacheco Pereira visivelmente perdido e agastado. As reacções pavlovianas que tenho visto, esta manhã, nos blogs de direita, eram previsíveis: os conservadores portugueses odeiam Soares, como os republicanos na América abominam Clinton. Ambos são demasiado inteligentes, intuitivos e triunfantes. Ambos contrastam excessivamente com Bush ou com José Manuel Fernandes. Finalmente, ambos costumam ter razão. E isso, para os nossos mauricinhos, é uma coisa imperdoável.

11.9.06

O polemista.

Que tontaria, Carlos Pinto Coelho: nos dias de hoje, nenhum autor frustrado tem qualquer dificuldade em se fazer publicar.

Calma, Odete.

Na SIC Notícias, a deputada comunista Odete Santos recorda o golpe de Estado em que Pinochet, apoiado pelos Estados Unidos, derrubou Salvador Allende no ano de 1973. Esse é o 11 de Setembro que lhe interessa. O outro, que ocorreu salvo erro em Nova Iorque, provoca no seu espírito céptico naturais inquietações: a coisa cheira-lhe a esturro.

Odete julga estranho que tão poucos terroristas, armados com facas, tivessem sequestrado tantos aviões. Considera ainda mais suspeito que uma das Torres Gémeas desabasse sete horas depois da outra. Cita o Le Monde Diplomatique norueguês, esse pilar da independência e do rigor, para sugerir uma explosão misteriosa, provocada sabe Deus por quem. E finalmente aproveita uma alusão de Paula Teixeira da Cruz, sua interlocutora nesse colóquio delirante, para dissertar sobre o incêndio do Reischtag e insinuar uma horrenda encenação.

A conversa acabou aos gritos, com Odete trémula de raiva e a régie, possivelmente, às gargalhadas. Fui procurar os resultados da CDU nas legislativas de 2005: 433.369 votos. Oito por cento do eleitorado.

On The Pleasure Of Hating, por William Hazlitt (recordando as vítimas do 11 de Setembro).

... The pleasure of hating, like a poisonous mineral, eats into the heart of religion, and turns it to rankling spleen and bigotry; it makes patriotism an excuse for carrying fire, pestilence, and famine into other lands: it leaves to virtue nothing but the spirit of censoriousness, and a narrow, jealous, inquisitorial watchfulness over the actions and motives of others. What have the different sects, creeds, doctrines in religion been but so many pretexts set up for men to wrangle, to quarrel, to tear one another in pieces about, like a target as a mark to shoot at? Does any one suppose that the love of country in an Englishman implies any friendly feeling or disposition to serve another bearing the same name? No, it means only hatred to the French or the inhabitants of any other country that we happen to be at war with for the time. Does the love of virtue denote any wish to discover or amend our own faults? No, but it atones for an obstinate adherence to our own vices by the most virulent intolerance to human frailties. This principle is of a most universal application. It extends to good as well as evil: if it makes us hate folly, it makes us no less dissatisfied with distinguished merit. If it inclines us to resent the wrongs of others, it impels us to be as impatient of their prosperity. We revenge injuries: we repay benefits with ingratitude. Even our strongest partialities and likings soon take this turn. "That which was luscious as locusts, anon becomes bitter as coloquintida;" and love and friendship melt in their own fires. We hate old friends: we hate old books: we hate old opinions; and at last we come to hate ourselves...

10.9.06

Nova imagem.

Julgo que posso inaugurar oficialmente o novo template do Franco Atirador. Desejaria agradecer à Z., a autora quase anónima que se ofereceu para o criar (ou o criou antes de mo oferecer) e também ao Thomas de Quincey, outro leitor deste boteco, que nos ajudou a afinar um detalhe técnico de indiscutível importância. É muito bom ter um blog tão personalizado e tão belo como este. Apaguei os dois posts anteriores, agora actualizados. E apaguei um terceiro por descobrir que a foto que continha não se consegue ver em alguns browsers (eles não sabem o que perdem).

9.9.06

Toma lá, Fidel Castro.

No Chiado, uma rapariga belga perguntou-me onde tinha comprado as minhas Havanas. Indiquei-lhe a loja, esclarecendo antes que se chamavam Havaianas - de Havaí, não de Havana. Assim posso orgulhar-me de ter possivelmente destruído, em embrião, mais um tolo mito da nossa extrema-esquerda.

Boas notícias da América.

O The Economist revela-nos que 2005 foi o primeiro ano em que o número de pobres não aumentou nos Estados Unidos desde o início da presidência de Bush.

8.9.06


A grande aventura literária deste século seria combinar elegância com humor. Há mais de duzentos anos que ninguém consegue. Proust, por muito que digam os idólatras, não era um humorista. Wilde, apesar do dandismo e das garrafas de champagne, nunca foi sofisticado (as suas personagens são horrivelmente amaneiradas ou absurdamente sentimentais). Nabokov é corrosivo, Bloomsbury um bocejo refinado, a gente da New Yorker, quando escrevia livros, achava-se séria e socialista. Evelyn Waugh tentou, mas falhou. O convívio entre elegância e humor, para nosso mortal aborrecimento, chegou ao fim em 1789.

7.9.06

Bush enjoys 82 percent popularity, according to polls. Well, those polls are fake. (...) Bush is going to end up the most unpopular president in history. Remember, I said that here first.
Gore Vidal, São Francisco, 18 de Abril de 2002.
Henry Miller, Big Sur, Califórnia, 1950, por Karl Bissinger.

Envoy.

A partir de certa altura estamos sempre a despedirmo-nos das pessoas que amamos. Esse sentimento não chega para abafar os ruídos do mundo, mas acrescenta-se a eles. Continuamos a rir e a lutar, mas o nosso riso é pungente e os nossos combates são desamparados. Queremos fazer alguma coisa, talvez salvar a humanidade ou fazer com que se perca: para os que se vão embora não existe diferença entre quem cria uma vacina e quem constrói um campo de concentração.
Um blog não é apenas um peso, também é um lastro.

6.9.06

Links.

Primeiro colocava na barra dos links toda a gente que me concedia a mesma gentileza. Depois não encontrava os blogs que queria mesmo ler, e fiz uma selecção das ligações. Os que visitava diariamente permaneceram na barra lateral, os que lia duas ou três vezes por semana coloquei-os no Kinja, os outros desapareceram. Houve pessoas que ficaram melindradas e me retribuiram a indelicadeza: não as condeno. Hoje coloco aqui mais uns links: são todos de blogs que leio, embora nem todos os blogs que leio estejam ali. Sou um patife retorcido.

A falta que cá faziam uns Bórgia.

Os nossos patéticos corruptos, amparados pelos partidos e pelo futebol, saqueiam as empresas públicas com mangas de alpaca e pézinhos de lã. O que me envergonha nem é tanto o crime, mas o acanhamento disto tudo. Até para roubar esta gente é tacanha e pusilânime.

5.9.06

Não me comprometam.

No seu excelente blog Os tempos que correm, que acabei de descobrir, Miguel Vale de Almeida coloca o dedo numa ferida muito típica da nossa parvónia. Mas vale a pena lê-lo:
Tropecei, na Visão, numa curiosa entrevista a um actor que não conheço (Ricardo Pereira, 26 anos, a estrear apresentação de programa na SIC com Bárbara Guimarães), mas que me pareceu representativa duma atitude que se vai encontrando cada vez mais entre os mediáticos: não se comprometer. (...)

O referido actor faz escolhas e demonstra preferências. Mas apenas nas coisas do "estilo de vida": prefere o telemóvel ao iPod; prefere sol a autobronzeador (...) Quando as perguntas têm a ver com opções mais do que com preferências, entra a "neutralidade": a pergunta "Sócrates ou Cavaco?" é respondida com um "Ambos. Sou apologista de consensos. Acho que é a paz que nos pode levar a algum lugar" [oh - my - God!]; A "Papa ou Madonna?" responde "Também ambos. Adoro a irreverência da Madonna e respeito o Papa, os seus seguidores e a religião que representa". (Numa coisa, porém, opta - provavelmente porque não percebe que a sua resposta é política: "Caipirinha ou porto tónico?"; "Porto tónico porque é português".

(...) ao contrário de outros países, em Portugal não se pode contar com os mediáticos para a mudança social. (...) Já eles esperam de nós toda a atenção e todo o dinheiro.

O problema, caro Miguel, é que a vida está difícil, muito principalmente para essa gente de vinte e tal anos. Comprometer-se, arriscar, escolher, deixar de manter em aberto todas as opções, não poder mudar de campo se isso lhes for útil, criar talvez adversários, possivelmente inimigos, discordar - tudo isso é tão cota, tão irracional. O mundo é redondo, Miguel. Se um jovem actor preferir ao papa uma Madonna, por exemplo, não poderá talvez perder a sua oportunidade de ouro, a chance de uma vida pacata, mediocre, confortável aos microfones da Rádio Renascença? Temos de pensar em tudo, meu caro. Esse jovem talvez seja um pouco estúpido, mas parvo é que não é.

Top mais ou menos.

O Arte da Fuga deu-me a conhecer um top da blogosfera nacional, elaborado pelo pubaddict. Eis os dez primeiros classificados:

1- Blasfémias
2- Abrupto
3- Causa Nossa
4- O Insurgente
5- Rua da Judiaria
6- Blogotinha
7- Blogue dos Marretas
8- Gato Fedorento
9- A Arte da Fuga
10- Mar Salgado

Além das perguntas óbvias (onde andam o Da Literatura e o Glória Fácil, o que é feito do Bomba Inteligente ou do Estado Civil?), sobram as inquietações para o connoisseur: porque é que o Bundablog não está, como deveria, em primeiro lugar? Será que o público, terminado o mundial de futebol, abandonou o Megafone? E os Contos Eróticos (cada gotícula entranha-se nos poros que respiram prazer e depois… penso em ti. E desejo-te, desejo-me, toco-me como se fosses tu e deixo que o pensamento do teu cheiro penetre a minha essência e me eleve em ondas que me transportem até aos teus lábios, para que me beijes profundamente…)? Os portugueses já não querem ser lânguidos, banhar-se em pétalas de rosa, fazer amor? E onde estão o H5Porcos, o Renas e Veados, o Salsa e Pimenta, todos esses blogs rosa, sempre tão populares, que faziam as delícias dos nossos marialvas? Será que os chefes de família lusitanos se cansaram de ficar até mais tarde no escritório a espreitar para homens nus? Mais importante ainda, o que aconteceu à A Funda São? O país deixou de ler a Qrònica do Nelo, a Cisterna da Gotinha, todos os interessantes relatos sobre mentiras femininas?

Algo me diz, caros leitores, que há qualquer coisa de errado neste top. Parece-me um daqueles onanismos que se organizavam entre adolescentes, uma exibição um pouco melancólica das qualidades, ou melhor, das normalidades de cada um (o meu é maior que o teu, não não é, então vamos lá medir, etc): o certo é que, do ponto de vista científico, esta classificação não vale nada. Prefiro o velhinho Blogómetro, tão indiferente à ideologia e à moral, e capaz de nos mostrar sem pundonor o que era suposto: aquilo que o nosso povo gosta de ler.

Doonesbury.

A gente depois explica.

Maradona, com finura e circunspecção, disserta sobre os blogs do momento e outras merdas assim.

To a Friend who sent me some Roses.

As late I rambled in the happy fields,
What time the sky-lark shakes the tremulous dew
From his lush clover covert;—when anew
Adventurous knights take up their dinted shields:
I saw the sweetest flower wild nature yields,
A fresh-blown musk-rose; ’twas the first that threw
Its sweets upon the summer: graceful it grew
As is the wand that queen Titania wields.
And, as I feasted on its fragrancy,
I thought the garden-rose it far excell’d:
But when, O Wells! thy roses came to me
My sense with their deliciousness was spell’d:
Soft voices had they, that with tender plea
Whisper’d of peace, and truth, and friendliness unquell’d.

John Keats (1795–1821)

4.9.06

Ah, a doçura irresistível da auto-flagelação.

...nunca suportei aquele estilo de quem “adora” imensas coisas, quase sempre as que já conhece e as dos amigos, e “detesta” todas as outras. "O Independente" representa bem os anos 80. E eu "detesto" os anos 80. O que não é bom, porque, segundo me dizem, é a "a minha" década. E eu acho que quase todos os meus defeitos resultam disso mesmo: também “adoro” algumas coisas (as que já conheço e as dos meus amigos) e "detesto" quase todas as outras. Também eu, ressalvadas as devidas distâncias, como “O Independente”, tendo a sacrificar um bom argumento se não me couber no estilo. E a ser leve por fastio quando sou pesado por feitio. Muito 80's, muito Indy. E não preciso de "O Independente" para me lembrar como "detesto" tudo isso em mim.
Daniel Oliveira, no Arrastão.

3.9.06

A bomba.


Se uma pergunta nos persegue, é geralmente boa ideia procurar a resposta dentro de nós. Na mesma semana em que a Charlotte pôs em destaque, pela terceira vez, o Franco Atirador (não acredito que muitos blogs tenham tido idêntico privilégio), o Filipe Moura, com o seu habitual sentido de oportunidade, decidiu interrogar-nos:
por que razão há tanta gente a perder tempo com o que a senhora escreve? (...) Por que lhe dão tanta importância? Por que a lincam?
O Filipe alega que o Bomba Inteligente, muito fraco de ideias, pertence à direita mais desavergonhada, e não mereceria tanta distinção da malta de esquerda em que eu, nos dias maus, humildemente me incluo.

A Charlotte teria contra si outras fraquezas imperdoáveis: não aceitar comentários, mas ser presença frequente nas caixas de comentários dos outros, que conspurcaria com o seu nível não muito alto… Trabalhar para a Oficina do Livro. Ser uma relações públicas da blogosfera, ou melhor, da direita blogosférica, essa tertúlia tenebrosa. Alinhar com os ataques mais baixos a Vital Moreira. E, possivelmente, ser uma senhora selecta, jogar bridge e tomar chá.

Haverá assim tanta gente interessada em ter os textos do seu blogue publicados? - pergunta o Filipe, com inocência comovedora, insinuando uma enorme conspiração de oportunistas. Um pouco desorientado, ele conclui que não percebe.

No entanto, Filipe, é muito fácil perceber - e tu como cientista devias ter pensado logo nisso, pá! (Reparem na familiaridade com que nós, homens de esquerda, nos tratamos.) O que explica o sucesso do Bomba Inteligente é a sua perfeição formal. Ora aprende:

  1. o equilibrio: o Bomba é um blog de músicas, imagens ou textos? E tem mais textos longos ou textos curtos? Vive mais de citações ou de conteúdos originais? É frivolo ou intelectual? Não sabes? Bem-vindo ao fascinante mundo da complexidade, Filipe.
  2. o eterno feminino: porque será que uma mulher, quando cria um blog, decide mostrar outras mulheres, escassamente vestidas, em poses glamorosas? Porque possuem um apelo universal. Sem aquelas imagens, o Bomba Inteligente seria um blog sobre gatos, sapatos, poesia grega e séries de televisão. Com elas, é um blog sobre o eterno feminino, e partilha um pouco da atracção irresistível que este exerce sobre os homens.
  3. os links: ninguém conversa melhor do que a Charlotte. Todos os dias dirige uma alusão, uma provocação, ou um gracejo a alguém. Ela poderia dissertar sobre o seu braço esquerdo durante três horas e encantar uma audiência nos salões de Versailles. Com uma sábia gestão das ligações e uma apurada arte de colocar os outros em destaque, a autora do Bomba Inteligente consegue que os seus interlocutores se sintam especiais. E isso, caro Filipe, não tem preço.
  4. a ritualização: todos os dias, os leitores descobrem como a narradora do Bomba acordou. Todas as semanas podem ler a sinopse das Donas de Casa Desesperadas ou dos Sopranos. A Charlotte sabe o que os seus leitores esperam dela: previsibilidade. O conforto dos rituais. A confirmação de uma memória agradável.
  5. a escolha dos alvos: o blog da Carla Quevedo é lido por homens e mulheres com idades entre os vinte e cinco e os sessenta anos, de classe média e média-alta, com formação média ou superior - ou seja, oitenta por cento da blogosfera. Encontrem-me outro sítio que consiga falar para toda esta gente, com tanta precisão.
  6. as rubricas: permitem aos leitores seleccionar a informação que lhes interessa. Chamo a atenção para uma em especial: Metabloggers do it better - onde a autora ensina aos menos distraidos como se constrói um blog.
  7. a boa disposição: mesmo que a Carla Quevedo não esteja feliz, todos sabemos que a Charlotte vai estar. O bom humor atrai leitores.
  8. a política: de Direita, sempre. A Esquerda é muito desorganizada, truculenta, inconfiável. Apesar do pequeno frisson ocasional, a Charlotte prospera na ordem, na tradição, e repito, na previsibilidade. Se duvidam da sua eficácia, pensem na Atlântico. É má? E onde é que a Esquerda anda a fazer melhor?
  9. os antigos: tal como eu tenho Veneza, a Charlotte tem os antigos. Que são apenas um motivo de reflexão desinteressada, uma arte pela arte, capaz de trazer alguma elegância e densidade a um espaço que, de outro modo, poderia ser demasiado cerebral.
Teria muito a acrescentar, Filipe, mas acho que posso concluir: o Bomba Inteligente não é fraco de ideias, pá. É um produto muito bem idealizado, e muito bem executado, por alguém que sabe exactamente o que anda a fazer. Fraca de ideias é a malta de esquerda do Aspirina B, que tem por lá um blogger excepcional, com ou sem mau feitio, e o esconde entre uma multidão de chatos - se julgam que é assim que se forma opinião em Portugal, estão bem enganados. Fraco de ideias é quem olha para o sucesso dos outros e não o percebe, Filipe - aliás, não perceber, não querer perceber, é mesmo o grande problema da malta. É que, como dizia o famoso Iogi Berra: you can observe a lot by watching.

2.9.06

Se os blogs têm uma função, a função deste blog é a de permitir ao seu autor aprender a escrever. O que me conduz à pergunta: alguém conhece um bom corrector ortográfico para Mac OS X? Parece que tenho andado a confiar excessivamente na minha pobre cabeça.

Uma certa coerência.

Durão Barroso, o do discurso da tanga, fustigou hoje aqueles que na Europa falam em crise. Será um outro homem? Não, é o mesmo de sempre.