28.9.06

Despojos de um almoço na esplanada.

Uma frente fria deslocava-se para Leste a partir do Atlântico. Nas Penhas Douradas, a temperatura mínima atingia os quatro graus. Do céu muito nublado caiam aguaceiros, em especial nas terras altas. No ano em que o homem chegou à Lua, Portugal parecia fazer parte de um planeta igualmente inóspito e desencorajador.

A criança deitava-se depois do boletim metereológico, embalada pelo ponteiro metalizado do senhor Antímio de Azevedo. Muitas vezes já cambaleava, quando o João Pestana, o Chico Escuro e o Manuel Esfrega repetiam a sua melodia no televisor a preto e branco:

“nós somos os amigos do sono,
quando chegamos toda a gente fica bem…”

A avó abria a cama, colocando nela os lençóis, um cobertor de papa, uma manta de improvavel pêlo de leopardo, e vestia à criança um pijama que ao passar pelo cabelo o magoava invariavelmente.

Desperto de novo, o rapaz ficava quieto, de rosto encostado à almofada, a olhar para o avô que na sala do lado já cabeceava por trás dos seus óculos bifocais, a apreciar a renda que a avó fazia, essa longa extensão de flores tão delicadas e remotas como edelweiss e igualmente perdidas entre um manto branco, não de neve, mas de linhas em ponto de arroz.

Dia sim, dia não, iam à praça. Ele torcia o nariz ao cheiro áspero da carne pendurada nas bancas, ao fedor do queijo picante, intrusivo e hostil. Mas gostava do aroma fresco dos legumes, dos morangos sempre maduros, dos bolos por vezes quentes, que pareciam seios cobertos de açucar, dos lírios e das rosas que impregnavam o ar. As vendedoras ofereciam-lhe cerejas graúdas da Guarda, alperces e gomos adstringentes de dióspiro.

A avó pontificava entre as verduras e os legumes como Carlos Magno entre os lombardos, regateando preços e franzindo o sobrolho, como se as vendedoras ou as couves lhe devessem vassalagem. Espetava o dedo incriminador nas guelras dos peixes e afectava uma comiseração desmesurada para com as nervuras do bife da alcatra.

Nessas alturas ele afastava-se um pouco e ia cumprimentar uma velha bruxa de verruga no nariz, que bondosamente lhe estendia uma maçã bravo esmolfe muito mirrada. O menino recusava-a sempre, por conhecer o lamentável destino da Branca de Neve.

Quando o tempo estava melhor iam ao Paço do Bispo. Aí, entre o jardim de buxo recortado, a criança descobria repuxos de granito que matavam a infinita sede de vagarosos peixes vermelhos. As estátuas dos reis de portugal, dos signos do zodíaco, dos veneráveis santos da patrística e da tomística, erguiam-se lado a lado, em misteriosa simetria. Uma piscina enorme, coberta de limo, despertava em si um extraordinário terror. Só ele parecia adivinhar, fascinado, quantos corpos de crianças da sua idade tinham caído dentro da água infecta, arrastados por sereias, e quantas pequenas ossadas restavam ainda, presas por algas ao fundo de pedra.

Nesses dias o jantar era triste como um luto.

1 Comments:

Blogger Andre Gonçalves said...

Belo texto. ....Isso do pijama aleijar quando passava pelos cabelos e pela cabeça acontecia-me tantas vezes... Abraço

6:06 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home