5.9.06

Não me comprometam.

No seu excelente blog Os tempos que correm, que acabei de descobrir, Miguel Vale de Almeida coloca o dedo numa ferida muito típica da nossa parvónia. Mas vale a pena lê-lo:
Tropecei, na Visão, numa curiosa entrevista a um actor que não conheço (Ricardo Pereira, 26 anos, a estrear apresentação de programa na SIC com Bárbara Guimarães), mas que me pareceu representativa duma atitude que se vai encontrando cada vez mais entre os mediáticos: não se comprometer. (...)

O referido actor faz escolhas e demonstra preferências. Mas apenas nas coisas do "estilo de vida": prefere o telemóvel ao iPod; prefere sol a autobronzeador (...) Quando as perguntas têm a ver com opções mais do que com preferências, entra a "neutralidade": a pergunta "Sócrates ou Cavaco?" é respondida com um "Ambos. Sou apologista de consensos. Acho que é a paz que nos pode levar a algum lugar" [oh - my - God!]; A "Papa ou Madonna?" responde "Também ambos. Adoro a irreverência da Madonna e respeito o Papa, os seus seguidores e a religião que representa". (Numa coisa, porém, opta - provavelmente porque não percebe que a sua resposta é política: "Caipirinha ou porto tónico?"; "Porto tónico porque é português".

(...) ao contrário de outros países, em Portugal não se pode contar com os mediáticos para a mudança social. (...) Já eles esperam de nós toda a atenção e todo o dinheiro.

O problema, caro Miguel, é que a vida está difícil, muito principalmente para essa gente de vinte e tal anos. Comprometer-se, arriscar, escolher, deixar de manter em aberto todas as opções, não poder mudar de campo se isso lhes for útil, criar talvez adversários, possivelmente inimigos, discordar - tudo isso é tão cota, tão irracional. O mundo é redondo, Miguel. Se um jovem actor preferir ao papa uma Madonna, por exemplo, não poderá talvez perder a sua oportunidade de ouro, a chance de uma vida pacata, mediocre, confortável aos microfones da Rádio Renascença? Temos de pensar em tudo, meu caro. Esse jovem talvez seja um pouco estúpido, mas parvo é que não é.

3 Comments:

Anonymous post-it® said...

discordo absolutamente da frase de MVA: "(...) ao contrário de outros países, em Portugal não se pode contar com os mediáticos para a mudança social. (...)"

1º porque um antropólogo contemporâneo (ainda que da escola mais activista) sabe perfeitamente que a mudança social decorre de transformações mais profundas e, sobretudo, muito mais lentas. Acredito que MVA se tenha distraído deste pormenor para fundamentar a ideia geral do texto.

2º porque os mediáticos da mesma categoria lá de fora, discorrem sobre as mesmas patetices que os nossos. São vítimas da banalidade que caíu em tudo. São retransmissores; não são emissores.

4:24 da manhã  
Blogger mva said...

Certo, mas repare-se nas tomadas de posição dos Hollywoodescos - sobre o Iraque, sobre Bush, sobre sexualidade, etc... Em Espanha, idem. É claro que as coisas não são tremendamente diferentes, mas são um pouco melhores neste aspecto... (e não se trata de fazer a mudança, mas de lhe dar "legitimação estética", se me é permitida uma expressão inventada em caixa de comentário...)

10:52 da manhã  
Anonymous Post-it® said...

Nós olhamos é demais para fora, é o que é. Sempre foi assim. Isto é que merecia ser mudado voluntariamente.

12:13 da manhã  

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