31.10.06

Os meus novos leitores esperam sempre que eu seja coerente. Os antigos, contraditório. Os inteligentes, frívolo.

Um tirinho.

Os apoiantes do não, sempre inteligentes e civilizados, não páram de me mimosear. Leiam este post, por exemplo, e descubram que tipo de pessoas anda para aí a defender a vida.

Sondagens e palpites.

Um leitor esclarece em comentário que, segundo uma sondagem do DN, entre os apoiantes do não a maioria são mulheres. Bem, eu confesso que não vi essa sondagem. Mas se ela for nacional e incluir amostras representativas das viúvas beirãs e transmontanas, não tenho dúvidas que assim é: não só apoiam o não, como também apoiariam, se lhes perguntassem, o saudoso El Rey Dom Miguel.

O que diz o "Não" (20 homens, 4 mulheres).

Sobre o meu post Frei Tomás, lembra sensatamente o Rui Castro:
A acusação é ainda mais curiosa quando parte de um blog em que não escreve uma única mulher.
Caro Rui, como isto é um site individual, não sei bem em que possa ajudá-lo. Uma cirurgia está fora de questão.

Alusão.

Até há pouco tempo existia uma saudável diversidade na nossa blogosfera.

Por um lado, havia os doutores do Porto, que por serem meia-dúzia, e todos portentosos, gostavam de se fazer ouvir: a privatizar rios, a denunciar o darwinismo, a desmentir o aquecimento global; enfim, a lutar por um mundo melhor.

Por outro lado, havia o pessoal das bundas brasileiras, cujos blogs, por serem tão visitados (principalmente pelos tais doutores do Porto), criavam ao seu redor uma espécie de efeito tablóide: vendiam muito, mas as pessoas respeitáveis nunca falavam deles.

Ao seu lado vicejavam os blogs da Teresinha, professora primária de Setúbal, solteira, virtuosa e indignada, que apontava o dedo aos males do mundo e exigia a paz no Sri Lanka (é nesse grupo que eu me incluo).

E finalmente, havia os blogs dos jornalistas. Havia e ainda há. Na verdade, são os únicos que restam hoje em dia. Ou pelo menos, são os únicos que eu leio, com excepção dos do Filipe, do Vicente e do Vieira.

Um leitor incauto diria que depois de passarem todo o dia a escrever, os nossos jornalistas teriam gosto em ir ao cinema, ou em ir fazer tricôt para o Casanostra, mas não. Vão todos para as suas casas escrever ainda mais.

Isso não teria mal nenhum, porque os jornalistas portugueses, afinal, escrevem um pouco melhor do que a vasta maioria dos portugueses que não são jornalistas.

Mas será que não podem escrever alguma coisa que toda a gente entenda? Será que têm mesmo de viver numa espécie de perpétua alusão a certas e determinadas pessoas?

Um tipo lê um deles, e fica a saber que certa e determinada pessoa (um grande filho da puta), continua a escrever nos jornais. Vai ler o colega do mesmo, e descobre que certas e determinadas pessoas (outros filhos da puta) não respeitam a intimidade de certa e determinada pessoa que todos conhecem, menos o leitor.

Entre piscadelas de olho, eu talvez perceba, talvez, quem são trinta por cento dos tais filhos da puta flagelados pelo virtuoso homem dos media. Os colegas dele, gente ilustre e esclarecida, devem ficar a saber quem foram os outros trinta ou trinta e cinco por cento.

O que quer dizer que, numa visão optimista, há sempre um terço das tais certas e determinadas pessoas que, embora denunciadas, permanecem num completo anonimato. Ora isso não é justo..

Imaginem que era assim na literatura: Desdémona apaixona-se por um certo e determinado aventureiro negro (não vou dizer o nome). Macbeth assassina um certo e determinado monarca (o nosso, mas não digo quem é). A Julieta da família tal e tal, anda a comer um Romeu de outra família tal e tal, tenebrosa inimiga da primeira.

É triste, mas a blogosfera jornalística, que devia ser casual e transparente, comporta-se de um modo mais críptico que os comentadores de futebol da RTP.

Senhores jornalistas assim e assado (não vou dizer os nomes), pensem no vosso estimado público. E lembrem-se que, quanto mais alusões fizerem, mais os doutores do Porto ficarão a ganhar.

Ass. Teresinha.

Exercício espiritual.

E este facto de haver tão poucas mulheres a defenderem o não no referendo quererá dizer que as principais responsáveis pela gestação de uma vida, afinal, não lhe dão grande valor?

Frei Tomás.

Tenho observado que os defensores do não no referendo sobre o aborto são, na esmagadora maioria, homens. Eles seguem, talvez, o magnífico exemplo daqueles padres que, tendo feito voto de castidade leccionam cursinhos de preparação para o matrimónio.

30.10.06

Prognóstico para "Os Grandes Portugueses" (versão 1.0).

1º Salazar
2ª Floribela
3º Pinto da Costa
4º Fernando Meira
5º Lady Di

Aceito outras sugestões.

Alteração nos comentários.

Sempre tive uma repugnância quase física por insultos anónimos, e sempre julguei que essa repugnância, esse absoluto desdém era partilhado pelos meus leitores. Até agora é verdade que tem sido, quase sempre, assim. Mas há dois ou três dias apareceram neste blog alguns defensores da vida, rapazes nada cobardes, certamente muito virtuosos e cristãos, que se julgaram no direito de me insultar sem se mostrarem. Esse direito acabou. A partir de agora, quem quiser comentar o Franco Atirador terá de registar-se. A decisão prejudica alguns velhos amigos, que não possuem blogs mas gostam de me comentar. A esses, peço desculpa. Para os outros, c'est la vie.

29.10.06

É verdade.

À medida que a Espanha se aproxima dos padrões civilizacionais europeus, esta paróquia, como o burro que conhece o sentido da horta, lá vai troteando atrás dela. Cinquenta anos de ditadura, dez anos de bulshit marxista-leninista, vinte anos de fundos comunitários, e a passada continua igual. Milhões de nhurros agarrados ao crucifixo, descalços a caminho de Fátima, de olhos esbugalhados à espera que saia da azinheira mais próxima outra ditosa aparição. Entre as maisons e as rotundas, entre os eucaliptos e as cinzas do último incêndio florestal, o cortejo vai escapando à fúria dos carros quitados, aos camionistas bêbedos e à voracidade das portagens. De vez em quando cai uma ponte, por causa dos areeiros, e lá morrem mais uns patêgos.

Os outros aborígenes não se deixam perturbar, pois sempre morreram muito, por uma razão ou por outra: as mães por causa dos desmanchos, os rapazes por causa das motas, os pobres por causa da fome, as mulheres por causa da pancada, os velhos por causa do calor, os campónios por causa das cercas, os machos por causa da sida, os gordos por causa do sal. Sempre morreram muito, sempre irão morrer muitos, porque só aprendem alguma coisa quando estão mortos: esta é a gente que perde milhões de hectares antes de aprender a apagar fogos, a gente que destrói províncias inteiras antes de contratar um arquitecto.

Podia continuar, mas não vale a pena, leitores. O Pedro Picoito é bem capaz de ter razão: nunca ninguém perdeu votos por apostar na apatia deste povo.

28.10.06

Em Bizâncio.

O blogue do não, que se queixa com bons motivos da pura retórica deste vosso criado, dedicou não um, mas dois posts a responder ao texto anterior. Para quem me chama vazio e precisado de leituras, caros amigos, não está mal.

Há, no entanto, um esclarecimento que se impõe. Eu não vou discutir neste blog a questão do aborto, tal como nunca discutirei a questão, muito em voga na América, da legitimidade da tortura: ambos os temas pertencem a um mundo ao qual não pertenço, e em que não me reconheço.

Proibir uma mulher de abortar até às dez semanas de gestação, um periodo que eu prolongaria, parece-me um gesto tão atávico como apedrejá-la por conduzir sem burqa - não é que isso não se faça, não é que não haja até quem o defenda seriamente, aqui ou no Afeganistão. Simplesmente, eu não estou no Afeganistão.

Posso ironizar com os medievalismos dos meus compatriotas, enquanto me divertirem, mas ninguém me convence a argumentar com eles.

Quanto ao Lipovesky: li-o na altura devida, isto é, no liceu. Havia professores que, por falta de dinheiro, o adoravam. Mas não vou recomendar leituras leves ao Jorge Ferreira, pois calculo que a sua dúzia e meia lhe chegue para as convicções que tem (uma só bastaria, aliás).

Neste blog falo de coisas que me encantam. As loucuras do mundo encantam-me, mas isso não quer dizer que as leve a sério: apenas espero que passem, antes de magoarem alguém.

27.10.06

O encanto dos anacronismos.

Antigamente, quando trabalhava nas férias e recebia uma mesada dos meus pais, colocava todo o dinheirinho entre as páginas de um livro. Reparem que não era um livro qualquer: era o Itinerário da Mente para Deus, do São Boaventura.

A escolha nada tinha de casual. Eu gostava daquele contraste, entre o puro materialismo das notas de banco crepitantes e a pura beatitude da obra. Além disso agradava-me que o magro fruto dos meus esforços, tão urgentes, tão actuais, fosse depositado entre as páginas de um monumento à reflexão medieval. Quando São Boaventura defendia, por exemplo, que os anjos empurram os corpos celestas para o portal dos nossos cinco sentidos, a inocência que dimanava das suas palavras produzia em mim um sentimento de infinita segurança: a alguém que acredita em anjos, achava eu, nada de mal podia acontecer - muito principalmente um assalto.

Essa é a virtude dos anacronismos: eles criam em nós uma falsa sensação de segurança. Quando, hoje de manhã, visitei o blogue do não, senti mais uma vez que tinha regressado ao universo encantado da patrística e da tomistica, dos doces anacronismos, das florestas negras como breu onde os demónios espreitavam o corpo das virgens incautas e as possuiam abandonadamente, condenando-as ao inferno ou ao arrependimento. Não houve uma santa Efigénia, prostituta por vocação, que teve de padecer no deserto trinta anos antes de ser chamada ao regaço do Senhor? Ah, isso é que eram tempos!

Visitemos, leitores, o blog do não. Encontremos nos seus posts um lenitivo, um refrigério para o alvoroço estonteante da modernidade. E despachemo-nos - porque a causa que o motivou, muito brevemente, terá o destino das gárgulas, dos autos-de-fé, e dos itinerários de São Boaventura.

The Media Issue.

Este é um daqueles finais de semana em que todas as estrelas se alinham no firmamento, e o leitor afortunado pode adquirir ao mesmo tempo a World of Interiors, a Granta nº 95 (tema: Loved Ones, com destaque para o belo Twins de Jeremy Seabrook), um número especialmente bojudo da New Yorker dedicado aos media (ler The paranoid style in american journalism), e ainda ter o consolo de verificar que nenhuma destas pérolas vem embrulhada numa capa verde, feia e pastosa em homenagem a certas e determinadas instituições bancárias. Por isso, leitor, antes que seja tarde saia, veja, consuma.

26.10.06

Desvantagens de não comprar o Expresso.

Esta semana, segundo o Pacheco Pereira, eu teria ficado a saber quem é a namorada do nosso Primeiro-Ministro.

"Sem modéstia, escrevi um grande livro".


My brothers.

O Presidente de Angola visita a Rússia entre 30 de Outubro e 01 de Novembro, a convite do homólogo russo, Vladimir Putin, para reforçar as relações de corrupção bilaterais, foi hoje anunciado em Luanda.
Um telex da Lusa emitido no dia 24, via Glória Fácil.

25.10.06

Inquietação.

O Equador, um plágio? Meu deus, que irei então receber no próximo Natal?...

The Rainy Day

The day is cold, and dark, and dreary;
It rains, and the wind is never weary;
The vine still clings to the moldering wall,
But at every gust the dead leaves fall,
And the day is dark and dreary.

My life is cold, and dark, and dreary;
It rains, and the wind is never weary;
My thoughts still cling to the moldering Past,
But the hopes of youth fall thick in the blast
And the days are dark and dreary.

Be still, sad heart! and cease repining;
Behind the clouds is the sun still shining;
Thy fate is the common fate of all,
Into each life some rain must fall,
Some days must be dark and dreary.


Longfellow

24.10.06

Por causa de um pacote de farinha com pouco uso a minha casa encheu-se hoje de borboletinhas, que deixei esvoaçar livremente. Afinal, devem ser as únicas na Avenida da Liberdade.

Para o eduardo.

Só por hipocrisia é que em pleno século XXI este país ainda enfrenta o flagelo do aborto clandestino.

Boas novas para Kim Jong Il.








Querido Líder, não estás sozinho.

Budapeste.

Além das mulheres mais belas do mundo, na capital da Hungria vivem os homens mais corajosos. Chamar-lhes de extrema-direita é mesmo uma imbecilidade.

Sócrates está perdido.

Santana regressou à política.

23.10.06

Boa ideia.

O João Távora, do cada vez mais estimulante Corta-Fitas, diz que vai defender as suas opiniões contra o aborto num blog criado especialmente para o efeito. Quem me dera que todos os partidários do não no próximo referendo seguissem este amável exemplo de elegância e urbanidade. Os leitores, que já me conhecem, não esperem tantas mesuras aqui no Franco Atirador.

Coisas a descobrir.

Esta semana, os jornais e as televisões falaram muito de um tal José Rodrigues dos Santos. Deve ser, certamente, um grande escritor.

Famous last words.

Nunca seria um bom jornalista porque, tal como o arquitecto Saraiva, dou menos importância aos factos do que à minha imaginação. Em consequência disso tenho passado metade da vida a acreditar nas coisas mais estapafúrdias, e a acumular histórias suspeitas sobre gente famosa em situações difíceis. A morte é uma situação difícil.

Reagan, depois de ser baleado, disse mesmo três piadas quando entrou no hospital? (Aos médicos: I hope you're all Republicans; para a esposa: Honey, I forgot to duck; para uma enfermeira: I'd rather be in Philadelphia). Possivelmente não disse. As últimas palavras de Oscar Wilde, entornando uma flute de champagne, foram I am dying above my means? Claro que não foram. O jazigo de Groucho Marx possui mesmo a inscrição desculpem, minhas senhoras, por não me poder levantar? Duvido.

Como a maioria de nós, também eu enfrentei duas ou três circunstâncias em que julguei que ia morrer. Duas coisas me preocuparam nesses momentos: primeira, o facto de ainda não ter conseguido formular as minhas últimas palavras. Segunda: o medo de que o sufoco finalmente me inspirasse e ninguém estivesse ao meu lado para as ouvir!

Ou seja, eu acho que não tenho um problema com a morte. Mas tenho um problema com o anonimato.

22.10.06

Porto, Roménia.

Há gente que passa oitenta anos de olhar semicerrado, a cortejar profundezas insondáveis, e depois sai-se com isto:

Uma coisa são os homossexuais, outra são os maricas [...]

Estas petites distinções, em que são pródigas as pessoas instaladas dos países atrasados, apenas servem para uma coisa: denunciando os maricas, insultar os homossexuais - e neste caso, ainda sugerir que pertence ao grupo dos primeiros quem defende outros direitos para os segundos. Mas há coisas mais importantes do que beber as palavras da escritora Agustina: leiam A Síbila e os Maricas, do Eduardo Pitta, e arrepiem-se.

"E se o Professor Arroja fosse levar no cú para algum rio privatizado (...)"

O homem tem sentido de humor. Mesmo que fosse o Hitler, estaria perdoado.

21.10.06

Burkelman, Brulklman, enfim, voltou.

O Lutz está de regresso, desta vez sem link para o meu blog - o que me magoa um pouco, mas não me surpreende inteiramente. Como não guardo ressentimentos, ponho o dele aqui ao lado.

Nota posterior: afinal nem todos os alemães são maus, como podem concluir na caixa de comentários.

Marie Antoinette.

O filme da Coppola estava condenado ao fracasso. O problema não é da realizadora, nem da reconstituição de época, nem, talvez, da técnica narrativa. O problema é a pobre tonta que escolheram para heroína deste filme. Maria Antonieta é sumamente desinteressante, quase tão desinteressante como a princezinha do povo, a enjoativa e exasperante Lady Di. Ambas casaram com homens aborrecidos, ambas cumpriram a custo a sua função reprodutora, ambas tiveram uma morte violenta, que evidentemente não mereciam. Maria Antonieta cultivava o gosto refinado de Versailles, aparentemente divertia-se e foi crucificada. Diana de Gales era uma sopeirinha irrecuperável, que sofreu como uma madalena, chorou em abundância nos braços de metade dos capitães da guarda real de Windsor e foi parar ao céu. Ponto.

É claro que Sofia Coppola se identifica com o seu assunto, como qualquer rapariga que tenha passado a maior parte da vida a comprar até morrer nas lojas de Beverly Hills. De resto, não há muito a acrescentar: o filme é sumptuoso, deslumbrante e excessivo. O retrato da vida na corte pareceu-me bem feito. A perspectiva, muito femina, só tem a desvantagem de dividir os homens em dois grupos: os latagões com boa estrutura óssea e arzinho à matador, ou os tipos baixos, feios, dóceis e desorientados como Luis XVI.

O filme não é inteiramente mau, pela sua graciosidade visual. Mas fico com pena que ninguém em Hollywood se dedique a gente interessante, como Talleyrand ou o extraordinário Cardeal de Retz.

20.10.06

Esperança.

É encorajador saber que os ocupantes do Rivoli, agora sem teatro, revelam um extraordinário talento para a poesia.

O meu pedido de desculpas à Joana Amaral Dias.

Lamentavelmente, só hoje recebi o seu atencioso convite.

Do mérito.

Concordo com este post do Pedro Correia: demasiados americanos ganharam o Nobel da Literatura. Depois de Pamuk, a Academia Sueca devia procurar um pretinho homossexual exilado em França, apoiante da causa palestiniana e autor de uma obra comovedora sobre os crimes bárbaros de Guantanamo. Uma combinação feliz, digamos assim, entre James Baldwin e Alexandre Soljenitsine.

À espera de Casanova.

Quando o jovem Rousseau seduziu uma veneziana, esta sugeriu-lhe, após a primeira noite, que desistisse das mulheres e se dedicasse à matemática.

19.10.06

Sextina III.

I saw my soul at rest upon a day
As a bird sleeping in the nest of night,
Among soft leaves that give the starlight way
To touch its wings but not its eyes with light;
So that it knew as one in visions may,
And knew not as men waking, of delight.

This was the measure of my soul's delight;
It had no power of joy to fly by day,
Nor part in the large lordship of the light;
But in a secret moon-beholden way
Had all its will of dreams and pleasant night,
And all the love and life that sleepers may.

But such life's triumph as men waking may
It might not have to feed its faint delight
Between the stars by night and sun by day,
Shut up with green leaves and a little light;
Because its way was as a lost star's way,
A world's not wholly known of day or night.

All loves and dreams and sounds and gleams of night
Made it all music that such minstrels may,
And all they had they gave it of delight;
But in the full face of the fire of day
What place shall be for any starry light,
What part of heaven in all the wide sun's way?

Yet the soul woke not, sleeping by the way,
Watched as a nursling of the large-eyed night,
And sought no strength nor knowledge of the day,
Nor closer touch conclusive of delight,
Nor mightier joy nor truer than dreamers may,
Nor more of song than they, nor more of light.

For who sleeps once and sees the secret light
Whereby sleep shows the soul a fairer way
Between the rise and rest of day and night,
Shall care no more to fare as all men may,
But be his place of pain or of delight,
There shall he dwell, beholding night as day.

Song, have thy day and take thy fill of light
Before the night be fallen across thy way;
Sing while he may, man hath no long delight.


Swinburne

Sim, a psicanálise inspirou objectos estéticos interessantes. Mas a rejeição da psicanálise produziu Balthus e Nabokov.
Antigamente encontrava em Shakespeare e Proust uma característica comum, a que chamava neutralidade. Hoje em dia sei que é compaixão.

18.10.06

A prosperidade da psicologia parece estar associada à recriação de uma espécie de líquido amniótico em que os pacientes podem voltar a crescer. Já a literatura é mais interessante.

17.10.06

Só quem não se surpreende a si mesmo pode achar que isso é uma qualidade. Os outros recordam inúmeras ocasiões de aturdimento.

Inteligência prática.

No The shipping News, não sei se no livro ou no filme, o editor de um pasquim da Terra Nova, confrontado com o longo artigo de um jornalista inexperiente, exclama alguma coisa como isto:

If I wanted War and Peace I would have hired William bloody Shakespeare!

Hoje, ao encontrar o Nuno, profissional exemplar, escravo do sucesso e da performance, recordei um episódio que ocorreu há cerca de dez anos, quando fomos colegas numa multinacional em convulsão.

O jovem Nuno fumava no jardim, com semblante carregado. Quando lhe perguntei o que tinha, retorquiu-me portentoso:

- Há algo de podre no reino da Noruega!
- Nuno - esclareci - não é da Noruega, é da Dinamarca.
- Porquê? - indagou incrédulo.
- Porque essa frase é inspirada no Hamlet, do Shakespeare.
- Ah... O Hamlet é do Shakespeare?

Três anos depois foi promovido a director-geral.

16.10.06

Sextina II.

Afinal posso explicar agora como funciona esta forma poética. Tomem este exemplo de uma belíssima sextina de Camões e reparem na última palavra de cada verso:

Foge-me pouco a pouco a curta vida
(se por caso é verdade que inda vivo);
vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
choro pelo passado e, quando falo,
se me passam os dias passo e passo,
vai se me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca üa hora viu tão longa vida
em que possa do mal mover se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro, enfim? Para que falo,
se lograr me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
cuia ausência me move a tanta pena
quanta se não comprende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
de vós m'inda inflamasse o raio vivo,
por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei, que primeiro o extremo passo
me há de vir a cerrar os tristes olhos
que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
que escreveram de tão molesta vida
o menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento n'outro passo,
vejo tão triste género de vida
que, se lhe não valerem tantos olhos,
não posso imaginar qual seja a pena
que traslade esta pena com que vivo.

N'alma tenho confino um fogo vivo,
que, se não respirasse no que falo,
estaria já feita cinza a pena;
mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
me temperam as lágrimas dos olhos
com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
vejo sem Olhos, e sem língua falo;
e juntamente passo glória e pena.

As últimas palavras dos versos repetem-se de estrofe para estrofe, como podem verificar. Mas em que ordem? Na primeira estrofe temos:

vida
vivo
olhos
falo
passo
pena

Na segunda estrofe:

pena
vida
passo
vivo
falo
olhos

Na terceira:

olhos
pena
falo
vida
vivo,
passo

À primeira vista, parece que a sequência é aleatória. Mas os leitores mais perspicazes já notaram que a última palavra do último verso da primeira estrofe (pena), é a que termina o primeiro verso da segunda. E a última da segunda estrofe (olhos), está no primeiro verso da terceira. O mesmo ocorre nas estrofes posteriores, como sublinho aqui:

Mas bem sei, que primeiro o extremo passo
me há de vir a cerrar os tristes olhos
que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
que escreveram de tão molesta vida
o menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento n'outro passo,
vejo tão triste género de vida
que, se lhe não valerem tantos olhos,
não posso imaginar qual seja a pena
que traslade esta pena com que vivo.

N'alma tenho confino um fogo vivo,
que, se não respirasse no que falo,
estaria já feita cinza a pena;
mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
me temperam as lágrimas dos olhos
com que, fugindo, não se acaba a vida.

Está resolvido o primeiro mistério da sextina. E as outras palavras, como se organizam? Vamos regressar à sequência da primeira estrofe:

vida
vivo
olhos
falo
passo
pena

A partir daqui, vamos organizar a ordem das palavras na segunda. Primeiro, sigam a regra que já expliquei: a última palavra será a primeira da estrofe seguinte. Neste caso:

Pena

E agora, começando no último verso, desenhem uma espiral por cima das últimas palavras da primeira estrofe. Assim:



Se seguirem a espiral a partir de baixo teremos:

pena
vida
passo
vivo
falo
olhos

O que corresponde exactamente à sequência da segunda estrofe:

Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca üa hora viu tão longa vida
em que possa do mal mover se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro, enfim? Para que falo,
se lograr me não pude de meus olhos?

Et voilá! Apliquem o mesmo método à estrofes seguintes e completarão a sextina até à coda, que segue um princípio diferente: três versos apenas, segundo a ordem dos três primeiros versos da estrofe anterior. Neste caso, vivo, falo e pena.

Agora outro exercício: substituam as palavras por números, a partir do começo:

vida = 1
vivo = 2
olhos = 3
falo = 4
passo =5
pena =6

O que irá dar na segunda:

6
1
5
2
4
3

e assim por diante. Se emparelharem todos os números que correspondem às seis estrofes, excluindo os três versos da coda, terão esta sequência:

1 6 3 5 4 2
2 1 6 3 5 4
3 5 4 2 1 6
4 2 1 6 3 5
5 4 2 1 6 3
6 3 5 4 2 1

Somem as fileiras na horizontal ou vertical e verificarão que dá sempre 21: acabámos de criar um quadrado mágico.

Divertido, não? O Jorge de Sena explica isto bem num artigo que devo ter cá em casa, mas não encontro. Há também um livrinho da Biblioteca Breve dedicado ao assunto, mas é muito menos interessante.

Encontram outras informações aqui.

Sextina.

Por causa do título do post anterior, lembrei-me deste poema de Bernardim Ribeiro. Um dia hei-de explicar a quem não leu Jorge de Sena como se faz uma sextina, a mais fascinante das formas poéticas.

Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade
para não tornar co tempo!

Tôdalas coisas, per tempo,
passam, como dia e noute;
üa só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido enquanto há sol,
nela em quanto não há dia.

Mal quero per um só dia
a todo outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sobre a terra,
debaxo minha vontade.

Dentro na minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute:
no milhor, pon-se-me o sol!

Primeiro não haverá sol
que eu descanse na vontade.
Pon-se-me üa escura noute
sobre a lembrança de um dia...
Inda mal porque houve tempo
e porque tudo foi terra.

Haver de ser tudo terra
quanto há debaxo de sol
me descansa, porque o tempo
me vingará da vontade;
se não que antes deste dia
há-de passar tanta noute!

O sol e a noite.

Bom texto do PC no Mar Salgado. Isto sim, é ser liberal. Pelo tom dos directores de alguns jornais e das sumidades de alguma blogosfera, às vezes parece que vivemos no Kansas. Paísinho atrasado, este...

15.10.06

Arrivals.

Toda a shortlist do Booker - este vai ser um bom mês. Ah, e o vencedor também.

Sim, já voltei.

Porquê? Porque o mundo está menos interessante desde a última vez que abandonei a blogosfera.

Por um lado, as noites no Baliza ficaram ireconhecíveis: ontem consegui andar por lá, oh coisa extraordinária, sem sequer ter avistado a Ana Sá Lopes.

Por outro lado, notei uma deterioração preocupante nos padrões do jornalismo nacional: impedido de citar o meu blog, o Diário de Notícias esteve praticamente entregue ao Bichos Carpinteiros - destino cruel para uma instituição centenária, e sempre tão amável com o Governo.

Além disso nutro uma estima profunda pelos trinta ou quarenta leitores que ainda me restam no mundo. Há dias eram trezentos. Sic transit gloria, etc.

Portanto, aqui me têm: cândido, impoluto, quase despido em frente do computador, pronto a desfazer em postas quem arrastar pela lama as amenidades da pátria ditosa. Enfim, um grande português. Votem em mim, que eu regresso, possivelmente, amanhã.

13.10.06

É verdade.

Estou em condições de confirmar esta intuição de Pacheco Pereira:

A lista foi entretanto corrigida, com a inclusão de Salazar, mas a ausência inicial só pode ter sido de natureza censória e não um lapso. Alguém achou que colocar lá o nome de Salazar ou podia gerar polémica, ou podia levar a uma votação incómoda na personagem, o que se entendeu que colocaria o programa em apuros.

Censória é a palavra. O nome de Salazar foi retirado por um responsável da RTP, depois de ter sido proposta a sua colocação na lista de sugestões, aliás disparatada, do programa Os Grandes Portugueses. As razões para a sua não colocação foram exactamente as que o Pacheco Pereira refere.

10.10.06

Suspiro.

Inconstante, caprichoso, volúvel, Luis M. Jorge anda um pouco entediado com o seu blog, a quem vai dar umas férias até recuperar a paixão de outros tempos.

Ele vive.

Seria uma injustiça não dar um destaque emocionado ao primeiro post do senhor professor Pedro Arroja. Aqui ele explica a todos os leitores do Blasfémias que o João Miranda é um inimigo dos liberais.

9.10.06

O regresso.


O senhor só publica de cinco em cinco anos, por isso tomo a liberdade de mostrar aqui o seu novo romance antes de o ter em mãos. A Literary Review acolhe-o calorosamente nesta recensão de Sam Leith. Amis, que passou as últimas décadas a incensar Bellow e Nabokov, partilha com ambos uma qualidade: mesmo quando falha, falha com panache.

Mínimas.

Pressionar alguém para que deixe de fumar ou de beber é simplesmente sugerir-lhe que troque a sua forma de morrer por outra ainda menos eficaz.

Além da paixão (no meu caso, uma obsessão) por Händel, partilhamos o gosto por estas pequenas frases que podiam ser, mas não são, retiradas dos clássicos. O bandeira ao vento é um dos meus blogs favoritos.

Carta secreta do Iraque.

A Time revela-nos uma carta enviada do Iraque por um marine americano a um pequeno grupo de familiares nos Estados Unidos. Por ser uma descrição franca, não comprometida, da vida de um soldado naquela região, vale a pena lê-la aqui.

8.10.06

7.10.06

Mitsou.

Em Novembro de 2002 assisti no Palazzo Grassi à fascinante retrospectiva de Balthus. O artista desaparecera no ano anterior, e a sua evocação ainda suscitava em alguns de nós um consternado sentimento de orfandade. Nesse dia vi, pela primeira vez, os quarenta desenhos de Mitsou o gato. Balthus compusera-os com apenas doze anos, inspirado por Rilke, que era amigo da família. A recolha foi prefaciada pelo poeta e publicada em Zurique em 1920. Nos anos seguintes, Rilke dirigiu a Balthus meia dúzia de cartas encorajadoras. Todo esse espólio foi recentemente reunido neste livro, que talvez consigam encontrar na FNAC do Chiado.

6.10.06

Deus castiga.

Mal certas pessoas proferem umas verdades a propósito do serviço público, e logo a Divina Providência se encarrega de as colocar entre vinte mil docentes encolerizadas: foi assim que ontem à tarde caí nas garras de uma manifestação de professores no Rossio.

A praça estava cheia de mulheres empunhando bandeiras que exigiam respeito, motivação e outros salamaleques. Diga-se em abono da verdade, eu até gostei daquilo que vi: as professoras, hoje em dia, são mais jeitosas que nos tempos da minha estouvada adolescência.

Antigamente, ou eram destroços do Maio de 68 ou então imitavam com sucesso o visual da doutora Maria de Belém. Se na minha escola secundária se exibissem os saudáveis exemplares de pedaços de mulher que ontem pediam respeito em frente da pastelaria Suíça, talvez me tivesse demorado um pouco mais no remanso da escolaridade obrigatória.

Até as jovens mães, que aconchegavam rechonchudas crianças no regaço auspicioso, me pareceram agradavelmente edipianas. A essas não daria apenas respeito: dava-lhes também um banhinho e punha-as a fazer Ó-Ó. Ainda por cima receberam-me bem, as manifestantes: desde que entrei em Umea, uma cidade universitária no centro da Suécia, que não me lembrava de ter sido olhado com tanta concupiscência - lá, na escandinávia, porque era moreno; aqui, em Lisboa, porque sou homem. Vejo que a competição nas escolas continua desfavorável ao belo sexo.

Infelizmente não pude retribuir as amabilidades que adivinhei no olhar daquelas afectuosas revolucionárias, pois estava com pressa e ainda tinha de me vestir para um jantar. No entanto, recordarei com prazer o sorriso doce de uma rapariga que, à saída para os Restauradores, quase me deu com uma bandeira na cabeça. O pano dizia professores em luta. E eu asseverei-lhe:

- ó camarada, você está em luta mas não é comigo!

Pronto, está bem: camarada eu não disse.

A glória.

Disseram-me que o Diário de Notícias citou novamente o meu blog. Se isto continuar assim, ainda começo a comprar o maldito jornal.

4.10.06

A república não é um estado de alma.

Um cidadão não tem de ser um político, mas deve saber exigir que os políticos sirvam, acima de tudo, os cidadãos. Um cidadão não tem de ser um economista, mas deve esforçar-se para compreender se os recursos que o Estado lhe retira são gastos com rigor, propriedade e circunspecção. É nisto que acredito. Para poderem eleger com autoridade os seus representantes, e iluminar as suas decisões, os cidadãos necessitam de informação precisa e contextualizada sobre o Estado e sobre o país: essa é, entre outras, a função dos trabalhadores do Serviço Público. Os funcionários públicos devem, não só conhecer, mas também providenciar de boa fé toda a informação respeitante ao trabalho que desempenham e aos recursos que despendem. Se essa informação é escassa ou inacessível, isso significa que o próprio Estado funciona mal. Se um cidadão pergunta qual a percentagem dos seus impostos que é gasta com os funcionários do Serviço Público e ninguém lhe responde, o Estado funciona mal. Se a sua curiosidade, legitimada pelo voto e pelas obrigações fiscais, é confundida com intrusão, o Estado funciona mal.

Todos os cidadãos, incluindo os funcionários públicos, devem procurar, e não evitar, a resposta a estas perguntas: quantos são, quem são, quanto ganham, quanto gastam, como e quanto trabalham, e em que é que isso tudo se compara com os dados disponíveis nos países membros da União Europeia, o universo político em que estamos integrados? Um funcionário público competente tem todo o interesse em recolher estas informações, tal como um cidadão de boa fé tem o dever de não as usar como adereço de baixa política ou impetos demagógicos. É destes esclarecimentos que dependem decisões importantes, entre as quais se conta o destino da própria Função Pública.

A propósito do meu post anterior, o Eduardo Pitta defende que em alguns países estão fora do funcionalismo público certas carreiras numerosas, o que prejudica, na comparação estatística, os nossos servidores do Estado: não tenho pudor em acreditar no Eduardo, mas este não é um problema de fé - é um problema de acesso à informação. Arranjem-me dados, links apenas, sobre quem faz o quê nos serviços públicos da Europa e eu serei o primeiro a publicá-los. Aliás, agradeço-os. Talvez nem tudo seja comparável, mas então comparemos o que for possível.

Uma coisa é certa, por muito que custe a alguns leitores: quem trabalha para o Estado deve sempre respostas aos cidadãos. O serviço público não é uma coutada, nem o nosso património é o espólio de uma minoria, nem a República deve obediência aos estados de alma de quem nos serve.

Tira-teimas.

Neste comentário a um texto de Helena Garrido, afirmei entre outras coisas que 6 em cada 10 euros dos nossos impostos se destinam a pagar ordenados a funcionários públicos. Essa afirmação, que retirei da imprensa económica, provocou reacções escandalizadas em alguns leitores, sem que no entanto alguém me tivesse apresentado valores alternativos. Ontem, no programa O estado da Arte, Paulo Portas afirmou exactamente o mesmo: 60% dos nossos impostos destinam-se a pagar ordenados da função pública - a média europeia, acrescentou ele, são 40%. Bem me parecia que não tinha percebido mal.

Com valores diferentes, mas não menos preocupantes, Medina Carreira publicou aqui um post designado "O estado à deriva", em Agosto de 2004. O texto, com mais de dois anos, deve ser lido integralmente. No entanto quero destacar estas duas afirmações:

  • PORTUGAL é o país da UE/15 em que os salários públicos absorvem uma maior fracção das contribuições e dos impostos cobrados: 45%, em 2002 (coluna 4).

  • PORTUGAL é o único país da UE/15 que gasta mais com os salários públicos que com as transferências sociais: 45% e 38%, respectivamente do NF (colunas 4 e 6).

FN significa aqui Nível de Fiscalidade. Os dados de Medina Carreira são, recordemos, de 2002. Chamo em particular a atenção para a segunda alínea, que é arrepiante. Talvez ela explique um pouco da pobreza que persiste entre nós.

E com isto dou por encerrado o assunto. Se algum leitor, particularmente anónimo, tiver vontade de protestar, agradeço que o faça com factos e números antes de me chamar demagogo ou outra coisa qualquer. Não é a insultar os que procuram a verdade que se protege quem quer que seja.

3.10.06

Antologia pessoal.

1. Vocês conhecem algum país no mundo em que se mate tanta gente a tiro nas escolas?
[Nã, nã... o Iraque não conta.]

2. NMP, está de regresso à blogosfera. Mas como nos blogues as boas notícias atraem as más, o VLX também.

3. Vejo na televisão incêndios gigantescos na Austrália e Estados Unidos. E interrogo-me sobre o paradeiro do ministro Costa, tão desaparecido que anda das nossas televisões. Austrália, Estados Unidos?

4. É no saco do Expresso que o jcd, por mais que queira, nunca conseguirá, sem dobrar, meter o cardeal Ratzinger, o Donald Rumsfeld, o Ariel Sharon (mesmo em coma...) e o João Carlos Espada

E assim por diante.
Aqui não parece estar. O Maradona, no entanto, tem umas ideias.

Bye bye.

Durante alguns meses achei que Marques Mendes podia ser um bom líder partidário. Parecia honesto e trabalhador (ainda parece), batia o pé aos autarcas do costume e distanciava-se sensatamente do destrambelhado João Jardim. Por momentos, julguei que o PSD pudesse defender para o país o programa que o país espera do PSD há décadas: corte sério nas funções e nas despesas do Estado, combate à corrupção e um desprezo saudável pelas autarquias e pelo futebol. Esperto, decidido, bem aconselhado, o pequeno Marques Mendes poderia dar a José Sócrates duas ou três lições de competência e estatura moral: manifestamente eu não conhecia o primeiro-ministro.

José Sócrates chegou ao Governo com alguns dos horrendos vícios do partido que o elegeu: a fidelidade aos compagnons de route, o prazer de deitar dinheiro à rua em obras faraónicas e uma crença absurda na regionalização. Mas em pouco tempo tem corrigido discretamente esses vícios; enquanto Marques Mendes, que nada aprendeu, limita-se a protestar contra o Governo quando as fábricas fecham, para gáudio da CGTP.

O problema é que Marques Mendes já não serve para coisa alguma. O portugueses gostam de José Sócrates, e os que não gostam de José Sócrates nunca votarão neste líder do PSD: o que o nosso povo quer é outro tipo alto e bem apessoado, que ponha os barões na ordem, faça viagens de negócios a Angola e corra às sete da manhã no calçadão.


Come to the edge.
We might fall.
Come to the edge.
It's too high!
COME TO THE EDGE!
And they came,
and he pushed,
and they flew.

Christopher Logue, Selected Poems.

Um que eu queria ter escrito.

Em Espanha, foi dada a guarda da primeira criança a um casal gay que se candidatou para adoptar. Felizmente, por cá ainda há valores. Nenhum miúdo é entregue a casais transviados. Ficam na Casa Pia e nas Oficinas de São José.
Daniel Oliveira, no Arrastão.

2.10.06

O regresso de Bob Woodword.

Não deixem de ver estes extratos da sua entrevista ao 60 Minutos.

À 2ª.

A segunda volta nas eleições brasileiras é uma excelente notícia para quem se preocupa com a qualidade da democracia naquela país: Lula, se não é corrupto, está rodeado de corruptos. Não há obra social nem lágrimas derramadas sobre os pobrezinhos que justifiquem a iniquidade de um mensalão. Compreendo que os miseráveis votem nele, como compreendo que os pategos nas nossas províncias votem em Fátima Felgueiras: mas gente urbana, com leituras e princípios, devia saber mais. Os brasileiros estão a revelar uma maturidade política que parece faltar aos portugueses - ao menos eles compreendem que um bandido não é melhor nem pior por ser de esquerda.

Theft: A Love Story.


Começa assim:

I don't know if my story is grand enough to be a tragedy, although a lot of shitty stuff did happen. It is certainly a love story but that did not begin until midway through the shitty stuff, by which time I had not only lost my eight-year-old son, but also my house and studio in Sydney where I had once been about as famous as a painter could expect in his own backyard. It was the year I should have got the Order of Australia--why not!--look at who they give them to. Instead my child was stolen from me and I was eviscerated by divorce lawyers and gaoled for attempting to retrieve my own best work which had been declared Marital Assets.

Emerging from Long Bay Prison in the bleak spring of 1980, I learned I was to be rushed immediately to northern New South Wales where, although I would have almost no money to spend on myself, it was thought that I might, if I could only cut down on my drinking, afford to paint small works and care for Hugh, my damaged two-hundred-and-twenty-pound brother.

My lawyers, dealers, collectors had all come together to save me. They were so kind, so generous. I could hardly admit that I was fucking sick of caring for Hugh, that I didn't want to leave Sydney or cut down on drinking. Lacking the character to tell the truth I permitted myself to set off on the road they had chosen for me. Two hundred miles north of Sydney, at Taree, I began to cough blood into a motel basin. Thank Christ, I thought, they can't make me do it now.

But it was only pneumonia and I did not die after all.

1.10.06

Se não for a gratidão, é o desespero que torna as mulheres generosas.

Desfazendo equívocos.

Por baixo de minha casa há uma boutique para madames. Os empregados, jovens e garbosos, vestem-se como jockeys - e até colocaram à porta o mock-up de um cavalo, para as freguesas mais arrebatadas ficarem a saber quem é ali, supostamente, a montaria.

Pergunta.

Como é que posso colocar música no blog a partir do meu computador? (Não me refiro a música disponível na net, pois já me disseram como se faz, mas aos meus próprios ficheiros em Itunes). Uso um Mac com sistema X, não sei se isso é relevante. Obrigado.
É pela confissão que os fracos nos hostilizam.