31.10.06

Alusão.

Até há pouco tempo existia uma saudável diversidade na nossa blogosfera.

Por um lado, havia os doutores do Porto, que por serem meia-dúzia, e todos portentosos, gostavam de se fazer ouvir: a privatizar rios, a denunciar o darwinismo, a desmentir o aquecimento global; enfim, a lutar por um mundo melhor.

Por outro lado, havia o pessoal das bundas brasileiras, cujos blogs, por serem tão visitados (principalmente pelos tais doutores do Porto), criavam ao seu redor uma espécie de efeito tablóide: vendiam muito, mas as pessoas respeitáveis nunca falavam deles.

Ao seu lado vicejavam os blogs da Teresinha, professora primária de Setúbal, solteira, virtuosa e indignada, que apontava o dedo aos males do mundo e exigia a paz no Sri Lanka (é nesse grupo que eu me incluo).

E finalmente, havia os blogs dos jornalistas. Havia e ainda há. Na verdade, são os únicos que restam hoje em dia. Ou pelo menos, são os únicos que eu leio, com excepção dos do Filipe, do Vicente e do Vieira.

Um leitor incauto diria que depois de passarem todo o dia a escrever, os nossos jornalistas teriam gosto em ir ao cinema, ou em ir fazer tricôt para o Casanostra, mas não. Vão todos para as suas casas escrever ainda mais.

Isso não teria mal nenhum, porque os jornalistas portugueses, afinal, escrevem um pouco melhor do que a vasta maioria dos portugueses que não são jornalistas.

Mas será que não podem escrever alguma coisa que toda a gente entenda? Será que têm mesmo de viver numa espécie de perpétua alusão a certas e determinadas pessoas?

Um tipo lê um deles, e fica a saber que certa e determinada pessoa (um grande filho da puta), continua a escrever nos jornais. Vai ler o colega do mesmo, e descobre que certas e determinadas pessoas (outros filhos da puta) não respeitam a intimidade de certa e determinada pessoa que todos conhecem, menos o leitor.

Entre piscadelas de olho, eu talvez perceba, talvez, quem são trinta por cento dos tais filhos da puta flagelados pelo virtuoso homem dos media. Os colegas dele, gente ilustre e esclarecida, devem ficar a saber quem foram os outros trinta ou trinta e cinco por cento.

O que quer dizer que, numa visão optimista, há sempre um terço das tais certas e determinadas pessoas que, embora denunciadas, permanecem num completo anonimato. Ora isso não é justo..

Imaginem que era assim na literatura: Desdémona apaixona-se por um certo e determinado aventureiro negro (não vou dizer o nome). Macbeth assassina um certo e determinado monarca (o nosso, mas não digo quem é). A Julieta da família tal e tal, anda a comer um Romeu de outra família tal e tal, tenebrosa inimiga da primeira.

É triste, mas a blogosfera jornalística, que devia ser casual e transparente, comporta-se de um modo mais críptico que os comentadores de futebol da RTP.

Senhores jornalistas assim e assado (não vou dizer os nomes), pensem no vosso estimado público. E lembrem-se que, quanto mais alusões fizerem, mais os doutores do Porto ficarão a ganhar.

Ass. Teresinha.

3 Comments:

Blogger Pedro Almeida said...

Muito bem "dizido".
Sou outra "Teresinha".
É impressão minha ou os jornalistas são um bocado sacanas uns para os outros, e depois usam os blogs para esgrimirem o ódio que não o podem fazer nos jornais ?
Os jornalistas são a antitese das corporações, vide juízes, médicos, advogados, etc. defendem-se uns aos outros até à morte.

6:13 da tarde  
Blogger Xantipa said...

É bem verdade!
E quem é da província, não conhece o mundo jornalístico, lê blogues há pouco mais de um mês, percebe... 0,001% (estou a ser generosa)! :)
Resultado: não lê esses blogues...
Devo andar a perder pérolas, mas não vou lá...
:)

11:57 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

o homem é o lobo do homem, xantipa.

11:10 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home