23.10.06

Famous last words.

Nunca seria um bom jornalista porque, tal como o arquitecto Saraiva, dou menos importância aos factos do que à minha imaginação. Em consequência disso tenho passado metade da vida a acreditar nas coisas mais estapafúrdias, e a acumular histórias suspeitas sobre gente famosa em situações difíceis. A morte é uma situação difícil.

Reagan, depois de ser baleado, disse mesmo três piadas quando entrou no hospital? (Aos médicos: I hope you're all Republicans; para a esposa: Honey, I forgot to duck; para uma enfermeira: I'd rather be in Philadelphia). Possivelmente não disse. As últimas palavras de Oscar Wilde, entornando uma flute de champagne, foram I am dying above my means? Claro que não foram. O jazigo de Groucho Marx possui mesmo a inscrição desculpem, minhas senhoras, por não me poder levantar? Duvido.

Como a maioria de nós, também eu enfrentei duas ou três circunstâncias em que julguei que ia morrer. Duas coisas me preocuparam nesses momentos: primeira, o facto de ainda não ter conseguido formular as minhas últimas palavras. Segunda: o medo de que o sufoco finalmente me inspirasse e ninguém estivesse ao meu lado para as ouvir!

Ou seja, eu acho que não tenho um problema com a morte. Mas tenho um problema com o anonimato.