27.10.06

O encanto dos anacronismos.

Antigamente, quando trabalhava nas férias e recebia uma mesada dos meus pais, colocava todo o dinheirinho entre as páginas de um livro. Reparem que não era um livro qualquer: era o Itinerário da Mente para Deus, do São Boaventura.

A escolha nada tinha de casual. Eu gostava daquele contraste, entre o puro materialismo das notas de banco crepitantes e a pura beatitude da obra. Além disso agradava-me que o magro fruto dos meus esforços, tão urgentes, tão actuais, fosse depositado entre as páginas de um monumento à reflexão medieval. Quando São Boaventura defendia, por exemplo, que os anjos empurram os corpos celestas para o portal dos nossos cinco sentidos, a inocência que dimanava das suas palavras produzia em mim um sentimento de infinita segurança: a alguém que acredita em anjos, achava eu, nada de mal podia acontecer - muito principalmente um assalto.

Essa é a virtude dos anacronismos: eles criam em nós uma falsa sensação de segurança. Quando, hoje de manhã, visitei o blogue do não, senti mais uma vez que tinha regressado ao universo encantado da patrística e da tomistica, dos doces anacronismos, das florestas negras como breu onde os demónios espreitavam o corpo das virgens incautas e as possuiam abandonadamente, condenando-as ao inferno ou ao arrependimento. Não houve uma santa Efigénia, prostituta por vocação, que teve de padecer no deserto trinta anos antes de ser chamada ao regaço do Senhor? Ah, isso é que eram tempos!

Visitemos, leitores, o blog do não. Encontremos nos seus posts um lenitivo, um refrigério para o alvoroço estonteante da modernidade. E despachemo-nos - porque a causa que o motivou, muito brevemente, terá o destino das gárgulas, dos autos-de-fé, e dos itinerários de São Boaventura.

6 Comments:

Blogger f. said...

deus o oiça, luís. ou é melhor não?

12:43 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Já ouvi, minha filha.

Deus.

1:22 da tarde  
Blogger Zé Maria Brito,sj said...

caro luís
a verdade é que estando noutro blog em que se defende o não (www.razoesdonao.blogspot.com)
também me sinto "afectado"... por este seu texto, embora não me preocupe nada que me chamem anacrónico...

mas acho pouco feliz a sugestão de que os que defendem o não são como os que defendiam os autos de fé...

se quiser aceitar que defender esta posição não significa necessriamente viajar pela Idade Média (obscura e irracional), pode vir ao nosso Blog e escutar os nossos argumentos

quanto aos itenerários de são boaventura... ainda terão muito a dar a quem os queira ler, entendendo que para lá do que é proprio da época em que foram escritas, há obras que podem revelar-nos muito sobre o ser humano.


obrigado pela atenção.

6:08 da tarde  
Blogger A. João Soares said...

Um simples ponto de reflexão para um defensor do SIM.

Se, oxalá que não, você tiver um AVC, ou um ACV ou outra doença súbita que necessite de socorro imediato em hospital e não puder ser atendido, por todos os recursos estarem a ser utilizados em abortos de umas «loiras» ignorantes e estúpidas que se entregaram ao doce prazer do sexo, por sua livre vontade, sem terem tomado as mínimas protecções (hoje há métodos muito seguros e que podem ser utilizados em sobreposição para prevenir a gravidez), e que nem sequer utilizaram a pílula do dia seguinte; você não pôde ser socorrido, e, possivelmente, nem teve consciência para reclamar, e o que diria a sua família? Esta bateria palmas por você, ter votado Sim no referendo? Se isso acontecesse com um seu familiar muito querido, ficaria satisfeito? E se em vez de uma loira a fazer um aborto «porque sim», fosse um louco do volante que se despistasse a mais de 200 Km/h? Ou se fosse um adepto de desporto radical que tivesse excedido os limites da prudência?
Acha bem que os hospitais públicos, pagos pelo dinheiro dos nossos impostos, prejudiquem doentes urgentes que nada fizeram para adoecer, ou sinistrados em acidentes de trabalho, que sejam relegados para último (a morte poderá chegar entretanto) plano, por meninas sem moral que não tiveram cuidado de se defenderem do risco que iam correr ou correram, nas bacanais que lhes deram muito gozo?
Não será mais lógico que cada um seja responsabilizado pelos seus erros?
A nossa felicidade é construída pelas nossas boas acções. A infelicidade é-lhe simétrica.
O resto é poesia.
Cumprimentos

9:51 da manhã  
Anonymous fernando said...

O comentário de a. joão soares é completamente surreal. Ó homem, desde quando é que os doentes urgentes são relegados para último por tratamentos a doenças menos graves?

Gostei particularmente da comparação com o louco do volante. Já estou a ver a triagem na urgência: «5 feridos graves por acidente a 200? Dos 5 quem foi o acelera? Este não tem direito a tratamento. Só os outros...»
Ou no caso de cancros do pulmão: «Algum é fumador? Se o for não tem direito a nada. Que vá morrer em casa!»
Ou...

7:03 da tarde  
Blogger f. said...

caro fernando: o sr a. joão soares deve saber do que fala. foi acometido de um coma cerebral e ninguém o socorreu, andava tudo à volta de uma loura que se tinha estampado a 200 à hora enquanto fazia um aborto 'porque sim' a fumar vinte maços e a beber litros de vodka sem cinto de segurança. é caso para ficar chateado, coitado. eu cá também acho. tem toda a minha solidariedade, sr a. joão soares, ouviu? agora vá pra dentro, que ainda se constipa. ou alguma loura louca o vê e.

12:48 da manhã  

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