29.10.06

É verdade.

À medida que a Espanha se aproxima dos padrões civilizacionais europeus, esta paróquia, como o burro que conhece o sentido da horta, lá vai troteando atrás dela. Cinquenta anos de ditadura, dez anos de bulshit marxista-leninista, vinte anos de fundos comunitários, e a passada continua igual. Milhões de nhurros agarrados ao crucifixo, descalços a caminho de Fátima, de olhos esbugalhados à espera que saia da azinheira mais próxima outra ditosa aparição. Entre as maisons e as rotundas, entre os eucaliptos e as cinzas do último incêndio florestal, o cortejo vai escapando à fúria dos carros quitados, aos camionistas bêbedos e à voracidade das portagens. De vez em quando cai uma ponte, por causa dos areeiros, e lá morrem mais uns patêgos.

Os outros aborígenes não se deixam perturbar, pois sempre morreram muito, por uma razão ou por outra: as mães por causa dos desmanchos, os rapazes por causa das motas, os pobres por causa da fome, as mulheres por causa da pancada, os velhos por causa do calor, os campónios por causa das cercas, os machos por causa da sida, os gordos por causa do sal. Sempre morreram muito, sempre irão morrer muitos, porque só aprendem alguma coisa quando estão mortos: esta é a gente que perde milhões de hectares antes de aprender a apagar fogos, a gente que destrói províncias inteiras antes de contratar um arquitecto.

Podia continuar, mas não vale a pena, leitores. O Pedro Picoito é bem capaz de ter razão: nunca ninguém perdeu votos por apostar na apatia deste povo.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

confesso algum prazer ao lê-lo. deverá ser por sermos os dois uns falhados. mas não desista: se eu acredito em mim consigo acreditar em si também.

9:44 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Ah, mas nós somos muito diferentes, leitor: eu ponho o meu nome nos meus falhanços.

9:51 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Infelizmente parece que não passamos disto: dos que se envergonham de serem pobres e dos que se envergonham de terem pobres.

10:44 da tarde  

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