30.11.06

Credo liberal português (em actualização).

  1. O darwinismo é aplicável à economia, mas não à natureza: para essa, existe o intelligent design.
  2. Podemos sacrificar a liberdade dos homens em nome da liberdade do comércio.
  3. Os Estados que protegem os seus cidadãos são um fracasso; os Estados que os abandonam, um sucesso.
  4. Os homens têm um direito absoluto à propriedade, mas as mulheres não são proprietárias do seu corpo.
  5. Os contratos devem ser celebrados livremente, mas o casamento entre pessoas do mesmo sexo nunca será um contrato.
  6. Os Estados não devem apoiar a cultura: o mundo seria melhor sem os Uffizi, sem o La Scala e sem o Louvre.
  7. Nada que ponha em causa o mercado pode existir - o aquecimento global não existe.
  8. Se um estado aumentar os impostos, isso é um crime, se um banco arredondar as taxas de juro, isso é uma boa ideia.
  9. O que que é bom para os republicanos é bom para a América; o que é bom para a América é bom para o mundo.
  10. A religião cristã, que condena o lucro, está na origem do credo liberal.


(Nota: já foi revisto uma vez)

29.11.06

O blogue do bom Deus e o do diabo.

Inspirado pelo amor ao próximo do FNV e a caridade da asl para com este vosso indigno criado, eu ia pedir a Deus que lhes pagasse, com inúmeras graças, em generosos éditos e delicadas bulas papais. Depois pensei: e se Ele fizesse mais que isso? Se criasse em apenas sete dias o seu diário na net? Hoje diverti-me a idealizar esse blog perfeito. Apresento-vos, leitores, a sublime equipa de A Palavra do Senhor.

1. braço direito: o Pedro Picoito, porque os dois não conseguem ficar muito tempo separados um do Outro.
2. assuntos políticos: os amáveis pecadores do Glória Fácil.
3. economia: o João Pinto e Castro, se o professor César das Neves estiver a rezar.
4. cultura: o elegante Eduardo Pitta, assessorado por Francisco de Assis.
5. suplemento Vidas & Viagens: o Pedro Mexia & a Aura Miguel.
6. Um Sorriso na Alma (caderno humorístico): João Morgado Fernandes.
7. divulgação científica: o Filipe do Avesso.
8. futebol: Maradona.
9: correspondente estrangeiro: Lutz
10. media: o Pedro Correia.
11. fim-de-semana: a Carla Quevedo.
12. consultório sexual: o FNV.
13. música: o Pedro Vieira.
14. bonecos: o José Bandeira.

Mas o Diabo está sempre à espreita, leitores. E em muito pouco tempo, o tinhoso, o malino, o porco sujo, tudo faria para conspurcar este magnífico site. Eis o blogue do Inimigo, se o deixassem fazer um blog:

1. braço direito: o Maradona.
2. assuntos políticos: o Filipe do Avesso.
3. economia: a Carla Quevedo.
4. cultura: o Pedro Vieira.
5. vidas & viagens: Pedro Mexia & Aura Miguel.
6. suplemento humoristico: João Pinto e Castro.
7. divulgação científica: Pedro Picoito.
8. futebol: Eduardo Pitta.
9. correspondente estrangeiro: o FNV.
10. media: o João Morgado Fernandes.
11. fim-de-semana: o Lutz.
12. consultório sexual: a f., a asl, e os jovens chimpanzés no Glória Fácil.
13. música: o José Bandeira.
14. bonecos: o Pedro Correia.

Parece-me que falta aqui alguma coisa... Ah, já sei:

15. ecologia e questões ambientais: João Miranda.

Agora sim, seria o fim do mundo.

Plágio em Albion?

Ian McEwan foi acusado de copiar trechos da obra de Lucilla Andrews, uma escritora romântica, no seu penúltimo livro. O escárnio deve ter chegado a níveis prodigiosos em Canonbury e Charing Cross Road, se por lá ainda existirem livrarias. Entretanto, com a maldade típica do meio, o Times Online dedica-se a revelar excertos incriminadores dos livros de Andrews e McEwan:

Reading between the lines

Excerpts from Atonement (Ian McEwan)

“. . . she had already dabbed gentian violet on ringworm, aquaflavine emulsion on a cut, and painted lead lotion on a bruise . . .”

“. . . practising blanket baths on life-size models — Mrs Mackintosh, Lady Chase, and baby George whose blandly impaired physique allowed him to double as a baby girl.”

“These bandages are so tight. Will you loosen them for me a little . . .There’s a good girl . . . go and wash the blood from your face. We don’t want the other patients upset.”

Excerpts from No Time For Romance (Lucilla Andrews)

“Our ‘nursing’ seldom involved more than dabbing gentian violet on ringworm, aquaflavine emulsion on cuts and scratches, lead lotion on bruises and sprains.”

“. . . the life-size dolls on which decades of young Nightingale nurses had learnt to blanket bath. Mrs Mackintosh, Lady Chase and George, a baby boy of convenient physique to allow him to double as a baby girl.”

“Go and wash that blood off your face and neck . . . It’ll upset the patients.”
Não acredito que isto fique por aqui.

Famous first lines.

Algumas nunca esqueci (My father had a small estate in Nottinghamshire; I was the third of five sons), a outras consegui chegar por dedução (Miss Brooke had that kind of beauty which seems to be thrown into relief by poor dress). Mesmo assim, apenas acertei em cinco das dez perguntas. É mais um quiz da Penguin Books, só para profissionais.

Vende-se, porque até há quem precise.

Template bonito, barato, com pouco uso. Quinze por cento de desconto para clientes habituais.

28.11.06

A "decadência" nórdica, IV.

Todos sabemos que Singapura, apesar do regime despótico, é um éden resplandecente do mercantilismo; que o Chile, com pouco mais de três mil mortos (uma bagatela na história da humanidade) se transformou num radioso farol da causa liberal; e que os países nórdicos chafurdam, como bem merecem, numa decadência pinguça, sem esperança nem remédio, há mais de cinquenta anos. Pelo menos é isso que nos repetem todos os dias Blasfemos & Insurgentes nos seus importantes blogs e nas páginas fecundas da revistinha Dia D.

Já o The Economist, na sua projecção para 2007, conta-nos uma história um pouco diferente. A bíblia dos liberais fez uma série de perguntas simples: quais dos países escandinavos ainda se encontram, depois de tanta decadência, nos primeiros lugares mundiais da competitividade, do produto per capita, da democracia e dos índices de felicidade dos seus cidadãos? A resposta está no quadro que mostro a seguir. Lembrem-se: se o país ocupar os primeiros dez lugares mundiais numa categoria, tem direito a um boneco sorridente, caso contrário, mesmo que esteja no 11º, leva uma criaturinha azul cheia de cólicas.

Eis o resultado:



Depois disto, não resisti: fui à World Database of Happiness, a fonte usada para fazer a última coluna do quadro, e procurei o lugar ocupado por Singapura no ranking da felicidade: o trigésimo terceiro. E onde está o Chile, a próspera, a magnífica, a exemplar nação chilena? No trigésimo sétimo lugar. O liberalismo, leitores, só nos aponta bons exemplos.

27.11.06

A Norma de Bellini.

Cocteau, Duras ou Warhol fizeram bom ou mau cinema? A pergunta é frívola, na minha opinião. Para quem assiste aos seus filmes, o principal é tentar descobrir de que modo a visão do mundo que manifestaram noutras artes sobreviveu ao grande ecrã. Hoje o Diário de Notícias, falando a respeito da morte de Mário Cesariny, recorda-nos que em 2005 um júri do Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimédia se recusou a apoiar a produção de A Norma de Bellini, um argumento da autoria do poeta a realizar por Miguel Gonçalves Mendes. Não sei se seria um bom ou um mau filme, nem julgo que a questão fosse importante: considero imperdoável que um comité de burocratas nos tenha interditado o acesso à derradeira visão de um artista singular.
Os jovens cortejam a morte, os adultos celebram-na, os velhos tentam esquecê-la.

26.11.06

Nº 57

Being your slave, what should I do but tend
Upon the hours and times of your desire?
I have no precious time at all to spend,
Nor services to do, till you require.
Nor dare I chide the world-without-end hour
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu;
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But, like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are how happy you make those.
So true a fool is love that in your will,
Though you do any thing, he thinks no ill.

Eurocentrismo.

Nunca deixo de rir quando alguém diz, como ouvi ontem, que os americanos ignoram tudo o que ocorre fora da América. A afirmação é correcta, evidentemente. Mas algo muito semelhante se pode dizer dos europeus: que ignoram tudo o que se passa fora da Europa ou, no limite, do Atlântico.

Hoje em dia a zona mais vibrante do mundo tem vista para o Pacifico. Acredito que isto seja verdade na economia, na cultura, na qualidade da vida urbana. E no entanto nós, europeus, continuamos a falar como se os antigos territórios coloniais nos devessem uma espécie de vassalagem. Como se o Oriente ainda vivesse nas guerras do ópio e a Austrália fosse uma colónia penal. Estas convicções não são apenas falsas, são ridículas. Mas nem por isso deixamos de as alimentar numa disputa de tolos, julgando embasbacar o universo enquanto chamamos labregos aos americanos.

A caricatura.

(...) (a bancada parlamentar do PCP) Não foi apenas tomada por ortodoxos. Muito menos está dominada por políticos em vez de técnicos. Foi tomada por um aparelho de funcionários anónimos. Funcionários internos, que vivem do aparelho e para o aparelho. E a limpeza não vai acabar aqui. Ainda mal começou. Falta aquilo que mais preocupa os medíocres que rodeiam Jerónimo de Sousa: os sindicatos, a CGTP e, especialmente, Carvalho da Silva. Esta direcção não suporta a ideia de alguém valer por si mesmo, ter talentos próprios e reconhecimento público, e não se limitar a ser um delegado do partido. Esta direcção do PCP não suporta o mérito individual. Não se trata de respeito pelo colectivo. Basta olhar para propaganda do PCP para ver como a cara e o nome do líder são repetidos até à náusea. É medo. Os medíocres temem os competentes. Porque quem vale por si é mais livre. (...)


Vale a pena ler este post do Daniel Oliveira e também, quase ia dizer principalmente, os comentários que lhe fazem.

25.11.06

Kramer.

Liberais à moda antiga.

Hayek e Friedman no reino de Pinochet, chama o João Pinto e Castro ao imperdível digest que publicou no seu blog. Mais uma lição enternecedora sobre o brave new world que Blasfemos & Insurgentes desejam para nós.

Today, Pinochet is under house arrest for his brand of "shock therapy," and Friedman is dead. But the world they helped usher in survives, in increasingly grotesque form. What was considered extreme in Chile in 1975 has now become the norm in the US today: a society where the market defines the totality of human fulfillment, and a government that tortures in the name of freedom.

Links para os posts: I, II, III, IV, V e VI.

24.11.06

Caliban.

Be not afeard; the isle is full of noises,
Sounds and sweet airs, that give delight and hurt not.
Sometimes a thousand twangling instruments
Will hum about mine ears, and sometime voices
That, if I then had waked after long sleep,
Will make me sleep again: and then, in dreaming,
The clouds methought would open and show riches
Ready to drop upon me that, when I waked,
I cried to dream again.

23.11.06

Monólogo.

Dispenso, descobri hoje, apresentações. Ao fim de um ano, pouco mais, de blogosfera, incluindo um mês de intermissão enfastiada, um projecto colectivo falhado em quinze dias, não por culpa inteiramente minha, é certo, mas por meia culpa quase inteiramente minha, depois de um regresso morno, com o rabinho entre as pernas, à casa que fez de mim, publicamente, um homem, se é que podemos chamar público a 245 leitores diários, possivelmente a descer, depois de toda esta triste história de insucessos mal atamancados, ou pior, de duvidosos brilharetes, eu, tal como as velhas estrelas no Natal dos Hospitais, tal como o Marco Paulo, tal como a Ágata, tal como o Clemente, tal como a pequena Maria Armanda, também dispenso apresentações. Que achas disto, boneco Donald? Não queres falar com os senhores? Hmmm? Estás eufónico?

A "decadência" nórdica, III.

Antes de tudo devo esclarecer que não defendo a aplicação de um modelo económico de tipo nórdico em Portugal. Porquê? Porque Portugal já gasta mais em ordenados da função pública do que em políticas sociais, e essa asneira, ou melhor, esse crime, devia ser combatido antes de se procurar outro modelo, fosse ele qual fosse. Porque o Estado português incentiva a corrupção ou, o que é a mesma coisa, recusa-se a atacá-la - e eu não quero fortalecer um Estado corrupto. Porque a fuga ao fisco, apesar da evolução recente, não necessita de mais um encorajamento (que ocorreria, inevitavelmente, se os impostos aumentassem). Ou seja, porque a invocação do modelo nórdico, por alguns dos seus defensores na nossa paróquia, seria apenas outro pretexto para a bandalheira.

Dito isto, confesso que me irrita muito a sanha anti-nórdica da aliança liberal-conservadora que se passeia agressivamente pela nossa blogosfera. Portanto vou tentar demonstrar aqui, sempre que possível, o que há de fanatismo religioso e de má fé nesses ataques de insurgentes, blasfemos e outras criaturas de menor porte. Nos próximos tempos vou publicar links, dados e notícias sobre as economias nórdicas. Vou revelar-vos também um pouco da minha experiência nesses locais.

Hoje aproveito um post do João Pinto e Castro, a quem roubo uma magnífica citação de Postner sobre o rancor de Milton Friedman pela Suécia:

(...) I find slightly off-putting what I sensed to be a dogmatic streak in Milton Friedman. I think his belief in the superior efficiency of free markets to government as a means of resource allocation, though fruitful and largely correct, was embraced by him as an article of faith and not merely as a hypothesis. I think he considered it almost a personal affront that the Scandinavian nations, particularly Sweden, could achieve and maintain very high levels of economic output despite very high rates of taxation, an enormous public sector, and extensive wealth redistribution resulting in much greater economic equality than in the United States. I don't think his analytic apparatus could explain such an anomaly.

Reconhecem esta doença? Podem ler o artigo completo aqui.

Você pode ajudar a Rute. Basta votar sim no próximo referendo.

Sous le dôme épais.

Tenho de ouvir isto duas vezes por ano. Merci, José Bandeira.

Quer que todas as mulheres sejam tão saudáveis como a Mónica? Então vote sim.

22.11.06

Ainda o modelo Sueco.

O liberalíssimo AA, do Arte da Fuga, também não perde a oportunidade de dar umas facadinhas no modelo sueco, provando que para as más ideias, em Portugal, nunca faltam os entusiastas. Chamou-me a atenção a frase com que ele termina o seu bem comportado post:

In 2011 Singapore´s GDP per capita (PPP) will be higher than Sweden´s, if present trends continue.

2011? Ó António, mas então isso quer dizer que, com uma economia desregulamentada, impostos baixos, tribunais controlados pelo governo, jornalistas obedientes e uma completa ausência de direitos sociais, ainda faltam cinco anos para Singapura atingir a decadente, a imobilista, a débil economia sueca, a tal que está em declínio há cinquenta anos? Mas o que é que se passa? Será que nem uma ditadura põe aquela gente a trabalhar?

Vinte e cinco anos depois.

Antigamente eu lia a Interni, a AD, a Case da Abitare, a Elle Decor (italiana ou inglesa) e a Domus, mas não era uma pessoa feliz. Depois encontrei a World of Interiors - e em pouco tempo adquiri uma sensibilidade tão rara, um juizo tão arguto, um gosto tão atilado que imensa gente me considera homossexual. Em Dezembro a revista a que devo a bem-aventurança faz um quarto de século. Com este número, os leitores adquirem também um suplemento sumptuoso - The Best of Interiors - que comemora o seu importante aniversário. Vim agora do quiosque e ainda estou todo a tremer, só de pensar que me podia ter escapado.

Não ignore os bons argumentos da Carol. Vote sim no próximo referendo.



Bonito blog.

Descobri ontem a Suspensão do Juizo, através de um link recente para o meu blog. O autor é dado a preciosismos estilisticos e ao abuso do inglês (o que atribuo à sua provável juventude) mas lê muito, pensa bem, e no fundo tem uma escrita amável e escorreita. Vai para a barra lateral quando o maldito blogrolling estiver a funcionar.

A Martina já decidiu: no próximo referendo ela vai votar sim, sim, oh sim!

Quer ficar ao lado da Rita? Então vote com ela no próximo referendo.

No próximo referendo, a Tânia escolheu o sim. E você, vai dizer-lhe que não?

No próximo referendo, faça como a Nicole: diga que sim.

“Sex was my great adventure.”


No New York Times, Stacey d'Erasmo assina uma recensão interessantíssima ao livro de memórias de Alice Denham: Sleeping With Bad Boys - A Juicy Tell-All of Literary New York in the Fifties and Sixties. Não conhecia a autora do livro nem a da notícia (que também é romancista), mas agora vou ler ambas.

21.11.06

O bebé que já sorri.

Professor Arroja? João Miranda? Azevedo Alves?

Doonesbury.

20.11.06

Este blog vai acalmar nos próximos dias, leitores. Desafortunadamente, há quem ainda precise de trabalhar muito, muito, muito para atingir os seus objectivos.

Nota: já agora ficam a saber que este é o palazzo Mocenigo, um dos vários com o mesmo nome que se erguem no Canal Grande. Byron viveu aqui entre as rameiras, as fidalgas e os filhos ilegítimos. Agora está à venda, mas não dizem por quanto.

Alguém disse que um homem é a sua biblioteca.

A minha biblioteca.

Sai amanhã (com 1120 páginas).

19.11.06

Retratos do prazer na Califórnia, EUA.

Mergulhar numa piscina a dois metros de altura.
(David H.)

Amiguismos 3.

A marta r. do Astro que Flameja também é muito boa rapariguinha. Vai já para a barra dos links.

Milton.


Let us not then pursue,
By force impossible, by leave obtained
Unacceptable, though in Heaven, our state
Of splendid vassalage; but rather seek
Our own good from ourselves, and from our own
Live to ourselves, though in this vast recess,
Free and to none accountable, preferring
Hard liberty before the easy yoke
Of servile pomp. Our greatness will appear
Then most conspicuous when great things of small,
Useful of hurtful, prosperous of adverse,
We can create, and in what place soe'er
Thrive under evil, and work ease out of pain
Through labour and endurance. This deep world
Of darkness do we dread?

Paradise Lost, livro II.

Narciso e Prometeu.

Não me parece que alguma vez tenha distinguido, intimamente, a ficção da realidade. Dizendo melhor - sempre julguei que a ficção literária respondia a perguntas que também se colocam no universo material: podemos ser os criadores do nosso próprio mundo? E conseguiremos criá-lo sem fazer concessões? Podemos ser os espectadores maravilhados daquilo que criamos? Conseguimos, eternamente, surpreender-nos com o que retiramos de nós?

18.11.06

Pilim.

Embora eu acreditasse, até agora, em dados completamente diferentes, não gostaria de ignorar estas informações divulgadas pelo Eduardo Pitta a respeito dos ordenados na Função Pública.

Amiguismos 2.

Vou ali e já venho.

José Manuel Fernandes escreve hoje no "Público" que Milton Friedman "era de esquerda nos costumes " e dá como exemplo a defesa da liberalização das drogas proposta pelo economista. O que JMF não diz - porque não sabe ou porque não quer - é que Friedman também defendia que, após a tal liberalização, o Estado não deveria gastar nem mais um dólar no tratamento de drogados. Se isto é ser de esquerda nos costumes não imagino o que seja ser de direita.
FNV, no Mar Salgado.

Marketing.

Por pura brincadeira pus um link para o meu blog no artigo franco-atirador, da Wikipédia. E não é que já recebi visitantes?

Wilde.

I can stand brute force, but brute reason is quite unbearable. There is something unfair about its use. It is hitting below the intellect.

17.11.06

Mitos económicos e jornais com pés de barro.

Hoje, o menino Bruno Gonçalves, que escreve para uma estupenda revista do Público chamada Dia D, resolveu desferir um feroz ataque (as palavras são dele) ao modelo económico da Suécia, país em que manifestamente nunca pôs os pés. O Bruno, e quem o contratou, invocam a seu favor a autoria de um blogue chamado Bodegas, uma espécie de Blasfémias poucochinha, que merece inteiramente o divertido nome de baptismo. Não estou esta manhã com tempo nem com paciência para dissecar imbecilidades, mas gostaria de implorar aos editores daquele jornal que, por misericórdia, nos poupem a estes ridículos panfletos da escola de Chicago. A economia sueca, caros senhores, cresceu no ano passado quase tanto como a americana. Tem, o que não se pode dizer da americana, um orçamento excedentário, uma dívida pública controlada e uma inflação baixa. Quanto à distribuição da riqueza, seria melhor evitarmos, como os meus amigos aliás gostam de fazer, esses assuntos incómodos. Se o Bruno fosse à Suécia, em vez de falar dela com os estudantes nórdicos que passam férias na Madeira, coraria de vergonha antes de apontar o dedinho a uma das sociedades mais desenvolvidas do mundo.

Finalmente, senhores editores do Público e da revista Dia D, gostaria de lhes chamar a atenção para o seguinte: nem todos os vossos leitores frequentaram a Universidade Católica ou a Crinabel. Alguns, coisa extraordinária, até já passaram largas temporadas na Escandinávia e nos Estados Unidos. Nós, os vossos leitores, não somos completamente atrasados mentais, não saímos agora de uma caverna das berças, não suspiramos por um BMW série 3 ou por uma viagem ao Brasil e não temos qualquer obrigação de gastar um euro e vinte e cinco cêntimos para desperdiçar o nosso tempo com mais um pobre fanático religioso. Seria excelente que metessem isso na cabeça, de uma vez por todas, antes de descobrirem o que significa realmente perder dinheiro.

Proposta irrecusável.

Procura-se nome comum. Esta rosácea do Velho Mundo, Cotoneaster franchetti, não tem designação vernácula em português que faça justiça às belas inflorescências brancas que na Primavera cobrem os ramos como neve e à abundância de vermelho que nesta altura exibe. Cotoneaster deriva do latim cotoneum, marmelo, talvez pela semelhança da folhagem entre as duas plantas; franchetti homenageia o taxonomista francês Adrien Rene Franchet (1834-1900), que trabalhou no Museu de História Natural de Paris e escreveu extensa obra sobre a flora chinesa e japonesa - em particular o livro Plantae Delavayanae (1889), baseado nas amostras recolhidas pelo missionário jesuíta Jean Marie Delavay (1834-1895).

Maria Carvalho, no Dias com Árvores. Eis um daqueles convites que um cavalheiro não pode rejeitar.

16.11.06

Defendendo a vida.

(...) albino aroso contou, na conferência sobre direitos sexuais e reprodutivos organizada pelos eurodeputados socialistas, histórias e histórias como a da irmã da alexandrina. de como quando começou a sua actividade de médico descobriu um mundo de dor e pavor e crueldade inflingido pelos seus colegas sobre as mulheres em nome de uma ideia de justiça divina, uma sharia católica. herdeiros dos inquisidores, os médicos portugueses tomavam nas suas mãos o dever de lhes ensinar, se necessário pela morte, o seu lugar no mundo.

não tenho notícia de um único desses médicos alguma vez ter respondido, em tribunal ou noutro sítio, por esses crimes. não tenho notícia de alguma vez algum dito defensor da vida ter erguido a voz pelas vidas dessas mulheres. (...)

f. no Glória Fácil. Leiam o resto do post por favor.

Retratos do trabalho no Taiti, Polinésia Francesa.

Mulheres carregando especiarias.
(P.G.)

Six minutes.

Saramago, na SIC Notícias, desvenda mansamente a um jornalista embevecido os insondáveis mistérios do universo. Deus existe? A humanidade tem remédio? Tudo nos é permitido? As inquietações acumulam-se no oráculo de Dódona, enquanto o sábio mastiga com pachorra umas ásperas banalidades. Mário Crespo faz beicinho reverencial. O seu cérebro fervilha de apodos, todos hiperbólicos, mas nunca ousaria interromper o venerando mestre.

Os nossos media só consentem dois destinos à velhice: a hagiografia, ou a sarjeta.

14.11.06


Amadeo de Souza-Cardoso, Saut du lapin, 1911.

Amiguismos.

1. Quando, pela primeira vez, dei por ele, o Pedro Picoito andava a fazer campanha por Cavaco Silva nas eleições presidenciais. Depois foi para o Blogue do Não, recomendar o sim à vida no próximo referendo sobre o aborto. Agora, como se isso não bastasse, juntou-se a uns amigos e fundou o Cachimbo de Magritte para combater, suponho, a sodomia e salvar, presumivelmente, a cristandade. Desde Ptolomeu que alguém não defendia com tanta inteligência coisas tão erradas. Hei-de ser seu leitor extremoso e comentador habitual.

2. Os leitores suspiram por uma inocente amizade literária? Sonham com Swift e Pope, Shelley e Byron, Wordsworth e Coleridge, Conrad e Ford Madox Ford, Joyce e Beckett, Virginia Woolf e, hã, Vita Sackville-West? Então cantem hossanas, porque a Tertúlia Literária do Pedro Correia e da Miss Pearls já alcançou o post número 88. A coisa parece fácil, eu sei, mas há vários dias que os tento copiar sem resultado.

3. Uma prova de que ouvir Chico Buarque não nos pode fazer bem está no Avesso do Avesso, onde o perigoso comunista Filipe Moura se deleita, recentemente, a copiar longos extractos do Pacheco Pereira e a elogiar os canais pagos americanos. Do avesso mas nem tanto, ó Filipe.

4. O Pedro Vieira acaba de conduzir a pornografia a um estádio quase, bem, como direi? É melhor verem.

Agradecimentos e três coisas mais.

1. Foi um grande dia de aniversário, aqui na chafarica. Recebemos muitos visitantes (só da parte da Charlotte devem ter vindo trezentos!), comentários, links, emails e até um telefonema de felicitações. A todos, sem excepção, aqui deixo o meu comovido bem-haja.


2. Esqueci-me de dizer que o Regresso a Veneza, em princípio, acabou. No entanto, ando a planear um site mais estruturado e profissional para o substituir. Por isso, retirem o primeiro dos vossos favoritos e dêem-me algum tempo (talvez demasiado) para inaugurar o segundo.

3. As opiniões dividem-se a respeito do novo template e da cor que escolhi para o background. Vou continuar à escuta.

4. E agora sim, falta-me apenas recitar aquela frasezinha imortal: para o ano, cá estejamos todos. Nunca, que eu saiba, alguém desejou coisa mais acertada.

13.11.06

Ag 45.

Acaba de ser publicado o novo número da Ag magazine. Destaque para o porftolio de Chris Steele-Perkins, entitulado Tokyo Love Hello, e também para o artigo de Lee Frost, onde se discutem as qualidades da Holga e se revelam imagens encantadoras capturadas com câmaras de brincar. Esta é um bom exemplo.

12.11.06

Primeiro aniversário.

Sem contar com as interrupções, este blog faz um ano. Quando o criei pretendia encerrá-lo em Janeiro, após o desfecho das eleições presidenciais. Estamos em Novembro. Se eu disser que paro agora, ninguém vai acreditar.

Tenho prazer em escrever aqui todos os dias, embora nem sempre me dê bem com este Luis M. Jorge que assina em meu lugar. Às vezes parece-me um pouco pedante, volúvel e hostil. No entanto, possui o dom da auto-ironia, e nos bons momentos é um estilista competente.

Ao fim de um ano, o Franco Atirador revela-nos algumas das suas fraquezas: é muito repentista, excessivamente reactivo, o que prejudica a qualidade de certos posts (embora explique a força de outros tantos). O equilibrio entre a reflexão sobre assuntos públicos e a meditação pessoal também não foi encontrado. Ambas me são úteis, no entanto.

Desejaria que no segundo ano deste blog tudo fosse diferente. Queria que tivesse mais textos longos, lentos, ponderados. Gostaria de trabalhar melhor a arquitectura, a lógica interna de cada post. E apetecia-me, coisa aparentemente dificílima, fazer isso sem ser chato.

O template vai mudar a partir de hoje, porque me parece que uma coluna mais estreita permitirá ler melhor posts extensos. Também quero que o texto fique um pouco mais isolado na página, por isso afastei o título do blog e a ilustração que o acompanha para o topo da barra lateral. A autora do visual anterior que me perdoe, pois fiz tudo sem a consultar.

Vou cometer a ingratidão de concluir este post sem agradecer individualmente às pessoas, desconhecidas na esmagadora maioria dos casos, que me deram tantas provas de amizade ao longo destes doze meses. A explicação é simples: tenho medo de me esquecer de alguém. No entanto, encontrarão quase todas nos links à vossa direita, se o Blogrolling estiver a funcionar.

Aceito sugestões e reclamações, principalmente sobre o novo visual do Franco Atirador. Nos próximos tempos, julgo que nos vamos divertir.

11.11.06

Fifteen men on the dead man's chest
Yo-ho-ho, and a bottle of rum!
Drink and the devil had done for the rest
Yo-ho-ho, and a bottle of rum!

Bandeira de John Quelch.

Bandeira de Bartholomeu Roberts, o Black Bart.

Bandeira de Edward Low.

Bandeira de Henry Every.

Bandeira de Edward Teach, o Barba Negra.

10.11.06

The Great Revulsion.

There always have been and always will be conservatives on the American political scene. And that’s as it should be: a diversity of views is part of what makes democracy vital.

But we may be seeing the downfall of movement conservatism — the potent alliance of wealthy individuals, corporate interests and the religious right that took shape in the 1960s and 1970s. This alliance may once have had something to do with ideas, but it has become mainly a corrupt political machine, and America will be a better place if that machine breaks down.

Why do I want to see movement conservatism crushed? Partly because the movement is fundamentally undemocratic; its leaders don’t accept the legitimacy of opposition. Democrats will only become acceptable, declared Grover Norquist, the president of Americans for Tax Reform, once they “are comfortable in their minority status.” He added, “Any farmer will tell you that certain animals run around and are unpleasant, but when they’ve been fixed, then they are happy and sedate.”

And the determination of the movement to hold on to power at any cost has poisoned our political culture. Just think about the campaign that just ended, with its coded racism, deceptive robo-calls, personal smears, homeless men bused in to hand out deceptive fliers, and more. Not to mention the constant implication that anyone who questions the Bush administration or its policies is very nearly a traitor.

When movement conservatism took it over, the Republican Party ceased to be the party of Dwight Eisenhower and became the party of Karl Rove. The good news is that Karl Rove and the political tendency he represents may both have just self-destructed.

Two years ago, people were talking about permanent right-wing dominance of American politics. But since then the American people have gotten a clearer sense of what rule by movement conservatives means. They’ve seen the movement take us into an unnecessary war, and botch every aspect of that war. They’ve seen a great American city left to drown; they’ve seen corruption reach deep into our political process; they’ve seen the hypocrisy of those who lecture us on morality.

And they just said no.


Paul Krugman, no New York Times (sublinhados meus).

9.11.06

Diário de bordo.

Sim, eu confesso, sou uma presa fácil do ennui. Enclausurado há quase um ano em Portugal, se exceptuarmos duas breves incursões na velha Europa, aborreço os meus compatriotas e sonho com os Mares do Sul. Mas não poderei visitá-los brevemente, a menos que abandone um familiar próximo a uma doença inesperada e cruel. Que fazer, então? O centro de Lisboa entedia-me. Ontem explorei o Monte do Estoril, atraído pela fantasia de uma vida simples, com vista para o mar, em meiga comunhão com a natureza. Pelo número de camiões e de guindastes, dir-se-ia que frequentava uma cimenteira.

A literatura contemporânea, não sei porquê, é insuficiente para resgatar um homem à sua malaise. Restam-nos os consolos de sempre: um pouco de Greene, muito Conrad, algo de Melville e Defoe. Talvez uma pitada de Stevenson. Os grandes aventureiros, enfim.

Hoje, à hora de almoço, comecei a ler isto, e respirei logo melhor:

A SMILE OF FORTUNE

Ever since the sun rose I had been looking ahead. The ship glided gently in smooth water. After a sixty days’ passage I was anxious to make my landfall, a fertile and beautiful island of the tropics. The more enthusiastic of its inhabitants delight in describing it as the “Pearl of the Ocean.” Well, let us call it the “Pearl.” It’s a good name. A pearl distilling much sweetness upon the world.

Ah...! Pelo menos, houve neste mundo quem se divertisse.

Noblesse oblige.

Apaguei uma série de posts chistosos que aqui tinha colocado ontem. Sejamos elevados nas vitórias, principalmente quando não nos pertencem. (No entanto, vou deixar ficar isto).

8.11.06

7.11.06

"The Shipping News" em português.

Falei há pouco tempo deste livro, e ontem descobri que já foi publicado no nosso país. , é uma maneira de dizer. A primeira edição americana data de 1993. Em 1994, o romance ganhou o Pulitzer e o National Book Award. Não li esta tradução portuguesa, mas gosto suficientemente da obra para a recomendar, com ou sem asneiras.

The Shipping News relata a história de Quoyle, o genuíno loser. Desprezado pelos pais, abandonado pela mulher (quase uma prostituta), Quoyle emigra com duas filhas pequenas para a Terra Nova, onde encontra amigos, dignidade e amor. Enquanto isso, a sua desamparada figura serve-nos de chaperon numa jornada fascinante a um mundo em extinção. Dois terços do romance localizam-se numa cidade costeira, varrida por gélidos ventos invernais - e os protagonistas condizem com a meteorologia.

Nunca estive na Terra Nova. Mas recordo que a obra me trouxe uma enorme nostalgia de Hobart, na Tasmânia, e dos seus barcos que partiam em direcção ao Pólo Sul.

My November Guest.


My Sorrow, when she’s here with me,
Thinks these dark days of autumn rain
Are beautiful as days can be;
She loves the bare, the withered tree;
She walks the sodden pasture lane.

Her pleasure will not let me stay.
She talks and I am fain to list:
She’s glad the birds are gone away,
She’s glad her simple worsted gray
Is silver now with clinging mist.

The desolate, deserted trees,
The faded earth, the heavy sky,
The beauties she so truly sees,
She thinks I have no eye for these,
And vexes me for reason why.

Not yesterday I learned to know
The love of bare November days
Before the coming of the snow,
But it were vain to tell her so,
And they are better for her praise.


Robert Frost, A Boy’s Will.

6.11.06

Mnham mnham.

São nove da noite, ainda estou a trabalhar e recebo isto por email. A vida é muito cruel.

Pronto, está bem, vá lá.

Até eu já quase gosto do Cavaco.
Certas e determinadas pessoas não precisam de me pedir desculpa, ora essa.

Les beaux esprits se rencontrent.

Passei ontem várias horas entre metade da nossa blogosfera sem o saber.

TV

Vi o novo programa do Gato Fedorento. É uma imitação do Blasfémias, mas não tem a mesma graça.

5.11.06

Pequeno insight sobre o nosso "Estado de direito".

Afirma Medeiros Ferreira no Bichos Carpinteiros:

Quando Saddam Hussein foi feito prisioneiro concebi que, com essa operação, ele ficaria cativo e em segurança para uma eventual negociação política sobre o futuro de um Iraque a ferro e fogo. De contrário não se percebia porque não fora abatido no meio da busca e da confusão.

É evidente: sem uma negociata qualquer, mais valia que Saddam tivesse sido despachado, sem direito a julgamento, assim que o encontrassem.

Ah, o velho PS...

Leatherette.

É uma tragédia do dandismo literário português que, à custa de emularem Wilde, Coward, Maugham e Waugh, tantos dos seus praticantes se transformem no João Pereira Coutinho. Ou para citarmos Noel Coward novamente:

I wonder who thought of introducing leatherette into the tropics? Whoever did should have his balls snipped off and fastened to his nose with a safety pin. This should also happen to whoever thought of leatherette in the first place.


- Mas o meu humor não é gratuito...
- Pois não - é simplesmente barato.


Luis M. Jorge, também inspirado.

We've never been intimate - but maybe we do have some things in common.

Noel Coward, referindo-se a Deus.

4.11.06

O relatório Sterne esteve quase a enganar-nos.

O calhamaço de seiscentas páginas e as suas alarmistas conclusões preocuparam muitos líderes mundiais. Mas felizmente, neste país abençoado podemos sempre contar com os blasfemos, os insurgentes e o António Amaral para repor a verdade dos factos. No Arte da Fuga recomenda-se este artigo do Wall Street Journal, onde a certa altura se afirma:

the Stern report barely mentions the potential benefits from warming in the world's cold-weather regions. Al Gore and others warn about the damage from coastal flooding and changing weather patterns, among other horror scenarios. But the world is large and its climate diverse, and a longer growing season in Siberia or Canada is at least one possible benefit of warming.

Compreendem? Para quê chorar sobre o Algarve, se podemos ir a banhos na Sibéria? Mas o que eu acho mesmo interessante é que os nossos liberais, mais uma vez, se tenham esquecido de citar a análise desse bastião da economia de mercado, o muito liberal The Economist a respeito do assunto. Vamos supor então que não tenham conseguido encontrar esta parte do editorial:

Sir Nicholas may well err on the gloomy side. And its certainly impossible to predict precisely what effect climate change will have had on the world economy in a century's time. But neither point invalidates Sir Nicholas's central perception - that governments should act not on the basis of the likeliest outcome from climate change but on the risk on something really catastrophic (such as the melting of Greenland's ice sheet, which would raise sea levels by six to seven metres).

Eu achei que se tratava de um parágrafo saudavelmente céptico e equilibrado. O António Amaral e os seus amigos insurgentes, ao que parece não acharam. O consenso científico incomoda-os. Já o consenso neo-republicano e evangélico, manifestamente, não.

Muita elevação e sentido democrático.



Eis uma bonita imagem que encontrei hoje quando investigava mais um link no Blogue do Não. Para as mentes menos gráficas, esta ilustração retrata uma mulher a colocar no cesto do lixo a sua criancinha inocente. A mulher, está-se mesmo a ver, é a mãe (se é que podemos chamar mãe àquele monstro infame). Já o menino, como se topa a milhas, é um fetozinho lastimoso com menos de dez semanas, lívido, esmorecido, barbaramente esquartejado pelos algozes do partido do governo e pelos inimigos da vida.

O Jorge Lima, autor orgulhoso da obra, confessa em comentário que retirou um título ao post, por este ter chocado muito os seus leitores (nem queremos imaginar qual seria). O Jorge é obviamente um homem de profundas convicções democráticas, sensível aos pundonores da opinião pública. Mas isso não quer dizer que desista.

Não: já na próxima semana o Jorge deve trazer, para nos recrear, um conjunto de fotos exclusivas de fetozinhos roxos em baldes de plástico; de retratos de sinistras parteiras com instrumentos de tortura nas mãos papudas e ensanguentadas; de manchas suspeitosas de inimagináveis residuos orgânicos aspergidos em masmorras bafientas; de brinquedos primorosos e fofos, legos e peluches abandonados à sua sorte cruel (quem sabe, outro caixote do lixo) - enfim, provas, vestígios, sinais de milhares de criaturinhas viçosas entregues a um destino aterrador.

Não, meus amigos. Nas próximas semanas, nos próximos meses, o Jorge Lima não se vai poupar a esforços para que todos nós, eleitores irresolutos, possamos votar em consciência e com serenidade.

3.11.06

How Low Will Bush Go?


If Democrats manage to take control of one or both houses of Congress on Tuesday, the reason will be that voters were not adequately roused into a state of heart-pounding, knee-knocking, teeth-chattering fear.

Vale a penas ler este editorial de Eugene Robinson no Washington Post.

2.11.06

Homem não entra.

Só li agora este post do Pedro Picoito, dedicado às minhas intempestividades. Por manifesta falta de tempo, pedi à dona Firmina, uma senhora da Guarda, familiar afastada, que lhe respondesse por mim. O texto vai sem edit, tal como me chegou às mãos.

Menino Pedro,

Aqui já começou a xover. Os trevos e os alfobres ficaram viçózos do dia para a noite. Espero que esteja bein i feliz, na companhia da sua família, que tam béim estejam bein i felizes, i a esposa feliz, i os meninos, que estejam todos felizes i bein. Eu tambeim ando béin i feliz. Cá no monte chegou-me que o munino Pocoito anda aí em Lisboa com mais uns doutôres a lutar contra os desmanxos i contra os abortos. Faz beim menino picoito!

Os desmanxos i os abortos são um pecado mui to grave! Um pecado mui to grave. Um pecado tam grave tam grave tam grave que as alminhas desses meninos assim que são desmanxadas mesmo que se portem beim vam logo para o inferno. Nem vão pera o limbo lamber os beicinhos e passar sedinha i fominha coitadinhos. São logo botadas no inferno! Mesmo que sejam santinhos e as alminhas deles amem a deus nosso senhor. Tal é a gravidade das maldades que lhes cometem coitadinhos.

Mães que fazeis um crime assim contra uma alminha tam bonita i tam mimosa e tam novinha que nem chegou a nascer devieis arrependervos muito muito! Eu sei que sois da cidade i se calhar sois doutoras tambeim e não dais importancia ás palavras istúpidas de uma ignoranta como eu Mas não desdenheis o que vos digo porque nam são as minhas palavras que vos digo são as palavras de Deus nosso senhor. E falo por Deus dizendo que tambeim sou mulher e também sei o que é pecar e o aborto é um pecado mui to grave

Sei lo bem que é um pecado meninas de que vos deveis arrepender. Como eu me arrependi porque fiz cinco desmanchos quando era moça cinco e arrependi me de todos eles e sabia que era um pecado mui to mui to grande.

A minha comadre Abrizida fez dezaceis desmanxos! Dejaxeis! E arrependeu-se sempre tambeim coitadinha Mas foi perdoada graças a Deus porque três desses abortos eram de um padre que era muito bom e que já morreu. Se nam fossem de um padre estava agora a arder no inferno coitadinha.

Sabeis quando vos queimais no fogão? Sabeis o que vos dói? Entãm imaginai o inferno que é cem ou mil ou mil e tais vezes pior!

A minha comadre Isaura fez outros onze desmanxos e também se arrependeu muito e ainda hoje pensa nas alminhas deles. A minha cunhada Celeste fez sete ou oito e de cada vez se arrependeu tanto tanto que vinha xorar sempre para a minha beira.

É por isso que votamos todas contra os desmanchos i contra os abortos e vamos botar a cruzinha no não!

Menino Pocoito, o meu sobrinho Luis Jorje é muito bom rapazinho e um santinho e ama muito a Deus e é muito trabalhador e gosta muito da mãe bein dito seja. Ele diz que o menino Picoito que é um homem e um grande homem de muita sabedoria não devia andar a falar com outros homens desses açuntos só das mulheres. mas não acredite nele!

O meu marido que deus o tenha sempre mandou em mim e fui uma mulher realizada Olhe, menino picoito, andei anos que não podia votar mas se pudesse tinha votado no salazar por causa do meu marido. i olhe que nem lhe conhecia as fuças mas sei que era um santinho. E ainda há pouco o meu marido era vivo e eu já podia votar mas nem votava porque ele votava por mim coitadinho. Eu se lá fosse punha a cruzinha em todos ou não punha em nenhum. São todos uns filhos da puta que só querem o nosso dinheiro. Só querem mamar

Mas o menino picoito faz beim em votar no não! Eu só lá ponho as ventas se o senhor padre disser para lá por as ventas e votar contra aqueles filhos da puta. Por isso quero deixarlhe uma palavra amiga e dizer-lhe corajem corajem para atacar o pecado e os comunistas e os que querem o mal do nosso povo e dos nossos velhinhos e das nossas mulheres.

Corajem que deus nosso senhor o abençoe i dê-lhe muinta saúde. e muita sorte e muita saude que é preciso menino Picoito i para a esposa e os meninos.

muita muita saude i benzao deus

Firmina.

Caro Pedro Picoito: deixei que permanecessem neste texto alguns pequenos erros ortográficos, que talvez aprecie, pois julgo que dão à arrebatada missiva da minha tia uma cativante cor local. Espero tam beim, aliás também, que ele responda à maior parte das suas inquietações.

Porque é que é mais barato contratar um finlandês, sueco ou americano do que um português.

Há coisas que a nossa esquerda não sabe porque, pura e simplesmente, não lhe apetece saber. Este é um gráfico extraído do Economist de 19 de Outubro:



O texto que o acompanha reza o seguinte:

Although America's manufacturing workers are better compensated than those in Europe, they are also more productive than most. As a result, the cost of labour per widget—or unit labour cost—is lower in America than in any European country except Finland and Ireland, according to the Conference Board and the Groningen Growth and Development Centre. The dollar's fall since 2002 has sharpened America's edge.

Quando alguém falar do exemplo Irlandês, ou do exemplo Finlandês, lembrem-se das duas primeiras colunas.

(Via Rabbit's Blog)

Um bom presente de aniversário.


É encomendar os seis volumes do Decline and Fall de Gibbon, e ainda apresentar a factura à família. Tenho uma versão abreviada da Penguin Classics, mas não é a mesma coisa. Leiam este começo absolutamente memorável:

IN the second century of the Christian era, the Empire of Rome comprehended the fairest part of the earth, and the most civilised portion of mankind. The frontiers of that extensive monarchy were guarded by ancient renown and disciplined valour. The gentle but powerful influence of laws and manners had gradually cemented the union of the provinces. Their peaceful inhabitants enjoyed and abused the advantages of wealth and luxury. The image of a free constitution was preserved with decent reverence: the Roman senate appeared to possess the sovereign authority, and devolved on the emperors all the executive powers of government. During a happy period (A.D. 98-180) of more than fourscore years, the public administration was conducted by the virtue and abilities of Nerva, Trajan, Hadrian, and the two Antonines. It is the design of this, and of the two succeeding chapters, to describe the prosperous condition of their empire; and afterwards, from the death of Marcus Antoninus, to deduce the most important circumstances of its decline and fall; a revolution which will ever be remembered, and is still felt by the nations of the earth.

E daqui para a frente, meus amigos, está sempre a melhorar.

1.11.06

Link.

A senhora Sócrates acabou de fazer um link para este blog. Agora já sei quem ela é.