30.12.06

Nem todos Azevedos.

Que injustiça, Luís. Percebo que esteja irritado com algumas coisas, mas está a cometer um erro clássico: ver toda a direita (ou isso a que chama a direita) como um bloco sem divisões. Se reparar bem, há muita gente à direita que não encaixa de modo algum no seu perfil. Pense no Mexia, no Lomba, na malta da Atlântico e do 31 da Armada, no Francisco Mendes da Silva, no Paulo Tunhas, no Henrique Raposo, no Tiago Mendes, nos meus amigos Fernando Cruz Gabriel e Manuel Pinheiro, etc., etc, etc. Mesmo no Insurgente e no Blasfémias, que são para si a direita (parece-me), há obviamente mais cores do que quer ver. Poucas pessoas, se alguma, encaixam completamente no perfil que traçou. E talvez ainda venha a ter saudades delas como agora tem do Independente.

Pedro Picoito nos comentários a este post. Não gosto de ser injusto, e ele tem razão.

Serviço público III.


É verdade: nada como o original.

Serviço público II.


E agora em francês.

Serviço público I.


Os meus amigos desculpem, mas não pode haver quadra de Natal sem isto.

29.12.06

Saudades.

Hoje à tarde falava com um amigo a respeito do defunto Independente. Concluímos ambos, para nosso grande espanto, que tinhamos saudades. Saudades de uma direita europeia, inteligente, contemporânea, provocadora, sem teias de aranha nem macaquinhos no sótão, capaz de gozar com o João Carlos Espada e de dizer sem papas na língua que no Expresso se escrevia mal. Que aconteceu a essa gente? Hoje em dia a direita é o João Carlos Espada, e à nossa volta pupulam anõezinhos sem nome, nem ponta de interesse nem talento, de credo na boca e crucifixo ao peito, incapazes de modular uma frase que não soe a cacofonia salazarenga. À medida que o país se empobrece, estas criaturas vão saindo das tocas para tomar conta dos jornais, das rádios, das televisões, do CDS e do PSD. Subvertem palavras como liberalismo, incensam o Cavaco Silva e cultivam um arzinho respeitável que faria rir até às lágrimas a velha direita do Frágil e dos Três Pastorinhos. Não sei como se suportam a si próprios, mas sei que os outros, os antigos jornalistas do Independente não a devem suportar. Triste, desiludido, cabisbaixo, disse adeus ao meu amigo e fui logo comprar um livro do Miguel Esteves Cardoso. Chama-se A Minha Andorinha — e tal como ela, apetece-me emigrar.

Novo link.

Descobri hoje o womenage a trois. Vai já para a barra lateral.

Se calhar é porque a mão invisível trata delas.

Uma interrogação metafísica: porque será que a extrema-direita caceteira da nossa blogosfera, sempre tão preocupada com fetos de dez semanas, nunca perde muito tempo a defender a vida de crianças com dois anos e meio?

E você, já foi libertino hoje? (1)




Les Liaisons Dangereuses, um livro sempre recomendado pelo Franco Atirador.

28.12.06

A saga continua.

Num tom bastante mais sério, respondi pouco depois a uma defensora do "Não" que me enviou uma mensagem indignada de protesto. Revelo apenas o corpo dessa resposta por respeito à privacidade da autora.

Cara __ ,

Não duvido que hajas pessoas excelentes em todo o lado. Mas existem ideologias totalitárias (como o comunismo) e manifestações totalitárias de religiosidade (como, na minha opinião, o Opus Dei), que devem ser travadas.

Ambas incentivam o ódio e a animosidade contra quem lhes tenta impôr limites. A prova disso é o que espero fazer daqui a alguns dias, publicando trechos das horríveis agressões de que fui alvo desde que esta discussão se iniciou.

Tenho católicos na minha família, alguns bastante próximos. Nenhum, no entanto, se aproxima da rudeza e da sanha persecutória destas pessoas que conheci na blogosfera. É uma constatação lamentável que, repito, não me desencoraja nem intimida.

Na minha opinião, os católicos portugueses terão de aprender a tolerar a "anarquia" e a "libertinagem" (para usar as palavras reveladoras do jornalista João Távora) próprias de uma sociedade agnóstica, quer isso lhes agrade, quer não.

Não proponho a ninguém que abandone ou sacrifique a sua fé. Apenas que me deixe viver sem fé, tranquilamente, e em completa liberdade.

Um feliz ano novo para si também.


A promessa feita neste texto é para cumprir: se tiver tempo, farei um apanhado dos mimos que me foram dirigidos por gente muito conhecida nos últimos dias.

Olha, fui desmascarado.

(...) Luís M. Jorge, autor que verte regularmente na blogosfera as secreções próprias de uma neurótica e aguda bipolaridade (...)
Assim mesmo, com a arte de uma heroína do Camilo, o João Távora denuncia a baixeza dos meus argumentos e as histéricas e negras pulsões afirmadas neste anárquico e por vezes libertino campo da blogosfera. Caramba. Quando a minha pobre cabeça torturada alcançar o significado destas afirmações, eu vou-me a ele. Ai vou, vou!

O meu disco do ano (obrigado, D.).

Ys, de Joanna Newsom.

O meu filme do ano (que afinal são dois).


27.12.06

Aquecimento global.

É lamentável que 2.500 cientistas façam um estudo sobre alterações climáticas e se esqueçam de ouvir o João Miranda.

Amor é...

Nos comentários ao post anterior descubro, com certa melancolia, que um leitor se apaixonou por mim. Sem desdenhar o nobre sentimento do amigo Pedro Nunes, que me envia um abraço e um beijo (hã, pronto, vamos lá, um beijinho para si também), gostaria de aproveitar a oportunidade para fazer um apelo às jovens frequentadoras do meu blog: não se deixem ficar atrás. Sigam este corajoso exemplo e enviem-me agora as provas do vosso ardente entusiasmo para o mail_ofrancoatirador@yahoo.co.uk. Prometo discrição e respeito no tratamento de todas as fotografias de corpo inteiro.

Quanto a nós, Pedro: terei muito prazer em colocar um link para o seu Diário Remendado na minha barra lateral, se você em troca me garantir que as palavras link, muito prazer e minha barra não lhe despertam a, como direi, concupiscência.

26.12.06

Muito obrigado.

Quero manifestar a minha gratidão às pessoas que por link, comentário ou email me enviaram os seus votos de boas festas. Entretido em polémicas só hoje dei por algumas dessas mensagens, que nem por isso são menos valiosas para mim.
Num comentário ao post anterior, um leitor convida-me a exigir a demissão de Ramos Horta. Meu caro amigo, eu não tenho tempo para tudo. Não vê que estou ocupado com a Contra-Reforma?

Perfume.

Enquanto vos escrevo, pela madrugada dentro, tenho o escritório aspergido com uma mistura de essências de lavanda e flor de laranjeira — dois aromas repousantes que, segundo a minha perfumista, me preparam para uma noite sem sobressaltos. A minha perfumista? Sim, leitor.

Sugeri-lhe desta vez, timidamente, que substituísse por bergamota a flor da laranjeira (tenho uma predilecção proustiana por bergamota, vinda das tardes infinitas de um Outono lancinante em que li o Contre Sainte-Beuve nos jardins do Museu do Traje). A proposta foi recebida com um cortês mas definitivo no no: tal sacrilégio transformaria o suave ambientador numa matéria imprevisível e excitante — o que, dados os meus provectos trinta e oito anos, definitivamente não se recomenda.

Ainda hoje testo aromas de marca nos aeroportos — o novo Terre d'Hermès pareceu-me excelente — mas prefiro há muito as criações da perfumaria tradicional. O vício começou em Itália. Quando a Acqua di Parma não pertencia ao grupo LVMH, e as sumptuosas colónias de Santa Maria Novella evocavam ainda o seco encanto florentino do Bargello, eu usava-as como um statement, um protesto subtil contra os cansativos cheiros unisexo da Armani e da Calvin Klein. Até que um dia, no outro lado do mundo, passeando em Ginza descobri os meus perfumes entre as inevitáveis lojas da Fendi e da Louis Vuitton. Nesse momento compreendi que a batalha contra a globalização estava perdida — abandonemos o assunto aos inteligentes meninos altermundialistas, de passamontanhas e cocktails Molovot.

Na pequena perfumaria da Rua da Madalena compro apenas sabonetes e ambientadores. Este Natal encomendei cerca de vinte para oferecer. A dona Fernanda prepara-os à minha frente, misturando as essências com um rigor germânico. O que prefiro chama-se, muito apropriadamente, Alceste — uma conjunção feliz de pimenta, musk e vetiver, ideal para a cozinha após as refeições. Desta vez arredondei o troco com um pequeno frasco cheio de tuberosa, que não me convenceu. Uma hora depois, enquanto escolhia o papel de embrulho numa papelaria da Baixa e bebia uma chávena de Jamaica Blue Mountain no Nicola Gourmet (é o café da semana na altura do Natal), os meus pensamentos dirigiam-se piedodosamente à turba insana que se acotovelava no Colombo e se desfazia em postas no El Corte Inglês ¡Pobrecitos!

Todos os anos, por esta altura, chego à mesma conclusão: há duas Lisboas, leitor. E a minha é, definitivamente, a melhor.

25.12.06

Resposta a um comentário.


caro luís, (...) há gente que pelo seu elevadíssimo espírito e recorte literário e sobretudo pela elegância com que sem largar a sua inseparável tocha-de-acender-autos-de-fé se passeiam pelo mundo de olhos postos no céu e na vida com v grande, não merece uma letra, quanto mais uma linha, de um post seu.

Cara f.,

Por uma vez discordo de si. Essas pessoas merecem ser contrariadas até sentirem que o terreno não lhes pertence totalmente. Devemos combatê-las com cabeça fria e distanciamento irónico, quando isso for possível — mas sempre sem tréguas.

Mickey no funeral do beato Josémaria Escrivá.
Mickey na Católica.
Mickey nas aulas de Preparação para o Matrimónio.
Mickey nas Cruzadas.

Asociación nuevo renacer: por una juventud sin mácula.


Dedico este bonito trabalho de uma conhecida associação espanhola ao André, ao Jorge e ao João pelos interessantes posts e o elevado exemplo que me revelaram ontem (qualquer semelhança entre o jovem de pullover azul e um certo amigo da Opus Dei e admirador de Pinochet é pura coincidência).
Um presente de Natal para todos os neuróticos, sociopatas, insuficientes mentais e defensores da vida que espumaram de raiva e me enviaram mensagens de ódio no dia 24 de Dezembro.

23.12.06

Os defensores do "não" e o espírito de Natal.

Uma das maiores moléstias de se viver em Portugal é o fatigante, e sempre tão católico, fervilhar de olhadelas censórias e vozinhas castradoras, aliadas a um casquinar nocivo, beato, enfadonho e reles.

A tendência enjoativa deste povo para reprovar quem quer que se coloque no caminho dos mais alarves preconceitos, há-de ser um mistério para os historiadores do futuro quando esta parvónia for um país europeu.

Até chegar esse século auspicioso, no entanto, terei de interromper o Natal para me aborrecer com gente como o André Azeredo Alves. Não é uma tarefa fácil, leitores: cada vez que encontro pela frente o André, sinto mais que um frio na espinha — sinto-me um tronco atravessado na via jubilosa da Reconquista Cristã. Ora, a história da Igreja e o fascínio do meu interlocutor pela Opus Dei levam-me a pensar, com certa apreensão, num pequeno auto-da-fé: a prudência dos parágrafos seguintes justifica-se, portanto, com o meu amor à pele.

Desta vez, o André assanhou-se por causa de um post da minha autoria sobre o aborto. Ao que parece (valha-nos Deus Nosso Senhor), eu não tratei os fetos de dez semanas com a dignidade que obviamente mereciam. Chamei-lhes criaturinhas, não maiores que um pequeno rato. Oh horror! Oh ignominia!

Sempre piedoso, o André fez logo um, não, dois posts a protestar contra a infâmia. Lesto a oferecer a outra face, chamou ao meu texto abjecto e repugnante. Um pobre agnóstico como eu sente-se esmagado com tantos exemplos de caridade cristã, ainda por cima na véspera de Natal.

Que devo fazer agora, André? Vou buscar o cilício? Chicoteio-me na cela? Visto um corpete de napa, um slip de leopardo, e despejo cera quente na carne viciosa enquanto recito, sim recito, oh sim! se recito, o Eclesiastes? Terei de ler o seu blogue, como mortificação? Diga-nos lá, meu caro, o que é que recomendam na Ordem para escapar às fúrias do Altíssimo e à famosa ira do beato Escrivá de Balaguer? Os seus leitores fiéis aguardam alvoroçadamente uma resposta.


Nota posterior:

Estimulado pela minha referência a pequenos roedores, saiu também da toca um tal Jorge Ferreira para embasbacar o mundo com a sua grande acutilância e elevado sentido de humor.

Quem é, perguntarão, este tal Jorge Ferreira? Aparentemente é uma espécie de João Gonçalves com talento a menos e uma Enciclopédia Verbo a mais. O resto — o azedume, a virtude ruidosa — são em tudo semelhantes ao original.

Como estou a embrulhar presentes, não perco mais tempo com o assunto. Sem desfazer na sua importante pessoa, Jorge — vá passear.

22.12.06

Um feliz natal para todos.
Na grande literatura, os provocadores são invariavelmente pungentes: Falstaff, Moll Flanders, Charlus. Somos capazes de os amar pela nostalgia que os chama sem repouso, mas à qual decidem sempre escapulir-se. Com eles aprendemos que as boas, e não as más memórias, são as mais dolorosas.

21.12.06

O coraçãozinho deles.

Pelos jornais de hoje, graças aos serviços prestimosos do movimento Não Obrigada, soube que o coração de um bebé já bate por volta do vigésimo dia de gestação. Confesso que fiquei de olhos marejados. Em primeiro lugar, pela precocidade da criaturinha. Em segundo lugar por descobrir que o ginecologista-obstetra João Malta, presidente da Comissão Ética do Hospital das Descobertas, chama bebé a um feto de 14 gramas com o tamanho de um pequeno rato. Que delicadeza, que humanidade — evidentemente, leitor, não é apenas nos bebés de seis centímetros que bate um coração!

Como era inevitável, o movimento Não Obrigada vai divulgar nos próximos tempos uma ecografia tridimensional (coisa portentosa e sofisticadíssima) de vários gaiatos com oito, nove e dez semanas cada um. Suponho que o video fará as delícias dos leitores do Mar Salgado (nos quais impenitentemente me incluo), pela mão sempre oportuna do nosso amigo VLX.

Alguns espíritos cépticos, incluindo clínicos excêntricos, contestam esta importante acção de esclarecimento: eles argumentam que às dez semanas o sistema nervoso central não está constituído, por isso o feto não é sensível à dor — mas o cardiologista pediátrico Fernando Martins desvaloriza este argumento, e eu também.

Afinal, leitores, o mesmo se poderia afirmar de um qualquer finalista em Gestão da Universidade Católica Portuguesa.

Que a virgem imaculada lhes dê muitos filhinhos viçosos, os livre do pecado, e todos em uníssono façam prosperar a jubilosa causa do liberalismo.


O Filipe Moura, que não anda distraído, deu-me a conhecer a pergunta mais inteligente deste final de ano:

Pinochet e o beato Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, são os doutrinadores do liberalismo lusitano?

Ainda por cima, fiquei logo a saber a resposta: é claro que são — Pinochet, Escrivá e, obviamente, o santinho.

20.12.06

Como melhorar a sua produtividade.

1. Não perca tempo com pessoas desinteressantes, mesmo que tenham poder.
2. Faça apenas o que gosta e delegue o resto.
3. Tente ganhar muito dinheiro com coisas que faria de graça.
4. Se não souber como reagir a um problema, fique quieto.
5. Acabe o que começar.

A beautiful young nymph going to bed.


Corinna, pride of Drury-lane,
For whom no shepherd sighs in vain;
Never did Covent-garden boast
So bright a batter'd, strolling toast!
No drunken rake to pick her up,
No cellar where on tick to sup;
Returning at the midnight hour;
Four stories climbing to her bower;
Then, seated on a three-legg'd chair,
Takes off her artificial hair,
Now picking out a crystal eye,
She wipes it clean, and lays it by.
Her eye-brows from a mouse's hide
Stuck on with art on either side,
Pulls off with care, and first displays 'em,
Then in a play-book smoothly lays 'em.
Now dextrously her plumpers draws,
That serve to fill her hollow jaws.
Untwists a wire and from her gums
A set of teeth completely comes.
Pulls out the rags contriv'd to prop
Her flabby dugs, and down they drop.
Proceeding on, the lovely Goddess
Unlaces next her steel-ribb'd bodice,
Which, by the operator's skill,
Press down the lumps, the hollows fill.
Up hoes her hand, and off she slips
The bolsters that supply her hips.
With gentlest touch she next explores
Her shankers, issues, running sores;
Effects of many a sad disaster,
And then to each applies a plaster:
But must, before she goes to bed,
Rub off the daubs of white and red,
And smooth the furrows in her front
With greasy paper stuck upon't.
She takes a bolus e'er she sleeps;
And then between two blankets creeps.
With pains of love tormented lies;
Or, if she chance to close her eyes,
Of Bridewell and the Compter dreams,
And feels the lash, and faintly screams;
Or, by a faithless bully drawn,
At some hedge-tavern lies in pawn;
Or to Jamaica seems transported
Alone, and by no planter courted;
Or, near Fleet-ditch's oozy brinks,
Surrounded with a hundred stinks,
Belated, seems on watch to lie,
And snap some cully passing by;
Or, struck with fear, her fancy runs
On watchmen, constables and duns,
From whom she meets with frequent rubs;
But, never from religious clubs,
Whose favour she is sure to find,
Because she pays them all in kind.
Corinna wakes. A dreadful sight!
Behold the ruins of the night!
A wicked rat her plaster stole,
Half eat, and dragged it to his hole.
The crystal eye, alas! was miss'd;
And puss had on her plumpers piss'd.
A pigeon pick'd her issue-peas;
And Shock her tresses fill'd with fleas.
The nymph, tho' in this mangled plight,
Must ev'ry morn her limbs unite.
But how shall I describe her arts
To re-collect the scatter'd parts?
Or show the anguish, toil, and pain,
Of gathering up herself again?
The bashful Muse will never bear
In such a scene to interfere.
Corinna in the morning dizen'd,
Who sees, will spew; who smells, be poison'd.

Jonathan Swift

19.12.06

On My First Son.


Farewell,thou child of my right hand, and joy ;
My sin was too much hope of thee, lov'd boy.
Seven years thou wert lent to me, and I thee pay,
Exacted by thy fate, on the just day.
Oh, could I lose all father now ! For why
Will man lament the state he should envy?
To have so soon 'scaped world's and flesh's rage,
And if no other misery, yet age !
Rest in soft peace, and, asked, say, Here doth lie
Ben Jonson his best piece of poetry.
For whose sake henceforth all his vows be such
As what he loves may never like too much.

Ben Jonson

Love and sleep.


Lying asleep between the strokes of night
I saw my love lean over my sad bed,
Pale as the duskiest lily's leaf or head,
Smooth-skinned and dark, with bare throat made to bite,
Too wan for blushing and too warm for white,
But perfect-coloured without white or red.
And her lips opened amorously, and said--
I wist not what, saving one word--Delight.
And all her face was honey to my mouth,
And all her body pasture to mine eyes;
The long lithe arms and hotter hands than fire,
The quivering flanks, hair smelling of the south,
The bright light feet, the splendid supple thighs
And glittering eyelids of my soul's desire.

Swinburne

17.12.06

Pausa.

Os últimos dias (como se pode notar no tom agastado de alguns posts anteriores) foram de excessivo "stress". Está na hora de fazer uma pausa.

16.12.06

Optimismo.

Ainda sou moderadamente optimista a respeito dos destinos do país. Por moderadamente quero dizer que o lugar de Portugal nas estatísticas internacionais (um bom critério para contrariar o bulshit que se ouve por cá) talvez não desça para além dos ocupados pelos países de Leste e pelas esforçadas nações pobres do Sudeste asiático. Sejamos francos: esta terra e o seu empertigado povo não merecem melhor.

A razão para tão desmesurada esperança no futuro é que as boas notícias, apesar de tudo, lá vão surgindo. Lembram-se como a TAP era um elefante branco, há cerca de dez anos? Hoje, aparentemente, dá lucro. Recordam-se como era difícil cobrar impostos no início deste século? Hoje em dia temos de enxotar os fiscais do ministério das finanças que tentam esvaziar os inocentes mealheiros das nossas criancinhas. Têm presente, na memória, como era caótica, inútil e venal a câmara de Lisboa? Continua tudo isso, mas pelo menos agora trabalham lá a senhora Nogueira Pinto e o advogado Sá Fernandes, que não concordam em nada mas são honestos e cumprem bem o seu papel.

A nomeação de Maria José Morgado para o processo apito dourado parece pertencer ao rol dessas boas notícias. Como não sou, nem quero ser, analista político, posso dar apenas uma razão para a minha confiança no futuro: o combate à corrupção em Portugal falhou sempre porque as pessoas que o encabeçaram não tinham as qualidades suficientes para o travar. Essas qualidades são: o nojo e a intolerância.

Portugal é um país de corruptos, porque os seus habitantes tendem a relativizar a corrupção: "eles" são maus mas os "outros" ainda são piores. Isso é peixe miúdo. Os grandes não apanham "eles"... Quantas vezes já ouvimos esta espécie de desabafos?

Ora, qualquer pessoa que seja virtualmente incorruptível manifesta um desprezo absoluto pela venalidade, um asco sem limites por quem o tenta comprar ou por quem se tenta vender, quer seja por um almoço ou por um milhão de euros. Para essa gente não pode haver contemplações.

Maria José Morgado tem esse desprezo. Parece ter também a energia e o espírito prático que aquelas tarefas exigem. Não vai ser fácil, mas acredito que daqui a um ano ou dois podemos ver os primeiros resultados do trabalho que agora lhe confiaram.

15.12.06

Boys, boys, boys.




Há coisa mais fácil do que criar uma editora? Dez ou quinze mil euros, dois ou três amigos literatos, uma ou outra feira da especialidade, um pitch a uma distribuidora, vinte telefonemas, cinquenta emails, alguns apertões a uma gráfica à beira da falência et voilà! Penso muito nisso quando sonho com uma velhice anestesiada e feliz. E como é fácil entender o mercado! A intuição principal, para alguém que quer fazer fortuna a vender livros, é que muito pouca gente, neste mundo, compra livros. Em compensação, todos compramos presentes.

Um livro deve ter um bom texto, um presente uma boa capa. Um livro deve ser discreto, understated; um presente, garrido e aparatoso. Um livro deve caber no bolso, um presente por cima da mesa da sala de jantar em Birre, ou no quarto de um adolescente ao lado da Playstation. Conclusão óbvia: um editor é antes de mais um sociólogo, e um sociólogo, como já todos verificámos, nem sequer tem que saber ler.

Este Natal, a velha Inglaterra encheu-se de livros para rapazes. Pelas capas dir-se-ia que foram escritos pela Enid Blyton, mas quem observar o interior sabe que foram criados pelo departamento de marketing da Random House, ou da Penguin, ou coisa que o valha. A operação deve ter valido a pena, porque existem vários no top de vendas da Amazon.uk. À primeira vista, há inúmeros destinatários para estas publicações: 1º Os pais/mães/madrinhas/tias/avós dos rapazes mencionados na capa. 2º As amigas, namoradas ou namorados dos mesmos rapazes. 3º Os próprios dos rapazes 4º Os senhores que já não são rapazes mas ainda gostam muito deles.

E em Portugal? Que fazem os nossos editores quando o público suspira por livros para rapazes? Imagino que aguardem pacientemente pela feira de Frankfurt. Para o próximo ano, por esta altura, ou me engano muito ou vamos ser surpreendidos .

14.12.06

Notas sobre Pinochet.

No melhor blogue do país, o João Miranda e os seus inteligentes companheiros denunciam a ditadura chilena. Qual ditadura? A de Allende, evidentemente.

É a estratégia de Lisboa.

Ontem, quando cheguei a casa, vi um programa qualquer que comparava Portugal com a Finlândia. A princípio julguei que era um programa cómico, mas o rosto grave do António Barreto desenganou-me logo: era um exercício de auto-flagelação. Gostei principalmente de observar o cotejo estatístico entre sistemas educativos. Sabiam que o abandono escolar, na Finlância, é de zero vírgula zero zero qualquer coisa? E em Portugal? 38%. Depois existem as diferenças qualitativas: na Finlândia, os meninos gostam de matemática. Em Portugal, os pirralhos ruidosos que se exibem brevemente nas salas de aula gostam de tunning, de wrestling e do Cristiano Ronaldo. Eu já sabia estas coisas, mas nem por isso deixei de assistir fascinado à comparação, com os resultados habituais: a partir de certa altura concluímos que aquilo que nos faz mesmo falta não são mais escolas. São mais cadeias.

13.12.06

Sarmentos, Santanas e Menezes.

O grave é aqueles que esperam os sapatos do defunto serem Santana Lopes, o que anda por aí, Morais Sarmento, o da central de comunicação que se extingiu antes de existir, e Luís Filipe Menezes, o que ganhou a imortalidade e perdeu um congresso apodando de sulistas, elitistas e liberais os seus adversários.
O grave é serem estes os barões assinalados do partido de Cavaco e Sá Carneiro.
Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte.

Ségolène.

É evidente que não dei grande importância ao fim-de-semana onanista do socialismo europeu. Em primeiro lugar porque decorria no Porto, e isso, para um lisboeta, é quase tão remoto como ocorrer em Espanha. Em segundo lugar porque, vejamos, era socialista: antes de ter começado, já toda a gente sabia como acabava. Entre afagos e apertos de mão, depois de variegadas mesuras e salamaleques, a conclusão viria irrevogável e fatal: há que equilibrar o crescimento económico com a justiça social. Ou seja: precisamos de aumentar a flexibilidade e a segurança dos empregos na Europa. Alguém percebeu? Claro que não; nem sequer vale a pena tentar — os socialistas, na Europa, não fazem política, fazem funambulismo. Eles não querem chegar a algum lado, apenas se esforçam para não cair na dura realidade. Ao final do dia, de nariz apertado, lá entregarão com relutância a cristandade à China e às multinacionais.

As surpresas, se as houver, serão más e chegarão de França. E que surpresas, meus amigos! A bela Ségolène, pelo que li nos jornais, deseja extinguir a moeda única. Não sei se usou a palavra extinguir. Mas "devolver aos governos o poder de manipular o preço do dinheiro" é quase a mesma coisa. A ideia é velha como o mundo: desvalorizar a moeda, para aumentar as exportações. Assim, já não era preciso melhorar a produtividade, e até seria quase possível ignorar olimpicamente o défice. No PS, os advogados ancestrais da bandalheira já devem estar a salivar.

Claro que a boa ideia tem algumas consequências desagradáveis. Uma moeda que não vale nada no estrangeiro desencoraja os seus utilizadores de viajarem. As importações ficam, obviamente, mais caras. Ou seja, um país torna-se mais isolado, mais pobre e mais nhurro. Mas em compensação, pode continuar a ter muitos funcionários públicos. E isso vale sempre a pena.

Conhecendo a atracção deste povo pelo desastre, sei que a ideia fará o seu percurso nos sindicatos, nos partidos políticos e nos organismos estatais. Se ela der frutos, prometo fazer um brinde, em Estocolmo, aos admiradores portugueses da elegante Ségolène Royal.

Marlowe.
Melville.
Byron.
Stevenson.
Conrad.
Maugham.
Greene.
Bowles.
Camões.
Durrell.
Kipling
Stendhal.
Pratt.

A nossa cabeça pode pertencer a Musil, e o coração a viajantes e aventureiros.

12.12.06

Justiça.

Gostaria de manifestar aqui o meu apoio ao bom presidente Ahmadinejad e ao distinto comité de sábios que está a repor a verdade sobre o Holocausto na capital iraniana.

Eu, Teodora.


O Franco Atirador recomenda: a história irrepetível de um imperador que se casou com uma rameira no auge do período bizantino.

"When I found out I was having a boy, I wondered: How can a feminist raise a man without becoming a hypocrite or a castrator?"


When I was pregnant with my first child, who is now 5, I was ecstatic to learn he was a boy. This was odd, since I did not much like those of the male gender. Little boys even less, because I'd seen the center-of-the-universe process by which they become men.

Qual Sol, qual Expresso. Debra J. Dickerson assina mais um belo texto, inteligente e cultivado, na Salon. Descobri o site há dias e não quero outra coisa.

11.12.06

Carolina: a moral da história.

A partir de agora, senhores dirigentes desportivos, quando quiserem tirar uma rapariga do prostíbulo certifiquem-se que ela só fala tailandês.

Mais um tiro no pé.

Era bom que os responsáveis da RTP se lembrassem do caso Salazar e tivessem muito juizinho antes de lamentarem a ausência de José Sá Fernandes da plateia do programa Prós e Contras, que vão emitir hoje à noite. As luminárias do marketing da empresa, e os produtores que cederam àquela evidente e miserável negociata, ainda não devem ter compreendido os estragos que um vereador inteligente, irado e cheio de razão pode provocar com uma simples conferência de imprensa.

So long, Paris.

You know that point in a Stephen King novel when you've sort of figured out that the creepy dollie -- the one with the plastic hair and serenely stupid eyes that roll in two different directions -- is actually an animate object wreaking havoc and destroying people and you wonder why the townspeople haven't cottoned on and crushed the damn thing under a truck or something?

I think it's safe to say we've reached that point with Paris Hilton.

Um texto muito divertido de Rebecca Traister na Salon.

10.12.06

Clássicos.

Os clássicos podem ser um produto do reconhecimento ou da estranheza. Borges defende a primeira ideia, Harold Bloom a segunda. No primeiro caso, os clássicos são o efeito de um misterioso aplauso secular, no segundo, do desconforto que provocam nos leitores. Quem tem razão?

Alguns exemplos: dizem que Dante era apontado às crianças como o homem que tinha estado no Inferno (reconhecimento). Virginia Woolf, se bem me recordo, sugeriu que queimassem o Ulisses de Joyce (estranheza). Os versos mellifluous de Shakespeare foram elogiado por Ben Jonson (reconhecimento):

Nature herself was proud of his designs,
And joyed to wear the dressing of his lines!
Which were so richly spun, and woven so fit,
As since, she will vouchsafe no other wit.

Admirado por Balzac, ignorado por Sainte-Beuve, Stendhal previu, e acertou, que seria reconhecido cinquenta anos após a sua morte (reconhecimento e estranheza). Gide recusou-se a publicar Proust, mas depois arrependeu-se (idem). Voltaire morreu rico e famoso (reconhecimento). Os bons romances de Conrad geraram a indiferença, os maus encontraram o sucesso (estranheza). Não se pode dizer que haja aqui uma tendência.

Eu acredito que um clássico se forma em dois momentos: um de rejeição e outro de adopção. Um grande livro é como um acidente de automóvel: suficientemente chocante para nos manter à distância, e tão fascinante que nos obriga a abrandar. Fernando Pessoa falou disso num texto publicitário. Primeiro estranha-se, depois entranha-se - uma frase aplicada, talvez por ironia, a um produto clássico.

Gravitas.

Porém, para o observador externo da sociedade portuguesa, uma das constatações mais imediatas, e uma das mais surpreendentes, é a de que os portugueses não gostam uns dos outros. Exceptuando-se a si próprio, a sua família e o seu núcleo restrito de amigos, o cidadão português não gosta dos seus concidadãos.

Discordo, uma vez sem exemplo, do professor Arroja. O problema não é que os portugueses se odeiem uns aos outros. O problema é que, tal como na América, metade do país odeia a outra. Eu até simpatizo com os meus concidadãos; mas só simpatizo com aqueles que não se esforçam, desesperadamente, por sair da classe média baixa cultivando os tiques de um quadro médio da banca privada - ou seja, metade do país. Não se trata de elitismo, mas de falta de paciência para débeis mentais. Um passeio à hora de almoço pela Avenida da Liberdade é, a esse respeito, esclarecedor.

9.12.06

Nem é assim tão mau ficar em casa sozinho num sábado à noite.

Apesar da dor de cabeça, tenho estado a divertir-me. Fiz cacau e joguei xadrez na internet. Vi o 60 minutos e pensei escrever um post sobre a revista Dia D, dedicado ao André Azeredo Alves (aquele da sobrancelha erguida e do lábiozinho saliente como o José Castel-Branco). O post ia começar assim:

No próximo ano, o jornal Público vai perder 365 euros de facturação no seio do meu agregado familiar, sem contar com as promoções.

Reparem naquela expressão encantadora: no seio do meu agregado familiar. Qual agregado? Sou só eu e a Floribela. Ou pior ainda, o Mário Crespo. Desisti do post, pois achei que estava a ser mauzinho e mentiroso.

Acabo de ver o João Jardim na televisão e agora vai falar o Marques Mendes. Que estimulante. Será que algum dos meus amigos está online? Dilia, já chegaste de Óbidos? Fernando, preparado para a glória? Miguel? Aninhas? António, já dormes? Patrícia, afinal estás perdoada (não, não estás, isto é ficção). João Pedro, queres ser meu amigo?

É giro escrever textos em tempo real, como faz o Pacheco Pereira na noite das eleições.

Ah, o Pacheco Pereira... Às vezes julgo que devia possuir aquela gravitas. Um intelectual como eu, premiado em Cannes (falo a sério, passei várias noites na Croisette a atirar gente para a água - ops, não devia dizer isto, mas por outro lado até é chique), um tipo como eu, lá está, devia cultivar um certo temor reverencial. Não é saudável sacrificar tudo a uma natureza caprichosa e inconstante.

Caramba, se continuo a escrever assim vou parecer-me com a f. prontos vou mesmo e que se lixe a pontuação e as maiúsculas e os links todos errados (gloóriafácil.blogpostnão-sei-o-quê)

"sim" também se escreve com mínusculas não é? o tipo do portugal dos pequeninos tirou de lá o meu link desde que eu comecei a defender a despenalização do aborto mas eu não me importei nada com isso e também tirei o dele como quem não quer a coisa. toma lá que já almoçaste ó clone pobre do VPV. AH! AH! AH!

a propósito, quem é o VPV?

isto de redigir blogues a assapar é muito divertido, embora eu escreva geralmente blogs e não blogues. ah que alegria de viver, que sensação de liberdade!

dá vontade de repetir. mas primeiro vou fazer alguma coisa pela despenalização das drogas leves. até já.

O salvador.

Como o autor deste blog se entretém a dissipar o seu escasso talento a uma velocidade estonteante (ver A Armadilha), chegou a hora de pedir ajuda. No início da próxima semana, o Franco Atirador passará a contar com a colaboração ocasional do Fernando, um velho amigo, no qual deposito as poucas esperanças que me restam de não incorrer na ira dos leitores. Faria com prazer o seu elogio, se me conseguisse livrar de uma certa solenidade um pouco funérea que associo sempre aos elogios. Assim direi apenas que é uma das melhores pessoas que conheço. Só espero que não demore tanto a chegar como o professor Arroja.

Sobre o post "A armadilha".

Prometo nunca mais escrever banalidades após uma longa noite de inebriamento. Mas que querem, hoje de madrugada isto parecia-me tão inteligente. E agora, proponho que esqueçamos depressa o lamentável episódio, por favor.

Mais uma foto do McCurry, que ainda é o meu herói. Um dia falarei sobre isso.

Frases que me punham a chorar.

A armadilha II - o dia seguinte.

Caramba. Como somos profundos às cinco da manhã!

A armadilha.

Reparo que hoje em dia a maior parte das pessoas é incapaz de distinguir entre as relações de amizade (ou amorosas) e as relações de poder. Essa contaminação acaba por conduzir a uma dúvida trágica: será que ele, ou ela, está ao meu lado por aquilo que eu sou, ou por aquilo que eu faço? Dir-me-ão que isso é indiferente. E eu respondo que dizer isso é uma confissão.

8.12.06

Thank you.

Chegou agora à blogosfera, ainda nem descobriu o sitemeter, mas já escolheu O Franco Atirador para melhor blogue deste mundo e do outro. Isto, meus amigos, é o que se chama não perder tempo.

Dilema.


O turismo, na Birmânia, enriquece uma junta militar repugnante, mas também alivia a negra miséria daquele martirizado povo. Devemos ir ou não? Aparentemente, devemos.

“The paradigm is one of regime change, and the assumption is that sanctions, boycotts, more isolation will somehow pressure those in charge to mend their ways,” he writes. “The assumption is that Burma’s military government couldn’t survive further isolation when precisely the opposite is true: Much more than any other part of Burmese society, the army will weather another forty years of isolation just fine.”

There is no sign that the dictatorship, which has made deals to end the civil war and is boosted by trade with Burma’s neighbors in teak as well as by its newfound gas reserves, is wobbling. “The economy that was evolving under sanctions was exactly the opposite of one that could create a strong middle class and pave the way for progressive change,” Thant argues. The generals don’t want to engage with the wider world, and they feel that they have little to lose through further isolation. “It is this isolation that has kept Burma in poverty; isolation that fuels a negative, almost xenophobic nationalism; isolation that makes the Burmese army see everything as a zero-sum game and any change as filled with peril; isolation that has made any conclusion to the war so elusive, hardening differences; and isolation that has weakened institutions—the ones on which any transition to democracy would depend—to the point of collapse. Without isolation, the status quo will be impossible to sustain.”

Vale a pena ler este artigo de John Lanchester na New Yorker. A foto é do Steve McCurry.

7.12.06

Nunca percebi as pessoas que toleram comentários desagradáveis: o mínimo que podemos exigir, a quem consome os nossos serviços gratuitos, é uma dose imoderada de êxtase.

A Joana come a papa e lê o Franco Atirador.


O meu pesto — digo-o sem modéstias — é excelente, embora coloque o parmesão no molho, em vez de o acrescentar ao prato como fazem na Calábria. Os risottos são comestíveis (particularmente o de alcachofras, que até me costuma saber bem). De resto, sou um desastre entre tachos e panelas. Dito isto, fico muito contente por ter sido seleccionado pelo autor (ou autores) de A cozinha da Joana como um dos melhores blogs de 2006: bom ou mau cozinheiro, um brinde ainda sei fazer.

O inverso de um diário.

Um bom estilo deve sobreviver a todas as emoções. Mas esta plasticidade não está ao alcance de muitos, nem sequer ao alcance de uns poucos durante muito tempo. A maioria de nós concentra os seus recursos em duas ou três emoções mundanas, a raiva e a compaixão por exemplo, ou então procura refúgio em matérias que nos permitam uma escrita didáctica, um discurso cerebral, isto é, um estilo ilusoriamente neutro. Todos conhecemos blogues que se distinguem pelo uso da raiva. Outros, pelo desencanto, que é filho da tristeza. Poucos cultivam a serenidade ou a ternura - comprovando assim a percepção de que a blogosfera é afinal outro veículo para o sofrimento humano. O nosso trabalho mais difícil talvez seja o de escapar à pequena gama de emoções que alimentamos desde cedo e que o público se habituou a reconhecer no que escrevemos. Este é um post de quinze minutos, por isso vou ter de concluir.

6.12.06

Vive la France.


Os leitores talvez queiram ficar mais atentos aos preços dos livros importados na FNAC. Nos últimos dias encontrei várias obras interessantes a menos de cinco euros. Hoje, por exemplo, comprei este livro do Graham Swift, em capa dura, por €4.40. Ao lado, uma edição do mesmo título em paperback custava doze. Há coisas misteriosas.

Ah, os bons velhos tempos.


Wives are young men's mistresses; companions for middle age; and old men's nurses.

Francis Bacon, The Essays.

5.12.06

He's The Worst Ever.

Ever since 1948, when Harvard professor Arthur Schlesinger Sr. asked 55 historians to rank U.S. presidents on a scale from "great" to "failure," such polls have been a favorite pastime for those of us who study the American past.

(...) At a time of national crisis, Pierce and Buchanan, who served in the eight years preceding the Civil War, and Johnson, who followed it, were simply not up to the job. Stubborn, narrow-minded, unwilling to listen to criticism or to consider alternatives to disastrous mistakes, they surrounded themselves with sycophants and shaped their policies to appeal to retrogressive political forces (in that era, pro-slavery and racist ideologues). Even after being repudiated in the midterm elections of 1854, 1858 and 1866, respectively, they ignored major currents of public opinion and clung to flawed policies. Bush's presidency certainly brings theirs to mind.

(...) Historians are loath to predict the future. It is impossible to say with certainty how Bush will be ranked in, say, 2050. But somehow, in his first six years in office he has managed to combine the lapses of leadership, misguided policies and abuse of power of his failed predecessors. I think there is no alternative but to rank him as the worst president in U.S. history.

Eric Foner, no Washington Post.

Getting Rich.

Pankaj Mishra oferece-nos um belo retrato da China contemporânea neste artigo da London Review of Books.
Walt Handesman.

4.12.06

Xóvens.

Vários latagões de trinta e tal anos, cheios de auto-comiseração, explicam a uma repórter cúmplice o que os leva a morarem ainda com os papás. Começo a fazer contas e recordo que, aos trinta e dois, estava eu a mudar para o meu quarto apartamento. O que é que se passa com esta gente? Aparentemente não encontram empregos. A ideia de trabalharem em lojas ou em restaurantes e de dividirem uma casa com os amigos, obviamente, não entra naquelas lindas cabecinhas. Se alguém lhes disser que no Norte da Europa os universitários andam a aspirar quartos de hotel, eles não se deixam atrapalhar. Não, esta gente tem leituras e línguas afiadas: eles sabem que os jovens, nos países ricos, recebem subsídios. Presume-se que, se o governo de Sócrates os subsidiasse, eles também andariam a aspirar hotéis em vez de pedirem dinheiro aos papás. Aos trinta e tal anos, nenhuma das criaturas parece interessada em trabalhar por conta própria, criar um pequeno negócio, tentar, pelo menos tentar fazer alguma coisa pela vida. Afinal, eles estudaram, e isso, manifestamente, devia bastar-lhes. Em Itália há um nome para estas pessoas: são os mammone. Aqui, chamam-se portugueses.

3.12.06

Já agora.

Gostaria de dizer aos nossos amigos liberais que podem contar com toda a minha solidariedade neste momento tão difícil.

A "decadência" nórdica, V.

No Economic Outlook da OCDE podem ler-se as seguintes previsões do crescimento económico para 2007:

Suécia: 3,6 %
Noruega: 3,2 %
Finlândia: 2,8 %
Dinamarca: 2,6%

EUA: 2,4%

Blasfemos & Insurgentes têm razão: a Escandinávia anda mesmo pelas ruas da amargura.

2.12.06

Dois blogues.

Coloquei na barra lateral dois novos links: o 5 dias e o 31 da Armada. De ambos podemos afirmar que são politicamente comprometidos. No entanto, um e outro revelam-nos as qualidades invulgares de algumas das pessoas que os compõem. Os textos do primeiro são muitas vezes profundos, os do segundo irónicos; quase todos me pareceram competentemente redigidos. Daqui a algum tempo saberemos se estes blogues são assolados pelas fraquezas típicas do campo ideológico com que cada um se identifica: à esquerda, o ressentimento e a inveja; à direita, a tendência para um certo primitivismo analítico, que desemboca quase sempre no marialvismo e no preconceito. Mas, dado o nível habitual da reflexão política na nossa blogosfera, creio que estas são excelentes notícias.

10.


O New York Times já escolheu os dez melhores livros de 2006. As recensões são sumarentas, as capas nutritivas, os livros, porque são livros senhores, pareceram-me todos desejáveis. E pensar (suspiro) que ainda estou a meio da shortlist do Booker.