10.12.06

Clássicos.

Os clássicos podem ser um produto do reconhecimento ou da estranheza. Borges defende a primeira ideia, Harold Bloom a segunda. No primeiro caso, os clássicos são o efeito de um misterioso aplauso secular, no segundo, do desconforto que provocam nos leitores. Quem tem razão?

Alguns exemplos: dizem que Dante era apontado às crianças como o homem que tinha estado no Inferno (reconhecimento). Virginia Woolf, se bem me recordo, sugeriu que queimassem o Ulisses de Joyce (estranheza). Os versos mellifluous de Shakespeare foram elogiado por Ben Jonson (reconhecimento):

Nature herself was proud of his designs,
And joyed to wear the dressing of his lines!
Which were so richly spun, and woven so fit,
As since, she will vouchsafe no other wit.

Admirado por Balzac, ignorado por Sainte-Beuve, Stendhal previu, e acertou, que seria reconhecido cinquenta anos após a sua morte (reconhecimento e estranheza). Gide recusou-se a publicar Proust, mas depois arrependeu-se (idem). Voltaire morreu rico e famoso (reconhecimento). Os bons romances de Conrad geraram a indiferença, os maus encontraram o sucesso (estranheza). Não se pode dizer que haja aqui uma tendência.

Eu acredito que um clássico se forma em dois momentos: um de rejeição e outro de adopção. Um grande livro é como um acidente de automóvel: suficientemente chocante para nos manter à distância, e tão fascinante que nos obriga a abrandar. Fernando Pessoa falou disso num texto publicitário. Primeiro estranha-se, depois entranha-se - uma frase aplicada, talvez por ironia, a um produto clássico.