26.12.06

Perfume.

Enquanto vos escrevo, pela madrugada dentro, tenho o escritório aspergido com uma mistura de essências de lavanda e flor de laranjeira — dois aromas repousantes que, segundo a minha perfumista, me preparam para uma noite sem sobressaltos. A minha perfumista? Sim, leitor.

Sugeri-lhe desta vez, timidamente, que substituísse por bergamota a flor da laranjeira (tenho uma predilecção proustiana por bergamota, vinda das tardes infinitas de um Outono lancinante em que li o Contre Sainte-Beuve nos jardins do Museu do Traje). A proposta foi recebida com um cortês mas definitivo no no: tal sacrilégio transformaria o suave ambientador numa matéria imprevisível e excitante — o que, dados os meus provectos trinta e oito anos, definitivamente não se recomenda.

Ainda hoje testo aromas de marca nos aeroportos — o novo Terre d'Hermès pareceu-me excelente — mas prefiro há muito as criações da perfumaria tradicional. O vício começou em Itália. Quando a Acqua di Parma não pertencia ao grupo LVMH, e as sumptuosas colónias de Santa Maria Novella evocavam ainda o seco encanto florentino do Bargello, eu usava-as como um statement, um protesto subtil contra os cansativos cheiros unisexo da Armani e da Calvin Klein. Até que um dia, no outro lado do mundo, passeando em Ginza descobri os meus perfumes entre as inevitáveis lojas da Fendi e da Louis Vuitton. Nesse momento compreendi que a batalha contra a globalização estava perdida — abandonemos o assunto aos inteligentes meninos altermundialistas, de passamontanhas e cocktails Molovot.

Na pequena perfumaria da Rua da Madalena compro apenas sabonetes e ambientadores. Este Natal encomendei cerca de vinte para oferecer. A dona Fernanda prepara-os à minha frente, misturando as essências com um rigor germânico. O que prefiro chama-se, muito apropriadamente, Alceste — uma conjunção feliz de pimenta, musk e vetiver, ideal para a cozinha após as refeições. Desta vez arredondei o troco com um pequeno frasco cheio de tuberosa, que não me convenceu. Uma hora depois, enquanto escolhia o papel de embrulho numa papelaria da Baixa e bebia uma chávena de Jamaica Blue Mountain no Nicola Gourmet (é o café da semana na altura do Natal), os meus pensamentos dirigiam-se piedodosamente à turba insana que se acotovelava no Colombo e se desfazia em postas no El Corte Inglês ¡Pobrecitos!

Todos os anos, por esta altura, chego à mesma conclusão: há duas Lisboas, leitor. E a minha é, definitivamente, a melhor.

3 Comments:

Blogger timor-deste said...

Caro Luis

O actual PM de Timor-Leste assumiu-se como IRMÃO de Bin Laden. Exigimos a demissão de Ramos Horta

1:16 da tarde  
Blogger amok_she said...

...e eu q sou uma quase 'analfabeta' de odores tb quase q senti todos os aqui descritos...belíssimo e aromático pedaço de prosa...;-)

5:42 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

merci, leitora.

10:37 da tarde  

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