13.12.06

Ségolène.

É evidente que não dei grande importância ao fim-de-semana onanista do socialismo europeu. Em primeiro lugar porque decorria no Porto, e isso, para um lisboeta, é quase tão remoto como ocorrer em Espanha. Em segundo lugar porque, vejamos, era socialista: antes de ter começado, já toda a gente sabia como acabava. Entre afagos e apertos de mão, depois de variegadas mesuras e salamaleques, a conclusão viria irrevogável e fatal: há que equilibrar o crescimento económico com a justiça social. Ou seja: precisamos de aumentar a flexibilidade e a segurança dos empregos na Europa. Alguém percebeu? Claro que não; nem sequer vale a pena tentar — os socialistas, na Europa, não fazem política, fazem funambulismo. Eles não querem chegar a algum lado, apenas se esforçam para não cair na dura realidade. Ao final do dia, de nariz apertado, lá entregarão com relutância a cristandade à China e às multinacionais.

As surpresas, se as houver, serão más e chegarão de França. E que surpresas, meus amigos! A bela Ségolène, pelo que li nos jornais, deseja extinguir a moeda única. Não sei se usou a palavra extinguir. Mas "devolver aos governos o poder de manipular o preço do dinheiro" é quase a mesma coisa. A ideia é velha como o mundo: desvalorizar a moeda, para aumentar as exportações. Assim, já não era preciso melhorar a produtividade, e até seria quase possível ignorar olimpicamente o défice. No PS, os advogados ancestrais da bandalheira já devem estar a salivar.

Claro que a boa ideia tem algumas consequências desagradáveis. Uma moeda que não vale nada no estrangeiro desencoraja os seus utilizadores de viajarem. As importações ficam, obviamente, mais caras. Ou seja, um país torna-se mais isolado, mais pobre e mais nhurro. Mas em compensação, pode continuar a ter muitos funcionários públicos. E isso vale sempre a pena.

Conhecendo a atracção deste povo pelo desastre, sei que a ideia fará o seu percurso nos sindicatos, nos partidos políticos e nos organismos estatais. Se ela der frutos, prometo fazer um brinde, em Estocolmo, aos admiradores portugueses da elegante Ségolène Royal.