O nosso pequeno monstro.

Mencionam Nosferatu, e imediatamente me acode a memória irrepetível de João César Monteiro.
Mas vou começar pelo princípio, como convém: em meados dos anos noventa assisti na Culturgest à projecção de dois filmes do Murnau - o Fausto e este Nosferatu que mencionei. Eu andava muito embrenhado nas narrativas faustianas, lendo Marlowe, Thomas Mann, Goethe, Valery e até a Tempestade, por causa de certas alusões que não vêm ao caso. O certo é que entrei no auditório animado por um invulgar sentimento de antecipação.
À minha frente já se erguia a tela, por cima do palco, e de cada um dos seus lados, à altura de um metro, outra estrutura exibia os instrumentos do conjunto musical que iria acompanhar as projecções: o quarteto Art Zoid.
Misturar dois filmes dos anos vinte com os ruídos avant-garde desta espécie de rock progressivo (não quero chocar os conhecedores, mas pensem, talvez, em Einsturzende Neubaten) era uma ideia arriscada. Fazê-lo quando um génio da provocação estava na sala revelou-se inesquecível.
Assim que o espectáculo começou, o vulto dobrado de um gnomo subiu para o palco. Chegou perto dos músicos vagarosamente e estendeu-lhes os braços, numa atamancada súplica, implorando alguma coisa que nos escapava. A esgrouviada silhueta aproximou-se então da plateia e fez uma mesura trágica, enquanto o seu pequeno corpo se deixava iluminar pelo rosto lívido de Max Schreck planeando o fim do mundo. A sala inteira reconheceu César Monteiro.
Numa vozinha frágil, mas extraordinariamente perceptivel, que se sobrepunha àquela espécie de ruído industrial, o cineasta revelou-nos ao que vinha:
Parem a música. Stop the music. Isto é uma pouca-vergonha! - afirmou revoltado. Stop the music. Eu quero a minha maçaroca! E por ali ficou, dois ou três minutos, com os dedinhos a rasparem uns nos outros, exigindo o seu dinheiro de volta.
Um segurança subiu ao palco para o convencer a sair: o funcionário tinha o dobro da sua estatura e César Monteiro, obviamente, atirou-se a ele. Fê-lo com a energia dos loucos, foi vencido num ápice, e saiu humilhado ao colo do homem que o derrotara.
Até ao intervalo temi que lhe tivessem feito mal; mas depois encontrei-o lá fora, muito melancólico, extraíndo grandes baforadas de um SG Gigante, na sala dos não fumadores.





















