Uma das maiores moléstias de se viver em Portugal é o fatigante, e sempre
tão católico, fervilhar de olhadelas censórias e vozinhas castradoras, aliadas a um casquinar nocivo, beato, enfadonho e reles.
A tendência enjoativa deste povo para reprovar quem quer que se coloque no caminho dos mais alarves preconceitos, há-de ser um mistério para os historiadores do futuro quando esta parvónia for um país europeu.
Até chegar esse século auspicioso, no entanto, terei de interromper o Natal para me aborrecer com gente como o
André Azeredo Alves. Não é uma tarefa fácil, leitores: cada vez que encontro pela frente o André, sinto mais que um frio na espinha — sinto-me um tronco atravessado na via jubilosa da
Reconquista Cristã. Ora, a história da Igreja e
o fascínio do meu interlocutor pela Opus Dei levam-me a pensar, com certa apreensão, num pequeno auto-da-fé: a prudência dos parágrafos seguintes justifica-se, portanto, com o meu amor à pele.
Desta vez, o André assanhou-se por causa de
um post da minha autoria sobre o aborto. Ao que parece (valha-nos Deus Nosso Senhor), eu não tratei os fetos de dez semanas com a dignidade que obviamente mereciam. Chamei-lhes
criaturinhas, não maiores que
um pequeno rato. Oh horror! Oh ignominia!
Sempre piedoso, o André fez logo
um, não,
dois posts a protestar contra a infâmia. Lesto a
oferecer a outra face, chamou ao meu texto
abjecto e
repugnante. Um pobre agnóstico como eu sente-se esmagado com tantos exemplos de caridade cristã, ainda por cima na véspera de Natal.
Que devo fazer agora, André? Vou buscar o
cilício?
Chicoteio-me na cela? Visto um
corpete de napa, um
slip de leopardo, e despejo cera quente na carne viciosa enquanto recito, sim recito, oh sim! se recito, o
Eclesiastes? Terei de ler
o seu blogue, como mortificação? Diga-nos lá, meu caro, o que é que recomendam na
Ordem para escapar às fúrias do Altíssimo e à famosa ira do
beato Escrivá de Balaguer? Os seus leitores fiéis aguardam alvoroçadamente uma resposta.
Nota posterior: Estimulado pela minha referência a pequenos roedores, saiu também da toca um tal Jorge Ferreira para embasbacar o mundo com a sua
grande acutilância e
elevado sentido de humor.
Quem é, perguntarão, este tal Jorge Ferreira? Aparentemente é uma espécie de
João Gonçalves com talento a menos e uma
Enciclopédia Verbo a mais. O resto — o azedume, a virtude ruidosa — são em tudo semelhantes ao original.
Como estou a embrulhar presentes, não perco mais tempo com o assunto. Sem desfazer na sua importante pessoa,
Jorge — vá passear.